PALOMINO
Danielle  Steel

Traduo de LUIS MANUEL DE CAMPOS DIONSIO
Circulo de Leitores

TTULO riginal: PALOMINO


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 Sempre-Lendo, o melhor grupo de troca de livros da Internet!


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Fotografia da capa: O COMSTOCK, 1998
Copyright de 1981 by Danielle Steel, Impresso e encadernado para Crculo de Leitores por Printer Portuguesa, Casais de Mem Martins, Rio de Mouro
em Dezembro de 2000 - Nmero de edio: 4997 ;Depsito legal nmero 156 868/00 ISBN 972-42-2389-2

Para o meu pequeno cowboy favorito, Maxx... Felizes cavalgadas! Com todo o meu amor,
D. S.


Cavalgar pelas colinas, num belo cavalo, com um sonho  procura de Amor, antes do pr do sol,  isso que  viver... e encontr-lo  o culminar de toda uma
Vida. 

 
1
Samantha subia apressadamente os degraus da casa de fachada de arenito pardo, na Rua 63 Este, enfrentando, de olhos semicerrados, a forte chuvada puxada a vento, 
que estava a transformar-se rapidamente em granizo. Este fustigava-lhe o rosto, provocando ardor nos olhos. Fazia um som ronronante, como que a incitar-se a si prpria 
a prosseguir. Ento, parou, arquejante, e enfiou a chave na fechadura, mas no conseguiu faz-la rodar. Finalmente, a porta abriu-se, e Samantha viu-se envolvida 
pelo calor do vestbulo. Manteve-se no mesmo stio durante um longo instante, a sacudir a humidade dos compridos cabelos louro-prateados. Era uma cor rara, mais 
parecia um emaranhado de fios de prata e ouro puro. Em criana, chamavam-lhe "cabecita de estopa", o que ela detestava; na adolescncia e na casa dos vinte, os cabelos 
atingiram o seu mximo esplendor. Agora, aos trinta, j se habituara aos comentrios; quando certa vez John lhe dissera que parecia uma princesa dos contos de fadas, 
riu-se, os olhos a danar de um lado para o outro, o rosto, belo e de fino recorte, em contraste com os seios volumosos e as ancas ligeiramente rolias. As pernas 
eram compridas e magras.
Era uma mulher de mil contrastes: o olhar vivo e perspicaz, num sbito contraste com os sensuais lbios carnudos, os ombros estreitos, os seios volumosos, as mos 
compridas e graciosas; a voz suave em oposio com a preciso inteligente das palavras. De certo modo, era de esperar que Samantha Taylor possusse uma maneira de 
falar arrastada, que passasse o tempo deitada, com ar voluptuoso, numa espreguiadeira de veludo, as formas envoltas num roupo adornado com penas de marabu. Em 
vez disso, era dada a calas de ganga e vagueava pelas salas a passos largos. Transbordava de vida e energia,  excepo daquela e das ltimas cem noites.
Agora, tal como acontecia desde Agosto, encontrava-se em silncio, imvel, expectante, a gua da chuva a pingar das pontas dos cabelos,  escuta... Mas de qu? No 
havia mais ningum. Estava s na velha casa. Os donos tinham partido
para Londres seis meses antes e o dplex fora emprestado a um sobrinho que quase nunca se encontrava l. Reprter da Paris-Match, passava mais tempo em Nova Orlees, 
Los Angeles e Chicago do que em Nova Iorque. E depois havia o ltimo andar. O domnio de Samantha... s dela agora, embora j tivesse sido tambm de John, um apartamento 
que ambos haviam arranjado com tanto carinho e devoo. Todos os centmetros, bolas!, pensou Samantha mais uma vez, franzindo ligeiramente o sobrolho, ao mesmo tempo 
que colocava o chapu-de-chuva na entrada e comeava a subir lentamente as escadas. Detestava vir para casa e fazia o possvel para chegar tarde todas as noites. 
Eram quase nove horas. Chegara mais tarde do que na noite anterior. Nem sequer tinha fome. Perdera-a desde que recebera a notcia.
- Tu, o qu? - Samantha olhou-o fixamente, horrorizada, numa trrida noite de Agosto. O aparelho de ar condicionado avariara e a atmosfera estava sufocante. Viera 
receb-lo  entrada, trazendo apenas umas cuecas de renda branca e um pequeno soutien lils sobre a pele. - Enlouqueceste?
- No, no enlouqueci. - John fitou-a com ar embaraado e tenso. Ainda nessa manh haviam feito amor. A beleza loura de viquingue parecia agora... inatingvel para 
Samantha. Era uma pessoa que nem ela parecia conhecer. - No posso continuar a mentir-te, Sam. Precisava de te contar. Tenho de sair de casa.
Durante um momento que pareceram horas, Samantha limitou-se a olh-lo fixamente. Ele no podia estar a falar a srio. S podia estar a brincar. O absurdo da questo 
 que falava mesmo muito a srio. Via-se no ar de agonia estampado no rosto. Samantha encaminhou-se lentamente na direco de John, mas ele abanou a cabea e virou-se.
- No faas isso... Por favor, no. - Os ombros de John estremeceram ligeiramente e, pela primeira vez desde que ele comeara a falar, Samantha sentiu alguma pena 
a trespass-la como uma dor lancinante. Mas por que razo sentia pena? Porqu? Como conseguia sentir pena dele depois daquilo que acabara de ouvir?
- Am-la?
Os ombros que ela amara tanto limitaram-se a agitar-se ainda mais, e John no deu qualquer resposta. A pena comeava a desvanecer-se quando se virou para ele. A 
raiva fervilhava-lhe na alma.
- Responde-me, bolas! - Deu-lhe um violento puxo no ombro, e ele virou-se e fitou-a nos olhos.
- Amo. Acho que sim. Mas, Sam, no sei. A nica coisa que sei  que tenho de sair daqui por uns tempos para poder arrumar as ideias.
Samantha atravessou silenciosamente a sala, parando ao alcanar a outra ponta do tapete francs, que parecia uma carpete de flores sob os seus ps nus. Havia violetas 
minsculas e pequenas rosas cor de areia, alm de uma mirade de flores ainda mais pequenas, apenas visveis de perto. A impresso global era a de uma mescla de 
tons rosados, vermelhos e purpreos, combinando com as suaves tonalidades de cor-de-rosa, cor de malva e verde-forte dos sofs e cadeiras que ocupavam a enorme sala 
apainelada. A casa era antiga e tinha uma fachada de arenito pardo; o ltimo andar era deles. Samantha levara dois anos a decor-lo, com amor, adquirindo bonitas 
peas de mobilirio estilo Lus XIV, em antiqurios e leiles na Sotheby Parke Bernet. Os tecidos franceses, as jarras sempre repletas de flores naturais e os quadros 
impressionistas davam um toque geral muito elegante ao apartamento, de ntida feio europeia. Porm, no era a beleza do local que Samantha apreciava naquele instante; 
de costas voltadas para o marido, questionava-se sobre a possibilidade de as coisas voltarem a ser como dantes. Era como se um deles acabasse de morrer e a vida 
tivesse ficado subitamente destruda e irrecupervel. E tudo com um punhado de palavras bem escolhidas.
- Porque no me contaste h mais tempo? - Samantha voltou-se, o rosto com ar acusador.
- Eu... - balbuciou John, incapaz de prosseguir. No havia nada que conseguisse dizer para compor a situao, para atenuar a dor que acabara de infligir na mulher 
que tanto amara. Sete anos fora tempo mais do que suficiente para os unir um ao outro para sempre, mas no unira. Tudo descarrilara durante a cobertura das eleies 
no ano anterior. Tencionara acabar com a relao quando regressassem de Washington. Fora essa a sua inteno. Liz, porm, no o deixara, e a relao continuou, de 
vento em popa... at agora, momento em que o encostara  parede: estava grvida e recusava-se a abortar. - No sabia o que dizer-te, Sam. No sabia... e pensava 
que...
- Estou-me nas tintas para aquilo que pensavas! - Subitamente, Samantha lanou um olhar penetrante ao homem que conhecera e amara durante onze anos. Haviam comeado 
a namorar aos dezanove anos. Fora o primeiro homem com quem dormira, quando estavam em Yale. Possua uma imponente compleio fsica, era louro e bonito, um heri 
do futebol, o calmeiro do campus, o louro de quem todos gostavam, inclusive Sam, que o adorava desde o primeiro momento em que se conheceram. - Sabes o que eu pensava, 
seu filho da puta? Que me eras fiel. Era isso que pensava. Que te interessavas por mim! - A voz vacilou pela primeira vez desde que ele pronunciara as horrveis 
palavras. - Pensava que me amavas.
- E amo. - Havia lgrimas a correr lentamente pelo rosto de John ao articular estas palavras.
- Ah, sim? - gritou Samantha, sentindo que ele lhe arrancara o corao e o atirara para o cho. - Ento porque vais sair de casa? Por que razo chegaste aqui como 
um louco e, quando perguntei como te correra o dia, respondeste que tinhas um caso com a Liz Jones e que ias sair de casa? - A voz comeava a ficar cada vez mais 
histrica  medida que avanava para ele. - Podes explicar-me isso? E h quanto tempo  que andas metido com ela? Raios te partam, John Taylor... Raios te partam...
Completamente fora de si, investiu contra ele, de punhos fechados, agarrou-o pelos cabelos e tentou esmurr-lo na cara. John dominou-a com facilidade, puxando-lhe 
os braos para trs das costas, ao mesmo tempo que a forava a deitar no cho, onde a aconchegou entre os braos.
- Oh, querida, lamento tanto...
- Lamentas? - Sam soltou um grito que era um misto de riso e de choro enquanto se debatia para se libertar. - Chegas a casa e anuncias que vais deixar-me por outra 
pessoa, e ainda dizes que "lamentas"? Meu Deus... - Respirou fundo e tentou libertar-se dele. - Larga-me, bolas! - Fitou-o, com ar destroado; quando John viu que 
estava mais calma, soltou-a dos braos. Ainda arquejante, encaminhou-se, a passo lento, para o sof de veludo verde-escuro e sentou-se. Pareceu subitamente mais 
pequena e mais nova, os cabelos louros cados para a frente, o rosto enterrado entre as mos. Ento, levantou lentamente a cabea, os olhos mareados de lgrimas. 
- Ama-la mesmo? - Fosse como fosse, custava-lhe a acreditar.
- Penso que sim. - John fez um ligeiro gesto afirmativo com a cabea. - O pior  que amo as duas.
- Porqu? - Samantha desviou os olhos dele e fixou-os num espao vazio, percebendo cada vez menos o que estava a acontecer. - O que falta entre ns?
John ps-se de p. Tinha de lhe dizer. Ela precisava de saber. Errara ao esconder-lhe a situao durante tanto tempo.
- Aconteceu durante a cobertura das eleies do ano passado.
- E tem-se mantido desde ento? - Os olhos de Samantha esbugalharam-se enquanto limpava as lgrimas com as costas da mo. - Dez meses, e eu no sabia?
John fez um sinal afirmativo com a cabea sem articular qualquer palavra.
- Meu Deus! - Samantha lanou-lhe, ento, um olhar de estranheza. - Porqu agora? Porque  que resolveste contar-me a situao hoje? Porque no deixas de a ver? 
Porque no tentas salvar o casamento que j mantemos h mais de sete anos? Que raio  que queres dizer com "tenho um caso e vou sair de casa"?  s isso que o casamento 
significa para ti?
Samantha recomeou a gritar e John encolheu-se. Detestava aquele tipo de situaes, detestava faz-la sofrer, mas sabia que tinha mesmo de a deixar. Liz possua 
uma qualidade que ele desejava desesperadamente, de que precisava e que apreciava: a discrio. Ele e Samantha eram demasiado parecidos nalguns aspectos: espectaculares, 
perspicazes e belos, numa constante exposio pblica. Em Liz, gostava do esprito despretensioso, da inteligncia menos deslumbrante, do estilo calmo, da disposio 
de ficar em segundo plano, na sombra, ao mesmo tempo que o ajudava a ser aquilo que ele era. Completava-o na perfeio, e era por isso que trabalhavam to bem em 
equipa. Perante as cmaras, a dar as notcias, John era sem dvida a estrela; Liz, porm, ajudava-o a compor essa imagem. Era isso que ele apreciava. Ela era muito 
mais calma do que Samantha, muito menos brilhante e muito menos irrequieta. John descobrira, finalmente, o quanto isso representava para si. No se sentia ansioso 
quando estava com ela, no seria obrigado a competir. Era, automaticamente, a estrela.
E havia mais uma coisa a acrescentar a tudo isso. Liz estava grvida e a criana era sua. Desejava-a mais do que tudo. Um filho para brincar, amar e ensinar a jogar 
futebol. Era algo que sempre desejara e que Samantha no podia dar-lhe. Haviam consultado vrios mdicos para tentar descobrir o problema; durante trs anos. Samantha 
era estril. No podia ter filhos.
- Porqu agora, 'John?
A voz de Samantha arrastou-o de novo para o presente, e ele limitou-se a abanar ligeiramente a cabea.
- No interessa. No  importante. Tinha de te dizer. No h dias bons para uma coisa destas.
- No ests disposto a acabar com essa relao? - Samantha continuava a pression-lo e estava consciente disso, mas tinha de o fazer. Ainda no entendia o que se 
passara e porqu. Por que razo, naquele dia sufocante, o marido chegara a casa, vindo da estao de televiso onde apresentava o noticirio todas as noites, e anunciara 
que ia abandon-la por outra mulher? - Vais deixar de a ver?
John abanou lentamente a cabea.
- No, Sam, no vou.
- Porqu? - A voz de Samantha embargou-se, ganhou um tom acrianado, e uma nova torrente de lgrimas correu-lhe pelo rosto. - O que  que ela tem que eu no tenho? 
 pouco atraente e  chata... e tu... tu sempre disseste que no gostavas dela... que detestavas trabalhar com ela e... - No conseguiu prosseguir; John olhava-a, 
quase sentindo a dor dela como sua.
- Tenho de ir, Sam.
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Porqu? - Samantha ficou fora de si quando John se encaminhou para o quarto para fazer as malas.
- Porque tenho, s isso. Olha, no  correcto da minha parte ficar e, deixar-te neste estado.
- Fica, por favor... - O pnico, como uma besta terrvel, tomava conta da voz de Samantha. - Vamos compor as coisas... a srio... por favor... John... - As lgrimas 
escorriam-lhe pelo rosto. John ficou subitamente com ar carregado e distante enquanto continuava a fazer as malas. Andava num autntico frenesi, como se tivesse 
de partir o mais depressa possvel, antes que ficasse tambm destroado.
Ento, de repente, virou-se para Samantha.
- Pra com isso, bolas! Pra... Sam, por favor...
- Por favor, o qu? Por favor, no chores, porque o meu marido vai deixar-me ao fim de sete anos, onze se contarmos o tempo em Yale antes de nos casarmos? Ou: por 
favor, no te sintas culpado por me deixares por uma puta qualquer?  isso que queres, John? Que eu te deseje sorte e te ajude a fazer as malas? Meu Deus, chegas 
aqui e destris toda a minha vida, e agora... o que queres de mim? Que seja compreensiva? Bom, isso no posso ser. A nica coisa que posso fazer  chorar e, se tiver 
de ser, suplicar-te... suplicar-te, ests a ouvir ... ? - Ao proferir aquelas palavras, deixou-se cair numa cadeira e comeou a soluar de novo. Com mo firme, John 
fechou a mala, para dentro da qual atirara meia dzia de camisas, um par de tnis, dois pares de sapatos e um fato de Vero, metade deste caindo para fora da mala. 
Pegou num punhado de gravatas. Era impossvel. No conseguia pensar direito e fazer as malas em paz.
- Volto na segunda-feira, quando estiveres a trabalhar
- No vou trabalhar.
- Porqu?
John, de cabelos desgrenhados, ostentava um ar perturbado; Samantha levantou os olhos para ele e esboou um leve sorriso por entre as lgrimas.
- Porque o meu marido acabou de me deixar, seu imbecil, e no acredito que esteja com disposio para ir trabalhar na segunda-feira. Importas-te?
John no sorrira, no pusera um ar menos grave. Limi-
tou-se a olhar para ela, um pouco embaraado, fez um gesto afirmativo com a cabea e saiu rapidamente pela porta. Deixou cair duas gravatas, que Samantha apanhou, 
segurando-as na mo durante muito tempo, a chorar, prostrada em cima 
do sof.
Chorara muitas vezes em cima do sof desde Agosto, mas John no voltara. Em Outubro, ele fora passar um fim-de-semana prolongado na Repblica Dominicana, conseguira 
o divrcio e dez dias depois casara-se com Liz. Samantha sabia agora que Liz estava grvida; quando ouviu a notcia pela primeira vez, sentiu-se trespassada por 
uma lmina. Liz dera a novidade certa noite, na televiso, e Sam ficara de boca aberta, chocada. Ento fora por isso que ele a deixara. Por uma criana... um beb... 
um filho que ela no poderia dar-lhe. No entanto, ao fim de algum tempo, chegara  concluso de que no fora s isso.
Houvera muitas coisas no casamento que Samantha no vira ou no quisera ver, porque estava perdidamente apaixonada pelo marido: a rivalidade que se estabelecera 
entre os dois e a insegurana de John perante o sucesso dela. Apesar de ser um dos principais noticiaristas do pas e de as pessoas se amontoarem para lhe pedir 
um autgrafo, John parecera sempre sentir receio de o sucesso ser efmero, de ser substitudo e de os ndices de audincia poderem alterar a sua vida. Para Samantha, 
era diferente. Como subdirectora criativa da segunda maior agncia de publicidade do pas, a sua situao era delicada, mas menos do que a dele. Numa profisso tambm 
instvel, possua, no entanto, um rol enorme de campanhas premiadas atrs de si que a tornavam menos vulnervel aos ventos de mudana. Durante todo o Outono, sozinha 
no apartamento, recordara fragmentos de conversas, coisas que ele dissera...
"Meu Deus, Sam, conseguiste chegar ao topo aos trinta. Chia! Com os prmios fizeste mais dinheiro do que eu." Sabia agora que isso tambm o incomodara. Mas que 
poderia ela ter feito? Desistir? Por que razo? No seu caso, porque no trabalhar? No podiam ter filhos e John no queria adoptar um. "No  a mesma coisa se no 
for teu." "Mas  como se fosse. Olha, podamos adoptar um recm-nascido, somos novos e faramos o
melhor que pudsemos . Um bb significaria tanto para ns, querido, pensa no assunto ... " Os olhos de Samantha brilhavam sempre que discutiam o assunto, os dele 
ficavam embaciados, depois abanava a cabea. A resposta para a questo da adopo era sempre no. Agora no precisava de se preocupar mais com o assunto. Dentro 
de mais trs meses, teria o seu primeiro filho. O seu prprio filho. Para Samantha, era como um soco no estmago.
Tentou no pensar no assunto quando chegou ao ltimo patamar e abriu a porta. O apartamento ganhara um cheiro a bafio nos ltimos dias. As janelas encontravam-se 
sempre fechadas, o calor era muito, as plantas estavam todas a morrer e nem as deitara fora nem mandara algum tratar delas. Todo o apartamento exibia um ar de desleixo, 
de abandono, como se servisse apenas para algum mudar de roupa. Desde Setembro, apenas se servira da cozinha para fazer caf. No tomava pequeno-almoo e almoava, 
regra geral, com clientes ou outros executivos da Crane, Harper & Laub; habitualmente, esquecia-se de jantar. Se estava a morrer de fome, comprava uma sanduche 
no caminho para casa, comia-a embrulhada no papel encerado, equilibrando-a em cima de um joelho, enquanto assistia ao noticirio na televiso. No usava qualquer 
loua desde o Vero, mas tambm no se importava. Deixara praticamente de gozar a vida desde essa altura, e s vezes interrogava-se se alguma vez o voltaria a fazer. 
S pensava no que acontecera, na forma como John lhe dera a notcia, na razo por que ele a deixara e no facto de j no lhe pertencer. Alternava o sentimento de 
dor com o de raiva, at que, finalmente, no dia de Aco de Graas, os nervos estavam to esfrangalhados que ficou como que paralisada. A maior campanha da sua carreira 
quase ia por gua abaixo. Duas semanas antes vira-se obrigada a fechar-se no escritrio a descansar. Por instantes, dera a impresso de ir ter um ataque de nervos 
ou desmaiar; talvez abraar algum e desfazer-se em lgrimas. No entanto, era como se j no existisse ningum com quem mantivesse alguma ligao ou que gostasse 
dela- O pai morrera quando ela frequentava a faculdade, a me vivia em Atlanta com um homem considerado atraente mas de quem Samantha no gostava. Era mdico e extrema- 
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mente vaidoso. Pelo menos, a me estava feliz. De qualquer maneira, Samantha nunca fora muito chegada  me e no seria a que procuraria auxlio. S lhe falara 
do divrcio em Novembro, quando a me lhe telefonara certa noite e a encontrara lavada em lgrimas. Fora simptica, mas pouco mais; nada que fortalecesse os laos 
entre as duas. j era demasiado tarde. Alm disso, no era pela me que ansiava, mas pelo marido, pelo homem com quem partilhara o leito, que amara e com quem se 
divertira nos ltimos onze anos; o homem que conhecia melhor do que a prpria pele, que a fazia feliz de manh e lhe dava segurana  noite. Agora, porm, ele partira. 
Essa lembrana nunca deixava de lhe trazer lgrimas aos olhos e desolao  alma.
Naquela noite, com frio e cansada como estava, Samantha nem sequer pensou no assunto. Tirou o casaco e pendurou-o a secar na casa de banho, descalou as botas e 
passou a escova pelos cabelos. Mirou-se ao espelho sem olhar para o rosto. Quando agora olhava para si, s via uma massa informe de pele, dois olhos tristes e uma 
comprida cabeleira loura. Despiu as peas de roupa, uma aps outra, deixando cair a saia de caxemira preta e a blusa de seda preta e branca que levara para o trabalho. 
As botas que descalara e atirara para o cho tinham a marca Celine de Paris, o cachecol era de um padro geomtrico preto e branco, Herms. Pusera enormes brincos 
de prolas e nix e prendera o cabelo atrs, junto do pescoo. O casaco, que pendurara a seu lado, era vermelho-vivo. Mesmo no seu atordoante estado de carncia 
e dor, Samantha Taylor era uma mulher bonita, ou como o director criativo da agncia dizia: "Uma mulher atraente como o raio." Abriu a torneira, e uma torrente de 
gua quente deslizou para a banheira verde. Outrora, a casa de banho encontrava-se cheia de plantas e flores de cores vivas. No Vero, gostava de l ter amores-perfeitos, 
violetas e gernios. Havia pequenas violetas no papel de parede, contrastando com a porcelana francesa, de um verde-esmeralda brilhante. Agora, tal como no resto 
do apartamento, faltava-lhe brilho. A mulher da limpeza mantinha tudo sem p, mas era impossvel a algum que vinha trs vezes por semana dar um ar cuidado  casa. 
Tanto esta como a prpria Samantha haviam perdido o brilho,
aquele que s surge com um toque doce e uma mo delicada, a rica ptina de carinho que se manifesta de inmeras formas nas mulheres.
Quando a -banheira ficou cheia de gua fumegante, Sa
mantha meteu-se lentamente dentro dela, deitou-se e fechou
os olhos. Por instantes, sentiu-se flutuar, como se no existisse
passado, nem futuro, nem receios, nem preocupaes. Ento,
pouco a pouco, o presente invadiu-lhe o esprito. A campa
nha em que actualmente trabalhava estava a ser um desastre.
Relacionava-se com uma linha de carros que a agencia cobi
ava h j uma dcada, e era todo o projecto que estava em
causa. Apresentara uma srie de sugestes relativas a cavalos,
com anncios a serem filmados em campo aberto ou em ran
chos, com um homem ou uma mulher de ar rural a fazer fu
ror. Porm, o corao no estava na campanha, e tinha cons
cincia disso. Perguntava a si mesma durante quanto tempo
mais  que aquela sensao de abatimento iria manter-se, co
mo se o motor trabalhasse e o carro no passasse da primeira
velocidade. Sentia-se arrastar, como se o cabelo, as mos e
os ps fossem de chumbo * - Quando saiu da banheira, com os
longos cabelos sedosos presos no alto da cabea, embrulhou
-se cuidadosamente num enorme lenol lils e encaminhou
-se, descala, para o quarto. Ali, sentia-se de novo a atmosfera
de um jardim, uma enorme cama de quatro colunas coberta
de bordados a branco e uma colcha cheia de flores amarelas,
predominando o amarelo luminoso, os folhos e os franzidos.
Adorara aquele quarto aquando da decorao do apartamen
to; agora detestava-o, ao deitar-se, noite aps noite, sozinha.
No se devia ao facto de no ter tido pretendentes. Tivera-os, mas a interminvel sensao de abatimento paralisava-a. No desejava nem gostava de ningum. Era como 
se lhe tivessem cortado a comunicao com o mundo exterior. Ento, quando se sentou na berma da cama e bocejou, lembrando-se de que s comera uma sanduche de ovo 
e salada ao almoo e no tomara o pequeno-almoo nem jantara, deu um pulo ao ouvir a campainha no piso de baixo. Por instantes, pensou em no responder; depois, 
deixou cair a toalha, procurou apressadamente o robe acolchoado de cetim azul-claro e correu para o intercomunicador, enquanto se ouvia novamente a campainha.
- Sim?
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Jack, o Estripador! Posso subir?
Durante uma fraco de segundo, no reconheceu a voz no intercomunicador. Ento, de repente, soltou uma gargalhada, parecendo-se mais consigo mesma. Os olhos iluminaram-se, 
as faces ostentando ainda o rubor saudvel do banho quente. H vrios meses que no parecia to jovem.
- O que ests aqui a fazer, Charlie? - gritou Samantha para o intercomunicador na parede.
- Estou a ficar com o rabo congelado. Deixas-me entrar?
Samantha soltou nova gargalhada, premiu rapidamente o boto do intercomunicador e, pouco depois, ouviu-se o som de Charles a subir apressadamente as escadas. Quando 
alcanou o vo da porta, Charles Peterson parecia mais um lenhador do que o director artstico da Crane, Harper & Laub, com a aparncia de um rapaz de vinte e tal 
anos em vez dos trinta e sete que j atingira. Possua um rosto cheio e acrianado, olhos castanhos e risonhos, cabelos escuros e desgrenhados, e barba cerrada, 
que surgia agora salpicada de granizo.
- Arranjas-me uma toalha? - pediu, arquejante, mais do frio e da chuva do que das escadas.
Samantha foi rapidamente buscar uma toalha grossa lils  casa de banho e deu-lha. Charles despiu o casaco e secou o cabelo e a barba. Uma pequena torrente de gua 
gelada escorria do enorme chapu de cowboy para cima do tapete de estilo francs.
- A fazer chichi no tapete, Charlie?
- A propsito... arranjas um cafezinho?
- Claro. - Samantha olhou-o de forma estranha, interrogando-se se haveria algum problema. Charles viera visit-la uma ou duas vezes, mas geralmente s quando existia 
algum assunto importante. - Aconteceu alguma coisa com a nova campanha? - Olhou-o da cozinha com ar preocupado. Ele sorriu e abanou a cabea, enquanto se dirigia 
para o local onde ela se encontrava.
- No. E vai tudo correr bem. Ests no bom caminho. Vai ser fabuloso, Sam.
Samantha esboou um tnue sorriso enquanto lhe servia o caf.
- Tambm acho que sim. - Trocaram um longo e terno sorriso. Eram amigos h quase cinco anos, haviam partilhado inmeras campanhas, prmios e brincadeiras, trabalhando 
at s quatro da manh para coordenar a apresentao ao cliente e aos contabilistas no dia seguinte. Eram os meninos-bonitos de Harvey Maxwell, o director criativo 
titular da empresa. Harvey detinha o lugar h vrios anos. Descobrira Charlie numa agncia e contratara Samantha noutra. Deixava-os pensar pelas prprias cabeas 
e ficava feliz ao ver aquilo que eles criavam. Mais ano menos ano, retirar-se-ia, e toda a gente apostava, inclusive Samantha, que seria ela a substitu-lo. Directora 
criativa aos trinta e um anos no era mau de todo. - O que  que se passa, garoto? No te vejo desde esta manh. Como  que est a correr aquilo do Wurtzheimer?
- Bem... - Levantou os braos com uma expresso de aprovao. - O que podes tu fazer por um dos maiores armazns em Saint Louis que tem muita massa e nenhum gosto?
- E o tema do cisne de que falmos a semana passada?
- Detestaram. Querem algo com mais impacte. Os cisnes no tm impacte.
Sam revirou os olhos e sentou-se  enorme mesa de madeira macia, enquanto Charlie esparramava o seu corpo magro numa das cadeiras  &ente dela. Era estranho, nunca 
sentira atraco por Charlie Peterson, nem por uma nica vez em todos os anos em que trabalhavam, viajavam, dormiam nos avies e conversavam um com o outro at altas 
horas da noite. Ele era o irmo, a alma gmea, o amigo. Tinha uma mulher que ela adorava quase tanto como ele. Melinda era
perfeita para Charlie. Decorara-lhes o enorme e simptico apartamento na Rua 81 Este com tapearias de cores vivas e cestos maravilhosamente entre tecidos. Os mveis 
eram todos de mogno escuro e para onde quer que se olhasse havia pequenos objectos de arte de grande beleza, minsculos tesouros que Melinda descobrira e trouxera 
para casa, tudo desde conchas exticas apanhadas no Taiti, at a uma bola perfeita de mrmore que era pertena dos filhos. Possuam trs, todos Parecidos com Charlie, 
um canzarro de poucas maneiras chamado Rags e um enorme jipe que Charlie conduzia h
dez anos. Melinda era tambm uma artista, mas nunca fora "corrompida" pelo mundo competitivo do dia-a-dia. Trabalhava num estdio e fizera duas exposies de grande 
sucesso dos seus trabalhos nos ltimos anos. Em vrios aspectos, era muito diferente de Samantha, embora as duas tivessem em comum uma doura que se escondia sob 
uma jactncia que Charlie apreciava em ambas.  sua maneira, adorava Samantha, e ficara "pior do que estragado" com o que John fizera. Nunca gostara dele e sempre 
o considerara um sacana egocntrico. A sbita desero de John em relao a Samantha e o subsequente casamento com Liz Jones provara que Charlie tinha razo. Melinda 
tentara compreender ambas as partes, mas Charlie no se dera a esse trabalho. Estava demasiado preocupado com Sam, cujo estado de sade se deteriorara nos ltimos 
quatro meses, e isso era mais do que evidente. O trabalho sofrera. Os olhos haviam perdido a vida. O rosto tinha um ar doente.
- Ento, madame? Espero que no leves a mal a minha visita to tardia.
- Claro que no. - Samantha sorriu enquanto lhe servia uma chvena de caf. - S me pergunto o que te trouxe aqui. Saber como  que estou?
- Talvez. - Os olhos dceis de Charlie sobressaam sobre a barba escura. - Importas-te, Sam?
Samantha lanou-lhe um olhar triste e Charlie sentiu vontade de a tomar nos braos.
- Como poderia importar-me?  bom saber que algum se preocupa connosco.
- Sabes bem que me preocupo. A Mellie tambm.
- Como  que ela est? Bem?
Charlie fez um gesto afirmativo com a cabea. Nunca havia tempo para aquele tipo de conversas no escritrio.
- Est ptima. - Charlie comeava a interrogar-se sobre a forma como iria conduzir a conversa para aquilo que de facto queria dizer-lhe. No ia ser fcil, e talvez 
ela no reagisse bem.
- Ento? O que  que se passa? - Subitamente, Samantha deu consigo a olh-lo com ar divertido. Charlie fingiu uma expresso inocente e Samantha puxou-lhe pela barba. 
- Tens qualquer coisa na manga, Charlie. O que ?
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O que te faz dizer isso? - Est a chover e um frio de rachar,  sexta -feira, podias estar em casa com a tua mulher apaixonada e os teus trs filhos encantadores. 
 difcil imaginar que tenhas vindo at aqui apenas para tomar uma chvena de caf comigo.
- Porque no? s muito mais encantadora do que os meus filhos. Mas... - Hesitou por instantes. - Bom, tens razo. No passei aqui por acaso. Vim propositadamente 
falar contigo. - "Meu Deus,  horrvel!" Como conseguiria dizer-lhe? Sabia que ela nunca entenderia.
- Ento? V l, deita c para fora. - Havia um brilho travesso no olhar de Samantha que Charlie j no via h muito tempo.
- Bem, Sam... - Inspirou profundamente e olhou-a mais de perto. - O Harvey e eu estivemos a falar...
- A meu respeito? - Ficou instantaneamente preocupada, mas Charlie fez um sinal afirmativo com a cabea e prosseguiu. Samantha detestava que as pessoas falassem 
dela. Porque a conversa era sempre acerca do modo como ela se sentia e do que John lhe fizera.
Sim,  a teu respeito.
Porqu? A campanha de Detroit? No sei se ele compreende a minha ideia, mas...
- No, no  acerca da campanha de Detroit, Sam.  a teu respeito.
- Acerca do qu? - Samantha achava que tudo acabara, no havendo j motivo para falarem dela. A separao e o divrcio j pertenciam ao passado e John casara com 
outra pessoa. Conseguira sobreviver a tudo isso. Portanto... - Estou ptima.
- Ests? Acho isso fantstico. - Charlie fixou-a, invadindo-o de novo alguma da raiva que sentira contra John. - Se estivesse no teu lugar, no conseguia sentir-me 
to bem, Sam.
- No tenho alternativa. Alm disso, sou mais forte do que tu.
- Talvez sejas. - Charlie esboou um leve sorriso. - Mas talvez no sejas to forte como pensas. Porque no descansas durante uns tempos, Sam?
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Que queres dizer com isso? Que v para a praia para Miami?
- Porque no? - Charlie forou um sorriso e Samantha olhou-o com ar chocado.
- O que queres tu dizer-me? - O pnico tomou-lhe rapidamente conta do rosto. - O Harvey vai despedir-me?  isso? Mandou-te aqui no papel do carrasco, Charlie? No 
me querem mais porque j no sou to alegre como era? - Apenas a fazer perguntas, sentiu os olhos a ficarem marejados de lgrimas. - Meu Deus, o que  que tu esperavas? 
Passei por tempos difceis... Foi... - As lgrimas comearam a sufoc-la e ps-se prontamente de p. - Estou ptima, bolas! Por que raio...
Charlie agarrou-a pelo brao e forou-a a sentar-se com um olhar afvel.
- Tem calma. Est tudo bem.
- Ele vai despedir-me, Charlie? - Uma lgrima triste e solitria correu-lhe pelo rosto.
Charlie Peterson abanou a cabea.
- No, Sam, claro que no.
- Ento? - Samantha sabia. j sabia.
- Ele quer que vs descansar. j trabalhaste o suficiente na campanha de Detroit. O velho no morrer se pensar em negcios durante uns tempos para variar. Podemos 
dispensar-te se tiver de ser.
- Mas vocs no tm de o fazer.  uma estupidez, Charlie.
- ? - Charlie olhou-a fixamente. -  uma estupidez, Sam? Consegues suportar esse tipo de presso sem vacilar? Tens foras suficientes para ver o homem que te deixou 
por outra mulher todas as noites na televiso nacional a falar com a nova mulher e a barriga dela a aumentar? Consegues assistir a isso tudo impvida e serena? Sem 
faltares um nico dia ao trabalho e continuando a querer ficar com todas as novas campanhas? Acho que vais acabar por rebentar mais cedo ou mais tarde. Como podes 
pr a tua sade em risco dessa maneira? No posso admitir isso, como amigo. Aquilo que aquele filho da me te fez quase te deixou de rastos. Esquece o que se passou, 
vai curtir as mgoas para outro stio, larga
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tudo e depois volta. Precisamos de ti. Desesperadamente. O Harvey, eu e o pessoal da contabilidade compreendemos a situao, e tu melhor do que ningum... Porm, 
no te queremos doente, louca ou destroada, que  como vais ficar se no te libertares da presso.
- Achas que tenho um esgotamento, no ? - Samantha pareceu magoada e chocada, mas Charlie abanou a cabea.
- Claro que no. Mas c'o a breca, isto j se prolonga h tanto tempo.  agora que tens de tratar da dor e no quando ela estiver demasiado entranhada que j no 
consigas domin-la.
- J vivo com ela h quatro meses.
- E est a dar cabo de ti! - Era uma afirmao terminante da parte de Charlie e Samantha no a negava.
- Ento, o que disse o Harvey? - Os olhos de Samantha exibiam tristeza quando encontraram os do amigo. Tinha a sensao de ter falhado, de ter podido fazer melhor.
- Ele quer que vs para fora.
- Para onde? - Limpou uma lgrima que lhe escorria
pela face com as costas da mo.
- Para onde quiseres.
- Durante quanto tempo?
Charlie hesitou por instantes antes de responder.
- Trs ou quatro meses.
Haviam tomado a deciso de que seria melhor que ela estivesse fora at John e Liz terem o seu muito publicitado filho. Charlie sabia o choque que isso representava 
para Samantha. Conversara vrias vezes sobre o assunto com Harvey, e nenhum deles conseguira imaginar o olhar destroado que Charlie observava agora no rosto dela. 
Era um olhar de total descrena, de choque, de quase terror.
- Quatro meses? Ests louco? E os nossos clientes? E o meu emprego? Tu tomarias conta de tudo, no era? O que  que se passa? Queres o meu lugar,  isso? - Samantha 
deu um novo pulo, afastando-se da mesa; ele seguiu-a e colocou-se  sua frente, fixando-a com um olhar amargurado.
- O teu lugar est seguro, Sam. Mas tens de fazer aquilo que te disse. No podes continuar a arrastar-te. Tens de sair deste apartamento, do escritrio, at talvez 
de Nova Iorque.
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Sabes o que eu acho? Devias telefonar quela mulher de que tanto gostas que vive na Califrnia e ir l passar uns tempos com ela. Depois voltas quando estiveres 
boa, quando estiveres de novo entre os vivos. Vai fazer-te muitssimo bem.
- Que mulher? - Samantha pareceu no se lembrar.
- Aquela de quem me falaste h uns anos, a que tem um rancho de cavalos, Carol ou Karen qualquer coisa, a velhota que era tia da tua colega de quarto na faculdade. 
Costumavas falar com ela como se fosse a tua melhor amiga. - Barbie fora a sua confidente mais chegada, alm de John, e haviam sido colegas de quarto. Morrera duas 
semanas depois de se formar num desastre de aviao em Detroit.
Um sorriso afvel vislumbrou-se subitamente no olhar de Samantha.
- A tia da Barbie... A Caroline Lord.  uma mulher maravilhosa. Mas por que carga de gua  que eu iria para l?
- Gostas de andar a cavalo, no gostas?
Samantha fez um gesto afirmativo com a cabea.
- Bem,  um stio maravilhoso, diferente e fica longe da Madison Avenue. Talvez precises de pr as roupas de trabalho no armrio e meter esse teu corpo sexy numas 
calas de ganga e ires atrs de cowboys durante uns tempos.
- Muito engraado!  realmente disso que preciso. - A ideia, porm, encontrara algum eco. No via Caroline h anos. Fora visit-la com John uma vez. Trs horas de 
viagem para nordeste de Los Angeles. John detestara. No gostara dos cavalos, achara o rancho pouco confortvel,. e Caroline e o capataz olharam-no de soslaio por 
causa dos seus modos afectados da cidade. Cavaleiro, ele no era, mas Samantha era uma cavaleira exmia e elegante desde criana. Havia um poney selvagem malhado 
no rancho quando o visitaram e Samantha montara-o, para terror de Caroline. No entanto, no a magoara, apesar de a ter atirado ao cho meia dzia de vezes enquanto 
o tentava habituar  sela. John ficara impressionado com a sua percia. Fora um perodo feliz da vida dela que parecia j pertencer a um passado remoto. Sam levantou 
os olhos para Charlie. - Nem sequer sei se ela pode receber-me, Charlie.  uma ideia louca. Porque no me deixam acabar o trabalho?
- Porque te adoramos, e assim vais dar cabo de ti.
- No vou, no. - Sam esboou um sorriso corajoso, e Charlie abanou ligeiramente a cabea.
- Estou-me nas tintas para aquilo que possas dizer agora, Sam. A deciso foi do Harvey.
- Que deciso?
- A tua dispensa do servio.
-  uma deciso definitiva? - Sam olhou-o novamente com ar chocado, e Charlie fez um sinal afirmativo com a cabea.
- A partir de hoje. Trs meses e meio de dispensa e podes prolong-la at quatro meses, se quiseres. - Haviam telefonado para a estao para se certificar da data 
prevista do parto de Liz, acrescentando mais duas semanas.
- E no perco o lugar?
- No. - Charlie retirou uma carta do bolso e deu-a a Samantha para ler. Era de Harvey e garantia-lhe o lugar mesmo estando ausente durante quatro meses. Era uma 
situao inslita, mas, como Harvey escrevera, Samantha Taylor era "uma rapariga extraordinria".
Sam lanou um olhar triste a Charlie.
- Isso significa que estou dispensada a partir de hoje? - O lbio inferior tremeu.
- Exactamente, minha senhora. Est de frias a partir deste preciso momento. Quem me dera tambm estar.
- Oh, meu Deus. - Sam deixou-se cair numa cadeira e cobriu o rosto com as mos. - O que vou fazer agora?
Charlie afagou-lhe o ombro.
- Faz o que te disse. Telefona  tua amiga do rancho. Era uma sugesto louca; porm, depois de ele sair, Sam comeou a pensar no que iria fazer. Foi para a cama 
ainda em estado de choque. Estaria ausente do emprego nos prximos trs meses e meio. No sabia para onde ir, no tinha nada para fazer, nada que quisesse ver e 
ningum que a acompanhasse. Pela primeira vez na sua vida de adulta, no tinha quaisquer planos. S lhe restava marcar uma reunio com Harvey 'a manh seguinte para 
lhe transmitir algumas informaes de trabalho e depois estaria livre. De sbito, no meio da escurido, sentindo-se tomada pelo medo, comeou a rir-se. Era de
loucos! O que raio iria fazer at ao dia um de Abril? Um de Abril, dia das Mentiras... Tinham-lhe pregado uma partida... Europa? Austrlia? Visitar a me em Atlanta? 
Por instantes, sentiu-se mais livre do que nunca. Quando sara de Yale tivera John para pensar nas coisas, agora no tinha ningum. Ento, num impulso, estendeu 
a mo para pegar no livro de endereos e resolveu seguir o conselho de Charlie. Acendeu a luz e encontrou facilmente o nmero na letra L. Seriam nove e meia na Califrnia, 
esperava que no fosse demasiado tarde para telefonar.
A voz familiar de Caroline Lord atendeu ao segundo toque. Seguiu-se uma longa explicao da parte de Sam, enquanto Caroline a ouvia em respeitoso silncio. Ento, 
no se contendo mais, Sam soltou um estranho e angustiante soluo. Era como chegar a casa de uma velha amiga. A mulher de mais idade escutava-a com extrema ateno, 
confortando Sam de uma maneira como h muitos anos ningum fizera. Quando desligou o telefone, meia hora depois, Sam ficou de olhos fixos no dossel, perguntando-se 
se estava a enlouquecer efectivamente. Prometera voar para a Califrnia na tarde seguinte.
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Foi uma manh frentica para Samantha: ps as suas coisas dentro de duas malas, telefonou para a companhia de aviao, deixou uma nota e um cheque para a mulher 
da limpeza e tentou fechar o apartamento o melhor qqe podia. Depois, com as duas malas, apanhou um txi para o escritrio, onde deu a chave do apartamento a Charlie 
e prometeu mandar presentes de Natal para os midos. Reuniu-se, ento, com Harvey durante mais de duas horas, explicando-lhe tudo o que ele queria saber.
- No precisas de fazer isto por mim, Harvey. No  o que quero. - Os olhos de Samantha procuraram os dele quando concluram a reunio.
Harvey olhou-a em silncio do outro lado da enorme secretria de mrmore e cromo.
- No  isso o que queres, Sam, mas  aquilo de que precisas. Vais sair da cidade?
Harvey era um homem alto, magro, de cabelos grisalhos e rapados como os dos fuzileiros. Usava camisas brancas Brooks Brothers, calas listradas, tinha ar de banqueiro, 
fumava cachimbo, e por trs dos olhos cinzentos e inflexveis havia um esprito brilhante e criativo e um corao extraordinrio e maravilhoso. Fora, de certa forma, 
como um pai para Samantha, e no era surpresa alguma que ele agora a dispensasse por uns tempos. Durante toda a manh, no falaram dos planos de Samantha, s do 
trabalho.
- Sim, vou-me embora. - Samantha esboou um sorriso diante da secretria de aspecto ameaador. lembrou-se do medo que tivera de Harvey ao princpio e do respeito 
que se fora cimentando ao longo dos anos. Mas o respeito era mtuo, como ela bem sabia.
- O avio descola dentro de duas horas - informou Samantha, olhando para o relgio.
- Ento, desaparece daqui. - Harvey pousou o cachim-
bo, sorriu, mas Samantha hesitou por instantes.
Guardas-me o lugar at eu voltar, Harvey?
Juro. Tens a carta?
Samantha fez que sim com a cabea.
- ptimo. Ento, se no te guardar o lugar, podes processar-me.
- No  essa a minha inteno. S quero o lugar.
- E t-lo-s, e provavelmente tambm o meu.
- Posso voltar dentro de poucas semanas - sugeriu Samantha num tom hesitante, mas Harvey abanou a cabea e o sorriso desvaneceu-se do seu olhar.
- No, Sam, no podes. Dia um de Abril e ponto final.
- Por alguma razo especial?
Harvey no queria dizer-lhe o motivo; por isso, voltou a abanar a cabea.
- No, foi a data que escolhemos. Vou mandar-te vrios memorandos para te manter a par do que se est aqui a passar, e podes telefonar-me sempre que queiras. A minha 
secretria sabe onde te encontrar?
- Ainda no, mas saber.
- ptimo. - Harvey contornou a secretria e puxou Samantha para si sem dizer palavra. Abraou-a durante um longo instante e depois beijou-a na testa. - Tem cuidado 
contigo, Sam. Vamos sentir saudades tuas. - A voz de Harvey era rouca e havia lgrimas nos olhos de Sam quando o abraou uma vez mais, encaminhando-se depois rapidamente 
para a porta. Por instantes, teve a sensao de estarem a p-la na rua, e sentiu-se invadida pelo pnico, ao mesmo tempo que ponderava a hiptese de lhe pedir que 
no a deixasse partir.
Quando Samantha abandonou o gabinete de Harvey, Charlie aguardava-a no corredor; lanou-lhe um sorriso afvel, ps-lhe um brao sobre os ombros e apertou-a contra 
si.
- Ests pronta para partir?
- No. - Samantha esboou um sorriso triste e fungou, procurando refgio junto de Charlie.
- Mas vais estar.
- Achas? O que te d tanta certeza? - Encaminhavam-se, a passo lento, para o gabinete de Samantha, e o desejo de ficar era cada vez maior. - Isto  uma loucura. 
E sabes bem que , no sabes, Charlie? Quero dizer, h imenso trabalho, campanhas para coordenar, no tenho o direito de...
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- podes continuar para a a falar se quiseres, Sam, que no far qualquer diferena. - Charlie olhou para o relgio.
Daqui a duas horas vou meter-te no avio.
Samantha parou subitamente e virou-se para Charlie com um ar beligerante; este no conseguiu conter um sorriso. Parecia uma criana muito bonita e insuportvel.
- E se eu no for apanhar o avio?
- Drogo-te e eu prprio te levo.
- A Mellie no iria achar graa nenhuma.
-,Adoraria. Passa a semana toda a rogar-me que a deixe em paz. - Charlie parou e olhou-a fixamente.
Samantha esboou um tnue sorriso.
- No vou conseguir convencer-te, pois no
- Nem a mim nem ao Harvey. No interessa o lugar para onde vais, mas tens de sair daqui, para teu prprio bem. No te apetece, Sam? No tens vontade de fugir de 
todas os problemas, das recordaes, da hiptese de dar de caras com... eles? - A palavra custou a sair, e Samantha encolheu os ombros.
- Que diferena  que isso faz? Quando vir o noticirio na Califrnia, eles continuaro l. Os dois. Com ar de... - Os olhos inundaram-se de lgrimas ao imaginar 
os dois rostos que a atraam magneticamente todas as noites. Via-os sempre... Depois, sentia dio de si prpria por isso, com vontade de mudar para outro canal, 
mas a mo era incapaz de se mover. - No sei, bolas, eles esto bem um para o outro, no esto? - O rosto transformou-se subitamente numa mscara de tristeza e as 
lgrimas comearam a rolar-lhe pela face. - Nunca tivemos aquele ar, pois no? Isto ...
Charlie no respondeu; apenas a puxou para si e a amparou nos seus braos.
- Tudo bem, Sam, tudo bem.
Enquanto Samantha chorava baixinho encostada ao seu ombro, indiferente aos olhares das secretrias que passavam apressadamente por ela, Charlie afastou-lhe uma madeixa 
comprida de cabelos louros por cima da testa e sorriu-lhe. -  por isso que precisas de umas frias. A esse teu estado chama-se cansao emocional, ou ainda no tinhas 
dado por isso?
Samantha resmungou algo em sinal de desaprovao e depois riu-se.
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 assim que lhe chamam? Bem... - Afastou-se dele, suspirou e limpou as lgrimas. - Talvez precise de umas frias. - Ento, atirando os cabelos para trs das costas 
com ar destemido, tentou olhar para o amigo. - Mas no por aquilo que pensas. Vocs  que me deixaram de rastos.
- Tens toda a razo. E tencionamos continuar a deixar-te assim quando voltares. Por isso, diverte-te enquanto l es- tiveres. Anda bastante a cavalo.
Uma mo poderosa em ambos os ombros f-los virar de repente.
- Ainda no te foste embora? - Era Harvey, o cachimbo preso entre os dentes e um brilho nos olhos. - Pense que tinhas um avio para apanhar.
~E tem. - Charlie sorriu para Samantha.
- Ento, vai l lev-la, por amor de Deus. Leva-ma daqui. Temos de trabalhar. - Harvey esboou um breve sorriso, fez um aceno com o cachimbo e desapareceu por outro 
corredor, enquanto Charlie via surgir de novo o tmido sorriso nos lbios de Sam.
- No precisas de ir pr-me ao avio. No?
Samantha fez um sinal negativo com a cabea. No estava a prestar-lhe ateno; em vez disso, olhava para o gabinete como se fosse a ltima vez. Charlie apercebeu-se 
da expresso no rosto de Sam e agarrou no casaco e nos sacos dela.
-Embora, antes que me ponhas a chorar. Vamos apanhar o avio.
-Sim, chefe.
Charlie saiu e ficou  espera. Sam deu dois passos hesitantes e seguiu-o. Com um profundo suspiro e um ltimo olhar por cima do ombro, Sam fechou a porta devagarinho.
A viagem decorreu tranquilamente. O pas parecia uma manta de retalhos. As texturas rugosas e acastanhadas dos campos frios estendiam-se at aveludados mantos de 
neve. Quando atingiram a costa oeste, surgiram os verdes acetinados e os azuis reluzentes das florestas e dos-lagos. Finalmente, com um ardente pr do Sol a dar 
as boas-vindas, o avio aterrou em Los Angeles.
Samantha esticou as longas pernas, depois os braos, enquanto olhava uma vez mais pela janela. Dormitara a maior parte da viagem e agora, ao olhar para fora, questionava-se 
sobre a razo da sua vinda. Por que motivo viera para a Califrnia? Que iria encontrar ali? Enquanto se levantava e atirava a longa cabeleira loura para trs das 
costas, concluiu que fizera mal em vir, j no tinha dezanove anos. No fazia qualquer sentido ir para um rancho desempenhar o papel de cowgr1. Era uma mulher com 
responsabilidades e uma vida para orientar, toda ela centrada em Nova Iorque. O que possua ela ali? Nada, absolutamente nada.
Soltou um suspiro, viu o resto dos passageiros a comear a desembarcar, abotoou o casaco, pegou na mala de viagem e ps-se na fila. Envergava um casaco de camura 
castanho-escuro forrado com pele de carneiro, calas de ganga e botas de cabedal Celne, cor de chocolate. A mala de viagem era da mesma cor e, enrolado  pega, 
trazia um leno vermelho de seda, que colocou  volta do pescoo. Mesmo de sobrolho franzido e as roupas informais que usara na viagem, continuava a ser uma mulher 
deslumbrante, e as cabeas dos homens voltaram-se quando se dirigiu para a sada do gigantesco avio. Nenhum deles a vira durante a viagem de cinco horas, pois s 
uma vez abandonara o assento para lavar a cara e as mos
antes de servirem o almoo. O resto do tempo passara-o sentada, entorpecida, cansada, a dormitar, tentando compreender uma vez mais por que razo  que se deixara 
convencer a vir para o Oeste.
 - Tenham uma boa estada. Obrigada por voarem...
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A falange de hospedeiras pronunciou as palavras familiares de rajada, e Samantha sorriu-lhes em resposta.
Instantes depois, Samantha encontrava-se no aeroporto de Los Angeles, a olhar em redor, com ar desorientado, sem saber para onde ir e quem viria busc-la, se  que 
tal iria acontecer. Caroline dissera-lhe que seria provavelmente o capataz, Bill King, e, caso ele no pudesse, qualquer outro trabalhador do rancho. "Procura-os, 
no passam despercebidos no aeroporto." Tinham ambas desatado a rir. Num aeroporto repleto de artigos Vuitton e Gucci, sandlias de lam dourado, peles de marta 
e chinchila, pequenos tops e camisas abertas at ao umbigo, seria fcil encontrar um ajudante de rancho com chapu e botas de cowboy e calas de ganga. Mais do que 
pela indumentria, seria fcil. detect-lo pelo modo de andar, a pele bronzeada, o ar pouco  vontade com que se movimentaria entre a multido bem vestida, sofisticada 
e decadente. Por outras visitas que fizera ao rancho, sabia que nada existia de sofisticado ou decadente na gente que l trabalhava. Eram pessoas fortes, simpticas, 
que adoravam o trabalho que faziam e possuam uma ligao quase mtica com a terra que cultivavam, com os companheiros de trabalho e com o gado que criavam com tanto 
carinho. Pertenciam a uma classe que Samantha sempre respeitara, mas, como era bvio, muito diferente daquela a que estava habituada em Nova Iorque. Por instantes, 
enquanto observava o tpico caos do aeroporto, imaginou que, uma vez chegada ao rancho, ficaria contente pela deciso que tomara. Afinal, talvez fosse o mais indicado 
naquele momento.
Enquanto procurava o letreiro que dizia LEVANTAMENTO DE BAGAGEM, sentiu uma mo no brao. Virou-se, com ar perplexo, e deu de caras com o velho cowboy, alto, de 
ombros largos e pele cor de couro de quem ainda se recordava. Estava ali diante dela, os olhos azuis como pedaos de cu de Vero, o rosto enrugado como uma paisagem, 
o sorriso largo. Uma sensao de grande calor exsudou dele quando tocou no chapu e depois a envolveu num fervoroso abrao. Era Bill King, capataz do Rancho Lord 
desde que Caroline o adquirira trinta anos antes. Era um homem de sessenta e poucos anos, de limitada instruo, mas possuidor de vastos conheci-
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mentos, grande sabedoria e at uma enorme afabilidade. Sam sentira-se atrada por ele a primeira vez que o vira, e, juntamente com Barbara, respeitavam-no como um 
tio experiente, tendo-as ele defendido em todas as situaes. Fora com Caroline ao funeral de Barbara e ficara discretamente atrs da famlia, com uma torrente de 
lgrimas a escorrer-lhe pelo rosto. Agora, porm, no havia quaisquer lgrimas, apenas sorrisos, ao mesmo tempo que uma mo enorme a apertava, soltando um pequeno 
grito de alegria.
- Caramba, que felicidade em ver-te, Sam! H quanto tempo  que j no nos vamos? Cinco, seis anos?
Talvez h oito ou nove. - Sam sorriu-lhe, igualmente contente por v-lo e subitamente feliz por ter vindo. Talvez Charlie tivesse razo. O homem alto e bronzeado 
olhava-a com uma expresso que a fazia sentir em casa.
- Pronta? - Bill estendeu-lhe o brao, que Sam agarrou fazendo um sinal afirmativo com a cabea e um sorriso; foram buscar a bagagem que j andava pachorrentamente 
s voltas na passadeira giratria. -  esta? - Olhou-a com ar inquiridor, enquanto segurava a enorme mala de cabedal preta com a lista vermelha e verde da Gucci. 
Pegou na pesada mala de viagem com uma mo e atirou a bolsa por cima do ombro.
-  s, Bill.
O homem franziu o sobrolho.
- Quer dizer que no vais passar muito tempo. lembro-me da ltima vez que estiveste aqui com o teu marido. Devem ter trazido sete malas entre os dois.
Sam riu-se com a lembrana. John trouxera roupa suficiente para um ms em Saint-Moritz.
- A maior parte das malas pertencia ao meu marido. Tnhamos estado em Palm Springs.
Bill concordou afirmativamente com a cabea, sem dizer palavra, encaminhando-se depois para a garagem. Era um homem de poucas palavras mas de emoes fortes. Sam 
observara esse facto muitas vezes nas primeiras visitas que fizera ao rancho. Cinco minutos mais tarde, chegaram  enorme pickup vermelha, arrumaram a mala na parte 
de trs e, quando saam lentamente do parque de estacionamento do Aeroporto Internacional de Los Angeles, Samantha teve a sensao de
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estar prestes a atingir a liberdade. Depois de confinada  vida em Nova Iorque, ao emprego, ao casamento, e por ltimo  confuso de corpos que se comprimiam  sua 
volta no avio e depois no terminal do aeroporto, estava finalmente prestes a sair para espaos abertos, a estar s, a meditar, a ver montanhas, rvores e gado, 
a redescobrir uma vida que quase esquecera. Ao pensar nisso, um prolongado sorriso iluminou-lhe o rosto.
- Ests com ptimo aspecto, Sam. - Bill lanou-lhe uma olhadela  sada do aeroporto e engatou a quarta velocidade quando chegaram  auto-estrada mais adiante.
Sam limitou-se a sorrir e a abanar a cabea.
- No tanto assim. j foi tempo. - Sentia-se comovida com as palavras, ao recordar a ltima vez que o vira com Caroline Lord. Fora uma viagem estranha, uma complexa 
mistura de passado e presente. O rancho no divertira muito John. Enquanto percorriam a auto-estrada, o pensamento de Sam entregou-se s recordaes da ltima viagem. 
Aps o que lhe pareceu um tempo infindo, sentiu a mo do velho capataz no brao e, ao olhar em volta, verificou que a paisagem se alterara radicalmente. No havia 
qualquer evidncia da fealdade plstica dos subrbios de Los Angeles, no se viam quaisquer casas, apenas hectares e hectares de campos de cultivo, os limites de 
enormes ranchos e reservas governamentais desabitadas. O campo  volta era maravilhoso. Sam baixou o vidro e inspirou o ar.
- Meu Deus, o ar at tem um cheiro diferente, no achas?
- Sem dvida. - Bill esboou o habitual sorriso afvel e continuou por momentos a conduzir sem falar. - A Caroline est ansiosa por te ver, Sam. Tem sido uma solido 
para ela desde que a Barb morreu. Fala muito em ti. Sempre duvidei que voltasses. Nunca pensei, depois da ltima vez. - Pouco tempo haviam permanecido no rancho, 
e John no fizera segredo do tdio enorme que o assolara.
- Eu tinha de voltar, mais cedo ou mais tarde. Senti sempre o desejo de passar por aqui quando ia a Los Angeles em negcios, mas nunca tive tempo.
- E agora? Deixaste o emprego, Sam? - Bill tinha uma
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vaga ideia de que o trabalho dela se relacionava com os anncios que via na televiso; porm, no sabia ao certo com quem em particular, e tambm no estava interessado 
em saber. Caroline dissera-lhe que era um bom emprego, fazia-a feliz e era a nica coisa que contava. Sabia, naturalmente, o que o marido fazia. Toda a gente no 
pas conhecia John Taylor, tanto de cara como de nome. Bill King nunca gostara dele, mas sabia muito bem quem ele era.
- No, Bill. No deixei. Estou de licena.
- Por doena? - Bill pareceu preocupado; atravessavam nesse momento as colinas.
Sam hesitou por instantes.
- No propriamente.  mais uma cura de repouso. - Pensou deixar a questo por ali; depois, decidiu contar-lhe. - O John e eu separmo-nos.
Bill franziu o sobrolho mas no disse nada.
- H j algum tempo - prosseguiu Sam. - Uns trs ou quatro meses. - Cento e dois dias, para ser exacta. Contara-os um a um. - No escritrio achavam que eu precisava 
de fazer uma pausa. - Sentiu algum desconforto ao dizer aquilo e, subitamente, viu-se invadida pelo pnico, tal como acontecera nessa manh quando falara com Harvey. 
Iriam realmente despedi-la e no quereriam dizer-lhe ainda? Achariam eles que ela no conseguiria aguentar a presso e que j se encontrava de rastos? Quando olhou 
para Bill King, viu-o fazer um gesto de concordncia com a cabea, como se tudo isto fizesse sentido.
- Acho bem. - A voz de Bill era tranquilizadora. -  difcil aguentarmo-nos quando estamos magoados. - Fez uma ligeira pausa e prosseguiu: - Descobri isso h anos 
quando a minha mulher morreu. Pensei que conseguia aguentar o trabalho no rancho em que trabalhava na altura. Ao fim de uma semana, o patro disse-me: "Bill, meu 
rapaz, vou dar-te um ms de ordenado, vais para casa para junto da tua famlia e volta quando o dinheiro acabar." Sabes que fiquei pior do que uma barata quando 
ele me disse isto, e pensei que estava a tentar dizer-me que eu j no conseguia dar conta do trabalho, mas ele tinha razo. Fui para casa da minha irm, nos arrabaldes 
de Phoenix, fiquei l cerca de seis sema-
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nas; quando voltei, era eu de novo.  impossvel para um homem ou uma mulher manter a serenidade. s vezes tem de se arranjar lugar para a dor.
Bill no lhe contou que tivera trs meses de licena, vinte e cinco anos depois, quando o filho fora morto nos primeiros dias da guerra do Vietname. Durante trs 
meses, ficara to abatido que mal conseguia falar. Caroline  que o ajudara a ultrapassar a dor, escutando os seus desabafos, cuidando dele, quando o encontrara 
finalmente num bar em Tucson e o levara para casa. Fizera-lhe ver que tinha obrigaes no rancho e que j chegava de sofrimento. Berrou com ele como um sargento 
instrutor e encheu-o de trabalho at ele pensar que ia morrer. Gritara, discutira e provocara-o tanto que um dia quase chegaram a vias de facto no pasto da zona 
sul. Depois de saltarem dos cavalos, atirara-se a Bill e este acertara-lhe em cheio no rabo, desatando depois a rir at as lgrimas lhe correrem pelas faces. Ele 
reagira do mesmo modo, na galhofa, ajoelhando-se junto dela para a ajudar a levantar; fora ento que a beijara pela primeira vez.
Esse episdio faria dezoito anos em Agosto, e nunca amara tanto outra mulher. Era a nica que desejara ardentemente, com quem rira, trabalhara e sonhara, e que lhe 
merecia mais respeito do que qualquer homem. Tratava-se de uma mulher muito especial. Caroline Lord no era uma mulher vulgar. Era uma supermulher. Brilhante, divertida, 
atraente, simptica, bondosa, inteligente. Bill nunca compreendera o que ela via num ajudante de rancho. Mas Caroline sabia muito bem o que queria desde o princpio 
e nunca se arrependera da deciso. H quase vinte anos que era mulher de Bill em segredo. j teria tornado a relao pblica se ele deixasse. Bill porm, achava 
que a posio de dona do Rancho Lord era sagrada, e, embora aqui e ali houvesse suspeitas, ningum sabia ao certo que eram amantes; a nica certeza era o facto de 
serem amigos. At Samantha nunca tivera essa certeza, embora ela e Barbara suspeitassem de que algo existia e muitas vezes rissem  socapa, porm sempre sem confirmao.
- Como  que est a Caroline, Bill? - Sam olhou-o com um sorriso temo e viu o olhar dele reflectir um brilho especial.
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- Mais rija do que nunca. No h ningum assim no rancho. - E mais velha. Era trs anos mais velha do que ele. Com vinte anos, fora uma das mulheres mais encantadoras 
e elegantes de Hollywood, casada com um realizador famoso. As festas que dera faziam j parte das lendas dessa poca urea, e a casa que construra nas colinas sobre 
Hollywood pertencia ainda aos itinerrios tursticos. Mudara de donos muitas vezes mas era ainda um edifcio extraordinrio, um monumento de uma era raramente igualada 
em anos posteriores. Caroline enviuvara aos trinta e dois anos, e a sua vida em Hollywood nunca mais fora a mesma. Mantivera-se l durante mais dois anos, mas sentia-se 
amargurada e s; ento, de repente, sem explicaes, desaparecera. Passara um ano na Europa e seis meses em Nova Iorque. Levara um ano a decidir o que realmente 
queria. Um dia, ao fim de vrias horas de viagem, sozinha no seu Lincoln Continental branco, chegara  concluso de que o local onde gostaria de viver era no campo, 
em contacto com a Natureza, longe do champanhe, das festas e da vaidade. Nada disso fazia qualquer sentido depois da morte do marido. Todas essas coisas haviam acabado 
para ela. Estava preparada para algo muito diferente, uma vida completamente nova, uma nova aventura; nessa Primavera, depois de ver todas as propriedades  venda 
num raio de trezentos e vinte quilmetros de Los Angeles, comprara o rancho.
Pagara uma fortuna por ele; em seguida, contratara um conselheiro e os melhores ajudantes da regio. Dera-lhes boas remuneraes e construra-lhes alojamentos confortveis 
que Poucos homens seriam capazes de recusar. Em troca, ansiava obter conselhos sensatos e bons ensinamentos para um dia dirigir o rancho sozinha, e esperava que 
eles todos trabalhassem com tanto afinco como ela. Bill King conhecera-a no primeiro ano, tomara conta do lugar e ensinara-lhe tudo o que sabia. Era um capataz que 
a maioria dos rancheiros no desdenhava ter, e, por puro acaso, acabara por ir parar ao Rancho Lord. E tornara-se at amante de Caroline Lord. A nica coisa que 
Samantha conhecia da histria de Bill no rancho era que ele estava l praticamente desde o incio e ajudara a transformar a explorao num sucesso financeiro.
Era um dos poucos ranchos californianos de gado que
apresentava lucro. Criavam bovinos de raa Angus e vendiam cavalos de raa Morgan. A maioria dos grandes ranchos situava-se no Oeste, na zona central ou mais para 
sul. S uma minoria na Califrnia tinha sorte, sendo muitos deles mantidos com prejuzo pelos donos: habitantes da cidade, corretores de bolsa, advogados e estrelas 
de cinema, que os compravam como se de um jogo se tratasse. Mas o Rancho Lord no era um jogo, nem para Bill King nem para Caroline Lord, nem para os homens que 
l trabalhavam, e Samantha tambm estava ciente de que enquanto l permanecesse teria de desempenhar igualmente certas tarefas. Ningum vinha para o rancho para 
descansar, No seria decente, tendo em vista o afinco com que toda a gente trabalhava.
Quando falara com Sam, Caroline dissera-lhe que tinha falta de dois homens e que a sua ajuda seria bem-vinda. Iam ser umas frias de grande azfama para Samantha, 
disso tinha a certeza. Muito provavelmente desempenharia pequenas tarefas nos estbulos, tomaria conta de alguns cavalos, e talvez ajudasse a limpar algumas cavalarias. 
Sabia que seria pouco provvel que fizesse muito mais. No que no fosse capaz. H muito que Samantha provara a sua habilidade no dorso de um cavalo. Aos cinco anos 
j cavalgava, aos sete participava em concursos hpicos, aos doze entrara no Madison Square Garden, e obtivera trs fitas azuis e uma vermelha; passara depois para 
os concursos de saltos e, durante alguns anos, alimentara o sonho dos jogos Olmpicos, entregando-se a essa prtica todos os bocadinhos livres, j com o seu prprio 
cavalo. Porm, logo que entrara para a faculdade, deixara de ter tempo suficiente, o sonho dos jogos Olmpicos desvanecera-se, e nos anos que se seguiram praticamente 
nunca tivera ocasio para se entregar ao seu desporto favorito. Essa oportunidade apenas surgia quando visitava o rancho com Barbara, ou quando por mero acaso, conhecia 
algum que possusse cavalos. No entanto, sabia que como "rapariga da cidade", seria pouco provvel que os ajudantes a aceitassem a trabalhar com eles, a menos que 
Caroline interviesse.
- Tens andado muito a cavalo ultimamente? - Como se lhe lesse os pensamentos, Bill inclinou-se para ela com um sorriso.
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Sam abanou a cabea.
Sabes que h j uns dois anos que no monto um cavalo, Bill?
- Amanh por esta hora vais estar toda dorida.
- Provavelmente. - Trocaram um mudo sorriso. - Mas talvez me sinta bem.  uma dor agradvel. - joelhos cansados e barrigas das pernas doridas, uma dor diferente 
daquela que sentira nos ltimos meses.
- Temos palominos novos, um malhado tambm novo e uma srie de morgans, que a Caroline comprou este ano. E depois... - Bill quase grunhiu ao prosseguir: - H um 
cavalo doido. No me perguntes para que  que ela o comprou; parece mais um cavalo de um, dos filmes do marido. - Olhou para Sam com ar desaprovador. - Comprou um 
puro-sangue. Um cavalo extraordinrio. Mas no precisamos de um cavalo daqueles no rancho. Parece um cavalo de corrida... Ela vai matar-se. No h a menor dvida. 
j lhe disse.
Bill olhou para Sam e ela sorriu. Imaginava a elegante Caroline montada no seu puro-sangue a correr pelos campos, como se ainda fosse jovem. Iria ser maravilhoso 
rev-la e estar novamente no rancho. Samantha sentiu-se invadida por uma onda de gratido, feliz por ter vindo. Olhou de soslaio para Bill enquanto percorriam os 
ltimos quilmetros da viagem at ao rancho, onde ele vivia h mais de duas dcadas. Samantha sentia-se curiosa por saber em que ponto se encontrava a relao de 
Bill com Caroline. Aos sessenta e trs anos, era um homem ainda viril e elegante. Os ombros largos, as Pernas compridas, os braos fortes, as mos poderosas e os 
olhos azuis e brilhantes davam-lhe uma aura de fora e estilo. Nele, o chapu de cowboy ficava-lhe maravilhosamente bem, assim como as calas de ganga, que pareciam 
ter sido moldadas para as suas pernas. Nenhuma daquelas peas de vesturio lhe dava um ar banal ou ridculo. As rugas do rosto apenas ajudavam a realar os traos 
bem vincados, e a voz roufenha de bartono ajudava a compor a imagem. Media,  vontade, um metro e noventa sem o chapu; com o chapu, era, literalmente, uma torre.
Ao passar a entrada principal do rancho, Samantha soltou um suspiro de alvio - e de dor - em relao a muitas sen-
saes. A estrada estendia-se ao longo de mais alguns quilmetros depois da placa que dizia RANCHO LORD, com um bonito L gravado, usado tambm no ferro. Samantha 
sentia-se uma criana ansiosa, contendo a respirao,  espera de ver a casa surgir subitamente  sua frente; faltavam apenas dez minutos at  ltima curva da estrada 
particular. Finalmente, l estava ela. Parecia uma velha casa de plantao, bonita, grande, branca, com persianas azul-escuras, uma chamin de tijolo, um alpendre 
largo, degraus amplos, rodeada de canteiros de flores, que se transformavam numa orgia de cores no Vero; para l dela, uma autntica muralha de gigantescas e graciosas 
rvores. Ao fundo da encosta, havia um salgueiro e um pequeno lago, coberto de nenfares e repleto de rs. A pouca distncia, encontravam-se os estbulos e os alojamentos 
dos trabalhadores. Poucos ranchos eram to bem tratados, to bem dirigidos... e nenhum se podia vangloriar de ter Caroline Lord ou Bill King  sua frente.
- Ento, minha menina, que tal te parece? - A pick-up parara e, como sempre fazia, Bill olhou em redor, com bvio orgulho. Ajudara a fazer do Rancho Lord algo especial, 
e era o que ele efectivamente era, sobretudo para si. - Acha-lo diferente?
- No. - Sam sorriu enquanto olhava em volta na escurido. A Lua ia alta, a casa encontrava-se bem iluminada, havia luzes acesas nos alojamentos dos homens e no 
salo principal onde comiam e jogavam cartas, e uma luz forte iluminava perto dos estbulos. Aparentemente, pouca coisa mudara.
- H alguns melhoramentos tcnicos, mas no so vis-
veis.
- Folgo em saber. Receava que estivesse tudo mudado. - Nada disso. - Bill buzinou duas vezes, a porta do edifcio principal abriu-se e uma mulher alta, magra, de 
cabelos brancos, surgiu na entrada, sorrindo primeiro para Bill e depois para Sam. Houve apenas uma hesitao momentnea ao olhar para a jovem. Ento, em passo ligeiro, 
correu pelas escadas abaixo, tomou Samantha nos seus braos e deu-lhe um abrao apertado.
- Bem-vinda a casa, Samantha. Bem-vinda a casa. - De
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repente, enquanto o cheiro do perfume de rosas de Caroline Lord se espalhava no ar, Sam sentiu a densa cabeleira branca roar-lhe a face, a . o mesmo tempo que os 
olhos se inundavam de lgrimas e se via tomada pela sensao de ter chegado realmente a casa. Instantes depois, as duas mulheres separaram-se, Caroline deu um passo 
atrs e olhou para Sam com um sorriso nos lbios. - Meu Deus, ests bonita, Sam. Mais bonita do que da ltima vez.
- Ests louca. Tu  que ests com um ptimo aspecto. - A mulher mais velha era alta, magra e estava mais aprumada do que nunca, os olhos eram brilhantes, e todo 
o corpo irradiava vida. Estava to bonita como da ltima vez que Sam a vira com cinquenta e tal anos. Agora, aos sessenta e seis, mantinha a mesma beleza; apesar 
das calas de ganga e da camisa de homem de algodo, o seu estilo era inconfundvel. Usava um leno azul-vivo ao pescoo e um velho cinto ndio  cintura, e as botas 
de cowboy eram de um verde-escuro em tom de jade. Samantha olhara para baixo, por acaso, enquanto seguia Caroline pelos degraus e murmurou num tom deleitado: - Oh, 
meu Deus, so lindas, Caroline!
- So, no so? - Caroline compreendera imediatamente e olhou para elas com um sorriso acrianado. - Mandei faz-las de propsito.  uma extravagncia da idade, 
mas, que raio, pode ser a minha ltima oportunidade.
Sam ficou impressionada com aquele tipo de referncia e achou curioso Caroline pensar assim agora. Sem dizer palavra, entrou, enquanto Bill a seguia com a bagagem. 
Na entrada, sobressaam uma elegante mesa de estilo rstico americano, um candeeiro em bronze e um enorme tapete de cores claras feito  mo. Na sala de estar, mais 
 frente, havia uma grande quantidade de lenha a arder na lareira e uma srie de confortveis cadeiras de estofos azul-escuros em volta. Era uma cor tambm visvel 
num tapete antigo, este com flores de cores vivas feitas  mo. A sala estava decorada em tons azuis, vermelhos e verdes, com um esplendor que parecia ser o reflexo 
perfeito da prpria Caroline, e tudo era realado pelos muitos mveis antigos feitos de madeiras nobres. Havia livros com encadernaes em couro, peas de bronze 
por todo o lado, um porta-toros em frente da lareira, castiais, vasos, alfaias e
candelabros de parede que pareciam delicadas velas. Era uma sala maravilhosa, decorada com elegncia e carinho, muito ao jeito de Caroline, perfeitamente enquadrada 
no rancho. Ficaria bem na Town & Country ou na House & Garden, mas que, naturalmente, Caroline nunca exibira. Era a sua casa e no um local pblico e, depois dos 
anos de muita exposio que passara em Hollywood, defendia agora afincadamente a sua privacidade. A ponto de ter virtualmente desaparecido uns vinte e cinco anos 
antes.
- Queres mais lenha, Caroline? - Bill olhava-a do alto do seu metro e noventa, os cabelos brancos como neve revelando que tinha o chapu de abas largas na mo.
Caroline sorriu e abanou a cabea, com um ar mais jovem que nunca, o brilho no olhar de Bill reflectido no dela,
- No, obrigada, Bill. j chega para o resto da noite.
- ptimo. Ento, at amanh, minhas senhoras. - Bill lanou um sorriso afvel a Sam, fez uma vnia respeitosa a Caroline, deixou a sala de estar com passadas largas 
e saiu. Fechou devagarinho a porta atrs de si e, tal como j acontecera com Barbara uma centena de vezes, durante as visitas, quando andavam na faculdade, Sam concluiu, 
uma vez mais, que afinal de contas, no havia qualquer relao entre os dois. Caso contrrio, no se despediriam assim. Os cumprimentos nunca iam alm de cordiais 
gestos de cabea, sorrisos fortuitos e saudaes calorosas, e as conversas circunscreviam-se ao rancho. Nada entre eles evidenciava outro tipo de relao, embora 
quando se olhava para eles se tivesse a sensao de existir um acordo secreto entre os dois, ou como Sam referira uma vez a Barbara: " como se eles fossem realmente 
marido e mulher.
Antes que Samantha pudesse continuar com as suas cogitaes, Caroline pousou um tabuleiro perto da lareira, servil, uma chvena de chocolate quente, destapou um 
prato de sanduches e fez sinal a Sam para se sentar.
- V l, Sam, senta-te e pe-te  vontade. - Quando Sam se instalou, Caroline lanou-lhe novo sorriso. - Bem-vinda a casa.
Pela segunda vez nessa noite, os olhos de Sam ficaram inundados de lgrimas e estendeu a mo, comprida e graciosa, para Caroline. Deram as mos por instantes, enquanto 
Sam apertava os dedos ossudos com fora.
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- Obrigada por me teres deixado vir para aqui.
No digas isso. - Caroline soltou a mo e passou-lhe o chocolate quente. - Fiquei feliz por me teres telefonado. Sempre nutri uma grande amizade por ti... - Hesitou, 
olhou para o lume e depois para Sam: - To grande como a que nutri pela Barb. - Soltou um ligeiro suspiro. - Perd-la foi como perder uma filha. Custa a acreditar 
que j passaram dez anos. - Sam fez um gesto de concordncia com a cabea, depois Caroline sorriu-lhe. - Sinto-me feliz por no te ter perdido tambm. Adoro as tuas 
cartas, mas nos ltimos anos tenho-me perguntado se voltarias algum dia.
- Eu queria, mas... andei ocupada.
- Queres contar-me tudo o que se passou, ou ests muito fatigada? - O voo durara quatro horas e a viagem de carro trs. Pela hora da Califrnia, eram apenas oito 
e meia, mas pela hora de Sam, em Nova Iorque, eram onze e meia da noite. Nem sequer estava cansada, apenas feliz por ver a velha amiga.
- No estou nada fatigada... S no sei por onde comear.
- Ento, comea pelo chocolate quente. Depois, as sanduches. Finalmente, a conversa. - As duas mulheres trocaram novo sorriso e Sam no resistiu a esticar novamente 
a mo, que Caroline apertou ternamente. - Sabes como  bom ter-te aqui de novo?
- Melhor  a sensao de estar de volta. - Sam deu uma dentada numa sanduche e recostou-se no sof com um largo sorriso. - O Bill disse-me que tens um novo puro-sangue- 
 realmente uma beleza?
- Oh, meu Deus, Sam, se ! - E deu nova gargalhada.
 melhor at do que as minhas botas verdes. - Caroline olhou para o cho, divertida, depois para Sam com os olhos a cintilar. -  um garanho com tanta genica que 
s a custo consigo mont-lo. O Bill tem medo que ele me mate, mas, quando o vi no consegui resistir. O filho de um dos rancheiros aqui da zona comprou-o em Kentucky, 
depois precisou de dinheiro rpido e vendeu-mo.  um pecado mont-lo Por prazer, mas no consigo evitar. Sinto necessidade. Pouco me importa se sou uma velha artrtica 
ou se pensam que es-
tou louca, ele  o nico cavalo na minha vida que quero montar at morrer.
Sam encolheu-se ao ouvir as referncias  morte e  velhice. Nesse aspecto, tanto Caroline como Bill haviam mudado desde a ltima vez. No entanto, a verdade  que 
estavan1 os dois j na casa dos sessenta e talvez isso fosse uma preocupao normal da idade. Era impossvel imagin-los como "velhos", elegantes, activos e fortes 
como eram. Todavia, era, obviamente, a imagem que ambos tinham de si prprios.
- Como  que se chama?
Caroline soltou uma gargalhada, levantou-se e encaminhou-se para a lareira, as mos estendidas  procura de calor.
- Black Beauty, naturalmente. - Caroline voltou-se para Sam, os finos traos delicadamente iluminados pelo lume, mais parecendo um camafeu cuidadosamente gravado 
ou uma figura de porcelana.
- J te disseram como ests bonita, tia Caro? - Era o nome por que Barbara a tratara, e desta vez havia lgrimas nos olhos de Caroline.
- Que Deus te abenoe, Sam! Ests mais cega do que nunca.
- Uma ova  que estou! - Sam soltou um largo sorriso e mordiscou o resto da sanduche antes de beber um gole do chocolate quente que Caroline servira de um termo. 
Era a mesma anfitri afvel que Samantha encontrara aquando da primeira visita ao rancho e das lendrias festas em Hollywood, em 1935. - Bem... - O rosto de Sam 
tomou lentamente um ar srio. - Suponho que queiras saber o que se passou com o John. Acho que pouco mais h a acrescentar quilo que te contei a outra noite ao 
telefone. Mantinha um caso com outra mulher, engravidou-a, deixou-me, casaram e agora esperam o nascimento do primeiro filho.
- Dizes isso com tanta ligeireza. - Aps uma pausa perguntou: - Odeia-lo?
- s vezes. - A voz de Sam transformou-se num murmrio. - A maior parte do tempo, sinto saudades dele e pergunto a mim prpria se se encontra bem. Gostava de saber 
se ela tem conhecimento de que ele  alrgico a meias de l, se algum lhe compra o caf preferido, se est doente ou bem
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de sade ou feliz ou alucinado, se se lembra de tomar o medicamento para a asma numa viagem... se... se est arrependido... - Fez uma pausa, depois olhou para Caroline, 
ainda de p, junto da lareira. -  uma loucura, no achas? O homem abandonou-me, enganou-me, desfez-se de mim, e agora nem sequer me telefona a saber como  que 
estou, e eu aqui preocupada com o facto de poder ter comicho nos ps pelo facto de a mulher ter cometido o erro de lhe comprar meias de l. No  uma loucura? - 
Fechou os olhos com fora. Abanou ligeiramente a cabea, os olhos cerrados, como se no quisesse ver as imagens que danavam na sua cabea h muito tempo. - Meu 
Deus, Caro, foi uma coisa horrvel e com demasiada repercusso pblica. - Abriu os olhos. - No leste nada sobre o assunto?
- Li. Uma vez. Uma mexeriquice sobre o facto de estarem separados. Tive a esperana de que fosse mentira, de que se tratasse apenas de uma notcia sensacionalista. 
Sei como essas coisas so, como se lanam boatos sem o mnimo de fundamento.
- Este... tinha. Nunca os viste na televiso?
- Nunca.
- Antes, tambm no os via. - Samantha ficou com um ar pesaroso. - Mas agora vejo.
- Tens de parar com isso.
Samantha fez um gesto de concordncia com a cabea.
Pois tenho. H muitas coisas com que tenho de parar.  por isso que vim para c.
- E o teu emprego?
- No sei. Consegui mant-lo apesar de tudo. Pelo menos, acho que sim, se estavam a falar a srio quando me vim embora. Mas para te dizer a verdade, no sei como 
consegui. Parecia um zumbi. - Sam deixou cair a cabea entre as mos com um suave suspiro. - Talvez tenha sido bom abandonar Nova Iorque. - Sentiu a mo de Caroline 
no ombro, pouco depois
- Tambm acho, Sam. Talvez o rancho te d tempo para sarar as feridas e arrumar as ideias. Ficaste tremendamente traumatizada. Passei pelo mesmo quando o Arthur 
morreu. Nunca imaginei ultrapassar a dor. Tambm julguei que ela
- me matasse. No  a mesma coisa que te aconteceu a ti, mas,  sua maneira, a morte  uma rejeio. - Franziu' ligeiramente o sobrolho ao proferir as ltimas palavras, 
mas um sorriso aflorou-lhe novamente aos lbios. - A tua vida no est acabada, Samantha. Nalguns aspectos, ela comeou. Que idade tens?
- Trinta - murmurou Samantha. Pronunciou a palavra como se quisesse dizer oitenta e Caroline soltou uma gargalhada, um som delicado e cristalino que ecoou na bonita 
sala.
- Ests  espera que fique impressionada?
- Que sejas compreensiva - disse Samantha com um largo sorriso.
- Na minha idade,  pedir muito. Invejosa, talvez seja a palavra mais adequada. Trinta. - Caroline olhou com um ar sonhador para o lume. - O que eu no daria por 
essa idade!
- O que eu no daria por ter o teu aspecto e que se lixe a idade!
- Bajuladora, bajuladora... - Mas era bvio que a conversa lhe agradava. Voltou-se de novo para Sam, com uma questo no olhar. - Houve algum desde que isso aconteceu?
Sam abanou a cabea de imediato.
- Porque no?
- Por duas ptimas razes. Ningum decente me convidou e eu no quero. Ainda me sinto casada com o John Taylor. Se estivesse com outro homem, seria uma vigarice. 
No me sinto preparada. E sabes uma coisa? - Sam olhou com um ar sombrio para Caroline. - No sei se alguma vez me sentirei. No tenho vontade.  como se uma parte 
de mim tivesse morrido quando ele saiu de casa. No quero saber de nada. Estou-me nas tintas se no voltar a amar algum. No me sinto digna de ser amada. No quero 
ser amada por ningum... s por ele.
- Bem,  melhor fazeres alguma coisa, Samantha. - Caroline olhou-a com um ar desaprovador. - Tens de ser realista, no podes andar de um lado para o outro como um 
zumbi. Tens de viver. Foi o mesmo que me disseram. leva o seu tempo, eu sei. H quantos meses  que andas assim?
- Trs e meio.
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- Espera mais seis. - Caroline esboou um leve sorriso. E se no estiveres loucamente apaixonada, faremos algo radical.
- Como o qu, por exemplo? Uma lobotomia? - Samantha exibia um ar srio quando bebeu outro gole de chocolate quente.
- Pensaremos em qualquer coisa, mas acho que no haver necessidade.
- Nessa altura j estarei de novo na Madison Avenue, a matar-me com um dia de trabalho de quinze horas.
-  isso que queres? - Caroline olhou-a com um ar triste.
- No sei. Achava que sim. Mas agora, ao olhar para trs, talvez andasse a competir com o John. Por outro lado, tenho grandes hipteses de chegar a directora criativa 
da agncia, e h muito ego envolvido nisso.
- Gostas do trabalho?
Samantha fez um sinal afirmativo com a cabea e sorriu.
- Adoro. E desviou o olhar para o lado com um tmido sorriso. Mas j houve alturas em que preferiria este tipo de vida, Caro... - Hesitou por instantes. - Posso 
montar o Black Beauty amanh? - Ficou de repente com um ar extremamente jovem.
Caroline abanou lentamente a cabea.
- Ainda no, Sam.  melhor ambientares-te num dos outros. H quanto tempo  que no montas um cavalo?
- H uns dois anos.
- Ento no queiras recomear com o Black Beauty. Porque no?
- Porque estars de rabo no cho ainda antes de chegar ao porto. No  um cavalo fcil de montar, Sam. - Depois, num tom mais afvel: - Nem mesmo para ti, desconfio. 
- Caroline vira anos antes que Samantha era uma cavaleira esplndida, mas sabia muito bem que Black Beauty no era um cavalo qualquer. Dera-lhe uma trabalheira tremenda 
e pusera em respeito o capataz e a maioria dos ajudantes do rancho. - Espera algum tempo. Prometo que te deixo mont-lo quando te sentires novamente segura de ti. 
- Ambas sabiam que Sam estaria apta em pouco tempo. Passara demasiado tempo com
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cavalos para ficar enferrujada. - Espero que queiras andar a cavalo a srio. O Bill e eu passmos as ltimas trs semanas s voltas com a papelada do rancho. Temos 
muitas coisas para pr em ordem no final do ano. Alm disso, faltam-nos dois homens. Podemos aproveitar uma ajuda suplementar. Se quiseres, podes ir com os homens.
- Ests a falar a srio? - perguntou, quase aturdida.
Deixas-me fazer isso? - Os enormes olhos azuis de Sam iluminaram-se com o brilho do lume, os cabelos louros parecendo incandescentes.
- Claro que deixo. Ficar-te-ia agradecida. - Depois, com um sorriso afvel: - s to competente como eles. Ou ficars, ao fim de um ou dois dias. Achas que aguentarias 
um dia inteiro na sela logo de incio?
- Com certeza que sim! - Samantha abriu um sorriso de orelha a orelha, enquanto Caroline se encaminhava para ela com um ar de afecto estampado no olhar.
- Ento vai para a cama, minha jovem. Tens de estar a p s quatro. Estava certa de que irias dizer que sim. Portanto, pedi ao Tate Jordan para esperar por ti. Eu 
e o Bill temos de ir  cidade. - Olhou para o relgio. Era um relgio simples, que Bill King lhe oferecera no Natal. H trinta anos atrs, os nicos relgios que 
lhe adornariam o pulso seriam suos e cravejados de diamantes. Possua um, especial, que o marido lhe oferecera em Paris, da Cartier. Mas h muito que no o usava. 
s vezes custava-lhe a acreditar que tivera outra vida. Olhou para Sam com um terno sorriso nos lbios e abraou-a com firmeza. - Bem-vinda a casa, querida!
- Obrigada, tia Caro!
Em passo lento, as duas mulheres comearam a percorrer o vestbulo. Caroline sabia que no havia problema com o lume na lareira; deixara o tabuleiro para a mexicana 
que vinha todas as manhs ao rancho para limpar a casa.
Caroline conduziu Samantha at ao quarto e viu-a olhar, com ar deleitado, para os aposentos. Era um quarto diferente daquele que partilhara com Barbara nas suas 
estadas de Vero. H muito que Caroline transformara esse quarto num escritrio. Sentira uma mgoa imensa ao lembrar-se da jovem que vivera a, que se tornara mulher 
no meio dos folhos cor-
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-de-rosa daquele quarto. Este era completamente diferente. Tambm feminino, mas todo em branco. Branco e cheio de folhos e franzidos, desde a cama com dossel s 
almofadas feitas  mo,  espreguiadeira de verga. Apenas a bonita colcha de retalhos em cima da cama apresentava algumas cores, uma mescla de cores vivas, vermelho, 
azul e amarelo, tudo cuidadosamente tecido num padro rstico. Havia almofadas a condizer em cima de duas confortveis cadeiras de verga perto da lareira. Na grande 
mesa tambm de verga, encontrava-se uma enorme jarra de flores multicolores. Samantha teria uma vista magnfica das colinas. Era um quarto em que apetecia passar 
horas, se no mesmo anos. Caro ainda mantinha alguns ademanes de Hollywood. Ainda decorava todos os quartos com os toques especiais e infinito bom gosto que haviam 
caracterizado os anos passados em Hollywood.
- No parece um quarto de ajudante de rancho. - Sam riu-se, ao mesmo tempo que se sentava na beira da cama e olhava em redor.
- Pois no. Mas se preferires, estou certa de que qualquer um dos homens no se importaria de partilhar o seu beliche.
Riram-se uma para a outra, beijaram-se e depois Caroline fechou suavemente a porta. Samantha conseguia ouvir os taces das botas de cowboy ecoar ao fundo do corredor, 
no outro extremo da casa, onde Caro instalara o seu prprio apartamento: um quarto amplo, um pequeno gabinete, um quarto de vestir, uma casa de banho, tudo decorado 
com cores vivas, a colcha a condizer; aqui conservava ainda algumas peas de arte compradas h muito. Havia um belo quadro impressionista. As outras peas tinham 
sido adquiridas na Europa, algumas com o marido, outras depois de o perder. Eram os, nicos tesouros que guardava da sua antiga vida.
No quarto, Sam desfazia a mala, com a sensao de haver entrado, no espao de poucas horas, num mundo completamente diferente. Seria possvel ter estado em Nova 
Iorque nessa manh dormido no apartamento e falado com Harvey no escritrio? Como se conseguia chegar at to longe em to pouco tempo? E ainda mais incrdula se 
sentiu ao ouvir os cavalos a relinchar ao longe e ao deixar o vento de Inverno fustigar-lhe o rosto quando abriu a janela e espreitou l para fora. A, a paisagem 
era iluminada pela Lua, que sobressaa no imenso cu estrelado. Era um espectculo esplendoroso. Uma enorme satisfao por estar naquele local com Caroline... e 
longe de Nova Iorque, apoderou-se de Samantha. Ali reencontrar-se-ia consigo mesma. Fora a melhor opo que tomara. Quando saiu da janela, ouviu algures, ao longe, 
o barulho de uma porta a fechar-se, nas proximidades do quarto de Caroline; por instantes, ficou curiosa por saber, tal como Barbie tambm ficara h muiito tempo, 
se seria Bill King.
O despertador sobre a mesa-de-cabeceira tocou s quatro, na manh seguinte. Sam resmungou algo ao ouvi-lo e estendeu o brao para o desligar. Ao faz-lo, sentiu 
uma ligeira brisa nos dedos e apercebeu-se de imediato de que havia algo de diferente. Abriu um olho, olhou em volta e verificou que no se encontrava em casa. Pelo 
menos, na sua. Olhou em volta uma vez mais, completamente confusa; depois, dirigiu o olhar para o dossel branco franzido por cima dela e ento compreendeu. Encontrava-se 
no rancho de Caroline Lord, na Califrnia, e nessa manh ia andar de cavalo com os outros ajudantes. A ideia parecia menos atraente do que na noite anterior. A perspectiva 
de saltar da cama, tomar um duche, sair de casa antes mesmo de tomar o pequeno-almoo, e s depois de enfrentar um prato a abarrotar de ovos e salsichas, saltar 
para cima de um cavalo, muito provavelmente ainda antes das seis, era aterradora. No entanto, fora para isso que viera para o Oeste e, embora ponderasse a hiptese 
de no acordar a horas, sabia que no o podia fazer. No cairia nas boas graas dos homens. Alm disso, acompanhar os trabalhadores era um privilgio que Caroline 
lhe concedera. Se queria ser respeitada pelos ajudantes do rancho, teria de se mostrar forte, zelosa, inteligente, hbil com o cavalo e apta a montar, como qualquer 
um deles.
No se sentiu muito encorajada quando espreitou a escurido depois do duche e viu que uma chuva miudinha cobria os campos. Vestiu um par de calas de ganga azuis, 
uma camisa de botes branca, uma camisola grossa de gola alta, e calou meias de l e as botas de montar que usava religiosamente quando andava a cavalo na zona 
este. Eram botas feitas  mo, botas Miller's, no exactamente as mais adequadas para se usar num rancho; iria comprar um par de botas de cowboy nesse fim-de-semana, 
mas entretanto teria de remediar-se. Apanhou os longos cabelos louros e fez um rabo-de-cavalo, salpicou o rosto com gua fria, vestiu uma velha parka azul que usava 
para esquiar e calou um par de luvas de pele casta-
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nhas. Os dias de Halston, Bill Blass e Norell pertenciam ao passado. A elegncia era secundria, s o calor e o conforto importavam. Sabia que quando regressasse 
ao quarto nessa noite, teria todos os msculos a latejar, todas as articulaes doridas, o rabo dormente, os joelhos esfolados, os olhos vermelhos do vento, um ardor 
no rosto, as mos apertadas na posio em que as tivera todo o dia a segurar as rdeas. Saber isso no era propriamente um incentivo para se levantar. Saiu do quarto 
e viu uma nesga de luz por baixo da porta de Caroline. Pensou em dar os bons-dias, mas era uma hora imprpria para perturbar quem quer que fosse, e continuou em 
bicos de ps at  porta principal. Fechou-a devagarinho atrs de si, ps o capuz da parka na cabea e apertou-o, a chuva miudinha a cair, as botas a fazerem ligeiros 
rudos nas poas de gua que j se haviam formado.
Teve a sensao de levar uma eternidade a chegar ao salo principal, onde os homens comiam e onde alguns se juntavam  noite para jogar bilhar ou cartas. Era um 
edifcio amplo, pintado h pouco tempo, cheio de recantos, com telhado de vigas, uma chamin alta em tijolo, um gira-discos, um televisor, vrias mesas de jogo e 
uma bonita mesa de bilhar antiga. Como Sam sempre soubera, Caroline tratava bem os seus homens.
Por instantes, ao chegar  porta, Sam sentiu a mo gelar ao tocar na maaneta e perguntou a si mesma se sabia o que estava a fazer. Preparava-se para invadir o retiro 
dos homens, partilhar o pequeno-almoo e o almoo com eles, trabalhar ao lado deles e fingir ser um deles. Que pensariam da intruso? De repente, Samantha sentiu 
os joelhos a ceder, interrogando-se sobre se Caroline e Bill os teriam avisado; e ali ficou, com pavor de entrar. Parada  chuva, hesitante, com a mo na maaneta 
da porta, ouviu uma voz atrs dela murmurar:
- Entra, porra, est frio!
Sam voltou-se, perplexa perante a voz inesperada, e de' de caras com um homem entroncado, de cabelos castanhos ' olhos escuros, aproximadamente da mesma altura e 
idade que ela. Pareceu to surpreendido quanto ela, levou rapidamente a mo  boca perante o erro e o rosto desfez-se num largo sorriso.
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-  a amiga de Miss Caroline, no ?
Sam fez um sinal afirmativo, com a cabea sem dizer palavra, tentando esboar um sorriso.
Desculpe... mas podia abrir a porta? Est frio!
- Oh... - Sam abriu a porta. - Desculpe. Eu s... Ela... ela falou de mim? - As faces rosadas de Sam ficaram coradas devido ao embarao e  chuva gelada.
- Claro. Bem-vinda ao rancho, Miss. - O homem sorriu e entrou, com ar acolhedor mas com pouca vontade de dizer mais alguma coisa. Cumprimentou dois ou trs dos outros 
ajudantes e dirigiu-se  enorme cozinha aberta, saudou o cozinheiro, agarrou numa chvena de caf e numa tigela de papas de farinha de trigo.
Samantha reparou ento que a sala estava cheia de homens parecidos com o que acabara de entrar, todos de calas de ganga azuis, casacos robustos e camisolas grossas, 
os chapus pendurados em cabides na parede, o barulho das botas no soalho a ecoar pela sala. Havia mais de vinte homens nessa manh, a conversar em grupos ou a beber 
o caf sozinhos. Meia dzia estava j sentada na comprida mesa, a comer bacon com ovos ou papas de cereais, ou a acabar uma segunda ou terceira chvena de caf. 
Para onde quer que olhasse, havia um homem embrenhado no seu ritual matinal, no seu mundo de homem, prestes a comear o trabalho de homem, e pela Primeira vez na 
sua vida Samantha sentiu-se completamente deslocada. Corou de novo ao dirigir-se, com ar hesitante, em direco  cozinha, lanou um sorriso nervoso para dois dos 
homens enquanto enchia uma chvena de caf, depois tentou desaparecer num dos extremos da sala.
A Primeira vista, no havia um s rosto de que se lembrasse. Muitos deles eram jovens e, provavelmente, relativamente novos ali, e s dois ou trs deles tinham ar 
de trabalhar h muito tempo. Um era entroncado, de cinquenta e poucos anos, extremamente parecido com Bill King. Possua a mesma constituio fsica, mas os olhos 
no eram to afveis, nem o rosto to simptico. Olhou s uma vez para Samantha, depois virou-lhe as costas para dizer qualquer coisa a um jovem sardento de cabelos 
ruivos. Riram-se e depois atravessaram a sala para irem juntar-se a dois outros homens noutra mesa.
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Num momento de parania, Samantha interrogou-se se no seria ela o motivo do riso, se no fora uma loucura vir at ali, representando ainda uma loucura maior o facto 
de querer andar a cavalo com os homens. Havia um enorme contraste com os dias que passara ali com Barbara, quando andavam por todo o rancho. Por um lado, eram muito 
jovens e bonitas e era um deleite para todos os homens v-las andar a cavalo por todo o lado. Desta vez, porm, era diferente. Samantha tentava fazer-se passar por 
um deles, coisa que eles nunca tolerariam, se calhar nem dando pela sua presena.
- No vai tomar o pequeno-almoo? - A voz a seu lado era roufenha mas gentil, e Sam deu de caras com outro homem do tempo do velho capataz, mas este no tinha um 
ar to desagradvel como o primeiro. Depois de o mirar, disse com voz entrecortada:
- Josh! Josh! Sou eu, a Sam! - Encontrara-se no rancho,
todos os Veres em que ela viera com Barbara, sendo ele,
prprio a tomar conta delas. Barbara contara-lhe que fora
com extrema gentileza que ele a ensinara a andar a cavalo
quando era pequena. Sam recordou que ele tinha mulher e
seis filhos algures. Mas nunca os vira no rancho. Tal como
a maioria dos homens com quem trabalhava, estava habituado
a viver a vida num mundo exclusivamente masculino. Era
uma vida estranha e solitria, passada entre outros homens
igualmente ss. Uma sociedade de solitrios que se juntavam
uns aos outros, como que  procura de conforto. Josh olhava
agora para Samantha, confuso por instantes; depois, reconheceu-a e esboou um sorriso afvel. Sem hesitar, estendeu os
braos e abraou-a, e Sam sentiu a barba a arranhar-lhe a face.
- Raios me levem!  a Sam! - Josh soltou um pequeno grito de alegria e riram os dois. - Por que raio  que no adivinhei logo quando Miss Caroline nos falou da sua 
"amiga"? - Deu uma palmada na perna, com um sorriso de Ore' lha a orelha. - Como  que tens passado? Meu Deus, est com ptimo aspecto!
Sam, ainda meio ensonada, mal acreditava no que ouvia, o corpo envolto em roupas velhas e grosseiras.
- Tambm tu! Como  que esto a tua mulher e os teus filhos?
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- J cresceram e saram de casa, graas a Deus. Excepto um e a minha mulher. - Baixou a voz, como que a querer contar-lhe um segredo terrvel. - Agora vivem aqui 
no rancho. Miss Caroline disse que no estava certo eles viverem na cidade e eu aqui.
- Folgo em saber isso.
Josh revirou os olhos em resposta e desataram a rir.
- No vais tomar o pequeno-almoo? Miss Caroline disse-nos que uma pessoa amiga de Nova Iorque vinha ajudar-nos. - Josh esboou um sorriso malicioso por instantes. 
- Devias ter visto as caras deles quando ela lhes disse que essa pessoa amiga era uma mulher.
- Devem ter ficado apavorados - comentou Samantha, num tom sarcstico, enquanto se encaminhava para a cozinha. Estava a morrer por um caf e a comida comeava a 
cheirar bem, agora que encontrara Josh.
De sbito, enquanto Sam enchia uma enorme tigela de papas de aveia, Josh inclinou-se para ela em ar de conspirao.
- Que ests a fazer aqui, Sam? No ests casada?
- J no.
Josh abanou a cabea com ar circunspecto; Sam no lhe deu mais nenhuma informao e dirigiram-se para uma das mesas. Durante bastante tempo, enquanto Sam comia as 
papas de aveia e mordiscava uma torrada, ningum se lhes juntou. Finalmente, a curiosidade levou a melhor sobre dois ou trs dos homens. Josh apresentou-os um a 
um: eram mais novos do que Sam e possuam o ar rude de quem trabalhava arduamente ao ar livre. No era, de modo algum, uma profisso fcil, especialmente naquela 
altura do ano. Fora assim que Bill King ganhara as rugas no rosto, as rugas que lhe davam um ar de esttua de traos bem vincados e que o tempo e as foras da natureza 
haviam escavado ao longo de cinquenta anos em cima de um cavalo nos diferentes ranchos onde trabalhara. O rosto de Josh no era muito diferente e era evidente que 
muitos deles ficariam assim em pouco tempo.
- Muitas caras novas, hein, Sam?
Samantha fez um gesto de concordncia com a cabea, e Josh deixou-a por instantes para ir buscar mais caf. O enor-
me relgio por cima da lareira marcava cinco e quarenta e cinco. Dentro de um quarto de hora, todos se dirigiriam  cavalaria buscar os cavalos e o dia de trabalho 
teria o seu incio oficial. Estava ansiosa por saber quem iria distribuir-lhe o cavalo. Caroline no referira isso na noite anterior, e ficara Subitamente curiosa, 
perscrutando em volta  procura de Josh. Todavia, este desaparecera com um dos seus amigos, e Sam deu consigo a olhar para todo o lado como uma criana perdida. 
Apesar de alguns olhares curiosos, no havia qualquer interesse evidente, e Sam suspeitava que era intencional o facto de no lhe prestarem ateno, fingindo a maior 
parte dos homens olhar para outro lado. Apetecia-lhe gritar ou subir para uma mesa, apenas para lhes captar a ateno de uma vez por todas e dizer-lhes que lamentava 
estar a invadir o seu mundo e que, se quisessem, poderia voltar para casa; porm, o facto de estarem a ignor-la exasperava-a. Era como se estivessem decididos a 
afugent-la dali, aparentando no dar pela sua presena.
- Miss Taylor?
Sam deu uma volta sobre si mesma ao ouvir o seu nome e deu de caras com um peito largo coberto com uma camisa de l aos quadrados azuis e vermelhos.
- Sim? - levantou o olhar at encontrar um par de olhos de uma cor que raras vezes observara. Eram quase verde-esmeralda com salpicos dourados. Os cabelos eram pretos 
e as tmporas grisalhas. O rosto parecia feito de couro, embora de traos delicados, sendo a sua estatura maior do que a de qualquer outro homem no rancho, inclusive 
Bill King.
- Sou o capataz adjunto. - Referiu apenas o seu cargo, no disse o nome. Havia algo de frio e desagradvel ao pronunciar aquelas palavras. Tivesse-o encontrado num 
beco escuro e um arrepio ter-lhe-ia percorrido a espinha.
- Como est? - Sam no sabia o que dizer-lhe enquanto ele a olhava de sobrolho franzido.
- Est pronta para vir at  cavalaria?
Sam fez um gesto afirmativo com a cabea, amedrontada com o estilo autoritrio e a grande envergadura do homem.
Reparou tambm que os outros estavam agora a olhar, curiosos por saber o que ele estava a dizer-lhe, e notou tambm
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que no havia qualquer trao de afabilidade no modo como falava, quaisquer palavras de boas-vindas, nem qualquer sorriso.
Apetecia-lhe outra chvena de caf, mas no quis dizer-lho enquanto ele a conduzia at  porta. Pegou no casaco que estava pendurado no cabide, vestiu-o, ps o capuz 
na cabea e fechou a porta atrs de si, sentindo-se como uma criana que fizera algo de errado. Era evidente que a ideia de Samantha os acompanhar a cavalo aborrecia-o. 
Entraram rapi
damente na cavalaria. Samantha sacudiu a chuva do capuz, libertou os cabelos e ficou a olhar para ele. O capataz adjunto pegou numa prancheta que continha uma lista 
dos nomes dos homens e dos animais, e em seguida, de sobrolho pensativo, encaminhou-se para uma baa prxima.  entrada da baa encontrava-se inscrito o nome LADY, 
o que deixou Samantha imediatamente irritada com a escolha. S porque era mulher tinha de montar Lady, uma gua? Instintivamente, sentiu que aquela era a montada 
que iriam destinar-lhe para toda a estada e esperava ardentemente que Lady fosse, pelo menos, uma montada decente.
- Anda bem a cavalo?
Samantha limitou-se a fazer um gesto afirmativo com a cabea, com receio de dizer o que no devia e de o ofender, quando na verdade era melhor cavaleira do que a 
maioria dos homens do rancho; no entanto, ele teria de ver isso com os seus prprios olhos, se se quisesse dar a esse trabalho. Observou-o novamente enquanto ele 
percorria a lista com os olhos; deu consigo a olhar para a curva do pescoo e para os pelos escuros que roavam no colarinho, Era um homem forte e sensual, de quarenta 
e poucos anos. Possua um aspecto algo assustador, impetuoso, teimoso e determinado. Sam pressentia isso sem o conhecer, e experimentou um arrepio de medo quando, 
ele se voltou, de novo, para ela e abanou a cabea.
-  capaz de ser demasiado para si.  melhor o Rusty. Est ao fundo da cavalaria. Agarre numa sela e monte-o. Samos dentro de dez minutos. - Com um ar de enfado, 
acrescentou: - Consegue estar pronta a essa hora?
Imaginaria o homem que ela levava duas horas a colocar uma sela num cavalo? - perguntou Sam a si mesma.
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De repente,  medida que olhava para ele, sentiu-se irritada.
- Dentro de cinco minutos. Ou menos.
O capataz adjunto no deu qualquer resposta, limitando-se a afastar-se; pendurou a prancheta na parede, donde a tirara, dirigiu-se a outra baia, selou o seu cavalo 
e conduziu-o para o exterior. Ao fim de cinco minutos, todos os homens haviam regressado do pequeno-almoo e a cavalaria transformara-se num caos de assobios e 
gargalhadas misturados com o barulho dos cavalos a bater as patas, a cumprimentar os seus cavaleiros habituais e a relinchar ao serem retirados das baias, provocando 
um verdadeiro engarrafamento. Todo o grupo ia saindo para o terreiro encharcado, juntando-se alegremente sob a chuva miudinha.
A maioria dos homens envergava capas impermeveis por cima dos casacos, e Josh dera uma a Sam no momento em que esta saa lentamente sobre a montada. Era um enorme 
cavalo, de plo castanho e pouca genica. Samantha imaginava-o j como o tipo de cavalo que estacaria num regato de gua, andaria quando lhe apetecesse, mordiscaria 
os arbustos, comeria a erva que conseguisse encontrar e suplicaria para regressar a casa sempre que Sam o voltasse, mesmo que ligeiramente, na direco da cavalaria. 
Prometia ser um dia bastante irritante, e Sam lamentava a expresso de fria que pouco antes exibira por causa de Lady. Porm, mais do que isso, sentia vontade de 
provar ao capataz adjunto que merecia uma montada melhor. Como era o caso de Black Beauty, e sorriu ao pensar no puro-sangue de Caroline. Ansiava mont-lo, para 
mostrar quele chauvinista inflexvel que tipo de cavaleira ela era. Perguntou a si mesma se Bill King fora alguma vez como ele, e teve de admitir que provavelmente 
fora pior. Bill King tinha sido, e ainda era, um capataz duro; este limitara-se a dar-lhe um cavalo manso, o que, era obrigada a admitir, parecia uma deciso sensata 
relativamente a uma cavaleira desconhecida vinda de um lugar como Nova Iorque. Afinal, como  que ele tinha conhecimento de que ela sabia andar a cavalo? E se Caroline 
no queria criar embaraos junto dos seus ajudantes, tudo bem.
Os homens montados nos seus cavalos,  chuva, de capas
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impermeveis vestidas, conversavam em pequenos grupos,  espera que o capataz adjunto lhes desse as instrues para o dia. Os vinte e oito homens nunca andavam todos 
juntos, geralmente dividiam-se em quatro ou cinco grupos para desempenhar as suas tarefas em vrios pontos do rancho. Todas as manhs, Bill King, ou o capataz adjunto, 
dava-lhes verbalmente as instrues, dizendo quem trabalhava com quem e onde. Agora, como fazia todas as manhs quando Bill King no estava presente, o capataz adjunto, 
alto e de cabelos escuros, passou calmamente por entre os homens e deu-lhes as instrues. Destacou quatro homens para irem com Josh para o extremo sul do rancho 
 procura de gado tresmalhado ou em apuros. Dois outros grupos iriam verificar algumas vedaes que ele desconfiava estarem derrubadas. Outro grupo de quatro tinha 
duas vacas doentes para trazer para junto do rio. Ele mais quatro homens e Samantha iriam para a parte norte do rancho  procura de trs vacas tresmalhadas prestes 
a parir. Samantha seguiu o grupo pachorrentamente em cima de Rusty, um pouco afastada do ncleo principal, desejando que a chuva parasse. Levou uma eternidade at 
conseguir pr o cavalo a meio galope, e tivera de se lembrar de que numa sela do Oeste o cavaleiro no acompanha o trote do cavalo. Era uma sensao estranha o facto 
de se encontrar sentada naquela sela, enorme e confortvel; estava muito mais habituada s selas inglesas, pequenas e planas, que usara nos concursos de saltos e 
em competio no Madison Square Garden; porm, ali a vida era outra.
S uma vez esboou um sorriso, curiosa por saber o que se estaria a passar, nessa manh, no escritrio. Era uma loucura imaginar que apenas dois dias antes usara 
um vestido Dior azul e tivera uma reunio com um novo cliente; naquele momento, andava  procura de vacas tresmalhadas num rancho. A ideia quase a fez soltar uma 
gargalhada enquanto subiam uma pequena colina, tendo de se esforar por no sorrir abertamente: o contraste entre o que fazia normalmente e o que estava a fazer 
naquele momento era um perfeito absurdo. Vrias vezes reparou que os olhos do capataz adjunto a observavam, como que para se certificar de que ela conseguia dominar 
a montada. Numa ocasio esteve prestes a dirigir-lhe uma palavra desagradvel quando ele passou por ela, dizendo-lhe
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que puxasse a rdea, enquanto Rusty tentava desesperadamente mordiscar alguma erva. Durante alguns instantes, Samantha deixara o animal  vontade, na esperana de 
apaziguar o esprito lerdo do animal antes de se porem de novo, em andamento. O tirano de cabelos escuros devia pensar que ela no conseguia controlar o cavalo. 
"Fiz de propsito", teve Samantha vontade de lhe gritar, mas ele dava a impresso de no estar interessado naquilo que ela fazia e afastou-se para falar calmamente 
a dois dos ajudantes. Todos os homens pareciam encar-lo como uma autoridade. Lidavam com ele da mesma maneira que com Bill King, com temor, respeitos respostas 
curtas e rpidos gestos de concordncia com a cabea. Ningum questionava o que ele dizia. Havia poucas trocas de humor entre ele e os homens, raramente lhes sorriam 
quando falava com eles. Fosse como fosse, irritava Sam' A prpria segurana com que falava era um desafio para ela.
- Est a gostar do passeio? - perguntou ele a Sam, pouco depois, pondo-se a seu lado durante alguns instantes.
- Bastante - retorquiu Sam entre dentes, no preciso momento em que a chuva comeara a cair com mais intensidade. - Est um tempo maravilhoso. - Sorriu-lhe, mas ele 
no correspondeu. Limitou-se a abanar a cabea e a continuar o seu caminho, e Sam acusou-o mentalmente de ser u bronco sem sentido de humor.  medida que o dia avanava 
as pernas comeavam a ficar cansadas, o rabo doa-lhe, a parte de dentro dos joelhos ardia-lhe por causa da frico das calas de ganga na sela. Os ps estavam gelados 
e as mos rgidas, e, quando se interrogou se a cavalgada nunca mais teria fim, fizeram uma pausa para almoo. Pararam numa pequena cabana nos confins do rancho, 
usada para ocasies similares. Possua uma mesa, algumas cadeiras e o equipamento necessrio para os ajudar a fazer o almoo: loua e gua corrente. Sam descobriu 
que o capataz adjunto trouxera as provises necessrias no seu alforge; toda a gente recebeu uma grossa sanduche de peru e fiambre, e dois enormes termos foram 
rapidamente despejados. Um estivera cheio de sopa, o outro de caf, e s quando ela saboreava a ltima caneca de caf  que ele lhe dirigiu novamente a palavra.
- Tudo bem consigo, Miss Taylor? - Talvez houvesse
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um ligeiro indcio de troa na voz do capataz adjunto, mas desta vez exibia um brilho mais simptico no olhar. -
- Tudo, obrigada. E o senhor... Bem...  que... no sei o
seu nome.
- Sam esboou um sorriso afvel e desta vez a expresso dele suavizou-se. Era evidente um certo azedume na rapariga. Sentira isso logo ao princpio, quando sugerira 
Lady. reparara no ar de aborrecimento a flamejar no olhar, mas estivera-se nas tintas para o cavalo que ela queria. Ia dar-lhe a montada mais calma do rancho. No 
queria que uma zonza de Nova Iorque batesse com o rabo no cho na vedao norte logo pela manh. Era s essa a sua inteno, mas at ali ela parecia estar a sair-se 
muito bem. E teve de admitir que era difcil descobrir que tipo de cavaleira ela era naquele cavalo pachorrento.
- Chamo-me Tate Jordan. - E estendeu a mo a Sam; mais uma vez, esta ficou sem saber se ele estava a goz-la ou a ser sincero. - Est a gostar da estada?
- Estou a adorar. - Sam lanou-lhe um sorriso angelical. - Um tempo magnfico. Um cavalo soberbo. Gente maravilhosa... - Fez uma ligeira pausa e o capataz adjunto 
franziu o sobrolho.
O qu? No tem nada a dizer da comida?
Vou pensar em qualquer coisa.
Espero bem que sim. Devo dizer que me surpreendeu ao ter decidido vir andar a cavalo hoje. Podia ter esperado por um dia melhor.
- Por que razo? O senhor no esperou, pois no?
- No. - Tate olhou para Sam com alguma ironia. - No  propriamente a mesma coisa.
. - Os voluntrios esforam-se sempre mais, ou no sabia
isso, Mister Jordan? 
- Acho que no. No temos tido muitos por estas paragens, J c tinha estado antes? - Tate olhou-a com ar inte-
ressado pela primeira vez, mais por curiosidade do que por amizade.
-J, mas h muito tempo.
A Caroline tambm a deixou montar com os homens?
No propriamente... Ah, uma vez... mas mais por brincadeira. 
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E desta vez? - O sobrolho inquiridor franziu-se de
novo.
- Acho que  tambm por brincadeira. - Sam lanou-lhe um sorriso mais sincero desta vez. Podia ter-lhe dito que era terapia, mas no estava disposta a desvendar 
os seus segredos. No impulso do momento, resolveu agradecer-lhe. - Agradeo ter-me deixado vir consigo. Sei que deve ser difcil ter algum novo por perto. - No 
ia desculpar-se por ser mulher. Teria sido demasiado. - Espero poder ser til.
- Talvez. - Tate fez um gesto afirmativo com a cabea e afastou-se. No voltou a falar com ela o resto da tarde. No conseguiram encontrar as reses tresmalhadas, 
e s duas da tarde encontraram-se com um dos grupos que andava a arranjar as vedaes e juntaram-se-lhe. Samantha fora de pouca utilidade para aquilo que andavam 
a fazer, e a verdade  que s trs horas o cansao era tanto que estava quase a adormecer,  chuva, em cima do cavalo. s quatro, sentia-se de rastos, e s cinco 
e meia, quando regressaram, Sam estava certa de que quando saltasse do cavalo nem sequer conseguiria mexer-se. Permanecera onze horas a onze e meia em cima do cavalo 
e  chuva, e achava que havia uma forte possibilidade de morrer nessa noite. Foi a custo que saltou do cavalo quando voltaram  cavalaria, e s as mos firmes de 
Josh evitaram que casse redonda no cho, exausta. Sam respondeu ao olhar preocupado de Josh com um riso cansado e agarrou-se-lhe com firmeza ao brao.
- Acho que te excedeste hoje, Sam. Porque no vieste para casa mais cedo?
- Ests a brincar? Teria de morrer primeiro. Se a tia Caro consegue, eu tambm consigo... - Depois, olhou, com ar pesaroso, para o seu velho amigo. - No consigo?
- No queria dizer-te isto, querida, mas ela faz isso h muito mais tempo do que tu, e todos os dias. Amanh vais estar toda dorida.
- Que se dane o dia de amanh! Nem imaginas o que sinto neste preciso momento. - Encontravam-se junto da baa de Rusty, o qual j no ligava importncia a ningum 
e se empanturrava de feno. andar?
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- Acho que sim. De certeza que no vou sair daqui a
rastejar.
- Queres que te leve?
- Adoraria. _ Sam sorriu-lhe. - Mas o que  que todos diriam? - Desataram os dois a rir ao pensar na ideia. Ento, subitamente, o olhar de Sam tomou um novo brilho. 
Reparara num nome numa pequena e bonita placa de bronze junto de outra baa. - Josh! - De repente, os olhos de Sam perderam o ar angustiado. -  o Black Beauty?
- , sim senhora - respondeu Josh com um sorriso de admirao, tanto por ela como pelo puro-sangue. - Queres v-lo?
- Passaria os ltimos momentos de vida numa cama de pregos para o ver, Joshua. Mostra-mo.
Josh ps um brao por baixo do dela para a apoiar; ajudando-a a deslocar-se pela cavalaria em direco  outra baa. Todos os homens j haviam sado e, de sbito, 
no se ouviam outras vozes na cavalaria a no ser as deles.
Ao longe, a baa parecia vazia; quando se aproximou, Samantha avistou o cavalo no canto mais distante, assobiou-lhe baixinho e ele aproximou-se lentamente dela, 
encostando-lhe o focinho  mo. Era o cavalo mais belo que alguma vez vira em toda a sua vida, uma obra de arte de veludo negro com uma estrela branca na testa e 
duas manchas brancas perfeitamente simtricas na parte inferior das patas dianteiras. A crina e a cauda eram do mesmo negro sedoso do resto do corpo, os olhos enormes 
e meigos. Possua umas patas incrivelmente graciosas, e era tambm o maior cavalo que Sam alguma vez pensara ver. -
- Meu Deus, Josh,  inacreditvel.
-  uma beleza, no ?
Melhor do que isso,  o cavalo mais belo que alguma vez vi, - Sam parecia estupefacta. - Que altura tem?
 volta de um metro e oitenta - respondeu Josh, com um misto de orgulho e prazer, e Samantha soltou um leve assobio.
- O que eu daria para o montar.
Achas que ela deixa? Mister King tambm no gosta que ela o monte. Tem demasiada genica. j por duas vezes
quase atirou com ela ao cho, o que no  coisa fcil. Ai. no vi um cavalo que conseguisse derrubar Miss Caro.
Samantha nunca desviou os olhos do cavalo.
- Ela disse-me que podia mont-lo, e aposto que ele no vai tentar derrubar-me. `
- Eu no arriscaria, Miss Taylor. - A voz que surgira por trs dela no era a de Josh; era uma voz grave e roufenha, suave mas sem ser afvel. Virou-se lentamente 
para dar de caras com Tate Jordan e, de sbito, os olhos brilharam.
- E por que razo  que acha que eu no deveria arriscar? Pensa que o Rusty  mais o meu estilo? - Sam ficou, de repente, extremamente irada, ao mesmo tempo que 
o cansao e a dor lhe provocavam um certo descontrolo.
- No posso responder a essa questo. Mas existe u mundo entre esses dois cavalos, e Miss Caroline  provavelmente a melhor cavaleira que alguma vez vi. Se ela sente 
imensas dificuldades com o Black Beauty, pode apostar que voc sentir muitas mais. - Tate parecia seguro de si, e Josh ficou pouco  vontade com aquela troca de 
palavras.
- Ah, sim? Que interessante, Mister Jordan. Reparo que considera Caroline a "melhor cavaleira" que alguma vez viu. Ser que no a compara aos homens, aos cavaleiros?
- Tm uma maneira diferente de montar.
- Nem sempre. Aposto que consigo dominar este animal muito melhor do que voc.
- O que a leva a pensar assim? - Os olhos de Tate brilharam, mas s por instantes.
- J monto puros-sangues h muitos anos - exclamou Sam com uma certa virulncia, mas Tate Jordan ficou impvido e sereno.
- Alguns de ns no tiveram essas vantagens. Fazemos melhor que podemos, com aquilo que temos.
Ao ouvir aquelas palavras, Samantha sentiu-se corar. Tate deu um toque no chapu, fez uma ligeira vnia sem olhar para o trabalhador que se encontrava ao lado dela 
e saiu da cavalaria a passos largos.
Por momentos, instalou-se o silncio, e Josh olhou P ela tentando compreender o que se passava. Sam tentava aparentar um ar despreocupado, enquanto dava palmadinhas 
no focinho de Black Beauty; ento, olhou novamente para Josh
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Que irritante filho da me! No achas?  sempre assim? Talvez... Com as mulheres sobretudo. A mulher dele deixou-o h anos. Fugiu com o filho do dono do rancho onde 
trabalhavam e depois casou com ele. E tambm ficou com o filho do Tate a seu cargo. At morrerem. A mulher e o filho do rancheiro morreram num desastre de viao. 
O Tate ficou novamente com o filho, embora o rapaz ainda no use o seu nome. Acho que o Tate est-se nas tintas para o nome do rapaz. Est louco com ele. Mas nunca 
fala da mulher. Acho que ela lhe deixou um sabor amargo na boca relativamente s mulheres. Com excepo... - Josh ficou corado que nem um tomate por instantes. - 
Com excepo... das mulheres fceis. Acho que nunca se envolveu com mais ningum. Diz que o filho tem vinte e dois anos, por isso ests a ver h quanto tempo foi.
Sam meneou lentamente a cabea.
- Conheces o rapaz?
Josh encolheu os ombros e abanou a cabea.
- No. Sei que o Tate lhe arranjou emprego por estas bandas o ano passado, mas geralmente fala pouco de si e do filho.  muito fechado. Como muitos outros homens. 
Mas vai v-lo uma vez por semana. Trabalha no Bar Three.
Outro solitrio, pensou Sam, perguntando a si mesma se os cowboys no passavam de solitrios. Havia algo nele que a intrigava. Parecia inteligente, e Sam deu consigo 
a pensar quem seria Tate Jordan, enquanto Josh abanava a cabea com o seu sorriso familiar.
- No deixes que isso te preocupe, Sam. Ele no tem inteno de magoar.  s a sua maneira de ser. Por baixo de toda aquela aparncia de porco-espinho esconde-se 
uma pessoa amvel. Devias v-lo com os midos, no rancho. Deve ter sido um bom pai. E tambm tem instruo. No que isso faa muita diferena aqui. O pai era rancheiro 
e mandou-o para boas escolas. Chegou a andar na faculdade e a formar-se em qualquer coisa, mas o pai morreu e perderam o rancho. Penso que nessa altura  que foi 
para o outro rancho e a mulher fugiu com o filho do patro. julgo que tudo isso o deve ter afectado de alguma forma. Acho que no quer muito mais do
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que aquilo que conseguiu. Para si e para o filho.  apenas um trabalhador como todos ns.  esperto e ser capataz um dia. Se no for aqui, ser noutro stio qualquer. 
No se lhe pode tirar o valor. E, mal-humorado ou no,  um ptin1 elemento num rancho. - Sam pensou naquilo que acabava de ouvir. Sabia mais do que pretendia, graas 
ao linguarudo
de Josh. - Pronta para irmos para casa? - Olhou com ar afectuoso para a bonita jovem de rosto cansado e roupas molhadas. - Consegues?
- Se me fazes essa pergunta outra vez, Josh, dou-te um pontap. - Sam olhou-o com ar feroz e ele riu-se.
- No ds, no. - Josh riu ainda mais. - Tu no consegues levantar a perna nem para dar um pontap num cachorro, Samantha. - E foi a rir-se da piada at casa. ,
Passavam poucos minutos das seis quando Caroline lhes i abriu a porta; Josh deixou Sam  porta, aos cuidados de Caroline. Esta no conseguiu conter um sorriso quando 
Sam entrou, a custo, na acolhedora sala de estar e se deixou cair, com um gemido, no sof. Deixara o casaco molhado pelo caminho, e, como as calas se tinham mantido 
secas por baixo da capa impermevel, sabia que no estava a estragar os mveis e precisava de se sentar.
- Meu bom Deus, rapariga, cavalgaste o dia inteiro?
Sam fez um sinal afirmativo com a cabea, mal conseguindo falar, to cansada e empenada que estava.
- Por que raio  que no vieste para casa quando j tinhas a tua dose?
- No queria fazer figura de mariquinhas... - Soltou um gemido horrvel mas conseguiu esboar um sorriso para Caroline, que se deixou cair no sof com uma gargalhada 
no contida.
- Oh, Samantha, minha tonta! Amanh vais ter dores terrveis!
- No vou, no. Voltarei a montar aquele maldito cavalo. - E exibiu novo sorriso, mais por se lembrar do cavalo do que por dor.
- Qual  que te deram?
- Um cavalo velho chamado Rusty. - Sam olhou para Caroline com ar de repugnncia e Caroline riu ainda mais.
- Oh, meu Deus, no me digas. A srio?
Samantha assentiu com a cabea.
- Quem  que diabo fez isso? Eu disse-lhes que montavas to bem como qualquer um dos homens.
- Bem, no acreditaram em ti. Pelo menos, o Tate Jordan. Esteve quase para me dar a Lady, depois achou que o Rusty estava mais dentro do meu ritmo.
- Amanh diz-lhe que queres o Navajo.  um appaloosa magnfico, que s  montado pelo Bill e por mim.
- E os outros homens no ficaro ressentidos comigo?
- Hoje ficaram?
- No sei. Foram de poucas falas.
- Eles tambm no falam muito uns com os outros. Se andaram contigo desde esta manh, como  que poderiam ficar ressentidos contigo? Meu Deus! E essas horas todas 
logo no primeiro dia? - Caroline olhava verdadeiramente horrorizada para o estado de Samantha.
- No terias feito a mesma coisa?
Caroline pensou no assunto durante alguns instantes, depois, com um sorriso algo tmido, fez que sim com a cabea.
- A propsito, vi o Black Beauty.
- Que tal  que o achaste? - Os olhos de Caroline iluminaram-se.
- Apeteceu-me roub-lo, ou, pelo menos, mont-lo. Mas... - O olhar de Sam brilhou de novo - Mister Jordan acha que no devo mont-lo. Segundo ele, o Black Beauty 
no  cavalo para uma mulher.
- E eu? - Caroline estava com um ar divertido.
- Ele considera que s "a melhor cavaleira" que alguma vez viu. E desafiei-o, perguntando-lhe se no eras a melhor incluindo os homens
Caroline riu-se.
- Qual a graa, tia Caro? s o melhor cavaleiro, homem ou mulher, que alguma vez vi!
- Para mulher, no estou mal - contraps Caroline.
- Achas graa a isso?
- J estou habituada. O Bill King pensa a mesma coisa.
So muito liberais por aqui, no so? - murmurou Sam, enquanto, se levantava do sof e se encaminhava na di-
reco do seu quarto. - De qualquer forma, se amanh com-
seguir que o Tate Jordan me d um cavalo melhor sentir
-me-ei como se tivesse ganho uma batalha a 
favor das mulheres. Como  que se chama esse appaloosa?
- Navajo. Diz-lhe que fui eu que te disse.
Samantha revirou os olhos enquanto desaparecia ao fundo do corredor.
Boa sorte - gritou Caroline. Enquanto lavava a cara e escovava o cabelo no seu confortvel quarto, Sam deu-se conta de que era a primeira vez em trs meses que no 
removera cu e terra para ver John e Liz no noticirio da noite, e nem sequer fora por esquecimento. Estava noutro mundo agora. Um mundo de cavalos, dos Rusty, dos 
appaloosas e dos capatazes adjuntos que pensavam que mandavam no mundo, tudo era simples e salutar, e o problema mais premente que  afligia era o da escolha do 
cavalo que iria montar no dia seguinte.
Era o momento mais feliz da sua existncia desde criana, pensou Sam para consigo ao deitar-se, pouco depois do jantar. Ento, enquanto os pensamentos se desvaneciam 
do seu esprito, antes de adormecer, ouviu a porta familiar a fechar-se de novo; desta vez, no teve dvidas de ter ouvido o som abafado de passos e risadas no corredor.
Na manh seguinte, Samantha saltou da cama com um gemido terrvel, foi a cambalear at ao duche e l ficou durante um bom quarto de hora com a gua quente a jorrar 
sobre os membros doridos. A parte de dentro dos joelhos estava quase em ferida por causa das onze horas em cima da sela. ps chumaos de algodo nos collants e vestiu 
cuidadosamente as calas de ganga. O nico sinal encorajador para o dia que tinha pela frente era o facto de j no estar a chover. Olhou  sua volta na escurido 
da madrugada, reparando que ainda havia estrelas no cu, e dirigiu-se para o salo principal de refeies para tomar o pequeno-almoo. Naquela manh, sentia-se menos 
tmida ao entrar; pendurou o casaco num cabide e foi directa  mquina do caf, onde encheu uma caneca de lquido fumegante. Viu o seu velho amigo Josh no topo de 
uma mesa, foi ter com ele, com um sorriso nos lbios, e Josh fez-lhe sinal para se sentar.
- Que tal te sentes hoje, Samantha?
Sam sorriu-lhe, com ar pesaroso, e falou num tom de voz conspirativo, enquanto se sentava na cadeira vazia.
-  ptimo irmos andar a cavalo, Josh,  s o que posso dizer-te.
- Como assim?
- Porque no consigo andar. Praticamente vim a rastejar at aqui.
Josh e os outros dois homens riram-se e um deles elogiou-a por ter aguentado a dureza do dia anterior.
- Voc , sem dvida, uma ptima cavaleira, Samantha
afirmou ele, embora ela no tivesse tido a oportunidade de lhes mostrar a sua destreza  chuva.
J fui. H muito tempo.
No quer dizer nada - contraps Josh num tom firme. A maneira de sentar na sela e as boas mos nunca se perdem. Vais montar outra vez o Rusty, Sam? - Josh franziu 
o sobrolho e Sam encolheu os ombros enquanto bebia o caf.
- Vamos ver. Acho que no.
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Josh limitou-se a sorrir. Sabia que Sam no iria suportar uma velha pileca como aquela durante muito tempo. E muito menos depois de ter visto Black Beauty. Seria 
um milagre se ela no o montasse dentro de pouco tempo.
- O que  que achaste do rapago? - Josh sorriu com ar prazenteiro.
- O Black Beauty? - Os olhos de Sam tomaram um brilho especial quando ele pronunciou o nome. Havia uma espcie de paixo entre os cavaleiros e os puros-sangues que 
as outras pessoas nunca entenderiam.
Josh fez um gesto afirmativo com a cabea e sorriu.
-  o cavalo mais belo que alguma vez vi.
- Miss Caro vai deixar-te mont-lo? - Josh no conseguia resistir  pergunta.
- Se for capaz de convenc-la, pelo menos tentarei! - Sam sorriu por cima do ombro, enquanto se dirigia para a fila de homens que aguardava o pequeno-almoo. Voltou, 
cinco minutos depois, com um prato de salsichas e ovos estrelados. Dois dos homens mudaram-se para outra mesa, e Josh estava j a ajeitar o chapu na cabea. - j 
vais, Josh?
- Disse ao Tate que lhe daria uma ajuda na cavalaria antes de sairmos. - Sorriu-lhe, virou-se para chamar um dos seus amigos e desapareceu.
Vinte minutos depois, quando entrou na cavalaria para selar o cavalo, Samantha olhou em redor  procura de Tate, sem saber como puxar o assunto da mudana de montada.: 
Num dia como aquele no iria montar a pileca que ele lhe destinara. Estava certa de que se Navajo era a sugesto de Caroline, seria um cavalo mais ao seu estilo.
Dois homens cumprimentaram-na com um ligeiro aceno de cabea ao passarem por ela. Dava a impresso de estarem menos constrangidos com a sua presena do que no dia 
anterior. Talvez nunca imaginassem que ela se apresentasse daquela forma. Sam tambm sabia que s cavalgando com o mesmo af e o mesmo tempo que eles, debaixo de 
chuva,  que acabaria por conquistar os seus coraes. E se ia passar os prximos trs meses no rancho, agir como um qualquer ajudante era fundamental para que os 
homens viessem a aceit-la como um deles. Sabia tambm que um ou dois dos homens
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mais jovens tinham ficado impressionados com o seu aspecto e a sua juventude, e chegara a apanhar um deles a olh-la, fascinado, na noite anterior, quando desprendera 
os cabelos, no fim daquele dia extenuante, e sacudira a longa cabeleira loura. Lanou-lhe um fugaz sorriso e ele corara que nem um tomate
e virara-lhe a cara.
- Bom dia, Miss Taylor. - A voz firme interrompeu o devaneio de Sam, e quando levantou os olhos para Tate Jordan, estava com a firme disposio de no andar todo 
o dia com um mau cavalo s para mostrar que era ele quem mandava. Apercebeu-se de alguma teimosia e determinao no modo como ele a olhava - Cansada depois de ontem?
- No propriamente. - Nem ela alguma vez admitiria perante ele que estava cheia de dores. Cansada? Com certeza que no. Bastava olhar para ele para se perceber o 
poder e a importncia que pensava possuir. Capataz adjunto no Rancho Lord. "Nada mau, Mister Capataz Adjunto." Tambm sabia que era possvel que, aos sessenta e 
trs anos, Bill King pudesse reformar-se a qualquer momento e legasse o seu cargo dentro do rancho a Tate Jordan. Embora Jordan no causasse a mesma impresso que 
Bill King: no era to inteligente nem to simptico... Sam no sabia porqu, mas Tate Jordan irritava-a; havia uma muda frico entre os dois, que se manifestava 
instantaneamente quando ele estava junto dela. - Ahh... Mister Jordan. - Sam sentiu o desejo sbito de lhe estragar os planos.
_ Sim? - Tate voltou-se para ela, trazendo uma sela ao ombro.
- Pensei em experimentar uma montada diferente. - Os olhos de Sam estavam glidos enquanto os dele comearam lentamente a brilhar.
- O que  que tem em mente? - O tom era de desafio.
Sam estava morta por dizer Black Beauty, mas resolveu no estragar a ironia da sugesto.
. - A Caroline acha que talvez o Navajo no seja mau para mim.
Tate pareceu momentaneamente perplexo, mas depois , fez
um gesto de concordncia com a cabea e voltou-se, murmurando algo enfurecido por sobre o ombro:
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Pode ser!
Estas palavras irritaram Samantha. Por que razo  que precisava da autorizao dele para montar qualquer cavalo? O bom senso era a resposta; porm, ainda se sentia 
irritada com o temperamento de Tate no momento em que descobriu a baia de Navajo. Foi buscar a sela e a brida a uma pequena sala de arreios mais adiante e voltou 
para selar o cavalo. Era um bonito appaloosa, com malhas cor de caf com leite na cabea, os flancos de um castanho-vivo, e a caracterstica garupa branca estava 
salpicada de enormes malhas castanhas Mostrou-se meigo quando Samantha lhe ps a sela e apertou a cilha; contudo, tornou-se evidente, ao sair com ele da cavalaria, 
que Navajo possua muito mais genica do que Rusty, Mal o montou, s a custo conseguiu domin-lo. O cavalo cabriolou durante uns bons cinco minutos enquanto ela ten-
tava juntar-se aos outros, que comeavam j a sair. Haviam-lhe destinado o mesmo grupo do dia anterior, e Tate Jordan ob servava-a com ar de desaprovao, enquanto 
se dirigiam em direco s colinas.
- Acha que consegue domin-lo, Miss Taylor? - A voz de Taylor soou como uma campainha e Samantha sentiu subitamente um forte desejo de lhe bater quando ele se ps 
a seu lado a observar as manobras fogosas do cavalo.
_ Tentarei, Mister Jordan.
- Acho que deveria ter-lhe dado a Lady.
Samantha no proferiu qualquer palavra como resposta e prosseguiu caminho. Meia hora mais tarde, encontravam-se' todos absortos no que estavam a fazer: a procurar 
reses tresmalhadas e a verificar, uma vez mais, as vedaes. Encontraram um bezerro ferido, que dois dos homens prenderam a^ fim de o conduzir at um dos principais 
estbulos. Quando fizeram a pausa para o almoo j tinham seis horas de trabalho realizadas. Pararam numa clareira e amarraram os cavalos s rvores prximas. As 
sanduches, a sopa e o caf foram, com habitualmente, distribudos, e a conversa foi escassa mas relaxante. Trocaram poucas palavras com Samantha; apesar de tudo, 
sentia-se bem junto dos homens e deixou os pensamentos vaguear ao sentar-se, por instantes, de olhos fechados, sob o sol de Inverno.
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- Deve estar cansada, Miss Taylor. - Era novamente a mesma voz. Sam abriu um olho.
- No propriamente. Estava a gozar este sol. Isso inco-
moda-o muito?  - Tate esboou um sorriso sim-
ptico. - De modo nenhum. - Est a gostar do Navajo?
- Bastante. - Sam abriu os olhos e correspondeu ao sorriso. No conseguindo resistir, acrescentou: - No tanto como do Black Beauty. - Continuou a sorrir, com ar 
travesso, e era difcil dizer se estava ou no a falar a srio.
- Esse, Miss Taylor... - Tate retribuiu-lhe o sorriso como um rpido volley no tnis... - Bom,  um erro que espero que nunca cometa. - Meneou a cabea com ar sbio. 
Iria aleijar-se. O que... - Com um sorriso afvel prosseguiu: - O que seria uma grande pena. Um garanho como aquele s poucas pessoas devem montar. At a prpria 
Miss Lord tem de ter cuidado quando sair com ele.  um animal perigoso, e no... - Procurava as palavras certas. - Bom... no  o gnero de cavalo com que um cavaleiro 
ocasional deva brincar. - Os olhos verdes tinham um ar infinitamente condescendente ao olhar para Samantha, a qual segurava uma chvena de caf fumegante na mo.
- J o montou? - A pergunta foi pronta e os olhos no sorriram.
- Uma vez.
- que tal o achou?
-  um belo animal. Sem sombra de dvida. - Os olhos verdes sorriram de novo. -  diferente do Navajo. - As palavras de Tate insinuavam que Navajo era o nico cavalo 
a que ela poderia aspirar. - Parece que lhe deu um pouco de trabalho quando samos.
- E acha que no consegui domin-lo? - O tom era de divertimento.
- Fiquei preocupado. Afinal de contas, se se aleijar, a responsabilidade  minha, Miss Taylor.
- Fala como um verdadeiro capataz, Mister Jordan. Todavia, no acredito que Miss Lord v responsabiliz-lo por aquilo que possa acontecer-me com um cavalo. Ela conhece 
bastante bem.
- O que quer dizer com isso?
- Que no estou habituada a montar cavalos como Rusty.
- Mas acha que est apta a montar um garanho como Black Beauty? - Tate sabia que nem Caroline Lord nem
King deixariam que ela o montasse. At ele s tivera autorizao para montar o soberbo puro-sangue uma nica vez
Samantha fez um ligeiro gesto afirmativo com a cabea
- Sim, penso que consigo mont-lo.
Tate exibia um ar divertido.
- Acha que sim? Est assim to certa disso?
- Conheo a minha forma de montar. Gosto de arriscar. Sei o que estou a fazer, e monto desde os cinco anos. j  um certo tempo.
- Todos os dias? - Havia um novo desafio. - Anda muito a cavalo em Nova Iorque, no anda?
- No, Mister Jordan. - Sam esboou um sorriso amvel. - No ando. - Ao proferir aquelas palavras jurou a si mesma que montaria o Black Beauty logo que Caroline 
lho permitisse; era esse o seu desejo e queria mostrar quele cowboy arrogante que iria conseguir.
Pouco depois, Tate voltou para junto dos seus homens e fez-lhes sinal. Subiram para os cavalos e passaram o resto da
tarde em buscas nos limites do rancho. Encontraram mais algumas reses tresmalhadas e conduziram-nas de volta, ao pr
do Sol. Samantha, uma vez mais, no sabia se conseguiria saltar do cavalo. Josh, porm, aguardava-a  porta da cavalaria. Deu-lhe a mo, ao mesmo tempo que ela 
passava a perna por cima do Navajo com um gemido de dor.
-Consegues, Sam?
- Duvido.
Josh sorriu-lhe, enquanto ela tirava a sela e a brida, indo deposit-las, meio a cambalear, na sala de arreios.
- Que tal foi hoje? - Josh seguira-a e encontrava-se  entrada.
- Tudo bem. - Apercebeu-se, com um sorriso cansado de que comeava a ser parca em palavras, tal como o resto dos
-  cowboys. S Jordan falava de maneira diferente, e apenas
- ao dirigir-se a ela. Nessas ocasies a instruo que recebera
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era notria; o resto do tempo assemelhava-se aos demais. Ao contrrio de Bill King, que ficava ligeiramente diferente quando estava com Caroline. Bill King e Tate 
Jordan eram homens muito diferentes. Jordan no passava de um diamante
em bruto.
- Daqui at Nova Iorque ainda so uns bons quilmetros, no so, Samantha? - O velho cowboy, seco de carnes, sorriu, e Sam revirou os olhos.
- Sem dvida. Mas foi por isso que vim at c.
Josh meneou ligeiramente a cabea. No conhecia a razo por que ela viera. Mas compreendia. Um rancho era um bom stio quando se tinha problemas. Muito trabalho 
rduo, ar puro, boa comida e bons cavalos curavam quase tudo. Barriga cheia, rabo dorido, sol-nado, sol-posto, e mais um dia passado sem outras preocupaes para 
alm de verificar se o cavalo precisava de ferraduras novas ou se a vedao sul necessitava de arranjo. Era a nica vida que Josh conhecera; no entanto, vira muita 
gente a tentar outra coisa e acabar por voltar. Era uma boa vida. E sabia que faria bem a Sam. Fosse l do que fosse que ela estivesse a fugir, iria ajud-la. Josh 
reparara nas olheiras que a jovem apresentava na manh anterior. j no estavam to acentuadas.
Passaram por Black Beauty e, quase por instinto, Sam estendeu a mo e deu-lhe umas palmadinhas no focinho.
- Ol, rapaz. - Falou-lhe num tom meigo e ele relinchou como se j a conhecesse. Ela examinou-o atentamente, Parecendo observ-lo pela primeira vez. Ento, um brilho 
estranho aflorou-lhe ao olhar quando saiu da enorme cavalaria com Josh a seu lado; despediu-se e encaminhou-se lentamente para casa, onde Bill King conversava com 
Caroline. Pararam quando ela entrou.
. - Ol, Bill... Caro. - Sam sorriu para ambos. - Estou interromper alguma coisa? - Pareceu embaraada, por instantes, mas eles foram lestos a abanarem as cabeas.
- Claro que no, querida. - Caroline beijou-a, e Bill King Pegou no chapu e levantou-se.
- At amanh, minhas senhoras. - Bill deixou-as rapidamente e Samantha estendeu-se ao comprido no sof com um
gemido de dor.
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- Dia difcil? - Caroline olhou-a com um ar meigo.
No montara durante toda a semana. Havia muito papel para tratar antes do final do ano, e s lhes restavam duas semanas para o fazer. Teria de sair com Black Beauty 
pelo menos num dos prximos dias antes que ele ficasse totalmente
descontrolado, mas nem sequer tinha tempo para isso. - E ests muito cansada, Sam? - Caroline mostrava um ar de compaixo.
- Cansada? Ests a gozar? Depois de todos estes ano sentada a uma secretria? No estou cansada. Estou toda partida. Se o Josh no me ajudasse a saltar de cima do 
cavalo todas as noites, provavelmente teria de dormir l fora.
- Ests assim to mal?
- Pior do que isso.
As duas mulheres riram-se e a mexicana que ajudava 
Caroline na lida da casa fez sinal da cozinha. O jantar estava
pronto.
- Hum... O que ? - Samantha virou o nariz na direco da enorme cozinha rural elegantemente decorada.
- Enchiladas, chiles rellenos, tamales... So os meus pratos favoritos. Espero que tambm gostes.
Samantha sorriu de felicidade.
- Depois de um dia destes, podias dar-me carto para comer, desde que fosse uma boa quantidade, com um banho e uma cama no final da refeio.
- Lembrar-me-ei disso, Samantha. De qualquer forma como  que as coisas esto a correr? Tm sido correctos contigo? - Caroline franziu o sobrolho ao fazer a pergunta; 
Samantha assentiu com a cabea e sorriu.
- Tm sido magnficos. - Mas a voz ficou ligeiramente embargada, facto que no passou despercebido a Caroline.
-  excepo de...
- No h quaisquer excepes. julgo que o Tate Jordan e eu nunca seremos grandes amigos, mas ele  extremamente correcto. S acho que no aceita aquilo que chama 
"cavaleiros ocasionais".
Caroline parecia divertida.
- Talvez no seja bem assim.  um tipo estranho. Em alguns aspectos, pensa como um rancheiro, mas sente-se feliz a
- esfalfar-se a trabalhar no rancho.  o ltimo dos verdadeiros cowboys infatigvel, trabalhador, capaz de dar a vida pelos rancheiros para quem trabalha e de fazer 
tudo para salvar o rancho.  um ptimo homem para ter aqui, e um dia... - Soltou um
suspiro Um dia ser o homem certo para suceder ao Bill.
Se c ficar.
- Porque razo no ficaria? Tem uma vida de lorde
aqui. Sempre proporcionaste aos teus homens mais condies
do que outra pessoa qualquer.
- Sim. - Fez um lento gesto de concordncia com a
cabea. - E nunca me convenci de que isso tivesse assim
tanta importncia para eles. So uma raa engraada. Fazem
quase tudo por uma questo de orgulho e de honra. Trabalham para um homem por nada porque sentem que lhe devem alguma coisa ou porque ele lhes fez alguma coisa, 
e depois 
deixam a pessoa porque sentem que  o seu dever.  imposs~ vel prever o que qualquer deles ir fazer. At mesmo o Bill. Nunca percebi completamente qual a sua inteno.
- Deve ser um trabalho dos diabos dirigir um rancho como este.
- interessante. - Caroline sorriu. - Muito interessante. - De repente, reparou que Samantha olhava para o relgio. - Algum problema, Sam?
- No. - Sam ficou sbita e estranhamente calada. -So seis horas.
- Sim? - Por instantes, Caroline no percebeu. - Ah! O noticirio?
Sam anuiu com a cabea.
- V-lo todas as noites?
- Tento no o ver. - O ar de sofrimento regressara ao olhar de Sam ao proferir aquelas palavras. - Mas acabo sempre por ver.
- Achas que deves fazer isso?
- No. - Samantha abanou lentamente a cabea.
Queres que pea  Lcia-Maria para trazer a televiso para dentro? Ela pode traz-la.
Sam abanou novamente a cabea.
Tenho de deixar de o fazer um dia. - Deixou escapar
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um pequeno suspiro. - Posso faz-lo agora mesmo. - Era como combater um vcio. O vcio de olhar para o rosto de John Taylor todas as noites.
- H alguma coisa que eu possa oferecer-te para te ajudar a distrair? Uma bebida? Um noticirio da concorrncia? Um rebuado? Rasgar tecidos? - Caroline estava a 
caoar dela e Samantha riu-se. Que mulher maravilhosa e capaz de tudo compreender.
- Vou ficar boa, mas pensa numa coisa... - Olhou para Caroline com o ar de uma rapariguinha que quer pedir a estola de arminho da me para o baile de finalistas. 
E os longos cabelos louros soltos sobre os ombros apenas ajudavam a dar-lhe um aspecto mais jovem. - Tenho um pedido a fazer.
- Qual ? No consigo imaginar nada que haja aqui e que tu no possas ter.
- Eu consigo. - Samantha sorriu como uma criana pequena.
- O que  ento?
Samantha murmurou as duas palavras mgicas.
- Black Beauty.
Caroline ficou pensativa por instantes, para depois, de repente, ficar com um ar divertido.
- Ento  isso! Compreendo...
- Tia Caro... posso?
- Podes o qu? - Caroline Lord recostou-se na cadeira com um ar sumptuoso e um brilho no olhar.
Samantha, porm, no desistia facilmente.
- Posso mont-lo?
No houve qualquer resposta durante um longo instante enquanto Caroline ficava cada vez mais ansiosa.
- Achas que j ests apta a mont-lo?
Samantha fez um lento gesto afirmativo com a cabea, lembrando-se do que Josh dissera acerca do cavalo.
- Acho.
Caroline fez um sinal de concordncia com a cabea. Observara Sam a dirigir-se a cavalo para o recinto principal quando se encontrava com Bill na enorme janela panormica. 
Sam tinha os cavalos no sangue. Fazia parte dela, era instintivo, mesmo depois de j no andar a cavalo h mais de 10 anos.
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Quando Samantha respondeu, a voz era meiga e o olhar tinha um ar distante, o noticirio do ex-marido esquecido, juntamente com a mulher para os braos da qual ele 
fugira. A nica coisa em que conseguia agora pensar era no encantador garanho negro e em senti-lo debaixo dela a correr contra o vento-
- No sei porqu. - Olhou para Caroline com um ar sincero. E depois sorriu. - Sinto-me como se... como se... - Balbuciou, o olhar novamente distante. - Como se houvesse 
um desejo dentro de mim. No consigo explicar, Caro. Aquele cavalo tem qualquer coisa. - Esboou um sorriso distante, que se reflectiu instantaneamente no olhar 
de Caroline.
- Eu sei. Tambm senti isso. Essa a razo por que tive de o comprar. Mesmo que no faa qualquer sentido para uma mulher da minha idade ter um cavalo como aquele. 
No consegui resistir.
Samantha fez um gesto de total concordncia e, ao olharem uma para a outra, as duas mulheres sentiram o elo que sempre as unira para alm dos anos e dos quilmetros 
que as separavam. De algum modo, formavam uma s, como se nas suas almas fossem me e filha.
- Ento? - Samantha olhou para Caroline com ar esperanoso.
- Fora! - Caroline esboou um sorriso. - Monta-o.
- Quando? - Samantha quase ficou sem respirao.
- Amanh. Porque no?
Por que razo o queres montar?
Fez um gesto com a cabea em ar de desafio, o jantar esquecido.
De manh, quando saltou da cama, Samantha s sentiu dores durante os primeiros instantes. Depois, lembrou-se da conversa com Caroline e nada mais sentiu quando correu 
para o chuveiro e a ficou, com a gua quente a cair-lhe
nas costas e na cabea. Naquela manh nem iria sequer perder tempo com o pequeno-almoo. A nica coisa de que precisava era de uma chvena de caf da cozinha de 
Caroline; depois, iria at  cavalaria. S a simples ideia de tudo o que a esperava fazia-a sorrir. Era a nica coisa em que conseguia pensar essa manh. E o sorriso 
danava-lhe no olhar ao subir os ltimos degraus da cavalaria. Dois homens conversavam calmamente a um canto. No havia mais ningum. Ainda era demasiado cedo para 
a maior parte deles. Tomavam o pequeno-almoo e tentavam despertar, enquanto cavaqueavam so-
bre as novidades locais e os habituais mexericos no salo principal de refeies.
Calmamente, quase furtiva, Samantha pegou na sela de Black Beauty e encaminhou-se para a sua baia. Ao fazer isso, viu os dois homens a olhar para ela, um de sobrolho 
franzido. Haviam parado de conversar e observavam-na com ar de curiosidade. Sam meneou a cabea e entrou silenciosamente na baia. Murmurou algumas palavras para 
acalmar o cavalo passando a mo pelo longo e gracioso pescoo e dando palmadinhas nos poderosos flancos, enquanto o animal a com nervosismo, mexendo-se para a frente 
e para trs parando, como que para cheirar o ar onde ela se encontrava Pousou a sela  porta da baia, depois ps-lhe a brida na cabea e puxou-o para fora.
- Minha senhora? - A voz surpreendeu Sam
prendia as rdeas num poste prximo a fim de selar Black Beauty. Virou-se e viu que era um dos dois homens que estivera a observ-la, um grande amigo de Josh.
- Miss Taylor?
- Sim?
- Bem... A senhora... No sei se... - O homem mos-
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trava-se tmido mas claramente preocupado, e Sam esboou um sorriso. Tinha os cabelos soltos, os olhos brilhantes e as faces rosadas devido ao ar gelado de Dezembro. 
Estava incrivelnente bonita ao lado do puro-sangue negro, mais parecendo um pequeno palomino.
- Tudo bem - tranquilizou-o Sam prontamente. Tenho autorizao de Miss Lord.
- Sim... minha senhora... O Tate Jordan sabe?
- No. - Sam abanou firmemente a- cabea. - No. E no vejo por que razo  que deva saber. O Black Beauty pertence a Miss Caroline, no pertence?
o homem fez um gesto afirmativo com a cabea, e Sam esboou novamente o deslumbrante sorriso.
- Portanto, no deve haver qualquer problema - insistiu ela.
O homem mostrava-se hesitante.
- Acho que no. - E acrescentou, de sobrolho franzido: - No est com medo de o montar? Ele tem uma fora dos diabos nessas patas to compridas...
- No tenho a menor dvida. - Sam olhou para as patas do cavalo com prazer e entusiasmo e depois colocou a sela no lombo. Caroline tambm arranjara uma sela inglesa 
para Black Beauty, e era essa a que Samantha estava a utilizar. Dava a impresso de que ele j conhecia a sela de couro macio, diferente da desconfortvel sela do 
Oeste que Samantha usara nos ltimos dois dias. Conhecia bem aquele tipo de sela e montara muitas vezes cavalos daquela raa; todavia, um cavalo to soberbo como 
Black Beauty era uma ddiva rara na vida de qualquer cavaleiro.
Poucos minutos depois de ter colocado a sela no cavalo, apertou novamente a cilha; em seguida, com alguma hesitao, um dos dois trabalhadores aproximou-se e ajudou-a 
a montar no gigantesco cavalo negro. Ao sentir uma pessoa montada em cima de si, Black Beauty empinou-se, nervosamente, por instantes; depois, com as rdeas bem 
presas na mo, Samantha fez um sinal com a cabea aos dois homens e voltou-se rapidamente com Black Beauty. O cavalo cabriolou e andou de lado at  primeira cancela; 
transposta esta, Sam deixou-o partir a trote, que rapidamente passou a meio galo-
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pe. No cu, comeavam a raiar os primeiros sinais da madrugada, e a luz  volta de Sam era plida, quase dourada. Estava uma manh magnfica de Inverno e o cavalo 
que se movia sob o seu corpo era o animal mais extraordinrio que alguma vez montara. Inconscientemente, um largo sorriso assomou-lhe aos lbios e deixou Black Beauty 
partir a galope pelos campos. Era a sensao mais extravagante de liberdade que alguma vez tivera, quase como voar, juntos, formando um nico corpo. Ao fim do que 
lhe pareceram horas, viu-se obrigada a mudar de direco, abrandou um pouco o ritmo rumou para casa. Ainda tinha de acompanhar os homens nessa manh, e perdera o 
pequeno-almoo para galopar com aquele esplndido cavalo pelos campos. Encontrava-se apenas a uns quatrocentos metros do complexo principal quando Sam sucumbiu finalmente 
 tentao e saltou com o pequeno cavalo por cima de um riacho, o que ele fez sem dificuldade. S quando passaram o curso de gua  que Sam reparou que, a pouca 
distncia deles, Tate Jordan os observava no seu belo cavalo s malhas pretas e brancas. Sam refreou um pouco Black Beauty e encaminhou-se na direco de Tate, desejando, 
por instantes, ir at ele a todo o galope a fim de lhe mostrar como andava bem a cavalo. Contudo, resistiu  tentao e meteu o belo animal a meio galope. Black 
Beauty empinou-se alegremente quando chegaram junto de Tate.
Bom dia! Quer vir correr connosco? - O olhar de Sam espelhava uma vitria desmesurada. Tate Jordan lanou-lhe um olhar feroz.
- Que diabo est a fazer em cima desse cavalo?
- A Caroline disse-me que podia mont-lo. - Sam parecia uma criana petulante ao refrear ainda mais o cavalo, e. Tate colocou-se a seu lado. lembrava-se de tudo 
o que ele lhe dissera no dia anterior e gozava o seu momento de triunfo, enquanto Tate espumava de raiva. -  formidvel, no acha?
- Pois . E se ele tivesse tropeado no riacho ali atrs partido uma pata? Ou no pensou nisso? No viu as pedras, bolas? No sabe que ele podia escorregar facilmente. 
A voz de Tate cortou o silncio da madrugada, e Samantha lanou-lhe um olhar entediado ao porem-se em marcha.
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- Sei o que estou a fazer, Jordan
- Sabe? - Tate olhou-a com uma fria desenfreada. - Duvido. o seu conceito de saber o que est a fazer  dar nas vistas e ir o mais depressa que pode. Acaba por 
estragar a maioria dos cavalos. J no falando naquilo que lhe pode
acontecer a si.
Enquanto cavalgava ao lado de Tate, Sam sentiu vontade de gritar.
- Acha que consegue fazer melhor?
- Talvez saiba o suficiente para no tentar. Um cavalo como esse deve ser um cavalo de corridas ou um cavalo de saltos. No deve estar num rancho. No deve ser montado 
nem pela senhora, nem por mim, nem por Miss Caro. Deve ser montado por pessoas altamente treinadas, cavaleiros profissionais, ou ento, pura e simplesmente, no 
deve ser montado.
- J lhe disse, sei o que estou a fazer. - A voz de Sam ergueu-se no meio da quietude e, sem aviso, Tate esticou o brao e pegou-lhe nas rdeas. Quase de imediato, 
ambos os cavalos com os respectivos cavaleiros imobilizaram-se.
- J lhe disse ontem que esse cavalo no  para si. Vai mago-lo ou matar-se.
- Ora... - Olhou para ele com ar zangado. - Aconteceu alguma dessas coisas?
- Talvez da prxima vez.
- No consegue admitir, pois no? Que uma mulher saiba andar a cavalo to bem como voc.  isso que o chateia, no  verdade?
- Uma porra  que chateia. A menina da cidade veio para aqui divertir-se e brincar  "menina do rancho" durante algumas semanas, andar num cavalo desses, saltar 
com ele em terrenos que desconhece... Bolas! Por que razo  que as pessoas como voc no ficam no lugar a que pertencem? O seu lugar no  aqui! No compreende 
isso?
- Compreendo perfeitamente. Agora largue o meu cavalo.
- Claro que largo.
E o Tate atirou com as rdeas para Sam e partiu a galope.
Com a sensao de ter perdido mais do que ganhara, Sam
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voltou para a cavalaria num andamento mais tranquilo. No sabia porqu, mas as palavras dele tinham-na atingido. E havia uma ponta de verdade na tirada de Tate. 
Errara ao fazer saltar Black Beauty por cima do riacho. No conhecia o terreno que pisava, pelo menos no o suficiente para arriscar-se daquela maneira. Por outro 
lado, sentira-se maravilhosamente bem, em cima de um cavalo  velocidade do vento.
Sam viu os homens a reunirem-se no terreiro do complexo e apressou-se a pr Black Beauty na sua baia. Iria escov-lo, cobri-lo com a manta e depois partiria. Dar-lhe-ia 
uma boa escovadela nessa noite; porm, ao chegar junto da baia, Tate Jordan j l estava  espera, os olhos verde-esmeralda a chispar, o semblante mais carregado 
do que nunca, parecendo mais alto e mais bonito do que qualquer cowboy de um anncio... e, por instantes, lembrou-se da campanha publicitria do novo carro. Tate 
teria sido o modelo masculino perfeito... mas aquilo no era um anncio, nem estava em Nova Iorque.
- O que est a pensar fazer com esse cavalo? - O tom de voz de Tate era brando mas tenso.
-Escov-lo e depois pr-lhe a manta. - S isso?
Sam sabia bem o que ele queria dizer, e o seu rosto delicado ficou corado at  raiz dos cabelos.
- Olhe, quando voltar mais logo, tratarei dele como deve ser.
- Quando? Daqui a doze horas? O tanas  que vai tratar dele, Miss Taylor. Se quer montar um cavalo como o Black Beauty, tem de tomar a responsabilidade. Ande um 
pouco
com ele, deixe-o arrefecer e escove-o. S a quero ver daqui a uma hora. Entendido? Sei que no aceita conselhos ou sugestes. E ordens? J as percebe melhor? Ou 
tambm  algo difcil de compreender?
Sam teve vontade de lhe dar um estalo. Que homem detestvel; no entanto, era algum que adorava cavalos, e tinha razo naquilo que acabara de dizer.
- Compreendo. - Baixou os olhos e pegou na brida de Black Beauty, preparando-se para se ir embora.
- Tem a certeza?
- Tenho, bolas! Tenho! - gritou-lhe Sam, virando-se,
o olhar assumindo um brilho estranho. Tate meneou ligeiramente a cabea, voltou para o seu cavalo e desamarrou-o do poste onde se encontrava. - A propsito, para 
onde  que vo trabalhar hoje?
- No sei. - Tate passou por Sam em passada larga. - Descubra-nos.
- Como?
- Galope por todo o rancho. Ir adorar. - Tate sorriu, com ar sarcstico ao subir para o cavalo e partiu a galope. Por instantes, Sam lamentou o facto de no ser 
homem. Naquele preciso momento, teria adorado bater-lhe, mas ele j ali no estava.
S ao fim de duas horas  que os descobriu. Duas horas a todo o galope seguindo trilhos conhecidos e perdendo-se noutros. A determinada altura, chegou a pensar que 
Tate escolhera propositadamente uma actividade nas zonas mais remotas do rancho de modo a que ela no os encontrasse. Finalmente, acabou por encontr-los. Apesar 
do ar gelado de Dezembro, Sam sentia calor aps cavalgar por todos os recantos de que se lembrava  procura deles. Depararam-se-lhe outros dois pequenos grupos de 
trabalho, e um maior, mas no havia qualquer sinal do de Tate.
- Gostou da cavalgada? - Tate olhou para Sam com ar divertido quando ela parou e Navajo comeou a bater com as patas no cho.
- Maravilhosa, obrigada. - Apesar de tudo, havia a sensao de vitria por t-los descoberto, e os olhos verde-esmeralda cintilavam ao sol. Ento, sem dizer mais 
qualquer palavra, Sam foi juntar-se aos outros homens, desmontando pouco depois para ajudar a levar uma vitela acabada de nascer num amparo feito com um cobertor. 
A me morrera horas antes, e a vitela parecia tambm no querer resistir. Um dos homens iou o pequeno animal, que mal respirava, para a parte dianteira da sela 
e transportou-o para o estbulo do gado, onde tentaria arranjar-lhe uma me adoptiva. S meia hora depois  que Sam descobriu o vitelo seguinte, este ainda mais 
pequeno do que o anterior; a me, porm, j morrera h muito mais horas. Desta vez sem ajuda, Sam iou o vitelo para cima da sua sela com o auxlio de um jovem ajudante 
que
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estava deveras intrigado por Samantha se
desenvencilhar bem com o vitelo. Depois, sem esperar instrues, comeou andar a meio galope atrs do outro ajudante, em direco ao estbulo principal.
- Consegue dar conta do recado sozinha? - Ergueu os olhos, espantada por ver Tate Jordan a seu lado, O lustroso cavalo de malhas pretas e brancas a formar uma interessante 
parelha com o appaloosa castanho e branco.
- Sim, acho que consigo. - Depois, ao olhar com preocupao para o animal  sua frente, acrescentou: - Acha que este sobreviver?
- Duvido. - Falou num tom frio quando olhou para
ela. - Mas vale a pena tentar. 
Sam fez um sinal de concordncia com a cabea e apressou o andamento; desta vez, Tate virou-se para segui-la com o olhar. Poucos minutos depois, Sam encontrava-se 
no estbulo principal e o vitelo rfo era levado para mos experientes que cuidaram dele durante mais de uma hora; contudo, o pequeno vitelo no sobreviveu. Quando 
voltou para junto de Navajo, esperando pacientemente diante dos estbulos do gado, os olhos inundaram-se-lhe de lgrimas, a que se seguiu uma raiva sbita. Raiva 
por no terem conseguido salvar o vitelo, pelo facto de o pobre animal no ter sobrevivido. Sabia que existiam mais animais como aquele, perdidos pelos campos, cujas 
mes tinham, por uma razo ou outra, morrido ao parirem no frio da noite. Os homens estavam sempre atentos ao gado em dificuldades, mas era inevitvel algumas reses 
escaparem ao seu controlo e morrerem nas colinas. Todos os anos acontecia o mesmo. Era um facto comum, sobretudo com as vacas que pariam no Inverno. Os homens aceitavam 
a morte do animal, Samantha no. Os vitelos rfos eram como que smbolos das crianas que no podia ter; voltou para junto dos outros com um sentimento de vingana 
e com a determinao de que o prximo vitelo que trouxesse. no morreria.
Sam transportou mais trs vitelos nessa tarde, a todo o galope, tal como fizera com Black Beauty nessa manh, os vitelos embrulhados em cobertores, sob os olhares 
intrigados e estupefactos dos homens. Era uma mulher jovem, estranha e bela,
inclinada sobre o pescoo do cavalo, a cavalgar como nunca
uma mulher fizera no Rancho Lord, nem sequer Caroline
Lord. o extraordinrio foi que ao verem-na voar pelas coli-
nas, o Navajo a correr como um raio, os homens reconheceram que Sam era uma ptima cavaleira. Como poucas. Ao
regressarem  cavalaria nessa noite, os homens gracejaram
como nunca haviam feito antes.
- Anda sempre daquela maneira? - Era Tate Jordan
mais uma vez, os cabelos escuros desgrenhados sob o enorme
o chapu preto de cowboy, os olhos brilhantes, a barba a fazer-se notar. Havia nele uma espcie de forte masculinidade que fizera parar as mulheres quando o viam, 
como se, por instantes, lhes tirasse a respirao. Samantha, porm, no padecia desse mal. Existia algo de presunoso no modo como ele andava que a aborrecia. Era 
um homem que estava seguro do seu mundo, do seu trabalho, dos seus homens, dos seus cavalos e, provavelmente, tambm das mulheres. Sam ficou, por instantes, sem 
responder  pergunta, depois fez um gesto afirmativo com a cabea e esboou um vago sorriso.
- Por uma boa causa.
- E esta manh? - Por que razo  que ele a pressionava?, perguntou a si mesma. O que tinha ele a ver com isso?
- Foi tambm por uma boa causa.
- Foi? - Os olhos verdes seguiram-na enquanto os dois regressavam a casa depois do longo dia.
Desta vez Samantha encarou-o com ar franco, os seus olhos azuis fixos nos verdes de Tate.
- Sim, foi. Fez-me sentir viva e livre de novo, Mister Jordan. j no me sentia assim h muito tempo.
Tate meneou lentamente a cabea e no disse qualquer palavra e Sam ficou sem saber se ele percebera, ou sequer se ligara s suas palavras. O capataz adjunto lanou 
a Sam um l-
timo olhar e continuou o seu caminho.
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- No vai montar o Black Beauty esta manh?
Por instantes, Sam quase lhe deu um estalo quando passou a perna por cima do Navajo e se instalou na sela. Ento, sem qualquer razo especial, Sam sorriu-lhe.
- No, pensei em dar-lhe uma folga, Mister Jordan. E senhor?
- No monto puros-sangues, Miss Taylor. - Os olhos verdes tinham um ar risonho enquanto o cavalo malhado danava de um lado para o outro.
- Talvez devesse.
Sem dizer nada, Tate partiu, levando os seus homens para uma zona distante do rancho. O grupo era maior do que habitualmente e naquele dia Bill King e Caroline tambm 
os acompanhavam. Sam mal os viu. Estava demasiado ocupada no trabalho que lhe haviam destinado e sentia que os homens comeavam a aceit-la. No eram esses os seus 
planos e desejos originais. Mas ela trabalhara com tal afinco e cavalgara to bem, durante horas a fio, empenhara-se tanto a salvar os vitelos rfos que, de repente, 
naquela manh, j s se ouvia: "Olhaaaaa! Aqui... Sam!... Olha, Sam, bolas!... agora!" No se ouviu mais "Miss Taylor", nem um simples "senhora*. Perdeu totalmente 
a noo das horas, de tudo,  excepo do trabalho e daquilo que a rodeava, e s ao jantar, nessa noite,  que parou para falar novamente com Caroline.
- Sabes, Sam, s uma maravilha. - Caroline serviu uma segunda chvena de caf a Samantha e recostou-se na confortvel cadeira da cozinha. - Podias estar em Nova 
Iorque, sentada atrs de uma secretria, a criar anncios exticos, a viver num apartamento que  a inveja de muita gente e,.em vez disso, ests aqui, a andar atrs 
de vacas, a transportar vitelos doentes, com estrume pelos joelhos, a arranjar vedaes com os meus ajudantes, a receber ordens de homens com graus de instruo 
inferiores, a levantar-te antes do alvorecer e a cavalgar durante todo o dia. No h muitas pessoas que compreendam isso. - J para no falar no facto de ter sido 
a mulher de um dos homens mais desejados da televiso, pensou Caroline. - O que achas do que ests a fazer? - Os olhos azuis de Caroline focaram-na e Samantha sorriu.
- Penso que estou a fazer a primeira coisa sensata desde h muito tempo, e estou a adorar. Alm disso... - Sam esboou um sorriso agarotado... - Acho que se  para 
ficar por aqui durante algum tempo, terei de montar o Black Beauty de novo.
- O Tate Jordan  que no gosta l muito da ideia.
- Acho que ele no gosta  de mim.
- Tens-lhe metido sustos de morte, Samantha?
- Nem por isso. Arrogante como , seria extremamente difcil.
- Penso que no  esse o caso. Ouvi dizer que ele acha que sabes andar a cavalo. Vindo dele,  um grande elogio.
- Tive essa suspeita esta manh, mas ele prefere morrer a dizer isso.
-  to diferente dos outros homens. Este  o mundo deles, Samantha, no  o nosso. Num rancho, uma mulher  ainda uma cidad de segunda classe. Eles so reis e 
senhores aqui.
- Isso aborrece-te?
Samantha olhou-a, intrigada, mas Caroline ficou com um ar enternecedor e pensativo. Havia uma grande docilidade no seu olhar.
_ No, gosto assim - respondeu Caroline num tom estranhamente meigo e a sorrir para Samantha, mais parecendo uma garota pequena. Naquele momento percebeu-se bastante 
bem o papel de Bill King.  sua maneira, ele  que a orientava, e ela adorava isso. Era assim h muitos anos. Ela respeitava O Poder, a fora, a masculinidade, as 
opinies relativas ao rancho e o modo de lidar com os homens de Bill. Caroline era a dona do rancho e era ela que o dirigia, mas Bill King sempre estivera na retaguarda 
a ajud-la, a segurar nas rdeas. Os ajudantes respeitavam-na, mas como mulher, como figura decorativa, Fora Bill King que sempre dera as ordens. Agora era Tate 
Jordan que as dava. Havia algo de terrivelmente machista, brutal e sedutor em tudo aquilo. Era uma fora a que Samantha procurava resistir enquanto mulher moderna, 
porm,
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no conseguia. A atraco por esse tipo de masculinidade era demasiado forte.
- Gostas do Tate Jordan? - Era uma pergunta estranha e directa, e Caroline formulara-a com tal ingenuidade que Samantha deu uma gargalhada.
- Gostar dele? Acho que no conseguiria. - Sabia que Caroline no estava a falar a srio e soltou nova gargalhada enquanto se recostava na cadeira. -  bom naquilo 
que faz. Respeito-o, embora no seja certamente um homem de fcil trato. Alm disso, acho tambm que no vai muito com a minha cara.  atraente, se  a isso que 
te referes, mas tambm se mostra inacessvel.  um homem estranho, tia Caro.
Caroline fez um silencioso gesto de concordncia com a cabea. j dissera praticamente as mesmas coisas de Bill King.
- O que te levou a fazer a pergunta? - No havia nada entre eles, nada que Caroline pudesse ter sentido ou visto durante o dia.
- No sei.  s uma sensao. Tenho a impresso de
que ele gosta de ti. - Caroline disse isto com toda a simpli-
cidade, tal como as midas pequenas fazem.  i
- Duvido. - Samantha ficou com um ar divertido e
cptico. Depois falou num tom mais firme. - Em qualquer
caso, no  por isso que estou aqui. Estou aqui para esquecer
o envolvimento com um homem. No quero envolver-me
com outro. E certamente ningum aqui o quer fazer.
- O que te leva a dizer isso? - Caroline olhou para Sam de forma estranha.
- Porque nos comportamos como estranhos uns com os outros. Sou uma estranha para eles, e eles so estranhos para mim. No compreendo os seus hbitos, nem eles compreendem 
os meus. No... - Soltou um leve suspiro. - Estou aqui para trabalhar, tia Caro, no para brincar com os cowboys"
Caroline riu-se das palavras que Sam utilizara e abanou a cabea.
-  como essas coisas comeam. Nunca ningum tinha inteno...
Sam perguntou-se, por instantes, se Caroline estaria a tentar dizer-lhe alguma coisa, se iria, ao fim de todo aquele tempo, admitir a sua relao com Bill King, 
mas o momento
sou rapidamente. Caroline levantou-se, ps os pratos no lava-loua e, pouco depois, comeou a apagar as luzes da cozinha. Lucia-Maria j h muito que fora para casa. 
Samantha ficou subitamente com pena de no a ter encorajado a dizer mais qualquer coisa, mas teve a impresso de que a amiga estava ansiosa por no dizer mais nada. 
Uma porta fechara-se j
silenciosamente.
- A verdade  que j estou apaixonada, tia Caro.
- A srio? - A mulher de mais idade parou imediatamente o que estava a fazer e pareceu perplexa. No fizera a menor ideia de Samantha estar j envolvida com algum.
- A srio.
- Ser de mau gosto perguntar-te por quem?
- De modo algum. - Lanou-lhe um afvel sorriso. - Estou apaixonadssima pelo teu puro-sangue.
Desataram as duas a rir e despediram-se pouco depois. Nessa noite, Sam ouviu os sons, agora familiares, de abrir e fechar da porta principal. Tinha a certeza que 
era Bill King a vir passar a noite com Caroline. Gostaria de saber por que razo no se tinham j casado, uma vez que aquela situao se prolongava h tanto tempo. 
Talvez tivessem as suas razes. Ele era capaz de j ser casado. Deu consigo a meditar sobre as perguntas que Caroline lhe fizera acerca de Tate Jordan e sentia-se 
curiosa em conhecer a razo por que Caroline suspeitava que Samantha estava atrada por ele. Todavia, no estava- Se alguma coisa existia, era o facto de ele a aborrecer. 
Ou no seria tanto assim? Sam deu subitamente consigo a questionar-se. Tate era de uma beleza selvagem, parecia tirado de um anncio... de um sonho. Mas no era 
o seu gnero de sonho; alto, moreno e bonito. Sorriu, o esprito dirigiu-se instantaneamente para John Taylor... John com os seus belos cabelos louros as longas 
pernas e os enormes olhos quase cor de safira. Haviam tido uma relao to perfeita, to viva, to feliz... tudo feito pelos dois... tudo... excepto a paixo por 
Liz Jones. Isso John fizera sozinho.
Sam tinha a consolao de no pensar deliberadamente nele e deixara de assistir ao noticirio. Pelo menos, no sabia como  que a gravidez estava a evoluir, nem 
tinha de ouvir Liz agradecer a outro milhar de telespectadores as botinhas
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feitas  mo, os cobertores de croch ou as "amorosas touquinhas cor-de-rosa". Fora insuportvel; porm, enquanto estivera em Nova Iorque no conseguia deixar de 
assistir aos noticirios. At mesmo quando trabalhava at tarde. Era como se houvesse um despertador enterrado algures no seu corpo que tocava s seis horas e a 
forava a ir inexoravelmente em direco ao televisor. Pelo menos ali j no pensava nisso h quase uma semana. Dentro de mais uma semana seria Natal, , se, pela 
primeira vez em onze anos, conseguisse pass-lo, sem John, sabia que sobreviveria. Entretanto, a nica coisa que tinha de fazer era trabalhar de manh at  noite, 
acompanhar os cowboys, permanecer doze horas por dia em cima de Navajo, descobrir os pequenos vitelos rfos e traz-los sos e salvos. Com o passar dos dias e dos 
meses, conseguiria. Comeava finalmente a perceber que a vida continuava. Agradeceu' a si prpria a sensata deciso de vir para o Oeste, enquanto os olhos se fechavam 
e adormecia. Desta vez, alm de Liz, John e Harvey Maxwell havia outras pessoas nos seus sonhos: Caroline a tentar desesperadamente dizer-lhe algo que ela no conseguia 
ouvir; Josh a rir, sempre a rir; e um homem alto e moreno, montado num bonito cavalo preto com uma bonita estrela branca na testa e duas manchas brancas na parte 
inferior das patas. Sam ia montada atrs do homem, na garupa, abraada a ele, enquanto cortavam a noite a galope. Nunca soube muito bem para onde iam ou donde vinham, 
mas sabia que se sentia em segurana enquanto cavalgavam em unssono perfeito. Quando o despertador a acordou s quatro e meia, Sam sentiu-se estranhamente cansada, 
mas no conseguia lembrar-se do sonho.
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Pouco antes de acabarem o habitual intervalo para o almoo, Tate Jordan fez o sinal e o enorme grupo de homens soltou um grito e iniciou a viagem de regresso. Sam 
estava entre eles, a tagarelar com Josh acerca da mulher e dos filhos, enquanto dois dos homens gracejavam com ela. Um acusava-a de, provavelmente, ter fugido a 
um namorado que lhe batia "e com razo, depois de ver a lngua comprida que tens", o outro alegava que ela talvez fosse me de onze filhos e pssima cozinheira, 
por isso tinham-na posto fora de casa.
- Tens toda a razo. - Samantha riu com os homens que a acompanhavam. Fora uma manh de tarefas fceis e todos estavam ansiosos por acabar o trabalho cedo para irem 
almoar. Era vspera de Natal, e nessa noite haveria uma enorme festa no salo principal. As mulheres, os filhos e at as namoradas tinham sido convidados. Era um 
acontecimento anual e adorado por todos. Fazia-os sentir mais como uma famlia, mais unidos no seu amor pelo rancho.
- A verdade  que tenho quinze filhos ilegtimos e todos eles me batiam, foi por isso que fugi. Qual  o problema?
- O qu? No tens namorado? - berrou um dos veteranos, ao mesmo tempo que soltava uma gargalhada. - Um pequeno palomino como tu e sem namorado. No brinques comigo. 
- Tinham comeado, a compar-la a um palomino; como adorava cavalos, tomava isso como um cumprimento. A verdade  que cada dia que passava parecia mais um palomino. 
Os longos cabelos brilhantes estavam a embranquecer com a luz do Sol e o rosto comeava a ganhar um tom bronzeado. Fazia uma bonita combinao, o que chamava a ateno 
de todos os homens. - No me digas que no tens namorado, Sam! - O veterano insistia na questo que suscitava curiosidade em todos eles e sobre a qual falavam quando 
ela no estava presente.
No houve, naturalmente, quinze pais para os filhos ilegtimos, mas agora... - Sam riu-se com eles e depois encolheu os ombros. Ao dirigir-se para a cavalaria, 
virou-se e
acrescentou: No sou para o dente de qualquer homem.
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Josh observava-a com um olhar afvel, e o homem lado aproximou-se ainda mais e perguntou-lhe:
- Qual  a histria dela, Josh? Tem filhos?
- Que eu saiba, no.
-  casada?
- J no. - No acrescentou mais nada. Em parte por que achava que, se Sam lhes quisesse contar alguma coisa, seria ela a faz-lo. Alm disso, pouco sabia da vida 
dela.
- Julgo que ela est aqui para fugir de alguma coisa disparou um jovem cowboy, corando.
- Talvez - concordou Josh e continuou o seu caminho. Ningum queria discutir o assunto. Era Natal, tinham de pensar nas mulheres e nos filhos, e o problema era dela. 
Apesar da tendncia para os mexericos que existe em qualquer situao de vivncia em comum, imperava um grande respeito no rancho. Muitos daqueles homens guardavam 
as suas opinies para si; estimavam-se uns aos outros e preservavam a sua privacidade. Eram pouco faladores e a maioria das conversas tinha por tema o gado e o rancho. 
Sam sentia-se segura no meio deles. Vir para ali fora uma deciso acertada. Ningum iria fazer-lhe perguntas sobre John ou Liz, nem sobre a razo de nunca ter tido 
filhos, nem sobre o modo como se sentia, agora que estava divorciada... "Diga-me, Mistress Taylor, agora que o seu marido a trocou por outra mulher, como  que se 
sente ... " Passara por tudo isso em Nova Iorque. E agora estava livre.
- At logo! - proferiu Sam, alegremente, para Josh, en
quanto se dirigia apressadamente para o edifcio principal.
Ia tomar um duche e vestir umas calas de ganga limpas, depois
prometera voltar ao salo para ajudar a decorar a rvore. Ha
via grupos de trabalho dedicados a tudo, desde cantar canes
de Natal at cozinhar. O Natal era um acontecimento impor-
tante para toda a gente do Rancho Lord.
Quando entrou em casa, Caroline examinava minuciosamente um enorme livro de contas, de sobrolho franzido. Samantha aproximou-se de mansinho e deu-lhe um enorme abrao.
- Oh! Assustaste-me! - Por que razo no te descontrais?  Natal!
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- J pareo o Scrooge? - O rosto de Caroline desfez-se num  afvel sorriso. - Deveria dizer: "Ora, isso  tudo uma
farsa!"
- Ainda no. Espera at amanh. Depois vamos assombrar-te con, o Esprito do Natal Passado!
Ora, ora... J tm aparecido, acreditas? - Por instantes, mostrou-se pensativa, pondo o livro de contas de lado. De repente o seu esprito regressou a Hollywood 
e aos Natais passados l. Enquanto a olhava, Samantha sabia exactamente em que  que ela estava a pensar.
- Ainda sentes saudades de tudo? - Sam queria dizer: "Ainda sentes saudades do teu marido?", e os olhos de Samantha ficaram subitamente tristes. Era como se precisasse 
de saber durante mais quanto tempo  que a dor iria manter-se.
- No. - Caroline respondeu delicadamente  pergunta. - No sei se realmente alguma vez senti, nem mesmo ao princpio. Por estranho que possa parecer, isto foi sempre 
mais o meu estilo. Durante muito tempo no me apercebi, mas descobri logo que c cheguei. Sempre me senti feliz aqui, Samantha.  o stio certo para mim.
- Eu sei. Sempre senti isso. - Sam invejava-a. Ainda no encontrara o seu prprio lugar. A nica coisa que possua era o apartamento que partilhara com John Taylor. 
No havia nada exclusivamente seu.
- Sentes muitas saudades de Nova Iorque?
Sam abanou lentamente a cabea.
- De Nova Iorque, no. S de alguns amigos. Dos meus amigos Charlie e Melinda e dos respectivos filhos. Um deles  meu afilhado. - Sentiu-se subitamente melanclica 
e desolada, com saudades das pessoas que deixara. - E talvez do meu patro, o Harvey Maxwell. E o director artstico da CHL. Tem sido como um pai para mim. Acho 
que tambm estou com algumas saudades dele. - Ento, ao dizer aquelas palavras, apoderou-se dela uma onda de solido que a levou a pensar novamente em John... Era 
o primeiro Natal sem ele. Involuntariamente, os olhos inundaram-se de lgrimas e desviou o olhar; Caroline, porm, deu conta do facto, estendeu o brao e pegou-lhe 
na mo.
- Tudo bem. Compreendo... - Puxou Samantha para
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si. - Lembro-me de como foi quando perdi o meu marido. Tambm foi um ano muito difcil para mim. - Aps alguns instantes, acrescentou: - Mas as coisas vo melhorar. 
D tempo ao tempo.
A jovem fez um gesto de concordncia, abanou ligeiramente os ombros, encostou a cabea no delicado ombro
tia Caro, fungou e afastou-se.
- Desculpa. - Sam esboou um sorriso por entre as lgrimas. - Que piegas! No sei por que razo isto aconteceu,
- Porque  Natal e porque estiveste casada com ele todos esses anos.  perfeitamente normal, Sam. Por amor de Deus, o que  que esperavas? - Mais uma vez, como j 
lhe acontecera um sem-nmero de vezes desde que soubera que John abandonara Sam, Caroline sentia-se revoltada com o que ele fizera. Como tivera ele coragem para 
trocar aquela jovem requintada pela galdria que vira furtivamente na televiso? Tentava descobrir a razo por que ele a escolhera em detrimento de Sam. A nica 
razo que via era o beb, mas mesmo essa parecia uma razo pouco plausvel para se ficar completamente louco e deixar uma mulher como Sam. No obstante, ele fizera-o.-- 
Vais ajudar a decorar a rvore?
Sam assentiu com a cabea e esboou um sorriso destemido.
- Tambm prometi fazer bolachas, mas vais ficar desiludida. Os homens com quem tenho andado a trabalhar dizem-me, no gozo, que uma mulher que monta da forma que 
eu o fao provavelmente no sabe cozinhar. E o pior  que tm razo. - Soltaram uma gargalhada, Sam beijou ternamente a tia Caro e abraou-a uma vez mais. - Obrigada. 
- As palavras saram num veemente murmrio.
Porqu? No sejas tonta.
Por seres minha amiga. - Quando Sam soltou Caroline, tambm havia lgrimas nos olhos desta. . - Tonta. Nunca mais me agradeas por ser tua amiga. Caso contrrio, 
no o serei! - Tentou mostrar um ar zangado , mas no conseguiu, e mandou Sam decorar a rvore.
Meia hora depois, Samantha encontrava-se no salo empoleirada no cimo de uma escada comprida, a pendurar enfeites prateados, verdes, vermelhos, azuis e amarelos 
na
rvore.
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Algumas crianas penduravam pequenos enfeites de papel fei
tos por elas nos ramos inferiores. Um grupo de crianas mais
velhas fazia cordes de pipocas e uvas-do-monte, enquanto um crculo de homens e mulheres, no meio de uma algazarra
igual ou superior  dos filhos, escolhia os enfeites. Era uma congregao vasta e feliz, com as mulheres a andarem numa azfama a transportar enormes tigelas de 
pipocas, travessas de bolachas de chocolate e noz, feitas no rancho ou em casa. Havia pessoas a trabalhar por todo o lado, no melhor esprito natalcio; at Tate 
Jordan participava e, como gigante oficial
do rancho, concordara em colocar a estrela na copa da rvore. Transportava uma criana em cada ombro e deixara o chapu preto pendurado num cabide perto da porta. 
S quando che-
gou junto da rvore  que viu Samantha; pousou as crianas no cho e sorriu. No cimo da escada, por uma vez, ela era
mais alta do que ele.
- Puseram-te a trabalhar, Sam?
- Claro. - Sorriu; a partir do momento de nostalgia
por que passara, o seu sorriso perdera um pouco o brilho.
Tate apropriou-se, por instantes, da escada e comeou a subir
a fim de pendurar a enorme estrela dourada. Colocou mais
alguns anjos e algumas bolas brilhantes junto da copa, ajustou
as luzes, desceu, pegou em Sam e p-la de novo em cima das
escadas. - Muito simptico.
- Tenho de tirar algum proveito do facto de ser alto.
Quer uma chvena de caf? - perguntou num tom despreo
cupado, como se tivessem sido sempre amigos; desta vez,
quando Sam respondeu, havia mais vida no seu sorriso.
- Quero.
Tate voltou com duas chvenas de caf e bolachas de
chocolate e noz, passou a Sam uma srie de enfeites, que ela
pendurou, enquanto bebia uns goles de caf, mordiscava uma
bolacha e perguntava onde  que devia pendurar a bola seguinte. Finalmente, Sam sorriu para Tate depois de ele lhe
dizer onde pendurar um pequeno anjo prateado.
- Diga-me, Mister Jordan, passa o tempo a dar ordens?
Tate fez uma pausa para pensar e depois assentiu com um
gesto afirmativo da cabea - Sim, acho que sim.
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Sam sorveu o caf e olhou para ele. -No acha enfadonho?
- No - retorquiu, lanando-lhe um olhar mordaz. Tambm acha... enfadonho dar ordens? - Sentia que ela tambm estava habituada a dirigir. Havia algo nela que denotava 
uma aura de comando.
Sam respondeu sem hesitaes. -Sim. Muito.
- E  por isso que est aqui? - Fora uma pergunta muito directa e Sam olhou-o, por instantes, antes de responder. -Em parte.
Tate admitiu a hiptese de ela ter tido um esgotamento nervoso. Estava certo de que existia uma razo sria para ela vir para o rancho, no se tratava de uma simples 
dona de casa ''
a fugir do lar. Tambm no havia quaisquer indcios de loucura. No possua qualquer pista.
- Samantha, o que faz voc quando no est na Califrnia a trabalhar em ranchos?
No lhe apetecia responder mas apreciava a franqueza de Tate. Alm disso, no queria estragar a relao de trabalho armando-se em engraadinha com respostas mordazes 
e afugen tando-o. Era um homem de quem gostava e que respeitava, embora s vezes o detestasse, e achava-o um bom profissional. De que serviria estar a gozar com 
ele naquele momento?
- Escrevo anncios de publicidade. - Era uma resposta simplificada em relao ao seu trabalho, mas para comeo estava bem. De certa forma, ela mais no era do que 
uma espcie de capataz adjunto da Crane, Harper & Laub. A ideia f-la sorrir.
- Onde  que est a graa? - Tate ficou algo confuso- No  nada. S acho que os nossos cargos so parecidos. Na agncia de publicidade onde trabalho h um homem 
chamado Harvey Maxwell.  uma espcie de Bill King Tambm  velho e um dia destes vai reformar-se, e... - De repente, Sam ficou arrependida de ter dito aquilo. Ele 
podia pensar que ela queria tomar o lugar do homem e levar a inal a analogia, mas Tate Jordan apenas sorriu quando Samantha acabou abruptamente a sua exposio.
- Continue, diga.
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Digo o qu? - Tentou exibir um ar desentendido. Que, provavelmente, vai ficar com o lugar dele.
O que o leva a pensar isso? - Apesar do bronzeado recente, Sam estava corada. - No disse tal coisa.
- Nem precisava. Disse que os nossos cargos eram parecidos... - Por uma qualquer razo que escapava a Sam, Tate exibia um ar satisfeito, como se aquilo o divertisse. 
- Muito bem. Gosta do que faz?
- s vezes. Outras vezes  um caos, uma loucura, e eu detesto-o.
- Pelo menos no tem de andar doze horas  chuva em cima de um cavalo.
-A  que est a questo. - Sam sorriu de novo, subitamente intrigada com aquele homem enorme e afvel, que fora to brusco e autoritrio nos primeiros dias, mostrando-se 
furioso por ela montar Black Beauty, e agora parecia uma pessoa totalmente diferente, enquanto bebiam caf e comiam bolachas junto da rvore de Natal. Sam olhou-o 
fixamente por instantes e depois resolveu fazer-lhe uma pergunta. Sentiu, de repente, que no tinha nada a perder. Parecia no haver nada que conseguisse enfurecer 
ou aborrecer Tate. - Diga-me uma coisa. Por que razo  que fica to furioso comigo por montar o Black Beauty?
Tate permaneceu imvel por momentos, depois pousou a chvena do caf e olhou Sam fixamente.
-Porque achava que era perigoso para si.
-E tambm porque achava que eu no era capaz de o montar, no  verdade? - Desta vez no se tratava de um desafio, era uma pergunta directa, e ele deu-lhe uma resposta 
directa.
- No, eu j vira que era boa cavaleira nesse primeiro dia. Pela maneira como montou o Rusty  chuva e at pelo pouco trabalho que conseguiu tirar da velha pileca. 
J sabia que era mesmo boa. Mas para o Black Beauty no basta.  preciso cuidado e fora. E acho tambm que no vai continuar a mont-lo por muito mais tempo. Tenho 
a certeza. Um dia esse cavalo ainda vai matar algum, e eu no gostaria que fosse voc. - Tate fez uma ligeira pausa, a voz roufenha.
Miss Caroline nunca o devia ter comprado.  um cavalo
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ruim, Sam. - Tate olhou para ela de forma estranha. - Tenho essa sensao. Ele assusta-me. - Depois, para espanto de Sam, acrescentou num tom extremamente meigo: 
- No quero que volte a mont-lo.
Sam no disse nada como resposta, e aps um longo instante desviou o olhar.
- Mas isto no faz o seu gnero, no  verdade? - prosseguiu ele. - Recusar um desafio, evitar um risco... Especialmente agora.
- O que quer dizer com isso? - Sentia-se confusa com o que acabara de ouvir.
Tate olhou-a novamente nos olhos quando respondeu. -Tenho a sensao de que perdeu algo de muito precioso para si... uma pessoa, muito provavelmente...  a nica 
coisa a que muitos de ns damos importncia. Talvez agora no se preocupe consigo tanto como deveria.  uma m altura para montar um demnio como aquele garanho. 
Prefiro v-la noutro cavalo qualquer, menos nesse. Todavia, no acredito que deixe de montar um puro-sangue apenas porque eu lhe pedi.
Sam no sabia o que dizer quando Tate parou de falar; a voz era rouca quando finalmente respondeu.
- Tem razo em muitas coisas, Tate. - O nome dele era novo e estranho nos lbios de Sam; ao levantar os olhos para o encarar, a voz mostrou-se ainda mais branda. 
- Errei ao mont-lo... da maneira que o fiz. Corri muitos riscos nessa manh. - Depois, aps uma breve pausa: - No prometo que no voltarei a mont-lo. Porm, quando 
o fizer, terei cuidado. Prometo-lhe isso. S  luz do dia, em terreno que conhea, sem saltos por cima de regatos pedregosos que mal se vem...
-Meu Deus, que tolerante! - Tate baixou os olhos e sorriu. - Estou impressionado! - Gracejava de novo, e Sam esboou um sorriso.
- E devia estar! No imagina as loucuras que tenho feito com cavalos ao longo dos anos.
- Devia abandonar esse tipo de coisas, Sam. No vale o preo que pode ter de pagar.
Permaneceram em silncio por instantes. Ambos tinham
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conhecimento de acidentes ocorridos; conheciam paraplgicos confinados a cadeiras de rodas para o resto da vida por terem corrido o risco de um salto louco e no 
conseguirem.
- Nunca achei piada aos loucos concursos de saltos da zona leste. Meu Deus, pode matar-se. Ser que vale a pena? Sam deixou o seu olhar penetrar no dele.
- Isso tem alguma importncia? Tate fixou-a com intensidade.
- Pode no ter importncia agora, Sam. Mas um destes dias as coisas podem mudar. No faa nenhum disparate. Depois, talvez j no haja soluo.
Sam meneou lentamente a cabea e sorriu. Tate era um homem estranho e consciencioso, possuindo qualidades de que ela no se apercebera no incio. Vira-o apenas como 
um capataz autoritrio mas eficaz. Agora via que era um homem de sentimentos profundos: Os anos que passara com as pessoas, os rancheiros e os trabalhadores, a existncia 
que levara, com ganhos e perdas, trabalhando at cair para o lado, no tinham sido em vo. Para alm do mrito com que exercia o seu cargo, aprendera a analisar 
as pessoas, o que no era uma arte simples.
-Mais caf? - Tate fixou-a novamente com um pequeno sorriso nos lbios e ela abanou a cabea.
- No, obrigada, Tate. - Desta vez o nome saiu-lhe com maior facilidade. - Tenho de me pr a andar. Fiquei encarregada de fazer as bolachas. E voc?
Tate exibiu um sorriso de orelha a orelha e esticou-se para lhe segredar algo ao ouvido.
-Sou o Pai Natal - proferiu ele, com um misto de embarao e de alegria.
- O qu? - Olhou-o, confusa e divertida, sem saber se ele estava a brincar.
- Sou o Pai Natal! - repetiu Tate, mal mexendo os lbios; depois, aproximando-se mais, explicou: - Costumo mascarar-me todos os anos e Miss Caroline fica com este 
saco enorme de brinquedos para os midos. Fao de Pai Natal. - Oh, Tate, voc?
- Com os diabos, sou o tipo mais alto. Faz sentido. - Tentava encarar o facto com trivialidade, mas era bvio que sen
tia prazer nisso. - Os midos merecem tudo. - De novo um ar inquiridor. - Tem filhos?
Sam abanou lentamente a cabea, o olhar sem denotar vazio que sentia dentro de si.
- E voc? - Esquecera-se, momentaneamente, das bisbilhotices que ouvira da boca de Josh.
- Tenho um. Trabalha num rancho perto daqui.  u ptimo mido.
-  parecido consigo?
- No. Nada.  ruivo como a me. - Sorriu ao dizer isto, pensando no rapaz com bvio orgulho.
-  um homem cheio de sorte - comentou Sam, sentindo de novo a voz embargada.
-Tambm acho. - Tate sorriu. Num surdo e suave tom de voz, como se estivesse a acarici-la, acrescentou: - Mas no se preocupe, pequeno palomino, um destes dias 
tam bm vai ter a sua dose de sorte. - Deu-lhe um ligeiro toque no ombro e desapareceu.
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-Pai Natal... Pai Natal...! Aqui...
- S um minuto, Sally. Tens de esperar que eu v para esse lado da sala. - Tate Jordan, com a enorme barba branca e o fato de veludo vermelho, abria lentamente alas 
pela sala, contemplando cada criana com um presente h muito aguardado, distribuindo chupa-chupas e outros doces, festas na cara, abraos e at beijinhos. Era uma 
faceta de Tate Jordan que ningum conhecia a no ser aqueles que o viam fazer isto todos os anos. V-lo rir, cabriolar e tirar outra surpresa do enorme saco fazia-os 
acreditar no Pai Natal. Se ele no lhe tivesse dito que ia fazer de Pai Natal, Samantha nunca teria suspeitado que era ele. At a voz parecia diferente quando conversava 
e ria, exortando as crianas a serem boas para as mes e os pais esse 'ano, para deixarem de arreliar as irms mais novas, para fazerem os trabalhos de casa e no 
serem ms para os gatos e os ces. Parecia saber tudo sobre todos, o que, como  bvio, no era dificil num rancho. Quando o tocavam ou eram tocadas por ele, as 
crianas ficavam extasiadas, e at Samantha foi apanhada pela magia do seu "ho ho ho". Tate actuou durante o que pareceram horas e, quando acabou, depois de ter 
comido um prato cheio de bolachas e seis copos de leite, desapareceu com um ltimo "ho ho ho" em direco ao celeiro, para s voltar a ser visto no ano seguinte.
Quarenta e cinco minutos depois, j sem maquilhagem, sem a barriga almofadada, a cabeleira branca e o fato vermelho, Tate reapareceu no salo, passando despercebido 
enquanto circulava por entre a multido, admirando os brinquedos e as bonecas, fazendo ccegas e metendo-se com as crianas. Dirigiu-se de imediato para o stio 
onde Samantha se encontrava com Bill e Caroline, com uma saia preta de veludo e uma blusa branca de renda muito bonita. Usava o cabelo preso atrs com uma fita preta 
de veludo e pusera maquilhagem pela primeira vez desde que chegara ao rancho.
-  mesmo voc, Sam? - perguntou Tate, em tom de gracejo, depois de ter aceite um copo de ponche e ter agradecido fervorosamente  patroa.
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-Posso dizer o mesmo de si. - E acrescentou num tom de voz mais baixo: - Esteve brilhante.  sempre assim todos os anos?
- Tento fazer cada vez melhor. - Fez um largo sorriso de felicidade. O papel de Pai Natal era a melhor coisa que o; Natal tinha para si.
- O seu filho est c?
- No - respondeu ele, abanou prontamente a cabea. - O patro do Jeff no  to generoso como a minha patroa. - Sorriu para Samantha. - Est a trabalhar esta noite.
 pena. - Pareceu sincera.
- Vou v-lo amanh. Est tudo bem. J  crescidinho. No tem tempo para o velhote. - No havia qualquer ressentimento ao pronunciar aquelas palavras. Gostava de 
ver o filho a tornar-se um homem. Por momentos, sentiu vontade de perguntar a Samantha por que razo no tivera filhos, observando-a toda a noite a conviver avidamente 
com todas as crianas, mas acabou por achar que era uma questo demasiado pessoal, contentando-se com uma pergunta sobre Nova: Iorque.
Faz muito mais frio l, mas acho que nunca estive em lado nenhum onde houvesse tanto esprito natalcio como aqui.
- Isso no tem nada a ver com a Califrnia. S com a Caroline Lord, mais nada.
Samantha fez um gesto de concordncia com a cabea e, desta vez, quando trocaram um sorriso, os olhares de ambos encontraram-se e ficaram fixos um no outro.
Pouco depois, Samantha encontrou a mulher de Josh e dois dos seus filhos casados; alguns homens com quem andara a cavalo nas ltimas duas semanas apresentaram-lhe, 
envergonhados, as mulheres ou as namoradas, os filhos, as filhas e os sobrinhos e, pela primeira vez desde que chegara, sentiu que o seu lugar era ali.
Ento, Sam? Muito diferente do teu Natal habitual? Caroline olhava para Sam com um sorriso afvel, tendo Bill perto de si.
-Muito diferente. Adorei. - Fico contente.


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S alguns minutos depois de a ter abraado calorosamente e lhe ter desejado um feliz Natal  que Samantha reparou que Caroline desaparecera. Pouco depois, deu conta 
de que o capataz tambm havia desaparecido. Gostava de saber quantas mais pessoas tambm haviam dado pelo facto. Todavia, Samantha nunca ouvira quaisquer comentrios 
acerca deles no rancho. Pensou se no estaria a tirar concluses precipitadas. No era provvel, mas nunca se sabia.
- Cansada? - Era a voz de Tate Jordan mesmo por cima dela, e Sam voltou-se para ele, assentindo com a cabea. -j me ia embora. Procurava a tia Caro, mas acho que 
j no est aqui.
- Ela sai sempre discretamente de modo a no estragar o divertimento de cada um. - Tate falava de Caroline com a maior das admiraes. Era um elo que partilhava 
com Sam. - Tambm j se vai embora?
Sam fez um gesto afirmativo com a cabea e tentou, sem sucesso, reprimir um bocejo.
- Vamos l, sua dorminhoca, eu acompanho-a a casa. -No tenho culpa que o tipo para quem trabalho seja um condutor de escravos.  de estranhar que no final do dia 
eu no caia da sela abaixo meio morta.
- Uma ou duas vezes - comeou ele a dizer com um largo sorriso -, pensei que caa. - E soltou uma gargalhada. - Naquele primeiro dia, Sam, estava a ver que ainda 
morria em cima da sela.
-Pouco faltou. O Josh quase me levou s costas. - E depois ainda montou o Black Beauty!  louca! -Por esse cavalo... sou!
Tate pareceu algo triste, e mudaram de conversa quando penetraram na noite glida.
-Parece que vai nevar.
-Parece, mas  muito pouco provvel. Pelo menos, espero que no. - Tate olhou para o cu e no pareceu ficar muito preocupado. Naquela altura, j haviam alcanado 
a porta do edificio principal onde Sam vivia.
Samantha hesitou por instantes e, quando abriu a porta, deu um passo para o lado e levantou os olhos para o gigante de cabelo escuro e olhos verdes.
-Quer beber um copo de vinho ou um caf, Tate? Tate abanou a cabea de imediato, como se Sam tivesse sugerido algo ultrajante, algo que ele nunca poderia aceitar. 
- Prometo que no o ataco - disse Sam com um largo sorriso. - Sento-me noutro sof.
Tate deixou escapar uma gargalhada, no parecendo o homem com quem Sam tivera desavenas durante mais de duas semanas.
- No  por isso,  apenas por uma questo de etiqueta. Esta  a casa de Miss Caroline. No seria correcto da minha parte...  dificil de explicar...
Samantha socou com um ar divertido  entrada da porta. - Quer que a acorde para ser ela a convid-lo?
Tate revirou os olhos.
- No, mas agradeo a inteno. Fica para a prxima. - Medricas. - Sam parecia uma rapariguinha, e Tate desatou a rir.




Samantha acordou s quatro e meia na manh seguinte, uma vez que estava habituada a acordar a essa hora. Obrigou-se a ficar na cama, fingindo para si prpria que 
dormia. Finalmente, depois de uma hora deitada, de olhos fechados e o esprito a divagar, levantou-se. Ainda estava escuro e as estrelas brilhavam, mas sabia que 
dentro de pouco mais de uma hora comearia a actividade no rancho. Manh de Natal ou no, os animais comeariam a ficar agitados, haveria homens na cavalaria a 
tratar dos cavalos, apesar de ningum ir cavalgar para as colinas.
De ps descalos, Samantha dirigiu-se silenciosamente para a cozinha, ligou a mquina de caf que Caroline usava e sentou-se  espera na cozinha escura, deixando 
o esprito vaguear at  noite anterior. Fora uma linda festa de Natal. Parecera uma famlia gigantesca, todos com elos de ligao entre si, cada um preocupado com 
o seu semelhante, as crianas familiarizadas com os que l viviam, felizes, a gritar e a correr  volta da enorme rvore de Natal majestosamente decorada. Ao pensar 
nas crianas da festa de Natal, lembrou-se, de repente, dos filhos de Charlie e Melinda. Este fora o primeiro Natal em que no lhes mandara presentes. Recordou-se, 
com angstia, da promessa feita a Charlie, mas no estivera perto de nenhuma loja. Sentada na cozinha vazia, sentiu-se, subitamente, muito s e, sem pr-aviso, os 
pensamentos centraram-se instantnea e dolorosamente em John. Como teria sido o seu Natal aquele ano? Como seria a sensao de estar casado com uma mulher grvida? 
J teria decorado o quarto das crianas? A dor que a trespassava era insuportvel e, como que por reflexo condicionado, estendeu a mo para o telefone. Sem pensar, 
mas com o desejo desesperado de ouvir uma voz amiga, marcou um nmero conhecido e, pouco depois, Charlie Peterson atendeu. A voz terna ressoou no auscultador com 
uma interpretao do Jingle Bells. J ia a meio do segun
do verso quando Sam conseguiu dizer o nome. - Quem fala? - A msica continuava.
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- Cala-te, Charlie! Sou eu, a Sam! - Oh... Ol, Sam...
-Charlie! - Sam ria-se enquanto escutava, ao mesmo tempo que fazia tentativas para que ele se calasse; apesar de estar a gostar de o ouvir, sentiu de novo a dor 
lancinante da
solido. De sbito, teve vontade de estar com eles e no num rancho a quatro mil e oitocentos quilmetros de distncia. No podia fazer mais nada a no ser esperar 
que ele acabasse de cantar.
- Feliz Natal!
-j acabaste? No vais cantar agora Silent Night? -Estava a pensar nisso, mas se fizeres um pedido especial, Sam, com certeza que posso...
- Charlie, por favor! Quero falar com a Melhe e com os midos. Mas, primeiro... - Sentiu-se sufocar. - Primeiro, diz-me como vo as coisas no escritrio. - Obrigara-se 
a no telefonar. Harvey quase lhe ordenara que no o fizesse e ela obedecera. Possuam o seu nmero se precisassem, e o chefe achara que lhe faria bem esquecer-se 
deles o mais que pudesse. Na realidade, as coisas estavam a correr melhor do que esperara. At quele momento. - Como vo as minhas campanhas? J deste cabo de todas?
- Todinhas. - Charlie riu-se, orgulhoso, e acendeu um charuto. De repente, franziu o sobrolho e olhou para o relgio. - Que diabo ests a fazer a p a estas horas? 
Devem ser... o qu? Nem sequer seis horas da manh so a! Onde ests? - Admitiu a hiptese de ela ter abandonado o rancho e regressado.
- Ainda c estou. No conseguia dormir. Tenho-me levantado s quatro e meia todos os dias e agora no sei o que fazer. Parece que estou a meio da tarde. - No era 
bem assim, mas estava bem -acordada. - Como  que esto os midos?
- ptimos. - Charlie hesitou por instantes e apressou-se a perguntar como  que ela estava. - Tm-te posto num frangalho, no?
- Completamente. V l, Charlie, diz-me o que se passa a. - Sam queria saber tudo, desde as bisbilhotices do escritrio at ao pormenor de quem ameaava roubar 
uma campanha de outra empresa.



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- Nada de importante, mida. Nova Iorque no mudou muito nestas ltimas duas semanas. E tu? - Charlie pareceu falar a srio por instantes e Sam sorriu. - Sentes-te 
feliz a, Sam? Ests bem?
- Estou ptima. - E com um pequeno suspiro, acrescentou: - Fiz o que tinha a fazer, por muito que me custe a admitir. Acho que precisava de algo to radical como 
isto. Nem tenho visto o noticirio das seis. _
- J  alguma coisa. Se te levantas s quatro e meia, s seis da tarde, provavelmente, j ests a dormir.
-No  bem assim, mas quase.
- E a tua amiga... a Caroline, e os cavalos? Esto bem? - Charlie possua uma pronncia to nova-iorquina que a fez rir, enquanto o imaginava a bater a cinza do 
charuto e a olhar para o vazio, de pijama, roupo e algo mais que os filhos lhe tivessem oferecido, como um bon ou uma luva de basebol ou ainda um par de meias 
s riscas vermelhas e amarelas. - Esto todos bem. Deixa-me falar com a Mellie.
Ao falar, Melinda no percebeu o sinal de Charlie. Quase de imediato, deu a novidade a Sam. Estava grvida. O nascimento deveria ocorrer em julho, mas s descobrira 
nessa semana. Durante uma fraco de segundo, instalou-se um estranho silncio; depois, Sam felicitou-a efusivamente, enquanto, em fundo, Charlie fechava os olhos 
e resmungava.
-Por que  que lhe contaste? - murmurou Charlie num tom roufenho enquanto Melinda tentava continuar a falar com Sam.
- Porque no? Ela saberia quando voltasse - sussurrou Melinda, colocando a mo no bocal do telefone; depois prosseguiu: - Os midos? Dizem que querem outro irmo. 
Porm, se no for uma menina desta vez, desisto.
Charlie fazia gestos de impacincia; deixou-a despedir-se e pegou novamente no auscultador.
- Como  que foste capaz de no me dizer? - protestou Sam esforando-se por parecer despreocupada. No entanto, e como sempre, quando ouvia aquele gnero de notcias, 
sobretudo nos ltimos tempos, ficava extremamente triste e angustiada. - Estavas com medo que no conseguisse aguentar a notcia? No sou nenhuma doente mental, 
Charlie, s estou divorciada. No  propriamente a mesma coisa.
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- A quem  que pode interessar este assunto? - Havia alguma tristeza e preocupao na voz de Charlie.
- A ti. - A voz de Sam era meiga. -  Mellie. E a mim. Vocs so meus amigos. Ela fez bem em contar-me. No lhe ralhes quando desligares o telefone.
- Por que razo? - Charlie esboou um largo sorriso, --- Ela precisa de andar na linha.
- Tens outras formas de a manter na linha, Peterson Ainda bem que s o director artstico mais bem pago. Vai-te fazer jeito com toda essa miudagem.
- Sim - resmungou Charlie, satisfeito. - Achas que sou mesmo? - E aps um longo instante, continuou: - Bem, mida, trata bem dos teus cavalos e telefona se precisares 
de ns. E mais uma coisa... - Fez-se uma longa pausa.
Todos ns pensamos muito em ti e temos imensas saudades tuas. Sabes disso, no sabes, querida?
Sam fez um gesto afirmativo com a cabea, incapaz de falar, a voz embargada e os olhos inundados de lgrimas. - Sim, eu sei - foi tudo o que Sam conseguiu articular. 
Tambm sinto imensas saudades vossas. Feliz Natal! Depois de esboar um sorriso por entre as lgrimas e de enviar um beijo, pousou o auscultador. Permaneceu sentada 
na cozinha durante cerca de meia hora, o caf frio na chvena, o olhar cravado na mesa, o corao e o esprito a quatro mil e quinhentos quilmetros de distncia, 
em Nova Iorque. Quando ergueu os olhos, reparou que l fora o dia despontava lentamente, a noite passara de um azul muito escuro a um cinzento-plido. Levantou-se, 
pegou na chvena e dirigiu-se vagarosamente para o lava-loua. Sabia muito bem o que lhe apetecia fazer. Em passo determinado, foi at ao quarto, vestiu duas camisolas 
quentes e um casaco, ps um chapu de cowboy que Caroline lhe emprestara poucos dias antes e, com uma olhadela por sobre o ombro para se certificar de que no havia 
ningum por perto, deixou o quarto sem fazer barulho e saiu pela porta principal, fechando-a devagarinho atrs de si. Levou apenas alguns instantes at aos estbulos; 
quando l chegou, parou a pouca distncia da baia de Black Beauty. No se ouvia qualquer barulho no interior, e interrogou-se se gigante de bano que ela queria 
montar estaria ainda a dormir. Entreabriu a porta e entrou, passando a mo suavemente pelo pescoo e os flancos do cavalo enquanto lhe dizia palavras carinhosas. 
Estava acordado, mas no irrequieto. Dava a impresso que a aguardava; olhava-a com ar expressivo por trs das pestanas negras, e Samantha sorriu-lhe quando saiu 
de mansinho da baia, foi buscar a sela e a brida, e voltou para o arrear. No havia ningum na cavalaria que a tivesse visto chegar, e continuava a no haver.  
,
Pouco depois, quando Sam conduziu vagarosamente o animal pela porta principal, no havia ningum no vasto terreiro. Conduziu Black Beauty at um bloco prximo e 
montou-o rapidamente. Depois de subir para a sela com facilidade e puxar as rdeas, partiu a galope em direco s colinas agora familiares. Sabia exactamente onde 
queria ir com ele. Dias antes, vira um caminho que atravessava um bosque e era para a que tencionava dirigir-se. Ao princpio, foi a trote, depois, ao fim de algum 
tempo, sentindo que o enorme animal lhe pedia para andar mais depressa, meteu a galope em direco ao sol-nascente. Era uma das sensaes mais maravilhosas de que 
se lembrava, os joelhos pressionados contra os flancos do animal, enquanto passavam sem esforo por cima de uma srie de pequenos arbustos e depois de um estreito 
riacho. Lembrou-se da primeira vez que saltara com Black Beauty; porm, agora era diferente. No estava a arriscar, mas isso no a incomodava. Desejava apenas ser 
um prolongamento do animal. Sentia-se um mito antigo, uma lenda ndia, quando chegou a passo ao cume de uma colina e observou o Sol a iniciar a sua subida no cu. 
S nesse momento  que ouviu os cascos atrs de si e se apercebeu de que fora seguida. Voltou-se, espantada. Contudo, quando viu que era Tate Jordan que vinha na 
sua direco em cima de um malhado cor de marfim e nix, o espanto passou. Era como se ele tambm fizesse parte da lenda, pertencesse quele lugar e tivesse cado 
do cu dourado da manh.
Tate veio na sua direco, com o malhado a todo o galope, com forte determinao, para, no ltimo instante, se desviar e estacar mesmo ao lado dela. Sam mirou-o 
por momentos, sem saber como  que ele reagiria, se ficaria zangado, se estragaria o momento, se a amizade que nascera na noite anterior j teria morrido. Em vez 
disso, o que Sam viu nos olhos verdes no foi raiva, mas algo muito mais afvel. Tat no dirigiu qualquer palavra a Sam, olhou-a apenas e prosseguiu o seu caminho 
em cima do malhado. Era evidente que queria que ela o seguisse, e seguiu, com o Black Beauty a galopar sem esforo pelos caminhos que encontrava, pelas colinas pelos 
vales at chegarem a uma zona da propriedade que nunca vira e onde existia um lago e uma pequena cabana: Quando ultrapassaram a ltima colina e avistaram o local, 
Tate e o ofegante malhado abrandaram o passo. Ele voltou-se e sorriu para Sam, que lhe respondeu tambm com um sorriso; enquanto o via puxar as rdeas do cavalo 
e desmontar.
-Ainda estamos no rancho? -Estamos. - Tate levantou os olhos O rancho acaba depois daquela clareira, atrs Samantha fez um sinal com a cabea.
- De quem ? - Apontou para a cabana, -se se haveria algum l dentro.
Tate no lhe deu uma resposta directa.
- Descobri-a h muito tempo. Venho aqui de
quando, apenas quando quero estar s. Est tudo fechado   chave e ningum sabe que venho at aqui. - Era um pedido de segredo e Samantha compreendeu.
- Tem as chaves?
- Mais ou menos. - O rosto simptico e coriceo abriu-se num largo sorriso. - H uma chave no molho de Bill King que serve. J a utilizei uma vez.
- E fez uma cpia? - Samantha pareceu chocada, mas Tate abanou a cabea. Acima de tudo, Tate Jordan era um homem honesto. Se Bill King lhe tivesse perguntado, ter-lhe 
-ia dito. Mas Bill nunca o fizera, e ele achara que no se importaria. Tate no queria chamar demasiadas atenes para a cabana esquecida. Significava muito para 
si.
- Tenho caf l dentro, se no estiver estragado. Quer desmontar e entrar? - Tate no lhe disse que tambm l tinha uma garrafa de usque. Nada que o levasse a cometer 
ex
cessos, mas algo para o manter quente e confortar-lhe o espirito. Vinha at ali quando estava preocupado ou aborrecido, quando precisava de estar s durante um dia. 
Passara muitos
domingos naquela cabana, e sabia para o que ela j servira. - Ento, Miss Taylor? - Tate Jordan olhou-a fixamente durante um longo instante e Sam fez um sinal afirmativo 
com a
cabea
- Adoraria. - A ideia do caf quente seduziu-a, sobretudo numa manh extremamente fria como aquela. Tate ajudou-a a desmontar e a prender o cavalo, encaminhando-a 
para a porta da cabana; retirou a cpia da chave do bolso, abriu a porta e desviou-se para a deixar entrar. Como os demais cowboys do rancho, mostrava-se sempre 
galante. Era um ltimo toque do Velho Oeste. Sam levantou os olhos e sorriu-lhe ao entrar lentamente na cabana.
Havia um certo cheiro seco a mofo, mas, ao olhar em redor, Sam esbugalhou os olhos de espanto. A enorme sala estava decorada com bonitos tecidos de algodo com flores 
estampadas, um pouco fora de moda, mas ainda mantendo a sua beleza e encanto. Junto da lareira, encontrava-se uma enorme cadeira de couro que Samantha percebeu tratar-se 
de uma antiguidade. Havia ainda uma pequena escrivaninha, um rdio, um gira-discos, vrias prateleiras de livros, uma lareira acolhedora e uma srie de objectos 
engraados que devia ter pertencido ao dono da cabana: dois bonitos trofus, uma cabea de javali, vrias garrafas velhas e algumas fotografias antigas em obsoletas 
molduras. Diante da lareira, via-se uma pele de urso e uma velha cadeira de baloio com um banquinho para pr os ps. Parecia um refgio de um conto de fadas, escondido 
nas profundezas da floresta, o tipo de lugar para onde queremos ir quando desejamos esconder-nos do resto do mundo. Ento, atravs de uma porta aberta, Sam vislumbrou 
um pequeno quarto com uma enorme cama de ferro e uma bonita colcha, paredes azuis, outra impressionante pele de urso e um pequeno candeeiro de metal com abajur. 
As cortinas eram azuis e brancas e cheias de folhos e, pendurada por cima da cama, via-se uma bela paisagem de outra parte do rancho. Era um quarto onde apetecia 
passar o resto da vida.
- Tate, de quem  isto? - Samantha parecia algo perplexa. Ele apontou para um dos trofeus que se encontrava em cima de uma pequena prateleira na parede mais prxima.
- D uma olhadela.
113
Sam aproximou-se e os olhos abriram-se de espanto, fixando-se primeiro no trofu, depois em Tate e de novo no trofu. Ostentava a inscrio WILLIAM B. KING 1934. 
O segun
do tambm era de Bill King, mas era de 1939. Sam olhou en to por sobre o ombro, desta vez com nova preocupao - Esta cabana  dele, Tate? Ser que podemos estar 
aqui. - No sei a resposta para a primeira pergunta, Sam. Relativamente  segunda, provavelmente no. Mas desde que descobri este lugar, nunca mais consegui afastar-me. 
- Falava num tom de voz grave e roufenho, enquanto os olhos procuravam os dela.
Sam olhou em redor sem dizer palavra e fez um ligeiro gesto afirmativo com a cabea.
-Acho que sei porqu.
Enquanto Tate se dirigia para a cozinha, Sam comeou a observar as velhas fotografias e, embora achasse que havia algo' de familiar nelas, no conseguia descobrir 
o que era. Ento, com algum embarao, entrou no quarto, a ateno presa na paisagem pendurada por cima da cama. Quando se aproximou do quadro, conseguiu ler perfeitamente 
a assinatura e parou de sbito. O artista assinara o seu nome a vermelho no canto inferior direito: C. Lord. Sam virou-se, preparando-se para fugir dali; no entanto, 
a porta encontrava-se bloqueada pela enorme compleio fisica de Tate. Trazia uma chvena de caf fumegante e olhava para o rosto de Sam.
- A cabana  deles, no ? - Sam encontrava ali a resposta para a sua dvida, dvida essa que fora motivo de gozo para si e para Barbara. Finalmente, naquele pequeno 
e acolhedor quarto azul, com a colcha de retalhos e a enorme cama de ferro que praticamente ocupava o espao todo, Sam ficou a saber. - No , Tate? - De repente, 
quis que Tate lhe desse a confirmao. Este fez um sinal afirmativo com a cabea e passou-lhe a chvena amarela.
- Tambm acho.  um lugar bonito, no ? E est tudo posto  maneira deles.
- H mais algum que saiba? - Era como se tivesse descoberto um segredo sagrado e se visse na obrigao de garantir a sua preservao.
- Da relao deles? - Tate abanou a cabea. - Mas nunca se sabe. Eles tm tido cuidado. Nunca nenhum deles revelou o segredo. Quando est com os homens, o Bill refere-se 
a ela como "Miss Caroline", tal como ns, e mesmo quando est com ela passa a maior parte do tempo a cham-la assim. Trata-a com respeito, mas sem dar grandes mostras 
de interesse por ela, e ela faz o mesmo com ele.
- Porqu? - Samantha parecia perplexa ao sorver o caf; depois pousou a chvena e sentou-se  beira da cama. - Por que razo  que nunca deram a conhecer a sua relao 
e no se casaram, se era essa a sua vontade?
-Talvez no quisessem. - Tate parecia entender a situao, Sam no. - O Bill King  um homem orgulhoso. No quereria que se dissesse que casara com Miss Caro por 
causa do dinheiro, do rancho ou do gado.
- Por isso arranjaram este esconderijo. - Sam olhou em volta, espantada. - Uma pequena cabana no meio' do bosque, e ele continuar a entrar e a sair em bicos dos 
ps da casa dela.
- Talvez o romance se mantenha vivo assim. - Sorriu quando se sentou ao lado de Samantha na beira da cama. - H uma coisa muito especial naquilo que v aqui. Sabe 
o qu, Samantha? - No esperou pela resposta. - V duas pessoas que se amam, cujas vidas combinam perfeitamente, os quadros dela, os trofus dele, as fotografias, 
os discos, os livros, a velha cadeira de couro, a pequena cadeira de baloio e o banquinho para os ps junto da lareira. Observe, Sam. - Olharam na direco da porta 
do quarto. - Sabe o que v ali? V amor.  isso o amor, as panelas de bronze, a almofada de renda e a engraada cabea de javali. So duas pessoas que v ali, duas 
pessoas que se amam h muito e que continuam a amar-se.
-Acha que eles ainda aqui vm? - perguntou Sam, quase num murmrio e Tate riu-se.
-Duvido. E, se vierem, no deve ser com muita frequncia. Eu, provavelmente, venho aqui mais vezes do que eles. A artrite tem atacado o Bill estes ltimos anos. 
- Tate baixou o tom de voz. - Desconfio que se encontram l em casa. - Ao ouvir aquilo, Samantha lembrou-se do barulho
de abrir e fechar de portas  noite. Mesmo ao fim de todos aqueles anos, encontravam-se s escondidas, a altas horas da noite.
- Continuo a no perceber por que razo  que continuam a manter segredo.
Tate olhou-a durante um longo instante e depois enco~ lheu os ombros.
-s vezes  assim que as coisas tm de ser feitas. - Sorriu. - No estamos em Nova Iorque, Samantha. Ainda; existem muitos valores antigos enraizados. - Continuava 
a no fazer sentido para Sam. Nesse caso deveriam ter-se casado. Meu Deus, aquela situao durava h vinte anos. -Como  que descobriu a cabana, Tate? - Sam levantou-se, 
foi at  sala de estar e pouco depois sentou-se na velha mas confortvel cadeira de baloio de Caroline.
- Aconteceu por acaso. Devem ter passado aqui muito tempo h anos atrs. Mantm o mesmo toque de um lar a srio.
-  um lar a srio. - Sam olhou para a lareira vazia, com ar sonhador, pensando no elegante apartamento que deixara em Nova Iorque. No tinha nada a ver com a cabana: 
faltava-lhe amor, calor, conforto, o consolo que sentia ao sentar-se na velha cadeira de baloio.
-Apetece ficar aqui eternamente, no ? - Tate sorriu e sentou-se na cadeira de couro.: - Quer que acenda a lareira?
Sam abanou a cabea de imediato. Ficaria preocupada.
- No a deixaria acesa, sua tonta.
Eu sei. - Trocaram outro sorriso. - Mas ficaria preocupada na mesma. Uma falha, uma coisa desse gnero pode... este  um lugar demasiado especial para correr algum
risco. No quero tocar em nada do que eles tm aqui. - Ento, olhando-o com um ar mais srio: - Nem sequer acho que devamos estar aqui.
- Porque no? - O fino queixo franziu-se um pouco. , - Isto aqui no nos pertence.  deles,  privado e secreto- Mas ns sabamos, no sabamos? - perguntou Tate 
calmamente e Sam fez um lento gesto afirmativo com a ca
bea.
- Sempre suspeitei. A Barb, a sobrinha da tia Caro, e eu costumvamos conjecturar acerca do assunto durante horas. Nunca tivemos a certeza.
- E quando cresceram?
Sam sorriu-lhe como resposta.
- Eu sentia que havia alguma coisa. Mas ficava sempre na dvida.
- Tambm eu. Achava que tinha a certeza. Mas no tinha. At vir aqui. A cabana fala por si. - Olhou novamente  sua volta. - E que bonita histria ela conta!
- Sim. - Sam fez um gesto de concordncia e comeou a baloiar-se lentamente na velha cadeira. - Seria maravilhoso amar algum assim, no acha? Construir algo em 
conjunto e manterem-se juntos durante vinte anos.        -
- Quanto tempo durou o seu casamento, Sam? - Era a primeira pergunta pessoal que Tate lhe fazia; e Sam olhou-o de frente e respondeu-lhe de imediato, aparentemente 
sem qualquer ponta de emoo. Mas no conseguiu evitar interrogar-se sobre o facto de ele saber que ela j fora casada.
- Sete anos. E o seu? - Cinco. O meu mido era pequeno quando a me zarpou.
- Imagino a felicidade que sentiu quando ficou com a custdia dele. - De repente, Sam corou, lembrando-se da histria e pensando nas palavras insensveis que acabara 
de proferir inadvertidamente. - Desculpe, no queria...
- Psiu! - Fez um ligeiro aceno com a mo. - Sei o que queria dizer. Fiquei extremamente feliz. Mas lamentei imenso a morte da me.
-Continuou a am-la mesmo depois de o deixar? - Era uma pergunta ousada, mas no importava. Era como se ali, no templo de Bill e Caro, pudessem dizer e perguntar 
o que quisessem desde que achassem que tinha interesse e no ofendesse.
Tate Jordan fez um lento gesto afirmativo com a cabea. - Sim. De alguma forma, ainda a amo, e j morreu h perto de quinze anos.  engraado. Nem sempre ficamos
com a ltima imagem das coisas. E voc, Sam, acontece-lhe a mesma coisa? A imagem que tem do seu marido  a primeira, de quando o amava, ou a ltima, a do sacana 
que ele foi?
Sam riu perante a franqueza de Tate e abanou a cabea; enquanto baloiava.
- Isso  verdade. Continuo a no perceber a razo por que as primeiras imagens dele que me vm  cabea so as de quando fomos para a faculdade, do noivado, da lua-de-mel,
do primeiro Natal. Porque e que no o recordo com as meias a sair da mala quando abalou porta fora? - A imagem que Sam descrevera f-los sorrir. Tate abanou a cabea, 
depois virou-se para ela, o olhar cheio de questes.
- Ele fez-lhe isso? Abandonou-a, Sam? -Exactamente - respondeu Sam sem rodeios. -Por outra mulher?
Sam assentiu com a cabea, mas desta vez o seu semblante no era de dor. Apenas admitia um simples facto.
- A minha cara-metade fez o mesmo. - Agora assemelhava-se aos outros cowboys. Talvez a cabana o descontrasse. J no precisava de a impressionar e no havia ningum 
por
perto. - Fiquei destroado. Tinha vinte e cinco anos e julguei que morria.
- Tambm eu. - Sam observou-o com ar interessado. - Tambm eu - repetiu -, e julgo que todos no escritrio pensaram o mesmo.  por isso que estou aqui. Para desanuviar.
-H quanto tempo est assim? - Desde Agosto.
-  j tempo suficiente. - Era Sam empertigou-se.
-Acha? Tempo suficiente para Para me estar nas tintas para ele? Bom, qu? Para esquec-lo? camarada, est enganado a esse respeito.
-Pensa nele a toda a hora?
- No - respondeu Sam com franqueza. Mas demasiadas vezes.
- J se divorciaram?
Sam fez um gesto afirmativo com a cabea.
- Sim, e ele j se casou outra vez e vo ter um beb em
Maro. -- Podia contar-lhe tudo. Talvez lhe fizesse bem desabafar, contar-lhe todos os factos dolorosos. Seria maravilhoso ultrapassar tudo aquilo. Tate observava-a 
atentamente.
- Isso deve magoar imenso.
- O qu? - Por instantes, no percebeu o que Tate queria dizer.
- Isso do beb. Queria ter filhos?
Sam hesitou por momentos; em seguida fez um sinal afirmativo e ergueu-se subitamente, da cadeira.
-De facto, queria, Mister Jordan. Mas sou estril. O meu marido conseguiu aquilo que queria... com outra... - Enquanto se encontrava  janela, a olhar para o lago, 
Sam no o ouviu aproximar-se. Ento, de repente, Tate surgiu por trs dela e ps-lhe os braos  volta da cintura.
- Isso no interessa, Sam... No s estril. Estril  uma pessoa que no consegue amar, que no consegue oferecer nada, que se fecha sobre si mesma, uma intil. 
No  o teu caso. - Virou-a lentamente para si. Havia lgrimas nos olhos de Sam. No queria que ele as visse, mas no conseguiu resistir  fora magntica das suas 
mos quando a enlaou pela cintura. Tate beijou-lhe ternamente os olhos; depois, colou a boca  dela com tal fervor e durante tanto tempo que Sam ficou quase sem 
flego.
- Tate... no... no... - Sam tentava escapar, mas com pouca convico, e Tate puxou-a ainda mais para si.
- Porque no? - Pegou-lhe no queixo e f-la erguer os olhos. - Sam? - Ela nada respondeu e ele beijou-a novamente. Tate falava-lhe com ternura ao ouvido, e Sam sentia 
o corao dele a bater contra o peito. - Sam, desejo-te mais do que alguma vez desejei outra mulher.
- Isso no  suficiente - proferiu ela em voz branda, encarando-o.
Tate fez um lento gesto de concordncia com a cabea. - Compreendo. - Aps um longo instante, acrescentou: - Tambm j pouco mais posso oferecer.
Agora era a vez dela. Sam esboou um terno sorriso e fez a mesma pergunta.
- Porque no? - Porque... -
Tate hesitou e depois, num sussurro,
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prosseguiu: - Porque me sinto estril. j no tenho nada para dar.
- Como  que sabes? Tens... tens tentado ultimamente> - H j dezoito anos que no tento. - A resposta foi, pronta e franca.
- E achas que  demasiado tarde para amar algum outra vez? - Tate no respondeu e Sam olhou em redor, passando' em revista os trofus e depois fixando-o de novo. 
- Achas que ele a ama?
Tate assentiu com a cabea.
-Tambm acho. Ele no  mais do que tu, e  um homem grande! - Depois, olhando para Tate: - Tu tambm s.
- Isso quer dizer... - Falava num tom terno, os lbios a tocar nos dela; Sam, com o corao a palpitar, interrogava-se por que razo  que beijava aquele estranho, 
aquele cowboy#; tentando arranjar razes para ele se apaixonar. Tinha vontade de perguntar a si prpria o que diabo estava a fazer, mas no' havia tempo. - Isso 
quer dizer que, se dissesse que te amava, amos fazer amor neste preciso momento? - Tate parecia divertido, e Sam com um pequeno sorriso negou com a cabea. - Tambm 
acho que no. Ento, ests a tentar convencer-me de qu e por que razo?
- Estou a tentar convencer-te de que nunca  tarde para nos apaixonarmos. Olha para eles, quando iniciaram a relao, eram mais velhos do que ns. Tinham de ser.
- Sim... - Tate no parecia convencido. Voltou-se, ento, para ela com um ar pensativo. - Que diferena  que te pode fazer o facto de eu me apaixonar outra vez?
- Gostaria de saber que  possvel.
- Porqu? Ests a fazer alguma pesquisa cientfica?
- No - murmurou Sam. - Simples curiosidade pessoal.
-Ento  isso. - Passou ternamente a mo pelos cabelos louros e retirou os ganchos que os prendiam firmemente  nuca. De repente, soltaram-se. - Meu Deus, os teus 
cabelos so maravilhosos, Sam... Palomno... - A voz era meiga. - Meu pequeno palomino... s um encanto... - O sol espreitava  janela e danava por entre os cabelos 
louros de Sam.
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Acho que devamos ir embora - afirmou Sam num tom terno mas firme.
- Achas que sim? Acho que sim.
- Porqu? - Tate beijava-lhe o queixo, as faces e o pescoo. Sam no se opunha, mas no tencionava deix-lo avanar mais. - Por que razo  que devamos ir embora, 
Sam? Oh, meu Deus, s encantadora...
Sam sentiu um tremor percorr-lo e afastou-se lentamente com um pequeno abanar de cabea.
-No, Tate.
-Porque no? - Os olhos de Tate incendiaram-se por instantes e Sam sentiu algum medo.
- Porque no est certo.
-Por amor de Deus, sou um homem, tu s uma mulher... no somos nenhumas crianas. O que  que queres? - Ergueu a voz num misto de lascvia e irritao. - O romance 
perfeito, um anel de noivado no dedo antes de ires para a cama?
O que  que queres, cowboy? Dar... dar uma rapidinha?!
As palavras atingiram Tate como uma bala, deixando-o aturdido.
-Desculpa - pediu Tate, num tom frio; depois encaminhou-se para o lava-loua e comeou a lavar as chvenas. Quando terminou, Sam estava ainda no mesmo stio, de 
olhos fixos nele.
- No precisas de pedir desculpa. Gosto de ti. - Avanou para ele e ps-lhe a mo no brao. - Gosto bastante de ti. Mas no quero sofrer outra vez.
- Ningum pode dar-te esse tipo de garantias, Sam. Eu tambm no. - Havia alguma verdade naquelas palavras e ela sabia-o, mas queria algo mais do que promessas, 
algo mais autntico.
- Sabes o que quero? - Sam olhou em redor. - Quero isto. Quero este tipo de harmonia e ternura depois de mais de vinte anos.
- Pensas que ao princpio eles sabiam o que a relao viria a dar? Claro que no. Ela era a dona do rancho, ele, um simples ajudante. Nada mais sabiam.
- Achas? - Os olhos de Samantha chisparam. - Aposto que sabiam mais alguma coisa...
- O qu?
-Aposto que sabiam que estavam apaixonados. S quando isso me acontecer, um homem que me ame e que eu ame,  que vou entregar-me de novo.
Tate abriu a porta e depois fechou-a atrs de si. - Vamos!
Ao passar por Tate, Sam reparou que ele no estava zangado. Compreendera tudo o que ela lhe dissera. Sam no sabia o que os dois iriam fazer agora. Por instantes, 
tivera vontade de abandonar todo o constrangimento e toda a pru dncia, mas resolvera no o fazer. E no fora por no sentir desejo... Aquele homem atraa-a irresistivelmente!
- Podemos c voltar? - Sam fitou-o quando ele ps as mos em concha e a ajudou a subir para o enorme puro-sangue.
- Queres mesmo?
Sam fez um lento gesto afirmativo com a cabea e Tate sorriu-lhe sem dizer palavra. Levantou a perna e voou para a sela. Pouco depois, tinha as rdeas nas mos, 
os joelhos nos flancos do cavalo e galopava ao lado de Tate Jordan contra o vento.

11


O passeio foi bom, querida? - Caroline olhou para Samantha com ar benevolente quando esta entrou, em passada larga, na sala de estar, os cabelos soltos, o rosto 
afogueado,
os olhos brilhantes. Parecia uma viso de juventude, sade e beleza, e Caroline no conseguiu evitar uma ponta de inveja ao ver as longas e jovens pernas a enroscarem-se 
numa cadeira confortvel.
- Muito obrigada, tia Caro. - Estava morta por contar-lhe que vira a cabana, mas sabia que no podia faz-lo. No entanto, a excitao perdurava. Por causa de tudo 
o que acontecera e por causa do beijo que ela e Tate haviam partilhado na baia de Black Beauty. Fora um beijo ardente e que lhe tocara a alma. Era um homem diferente 
de qualquer outro, mais forte, mais independente e mais sedutor do que qualquer um que conhecera ou que viesse a conhecer.
- Viste algum esta manh? - Era uma pergunta fortuita, nascida de trinta anos de uma vida quase comunal num grande rancho. No passava uma hora em que no se encontrasse 
uma pessoa, falasse sobre algo ou ouvisse alguma coisa sobre algum.
Sam esteve quase a dizer "ningum"; depois, resolveu dizer a verdade a Caroline.
-Vi o Tate Jordan.
-Oh! - Fora uma exclamao sem grande nfase ou interesse. - Como est o Pai Natal depois de ontem  noite? Os midos deliram com ele todos os anos.
Sam esteve tentada a dizer "tambm eu", mas no teve coragem.
- E com razo.  um homem muito simptico.
- Quer dizer que mudaste de opinio? J no o detestas? - Nunca o detestei. - Sam procurava aparentar um ar de indiferena enquanto enchia uma chvena de caf. - 
S possuamos opinies contrrias relativamente s minhas capacidades para montar o teu cavalo.
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- E ele mudou de ideias?
Samantha fez um sinal afirmativo com a cabea e esboou um largo sorriso de satisfao.
-No admira que gostes dele. Quando as pessoas gostam de ns, ns tambm gostamos delas.  um bom homem! independentemente do que disse da maneira de montares o
Black Beauty. Conhece todos os recantos do rancho to bem como o Bill ou eu.
"Todos os recantos... at a cabana", pensou Samantha, teve de beber um gole de caf para no sorrir.
- O que vais fazer hoje, tia Caro? Os livros, como de costume. -No Natal? - Caroline anuiu com a cabea. -No Natal.
- Porque  que no fazemos uma ceia de Natal em vez disso?
- Se bem me lembro - proferiu, Caroline, olhando divertida para Sam -, j fizemos isso ontem  noite.
- Foi diferente. Foi com todos. Porque no fazemos hoje o jantar para o Bill e o Tate?
Caroline lanou-lhe um olhar duro por instantes e depois abanou a cabea.
-No creio que isso possa acontecer. - Porque no?
Caroline soltou um suspiro.
-Porque eles so ajudantes do rancho e ns no. Existe uma hierarquia bem definida num local como este -Nunca jantas com o Bill? - Sam pareceu chocada. -Muito raramente. 
S em ocasies sociais, quando algum se casa ou morre. S em noites como a de ontem, no Natal,  que as barreiras caem. O resto do tempo, cada um no seu lugar e 
eles... eles tm o cuidado de manter essas barreiras de p, Sam.
-Mas porqu?
- Por respeito. As coisas so assim. - Caroline parecia conformada, mas a situao continuava a incomodar Sam.
Samantha pareceu chocada.

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Isso  uma estupidez. Que diferena faz a hierarquia, por amor de Deus! Quem  que se importa com isso? --Eles. - A voz de Caroline era como uma torrente de gua 
fria. - Eles importam-se e muito, com a imagem, a posio, com quem somos e o respeito que acham que nos devem. Como dona de um rancho, eles pem-nos num pedestal 
e nunca mais nos deixam de l descer. Por vezes,  cansativo, mas as coisas so mesmo assim. Temos-de as aceitar. Se convidssemos o Bill e o Tate, ficariam pura 
e simplesmente chocados.
Sam tinha dificuldade em acreditar ao lembrar-se das splicas de Tate para ela fazer amor com ele na cabana. Ainda no lhe ocorrera que aquilo era diferente; era 
uma coisa privada. No era o mesmo que jantarem na casa dos patres. -Bem, continua a no fazer nenhum sentido para mim. Caroline esboou um terno sorriso.
-Para mim tambm nunca fez, mas agora aceito, Sam.  mais simples. Eles so assim. - Ento, qual a razo para a cabana existir? Por ele ser um ajudante e ela algo 
muito diferente, a dona do rancho? Poderia o segredo dever-se a algo to simples como aquilo? Sam ficou subitamente ansiosa por lho perguntar, mas conteve-se. - 
H peru frio todo o dia no salo, Samantha. Podes ir at l e conversar com quem l estiver. Tenho de trabalhar com o Bill durante umas horas no escritrio. Desculpa 
no te dar a devida ateno no Natal, Sam, mas temos de ter isto pronto.
O objectivo de Caroline e Bill ao longo dos anos fora sempre o rancho. Sam perguntava-se agora se alguma vez teriam sentido a falta da cabana. Com certeza que sim. 
Era um local ptimo para algum se esconder. Estava tambm curiosa por saber quando fora a ltima vez que l haviam estado, com que frequncia  que l iam ao princpio, 
se tinham feito amor... Gostaria tambm de saber quando  que l voltaria com Tate.
-Tudo bem, tia Caro. Tenho de escrever umas cartas. Se tiver fome, como qualquer coisa no salo. - De repente, Sam sentiu vontade de ver Tate. Era como se ele tivesse 
penetrado na sua pele naquela manh e agora no conseguisse
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expuls-lo. S pensava nele, nas mos, nos lbios e olhos...
Meia hora depois, quando entrou no salo para almoar, Sam no viu quaisquer sinais de Tate. Josh disse-lhe, ho mais tarde, ao encontr-la perto do estbulo, que 
Tate fora a Bar Three Ranch, a quarenta quilmetros dali, visitar o filho.


12
Na escurido prateada da manh, Tate Jordan deu o sinal, e as duas dzias de ajudantes que seguiam as suas ordens picaram os cavalos e dirigiram-se para o porto 
principal. Naquele dia, iriam agrupar touros jovens para "castrao, e apenas Tate e um pequeno grupo, de que Samantha faria parte, cavalgariam at junto de um desfiladeiro 
a fim de verificar se a ponte se desmoronara. Quando l chegaram, uma hora depois, concluram que tudo estava em ordem, mas no regresso viram que duas rvores haviam 
sido atingidas por fascas, caindo sobre o telhado de um barraco e provocando estragos num tractor e nalgumas pequenas alfaias. Durante duas horas, os homens retiraram 
ramos do edificio, verificaram as alfaias, tentaram pr o tractor a trabalhar e, por fim, ligaram uma enorme serra para conseguirem remover as rvores tombadas. 
Era uma tarefa dura para todos, especialmente para Sam; quando, finalmente, pararam para almoar, os longos cabelos louros de Samantha estavam encharcadas de suor 
e a grossa camisa de flanela colava-se-lhe ao peito.
-Caf, Sam? - Tate serviu-lho do mesmo modo que servira os outros, e s por uma fraco de segundo Sam viu algo de especial a bailar-lhe nos olhos. Pouco depois, 
quando Tate lhe deu mais instrues sobre o que havia a fazer com as -alfaias partidas, ficou convencida de que ele no lhe dispensara qualquer ateno especial. 
Era evidente que a sua relao era, mais uma vez, estritamente de trabalho. Ao fim do dia, teve a certeza disso. Tate tratava-a bem agora, tal como fazia em relao 
aos outros, gracejando com ela uma ou duas vezes e incitando-a a ir descansar quando a viu exausta. Porm, no lhe dirigiu quaisquer palavras especiais, nem a encorajou 
de modo particular, enquanto ela suava e trabalhava. No final do dia, quando deixou Navajo na baia, Tate no lhe disse nada ao sair da cavalaria e ao dirigir-se 
para o seu alojamento, a pouca distncia do salo.
- Hoje o trabalho foi duro, hem, Sam? - perguntou-lhe Josh por sobre o ombro, enquanto tirava a sela, e Sam
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fez um gesto afirmativo com a cabea, olhando de soslaio,, por instantes, para as costas de Tate. De repente, pensou se os momentos na cabana escondida no haviam 
sido uma aberrao, um fugaz instante de perda de controlo. Estava contente por no ter sucumbido  forte atraco que sentira. Nesta altura, talvez Tate estivesse 
a rir-se dela, imaginou, tentando lembrar-se do que Josh lhe dissera. - Ests estoirada.
-Estamos todos! Aqui trabalha-se sempre no duro. Sam no parecia infeliz quando proferiu estas palavras, sentia-se contente, como acontecera de manh, por ter sido 
poupada  sesso de castrao dos jovens touros. Do que vira anos antes, era uma experincia sangrenta e desagradvel, e preferia passar o dia com Tate e os outros, 
s voltas com os ramos das rvores tombadas e as alfaias agrcolas no barraco destrudo. - At amanh! - Acenou-lhe com um sorriso cansado e dirigiu-se para o edificio 
principal, ansiosa por um banho, pelo jantar e por uma cama quente. A vida no rancho parecia cada vez mais simples. Dormia, levantava-se, comia e trabalhava at 
mais no poder. Era aquilo que pretendia. Mal tinha tempo para pensar. No entanto, ultimamente, via-se inundada de pensamentos: vises do rosto de Tate de quando 
haviam estado na cabana, lado a lado, a falar de Bill e de Caro... e deles prprios.
Quando entrou na acolhedora casa do rancho, chamou Caroline, mas s encontrou silncio. Alguns minutos mais tarde, na cozinha, deparou-se-lhe. um bilhete que explicava 
que Caroline fizera cento e cinquenta quilmetros com Bill King. Havia alguns problemas de contabilidade que no podiam ser explicados ao telefone; por isso, tinham 
ido ter com o contabilista. Talvez voltassem nessa noite, j tarde, ou s de manh, mas, em qualquer dos casos, como era bvio, Sam no devia esperar por eles. Havia 
frango assado com batatas no forno e salada no frigorfico. Apesar do rduo dia de trabalho, Sam descobriu que no tinha tanta fome como pensara. A perspectiva de 
comer sozinha no era muito agradvel. Assim, entrou vagarosamente na sala de estar, pensando em fazer uma sanduche mais tarde; porm, quase sem dar por isso, inclinou-se 
para a frente, carregou num boto e ligou o televisor. Ento, sentiu como que um choque elctrico a trespass-la ao

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ouvir a voz de John a ressoar na acolhedora sala de estar. pouco depois, viu a proeminente barriga e o rosto sorridente de Liz. Lembrou-se novamente do que acontecera 
e, ao observ-los, os olhos de Sam espelhavam a mesma tristeza que trouxera de Nova Iorque. Fitava-os e escutava-os na tagarelice habitual, quando se apercebeu, 
de sbito, de que algum batia  porta h j uns minutos. Pareceram-lhe horas o tempo que estivera hipnotizada pelas duas pessoas sorridentes do noticirio da noite, 
incapaz de se afastar. Com um rpido piparote no boto, as imagens desapareceram do ecr e, de sobrolho franzido, Sam dirigiu-se  porta e abriu-a. A precauo nova-iorquina 
do "quem ?" desaparecera. Ali, s poderiam ser ajudantes ou amigos, pois no havia inimigos. Ao abrir a porta, deu consigo a olhar para uma camisa de xadrez azul-marinho 
e um familiar casaco de ganga; levantou os olhos e deparou-se-lhe o rosto de Tate Jordan.
- Ol, Tate. - Parecia cansada e algo perturbada, o esprito ainda cheio das imagens do ex-marido e da nova mulher.
- H algum problema? - Tate ficou preocupado quando a viu, mas Sam abanou a cabea. - Parece que recebeste uma m notcia.
- No. - O olhar de Sam era vago. Mesmo que no se sentisse bem, j no poderia chamar-lhe "notcia". - Nem por isso. S estou cansada. - Sorriu para Tate, mas no 
era o sorriso espontneo e calmo, a que ele estava cada vez mais habituado. Tate sentiu-se curioso por saber o que lhe provocara aquele ar infeliz. Talvez um telefonema 
de casa, ou uma carta grosseira do ex-marido. Conhecia aquele tipo de olhar das brigas com a ex-mulher anos antes.
- Esfalfaste-te a trabalhar hoje, pequeno palomino. - O sorriso de Tate era como uma recompensa no final de um dia rduo e, desta vez, quando Sam esboou um largo 
sorriso, este era autntico.
-Ainda bem que notaste. - Sam sabia agora que Tate Jordan reparava em tudo. Isso era, em parte, uma das razes por que aquele homem era to importante num rancho. 
Conhecia todos os trabalhadores, a qualidade do seu labor, a lealdade, a devoo, o que davam ao Rancho Lord, e o que dele
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retiravam. Ento, de olhos fixos e afastando-se para o lado perguntou: - Queres entrar?
-No queria incomodar-te, Sam. - Ao entrar, Tate pareceu, momentaneamente, embaraado. - Ouvi dizer que o Bill e a Caroline foram ter com o contabilista. Decidi 
ver se estavas bem. Queres vir jantar ao salo?
Sam ficou sensibilizada pela ateno de Tate e pareceu-lhe ver algo mais no seu sorriso. Mas era difcil saber com Tate Jordan. Havia alturas em que no se conseguia 
vislumbrar nada naqueles olhos verdes e ainda menos no rosto mar, cado.
- J comeste? - Tate sentia o cheiro a frango ainda no forno, e Sam abanou a cabea.
-No, a Caroline deixou-me um frango, mas eu no estava... no tive tempo para... - De repente, ficou corada, lembrando-se do noticirio que estivera a ver, em vez 
de co mer. Ento, ao olhar para Tate, fez um sinal com a cabea na direco da cozinha e afastou a espessa cabeleira loura dos ombros.
- Queres jantar comigo aqui, Tate? H ali muito para comer. - Poderiam dividir as batatas, havia um frango inteiro e a salada era suficiente para alimentar metade 
dos homens do rancho. Caroline cozinhava sempre como se estivesse  espera de um exrcito. Isso devia-se ao facto de se encontrar h anos rodeada de ajudantes e 
amigos.
- No  muito trabalho para ti? - Tate hesitou, a enorme estatura parecendo, de repente, demasiado grande para os tectos baixos, mas Samantha apressou-se a abanar 
a cabea.
- No sejas tonto. A Caroline deixou comida suficiente para dez.
Tate riu-se e seguiu-a at  cozinha. Enquanto falavam do rancho e do dia de trabalho, Sam ps a mesa. Minutos depois, devoravam o frango e a salada como se jantassem 
juntos todos os dias.
- Como  Nova Iorque? - Olhava para Sam, com um largo sorriso nos lbios, depois de terminada j a refeio-
Oh... Louca! Acho que  a melhor palavra para a definir. A abarrotar de gente, barulhenta, muito suja, mas tambm bastante animada. Todas as pessoas em Nova Iorque 
pa
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recem estar sempre ocupadas: a ir ao teatro, a estabelecer-se, a ensaiar para um ballet, a falir, a enriquecer, a ganhar fama. No  stio para simples mortais.
- E tu? - Tate olhou fixamente para Sam quando ela se levantou para servir o caf.
- Pensava que a adorava. - Encolheu os ombros, enquanto pousava as chvenas de caf fumegante e se sentava. - Agora, por vezes, j no tenho tanta certeza. Tudo 
me parece distante e de pouca importncia.  engraado, h trs semanas no conseguia deixar o escritrio para ir cortar o cabelo sem telefonar trs vezes numa hora, 
s para me certificar de que estava tudo a correr bem. Agora j estou fora h quase trs semanas e quem nota a diferena? Nem eles. Nem eu.  como se nunca tivesse 
l vivido. - No entanto, sabia que se regressasse nessa noite, na manh seguinte teria a sensao de nunca ter partido, e voltaria a sentir uma vez mais a incapacidade 
de o fazer. - Acho que o problema de Nova Iorque  que e viciante. Quando deixamos o vcio, no h problema, mas enquanto estamos viciados... - Esboou um terno 
sorriso. -  preciso ter cuidado!
- Conheci mulheres assim! - Tate bebericava o caf na delicada chvena branca, enquanto os olhos danavam maliciosamente de um lado para o outro.
-  mesmo, Mister Jordan? Importa-se de me contar isso?
- No. - Tate sorriu de novo. - E tu? Deixaste algum  tua espera em Nova Iorque, ou tambm fugiste disso tudo?
- No fugi, Tate. Vim-me embora. De frias. - Houve nova hesitao. - Licena sabtica, acho que  assim que lhe chamam no escritrio. E no, no deixei l ningum 
 espera. Pensei que tinhas percebido tudo no outro dia.
- No faz mal perguntar.
- Nunca mais andei com ningum desde que o meu marido me deixou.
-Desde Agosto?
Sam mostrou-se surpreendida por ele se ter lembrado, mas fez um gesto afirmativo com a cabea.
Sam exibiu, por instantes, um ar srio; depois, abanou a cabea.
- No achas que j  altura?
Sam no queria dizer-lhe que estava a comear a pensar o mesmo.
- Talvez. Tudo tem o seu tempo.
- Ter? - Falava num tom terno, enquanto se inclinava para ela e a beijava, tal como fizera anteriormente. Sam sentiu, mais uma vez, o corao a bater com fora 
contra a mesa
quando o seu corpo se moveu na direco dele. Com uma mo, Tate acariciou-lhe o rosto enquanto com a outra lhe alisou os cabelos sedosos. - Meu Deus, s linda, Sam. 
Deixas-me sem flego, sabes? - Beijou-a novamente, depois empurrou os pratos para o outro extremo da mesa e puxou-a para si, at que, de repente, estavam ambos sem 
flego, enquanto se beijavam na quietude da casa. Foi ento que Sam afastou ligeiramente o rosto, com um pequeno sorriso de embarao nos lbios.
- A tia Caro ficaria chocada.
-Achas? - No parecia convencido. - Duvido. - No mesmo instante, ambos imaginaram Caroline e Bill em viagem. Provavelmente passariam a noite juntos, algures na
estrada. Isso fez com que Sam se lembrasse novamente da cabana secreta, e Tate sorriu ao ter a mesma ideia. - Se no estivesse to escuro, podamos ir at l. Gostei 
de l ter estado contigo.
- Na cabana? - Apreendera de imediato o pensamento de Tate, o qual nesse momento anua em sinal de concordncia.
- No outro dia... - Tate ps-se de p, a voz como uma carcia. - No outro dia, senti que ela fora feita para ns. - Sam sorriu e Tate, devagar, ajudou-a a pr-se 
de p, diante
de si, parecendo mais pequena em contraste com o tamanho dele. Sam sentiu subitamente os seios pressionados contra o peito do homem, a boca procurando sequiosamente 
a dele enquanto as costas e os cabelos eram acariciados. Tate afastou-a ento, a voz no passando de um sussurro. - Sei que pode parecer loucura, Sam, mas amo-te. 
Soube-o a primeira vez que te vi. Tive vontade de te tocar, abraar, passar as mos por esses cabelos de palomino. - Tate esboou um terno sorriso, mas Samantha 
parecia pensativa. - Acreditas em mim, Sam?
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Os grandes olhos azuis de Sam encontraram os de Tate, de um verde profundo; parecia perturbada.
- No sei no que acredito, Tate. Estava a pensar no que te disse no outro dia, que fazer amor com algum no seria suficiente.  por isso que disseste tudo isto?
- No - sussurrou Tate enquanto a beijava no pescoo. . Disse-o porque  o que sinto. Tenho pensado muito em ti desde o outro dia. O que queres no  diferente daquilo 
que sinto, Sam. - A voz ficou mais forte-ao pegar-lhe nas mos. - Queres que d voz aos meus sentimentos. No estou habituado a isso.  mais fcil dizer "quero fazer 
amor contigo" do que "amo-te". Mas nunca conheci uma mulher por quem sentisse tanto desejo como por ti.
- Porqu? - O murmrio saiu-lhe com toda a dor que John lhe deixara estampada no rosto. - Porque  que me desejas?
-Porque s muito atraente... muito bonita... - As suas mos deslizaram suavemente pelos seios dela. - Porque gosto da maneira como ris, como falas... como montas 
o diabo do cavalo da Caro... como te esfalfas a trabalhar com os homens, mesmo no sendo obrigada... - Esboou um largo sorriso e envolveu-a com os braos. - E porque 
gosto do modo como o teu rabo assenta nas pernas. - Sam riu-se e afastou-lhe as mos delicadamente. - No  razo suficiente?
- Razo suficiente para qu, Mister Jordan? - perguntou em tom de gracejo enquanto se libertava dos seus braos e comeava a levantar a mesa. Porm, antes de poder 
levar os pratos para o lava-loua, Tate retirou-lhos da mo, pousou-os, pegou-lhe ao colo e saiu da cozinha, atravessando a sala de estar at chegar ao comprido 
corredor que levava ao quarto dela.
-  por aqui, Samantha? - A voz de Tate era meiga e os olhos flamejavam, fixos nos dela. Sam teve vontade de lhe dizer para parar e voltar para trs, mas descobriu 
que no conseguia. Limitou-se a dizer que sim com a cabea e a apontar vagamente para o fundo do corredor. Ento, de repente, desatou a rir e afastou-se dele.
-v l... pra, Tate. Pe-me no cho! - O riso dele juntou-se ao dela mas no lhe obedeceu. Em vez disso, parou junto a uma porta entreaberta ao fundo do corredor.
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-  o teu?
- . - Sam cruzou os braos, enquanto Tate lhe pegava como se ela fosse uma criana pequena. - Mas eu no convidei para entrar, pois no?
- No? - Franziu o sobrolho, atravessou a ombreira da porta e olhou  sua volta com um ar interessado. Ento, sem mais palavras, sentou-a na cama, tomou-a nos braos 
e bei
jou-a fervorosamente na boca. Os jogos entre ambos haviam terminado abruptamente, e a paixo que ele desencadeava nela apanhara-a completamente de surpresa. Sentia-se 
atordoada com a fora com que ele a segurava, o ardor com que a boca, as mos e todo o corpo procuravam o dela. Num pice, Tate estava deitado ao seu lado e as roupas 
tinham desaparecido de ambos os corpos. Sam apenas se apercebia da pele macia dele contra a sua, a suavidade das mos, sempre  procura, sempre frementes, as longas 
pernas enroscadas nas dela, a boca a beber da sua boca. Tate apertou-a mais contra si; Sam, incapaz de se conter, agarrou-se a ele, a gemer, ansiando pertencer-lhe. 
Foi ento que ele se afastou, olhou para os olhos dela, fazendo-lhe uma pergunta sem sequer falar. Tate Jordan nunca forara uma mulher a fazer amor e jamais foraria 
aquela. No seria agora que o faria; tinha de estar certo de que era desejado e que os seus anseios correspondiam aos dela. Quando a olhou nos olhos, Sam fez um 
ligeiro gesto afirmativo com a cabea. Ento, segundos mais tarde, tomou-a, penetrando-a vigorosamente, carne contra carne. Sam arquejou de prazer quando ele a atingiu 
ainda mais fundo, e, com outro gemido, deixou-se ir at ao xtase repetidas vezes.
Horas mais tarde ainda ele estava deitado ao lado dela, o quarto escuro, a casa mergulhada em silncio. Sam apercebia-se do corpo vigoroso e atltico de Tate .estendido 
a seu lado,
satisfeita, saciada, e foi com prazer que sentiu os lbios dele tocarem-lhe suavemente no pescoo.
-Amo-te, Palomino. Amo-te. - As palavras pareciam sentidas, mas Sam ansiava por uma confirmao.
- Amas mesmo? - A srio? Seria possvel que algum a amasse de novo? Am-la de verdade, sem a magoar, sem a abandonar? Algumas lgrimas deslizaram para a almofada, 
e
Tate olhou-a com um ar triste e confirmou com um gesto
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mudo. puxou-a para si e embalou-a com carinho, cantando-lhe baixinho palavras sem nexo, como se faria a um animal ferido ou a uma criancinha indefesa.
-Est tudo bem, querida. Agora est tudo bem. Estou aqui contigo...
-Desculpa... -        palavras foram abafadas, de repente, pelos soluos, e a dor que estava enclausurada dentro dela libertou-se como um bando de aves selvagens. 
Ficaram assim, abraados, durante quase uma hora, e quando as lgrimas secaram, Sam sentiu uma agitao familiar a seu lado e esboou um tnue sorriso, esticou o 
brao para tocar em Tate e depois pousou-o novamente no mesmo stio.
-Ests bem? - A voz roufenha de Tate ecoou na escurido e Sam fez um sinal afirmativo com a cabea. - Responde-me.
-Estou bem. - Com os olhos presos nos dela, ansiava saber mais.
-Tens a certeza?
- Sim, tenho a certeza. - Sam mostrou-lhe a gratido que sentia com o corpo, pois no conhecia palavras para o fazer: arqueou-se e deu-lhe tanto prazer como ele 
lhe dera. Era uma comunho absoluta de dois seres entrelaados, uma sensao to forte como ela nunca experimentara; quando adormeceu ao lado de Tate Jordan, Samantha 
exibia um pequeno sorriso de felicidade.
Na manh seguinte, quando o despertador na mesa-de-cabeceira tocou, Sam acordou com um sorriso nos lbios,  espera de ver Tate, mas o que viu foi um bilhete debaixo 
do pequeno relgio. Deixara-o ali ao sair de mansinho da cama s duas da manh. Ligara o despertador e escrevera num pedacinho de papel unicamente estas palavras: 
AMO-TE, PALOMINO. Ao l-lo, Sam recostou-se novamente na almofada, fechou os olhos e sorriu. Desta vez no havia quaisquer lgrimas.
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No final do dia de trabalho, Samantha estava com um ar; to fresco e cheio devida como no incio, e Josh comentou o facto em tom zombeteiro, enquanto pendurava a 
sela com um largo sorriso nos lbios.
-Meu Deus, mulher! Olha para ti, Sam, rija que nem um pro. H trs semanas mal conseguias andar depois de um dia a cavalo, estavas mesmo em baixo de forma. Agora 
voas
com o diabo desse cavalo, e tens um ar to resplandecente s seis da noite como de manh quando te levantas. Que inveja! Devias ser tu a levar-me para a minha cabana. 
Tenho o rabo todo dorido e nem sinto os braos depois de laar os malditos dos vitelos. Talvez precises de mexer o rabo e trabalhar um pouco mais.
- O tanas! Hoje trabalhei mais do que tu.
- Ah, sim? - resmungou Josh na brincadeira e bateu-lhe ao de leve nas costas com o chapu quando ela passou por ele.
- Sim! - Sam passou a correr com um largo sorriso estampado no rosto e um comprido rabo-de-cavalo louro preso com uma fita vermelha. Tate Jordan no lhe sara da 
cabea, mas nenhum deles dera algo a entender enquanto trabalhavam. Ele mostrara-se indiferente e chegara quase a ser rude, e ela esforara-se por ignor-lo nas 
poucas alturas em que tiveram ocasio para falar. Tate falou-lhe, por acaso, s uma vez, ao caf  hora de almoo; depois, afastou-se para conversar com alguns dos 
outros homens, enquanto Sam tagarelava com os ajudantes que conhecia melhor. S ao fim da jornada de trabalho  que ela permitiu que os seus pensamentos se centrassem 
novamente em Tate. Durante todo o dia, lembrara-se de momentos da noite passada juntos, de um instante de um fugaz momento, da forma das pernas dele, deitado nu 
e destapado entre os lenis amarrotados, da expresso do olhar quando se dobrava para a beijar mais uma vez, da curva do pescoo quando se deitava momentaneamente 
com um suspiro de felicidade enquanto ela fazia deslizar lentamente os
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delicados dedos ao longo da coluna, numa excitante promessa. Adorava o aspecto de Tate, o modo como ele encarava a vida e as sensaes que lhe provocava. Agora, 
ao voltar a correr para casa da tia Caro, era s nisso que pensava. No fazia ideia de quando o poderia voltar a ver sozinho. O alojamento dele era demasiado visvel, 
bem perto do salo onde os homens comiam, e a tia Caro j voltara da breve viagem com Bill. Era bvio que um encontro entre eles exigiria alguma preparao, mas 
estava certa de que Tate descobriria uma maneira. A ideia de que agora tanto ele como Bill King entrariam em bicos dos ps e sairiam sorrateiramente a meio da noite 
f-la soltar uma gargalhada ao abrir a porta principal.
- Meu Deus, est muito feliz esta noite, Miss Samantha! - Caroline olhou-a com um ar prazenteiro do stio onde se encontrava sentada. E, pela primeira vez em quatro 
meses, viu o rosto familiar de John sem sentir qualquer ponta de dor. Deteve-se por instantes, semicerrou os olhos, depois encolheu os ombros, um tranquilo sorriso 
nos lbios, e dirigiu-se para o quarto para se lavar.
-Volto dentro de um minuto, tia Caro.
Quando regressou, partilharam o jantar; nessa noite, porm, Samantha deu consigo a imaginar onde estaria Tate. Encontrar-se-ia no salo com os outros homens? Teria 
optado por ficar na cabana e cozinhar para si, como alguns dos trabalhadores faziam? Contudo, a maioria preferia jantar no salo. At os que viviam com as mulheres 
no rancho vinham muitas vezes ao salo, depois de jantar, tomar caf e fumar um cigarro na companhia daqueles com quem haviam cavalgado todo o dia. De sbito, Samantha 
sentiu vontade de estar com eles; no entanto, pressentiu que se o fizesse, assim, sem mais nem menos, interrogar-se-iam sobre a razo da sua presena. Aceitavam-na 
entre eles durante o dia, mas  noite esperavam que ela ficasse com Caroline em casa, que era o seu lugar. Iria choc-los e no conseguiria procurar Tate sem provocar 
comentrios. A bisbilhotice nos ranchos era implacvel, e havia uma espcie de radar sensorial que todos pareciam possuir. Romances, casamentos e divrcios eram 
descobertos quase instantaneamente, bem como casos extraconjugais e bebs ilegtinos, o que tornava ainda mais notvel o facto de Bill King
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e de Caroline terem conseguido manter o seu segredo durar tanto tempo. Mesmo que alguns dos mais velhos, ou aque l es que os conheciam bem, suspeitassem, ningum 
no rancho tivera alguma vez a certeza. Samantha respeitava a opo deles e acreditava que devia ser difcil aquele estilo de vida clara, destino. Agora sentia-se 
toda a vibrar de excitao, a desejar; ardentemente estar com o homem, falar com ele, rir, arreli-lo, tocar-lhe, dar um passeio nocturno, olhar para ele com interesse 
e orgulho, pegar-lhe na mo... depois, dirigirem-se ao quarto e descobrirem o corpo um do outro uma vez mais, como o haviam feito na noite anterior.
- Queres mais salada, Samantha? - S a meio do jantar  que Sam pareceu lembrar-se onde estava. Durante meia hora, estivera calada, a sonhar, enquanto Caroline a 
observava,
curiosa por saber a causa daquele silncio. Sam no ostentava um ar infeliz, no se mostrava aborrecida por Caroline ter estado a ver o noticirio. No parecia ter 
saudades de casa. O aspecto era ptimo... por isso teria de ser outra coisa. - Passa-se alguma coisa, Sam?
- Hum?
- H algum problema?
- O qu?... Oh.:. Desculpa. - Samantha corou que nem uma colegial; depois, abanou a cabea com um sorriso fugaz e agarotado. - No, s estava distrada. Foi um dia
longo... mas gostei. - No encontrara outra forma de explicar o brilho resplandecente e de plenitude que deixava transparecer no rosto.
- Que diabo andaste a fazer?
- Nada de especial. Lacei alguns cavalos, verifiquei as vedaes, os homens laaram alguns vitelos esta tarde... Sam tentou lembrar-se. Sonhara com Tate a maior 
parte do
tempo. - Foi um dia formidvel.
A velha amiga olhou-a com um ar perspicaz.
- Fico contente por te sentires feliz aqui no rancho O rosto de Samantha tomou um ar estranhamente srio' - E estou feliz, tia Caro. H muito tempo que no me sentia 
to bem.
Caroline assentiu com a cabea e concentrou a ateno na salada, ao mesmo tempo que Samantha voltava a sonhar com
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Tate. Porm, s na manh seguinte  que o viu. Na noite anterior, ouvira Bill King entrar e sair da casa, desta vez com inveja. Tate no conseguira arranjar maneira 
de vir ter com ela. Enquanto estava na cama, a ansiar por ele, Sam sorria: era como se voltasse a ter dezoito anos e um caso clandestino. Sentiu-se, subitamente, 
jovem e feminina, terrivelmente secreta, na impacincia por voltar a estar com ele.
Eram sete da manh, domingo, quando Sam bebeu o caf de um gole, puxou o fecho das calas de ganga, vestiu o casaco, escovou o cabelo uma ltima vez e depois correu 
para a cavalaria na esperana de o encontrar a. Porm, no encontrou ningum. Os homens que tinham vindo alimentar os cavalos j haviam ido para o salo. Estava 
sozinha na enorme cavalaria na companhia dos familiares cavalos, cada um na sua baia, a comer calmamente ou a descansar. Samantha encaminhou-se, ento, em passo 
lento, para a baia de Black Beauty. Passou-lhe lentamente a mo pelo focinho, depois sentiu os beios peludos a roarem-lhe a mo,  procura de algo para comer.
- Hoje no te trouxe nada, Beauty. Desculpa, rapaz. - No te fies nela. - A voz suave vinha de trs. - E o que  que me trouxeste a mim?
- Oh! - Sam rodou sobre si e, espantada, deu de caras com Tate. Antes que pudesse tomar flego, ele abraou-a, quase a sufocando, enquanto a beijava com ardor.
- Bom dia, Palomino. - Tate falou num sussurro e Sam corou.
-Ol... senti a tua falta.
-Tambm eu. Queres ir at  cabana agora de manh? - Ningum, mesmo a poucos centmetros deles, o teria conseguido ouvir, e Samantha fez prontamente um gesto afirmativo 
com a cabea, com um brilho de expectativa no olhar. - Adoraria.
- Encontramo-nos na vedao sul, na clareira. Sabes onde fica? - Tate ficou, subitamente, preocupado, como se receasse que ela se perdesse, mas Sam riu-se.
-Ests a brincar? Onde  que pensas que estive toda a semana?
-No sei, querida. - E esboou um largo sorriso. - Penso que no mesmo stio que eu. Algures na tua cabea.
- No ests muito longe da verdade. - Ento, quando Tate fazia o gesto para se ir embora, Sam agarrou-o pela manga.
- Amo-te - murmurou.
Tate meneou ligeiramente a cabea, passou os lbios pelos dela e sussurrou-lhe a resposta:
- Tambm te amo. Vemo-nos s dez. - E partiu, o rudo seco dos taces a ressoar na cavalaria. Pouco depois, ao dobrar uma esquina, cumprimentou dois homens que 
vinham
tratar dos cavalos. Um instante mais cedo e t-lo-iam visto a beijar Samantha. Em vez disso, o que viram foi Sam a alimentar, com ar diligente, o melhor cavalo de 
Caroline.
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Encontraram-se na clareira sul s cinco para as dez, os cavalos frescos, o cu azul, os olhos a brilharem de desejo. Aquela paixo acabada de nascer parecia um pouco 
louca. Sam no conseguia explicar, mas, no seu ntimo, sentia-se impelida para ele e estava disposta a comprometer-se para o resto da vida. Tentou comunicar-lho, 
mais tarde, nessa manh, quando estavam deitados na enorme e confortvel cama de ferro, no quarto azul-claro, os corpos cansados, os coraes leves, o brao dele 
a envolver o seu corpo aninhado a seu lado.
-No sei, Tate,  como se... como se tivesse estado sempre  tua espera. Como se, de repente, soubesse para o que nasci...
-Queres dizer... copular? - Tate fez um sorriso matreiro e despenteou-lhe os delicados cabelos.
-No lhe chames isso. - Sam pareceu magoada. -Desculpa. - Tate beijou-a ternamente e afagou-lhe o rosto. - Fazer amor.  o que , tu sabes, no importa o que lhe 
chamo.
-Eu sei. - Sam aproximou-se dele com um sorriso de felicidade estampado no rosto e fechou os olhos. - Deve ser um erro sentir-me assim to feliz.  certamente uma 
indecncia. - As plpebras tremeram e Tate beijou-lhe a ponta do nariz.
-? Porqu? - A sua expresso feliz assemelhava-se  dela. - Por que razo no temos direito a sentirmo-nos assim?
-No sei. Espero que seja por muito tempo. - Os pensamentos voaram, em unssono, para Bill e Caroline, que se haviam deitado na mesma cama antes deles e ainda estavam 
juntos ao fim de tanto tempo.
-  de loucos, Tate,  tudo to novo entre ns, mas no parece, pois no?
No... Agora, se no parares de falar nisso, vou comear a tratar-te como se j c estivesses h vinte anos.
- E depois? - Ignoro-te.
- Experimenta. - Sam fez deslizar os dedos pela parte interior da coxa e deteve-se, interessada, no local onde as pernas se juntam.
- Para que  tudo isso, Miss Samantha?
- Espera que j te mostro. - Provocava-o com uma voz maliciosa e Tate pousou a mo entre as coxas dela. Durante toda a manh, persistiu a sensao de j ali terem 
estado
partilhando h muito as suas vidas. Era praticamente impossvel perceber-se que a relao era recente, tal o -vontade com que Tate e Sam vagueavam nus pela minscula 
casa.
- Viste os lbuns de fotografias, querida? - indagou Tate, enquanto Sam fazia sanduches na cozinha com as provises que ele trouxera. Sentou-se no sof, com um 
cobertor sobre os ombros nus, os ps estendidos para o lume vivo, A lareira no era limpa desde a ltima vez que fora acesa; assim, ningum descobriria pelas cinzas 
a presena dos dois.
- Sim, so ptimas, no so? - Eram fotografias de Bill; Caroline e outras pessoas do rancho, do princpio dos anos cinquenta, e os dois novos amantes riam ao observ-las, 
as pessoas a fazer palhaadas diante de carros antigos, vestidas com engraados fatos de banho e com chapus esquisitos na cabea. Havia algumas de rodeos e outras 
do rancho antes de certos edificios mais recentes terem sido construdos. - Isto era muito mais pequeno!
Tate respondeu-lhe com um sorriso.
-Um dia ser muito maior. Podia ser o melhor rancho do estado, talvez um dos melhores do pas, mas o Bill King est a ficar velho, j no est ansioso por o ver 
crescer, por desenvolv-lo.
- E tu?  isso que queres, Tate? Dirigir este rancho um
dia?
Tate fez um lento gesto afirmativo com a cabea, mostrando toda a sua franqueza. Tinha bastante ambio, toda ela centrada naquele rancho.
-E. Um dia gostaria de fazer dele uma coisa muito especial, se Miss Caro me deixar. No sei se o far, enquanto o velho Bill por c andar.
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Samantha falou baixinho, quase num tom de reverncia. -Espero que ele fique sempre por c, Tate, para bem
dela.
Ele fez um gesto de concordncia.
- Tambm eu. Mas um dia, um dia... h algumas coisas que eu gostava de mudar neste rancho. - Ao fechar cuidadosamente o lbum, comeou a contar-lhe. Uma hora depois, 
olhou de relance para o relgio elctrico na cozinha e parou. - Ouve, Sam, podia estar aqui 'a falar durante horas. - Esboou um tmido sorriso, sendo evidente que 
ela apreciara a conversa.
-Estou a gostar de te ouvir falar. - Aps uma pausa, acrescentou: - Porque no arranjas o teu prprio rancho? Tate riu-se e abanou a cabea.
-Com qu, pequeno Palomino? Com desejos e latas velhas de cerveja? Fazes ideia de quanto custa pr um rancho decente de p? Uma fortuna. No  com o meu salrio, 
querida. No. A nica coisa que quero  ser capataz, no capataz adjunto. O homem do poder. Muitos rancheiros no distinguem o rabo de um buraco no cho. O capataz 
 que dirige as coisas.
- Tu fazes isso aqui. - Sam olhou-o com um ar de orgulho e ele tocou-lhe ternamente no cabelo; depois, ps-lhe uma mo no queixo.
- Eu tento, pequeno Palomino. Eu tento, quando no estou a fazer gazeta contigo. Quase me podias fazer arrepender de trabalhar. Ontem, a nica coisa que queria era 
vir ter contigo, fazer amor, sentar-me junto da lareira e sentir-me bem.
Samantha olhou fixamente para o lume com um ar sonhador.
- Tambm eu. - Instantes depois, voltou os olhos para ele. - O que  que vamos fazer, Tate?
- Acerca do qu? - Estava novamente a gracejar. Compreendia muito bem as palavras da jovem.
- No te armes em engraado. Sabes bem o que quero dizer. - Soltou uma risadinha. - Na outra noite, tive a viso de ti e do Bill King a entrarem em casa em bicos 
dos ps e a chocarem um com o outro no escuro. - Riram-se com a coagem e Tate, com um ar pensativo, puxou Sam para si.
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Reflectira sobre as hipteses, e todas eram complicadas, nenhuma era ideal. -No sei, Sam, seria muito mais fcil se fosse Vero; Poderamos vir at aqui todas as 
noites, depois do trabalho, e voltarmos a cavalo, ao luar, sob as estrelas. Mas estar escuro como o diabo quando acabarmos, e tenho medo que um dos cavalos tropece 
e se magoe.
Podamos trazer lanternas.
- Claro. - Tate fez um largo sorriso. - Ou alugar um helicptero. Porque no?
- Oh, cala-te. Bem... O que  que vamos fazer? Queres entrar s escondidas na casa da tia Caro?
Tate abanou lentamente a cabea.
- No. Ouvir-nos-iam, da mesma maneira que tu o ouves entrar todas as noites. E a minha casa  to visvel. Bastava um dos homens ver-te, s uma vez, e estaria tudo 
acabado para ns.
- Estaria? - Samantha mostrou-se tensa ao falar. - Seria assim to mau se soubessem?
Tate fez um ligeiro gesto afirmativo com a cabea. - Porqu?
-No est certo, Sam. Tu s quem s e eu sou quem sou. No queres que eles falem e eu tambm no.
No entanto, para Sam, esse facto no tinha qualquer importncia. Pensava que o amava e no se preocupava com o que os outros dissessem. O que podia algum fazer 
para os magoar? Viu na cara dele, porm, que se tratava de uma regra sagrada. As senhoras dos ranchos no se apaixonavam por trabalhadores.
Samantha olhou para Tate com um ar decidido.
- No vou fazer o jogo deles eternamente. Se ficarmos juntos, quero que as pessoas saibam. Quero orgulhar-me daquilo que temos, sem temer que algum descubra.
- L chegaremos.
Sam tinha a sensao de que ele no estava preparado para se mover um centmetro na sua direco. De repente, levantou a cabea e o brilho no olhar era to obstinado 
como dele.
- Porqu? Por que razo no comeamos j a enfrentar
situao?  certo que no precisamos de anunciar j a toda a gente que temos um caso. Mas que diabo, Tate, no vou esconder-me eternamente.
No - tranquilizou-a Tate. - Vais acabar por voltar para Nova Iorque.
As palavras atingiram-na como um balde de gua fria; quando voltou a falar, havia gelo e dor na voz.
- Como  que tens tanta certeza?
- Porque  o teu lugar, da mesma maneira que o meu  aqui.
-  mesmo? Como  que sabes? Como  que sabes se no sou como a Caroline, que resolvi que no quero mais aquele estilo de vida, que a minha vida  como foi a dela?
- Sabes como  que sei? - Tate olhou-a com a sabedoria dos seus quarenta anos. - Porque quando a Caroline veio para aqui, era viva, queria desistir da vida que 
partilhara com o marido, porque ele partira. E tinha quarenta anos, Sam, o que no  a mesma coisa que trinta ou trinta e um. s jovem, ainda tens muito para viver, 
muitos anncios para fazer, muitos negcios para fechar, muitos autocarros para apanhar, telefonemas para fazer, avies para perder, festas para ir...
-E no posso fazer algumas dessas coisas aqui? - Parecia verdadeiramente magoada; Tate olhou-a com ternura, sabedoria e amor.
- No, baixinha, no podes. No  lugar para isso. Vieste aqui para te curares, Sam, e  o que ests a fazer. Talvez eu tambm faa parte dessa cura. S h trs 
semanas  que te conheci, h anos que no quero saber de mulher nenhuma... mas sei que te amo. Soube-o no dia em que nos conhecemos. E espero que me ames. Mas o 
que aconteceu com o Bill e a Caro foi um milagre, Sam, o lugar deles no  juntos e nunca estaro. Ela  instruda, ele no. Ela levou uma vida de luxo, a ideia 
de classe que ele tem  um palito de ouro macio e um charuto de cinquenta cntimos. Ela  dona do rancho e ele nem um monte de feijes tem. Mas amam-se, e era aPenas 
isso que ela queria. Tenho as minhas razes para achar que ela foi um pouco louca, mas j gozara outra vida, e talvez isto lhe chegasse. Tu s diferente, Sam, s 
muito mais nova e tens direito a muito mais do que aquilo que posso dar-te
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aqui. - Era tudo uma perfeita loucura: conheciam-se h menos de um ms, eram amantes h dois dias e, no entanto, falavam do futuro como se ele tivesse alguma importncia, 
como se estivesse em questo o facto de ficarem juntos para o resto da vida. Sam olhou-o nos olhos, espantada; depois, esboou um ligeiro sorriso.
- s louco, Tate Jordan. Mas amo-te. - Segurou-lhe o rosto entre as mos e beijou-o avidamente nos lbios; depois recostou-se e cruzou os braos. - Se eu quiser 
c ficar, se for
esta a vida que desejo, quer eu tenha trinta, noventa ou dezoito anos, a deciso  minha. No sou a Caroline Lord e tu no s o Bill King, e podes guardar os teus 
discursos de auto-sacrificio, porque, quando chegar a altura, farei unicamente aquilo que entender. Se no quiser voltar para Nova Iorque, no podes obrigar-me. 
Se eu decidir que te quero para o resto da vida, ento seguir-te-ei at aos confins do mundo e massacrar-te-ei at dares a notcia a todos os ajudantes,  Caroline 
e ao Bill. No vais livrar-te de mim to facilmente como gostarias. Percebeste? - Olhou-o, sorridente, mas verificou que ainda existia uma certa resistncia no olhar. 
No tinha importncia, ele no a conhecia, e a verdade era que, apenas com uma excepo recente, o que Sam Taylor queria, conseguia. - O senhor percebeu?
- Sim, percebi. - Sem mais palavras, desta vez foi Tate quem a beijou e a silenciou quase por completo quando puxou o confortvel cobertor para cima de ambos. Pouco 
de pois, estavam entregues um ao outro mais uma vez: as pernas, os braos, os corpos entrelaados, enquanto os lbios se uniam e o fogo crepitava ao lado. Quando 
acabaram, Tate afastou os lbios ofegantes dos de Sam e voltou a transport-la ao colo para o pequeno quarto azul, onde recomearam a jornada de amor. J passava 
das seis quando viram que en noite. Haviam dormido e feito amor vezes sem conta durante toda a tarde, e agora era com pena que Tate lhe dava uma palmada no rabo 
e ia  casa de banho pr a gua a correr para a banheira. Tomaram banho juntos, as longas pernas dele enroladas  volta dela, ao mesmo tempo que Sam soltava alegre 
risadas e contava histrias de outros Veres passados no rancho.
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Sabes que ainda no resolvemos o nosso problema. No sabia que tnhamos um problema. - Tate deitou a cabea na borda da banheira e fechou os olhos.
- Refiro-me ao lugar e  forma de nos encontrarmos. Tate ficou silencioso durante um longo instante enquanto pensava no assunto; depois, abanou a cabea.
-Diabos, quem me dera saber! O que  que achas, Sam? -No sei. O meu quarto? Podia deixar-te entrar pela janela. - Soltou uma gargalhada nervosa. Parecia uma adolescente 
precoce e atrevida. - Na tua casa?
Tate fez um lento sinal afirmativo com a cabea.
- Sim. Mas no gosto. - De repente, os olhos tomaram um brilho vivo. - J sei. O Hennessey j h dois meses que anda a refilar por causa do alojamento. Diz que a 
casa  muito pequena para ele, que  ventosa e que fica longe do salo. Est a pr-nos malucos a todos.
- E ento?
-Troco com ele. A casa dele  no extremo do campo, quase por trs da casa da Caro. Assim, se l fores, ningum ir ver-te.  muito melhor do que onde estou agora.
- No achas que vo suspeitar?
-Porqu? - Tate esboou um sorriso por entre o vapor da banheira. - No estou a pensar beliscar-te o rabo todos os dias ao pequeno-almoo ou beijar-te na boca antes 
de sairmos a cavalo.
-Porque no? No me amas?
Tate no respondeu, apenas se inclinou para a frente, beijando-a ternamente e depois acariciando-lhe os seios.
- Por acaso, pequeno Palomino, amo.
Sam ps-se de joelhos na' velha banheira e encarou-o, deixando transparecer no olhar todos os seus sentimentos. - Tambm eu, Tate Jordan. Tambm eu.
Quando regressaram, depois das sete, Sam ficou imensamente grata por saber que Caroline fora jantar a outro rancho. Caso contrrio, ficaria preocupada. Passara o 
dia a conversar, a rir, a amar, e agora, ao voltar para casa, sentia a sbita falta do amante. Era como se algum lhe tivesse amputado o brao direito. Apoderara-se 
dela uma estranha sensao relativamente quele homem que conhecia h to pouco
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tempo; porm, isolados como estavam do resto do mundo havia algo especial e intenso nos sentimentos de ambos, e deu consigo a ansiar novamente por ele, quando se 
sentou, s, na casa vazia. Caroline deixara-lhe um bilhete que expressava sua preocupao, no pnico, pela sua longa ausncia, e dei xara-lhe tambm o jantar quente 
no fogo, que Sam s debocou antes de ir para a cama, s oito e meia, permanecendo no escuro, a pensar em Tate.
Quando Caroline chegou a casa nessa noite com Bill King a seu lado, entraram, sub-repticiamente, em bicos dos ps, na casa escura, e Bill foi de imediato para o 
quarto.
A presena de Sam tornara as coisas um pouco embaraosas e todas as noites Caroline tinha de lhe lembrar que no fechasse a porta com tanta fora, mas ele no ligava 
importncia. Caroline foi, de mansinho, pelo corredor fora, at ao quarto de Sam, abriu a porta, espreitou para dentro do quarto iluminado pela Lua e viu a jovem 
e bela mulher adormecida em cima da cama. Olhou-a por instantes, com a sensao de que a juventude voltara para a assombrar. Ento, silenciosamente, entrou no quarto. 
Julgava saber o que se estava a passar; porm, como aprendera por experincia prpria, era algo irreversvel. Cada um tinha de viver a sua vida. E ali ficou durante 
um longo instante, os olhos fixos em Samantha, os cabelos desta espalhados na almofada, o rosto to perfeito e to feliz. De lgrimas nos olhos, Caroline estendeu 
o brao e tocou na mo da jovem adormecida. No fez nada para a acordar e, em passo silencioso, voltou a sair do quarto.
Bill aguardava-a, de pijama vestido e a dar uma ltima fumaa no charuto.
- Onde  que estiveste? Ainda tens fome depois daquele jantar?
- No. - Caroline abanou a cabea, estranhamente calada. - Quis certificar-me de que a Sam estava bem. - E est?
- Est. J dorme. - Fora o que pensaram quando viram a casa s escuras.
-  uma moa simptica. O tipo com quem ela estava casada deve ser parvo para fugir com outra. - Bill no ficara impressionado com o que vira de Liz na televiso.
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Caroline fez um silencioso gesto de concordncia com a cabea, achando que eles tambm deveriam ser parvos. Ela, por ter permitido que Bill lhe impusesse o silncio 
durante duas dcadas mantendo em segredo o amor de um pelo outro; Bill, por viver como um criminoso, entrando e saindo de casa dela em bicos dos ps h mais de vinte 
anos; Samantha, por gostar de um homem e de um estilo de vida que lhe eram estranhos e, possivelmente, to perigosos como saltar do cimo do Empire State Building; 
e Tate Jordan, por se apaixonar por uma rapariga que no podia ter. Porque Caroline sabia exactamente o que estava a acontecer. Sentia-o nos ossos, nas entranhas, 
na alma. Vira-o nos olhos de Sam antes de a prpria saber, pressentira-o no Natal quando observara Tate a olhar para Sam enquanto esta estava ocupada a fazer outra 
coisa. Caroline viu tudo e, no entanto, tivera de fingir que nada via, nada sabia e no conhecia ningum.
- Bill. - Caroline olhou-o de modo estranho, tirou-lhe o charuto da boca e pousou-o no cinzeiro. - Quero casar.
- Claro, Caro. - Bill esboou um largo sorriso e acariciou-lhe o seio esquerdo.
- Pra. - Caroline afastou-o. - Estou a falar a srio. - Havia algo na voz que reforava aquelas palavras. Ests senil! Porque casaramos agora?
-Porque com a tua idade no devias andar a entrar e a sair  socapa a meio da noite.  mau para os meus nervos e para a tua artrite.
-s louca. - Bill recostou-se na cabeceira com um ar chocado.
- Talvez. Mas vou dizer-te uma coisa. Nesta altura, no iramos surpreender ningum. E mais, acho que ningum se importaria. Ningum mais recorda o que fui ou donde 
vim, Por isso todos os teus velhos argumentos no fazem sentido. Ao fim deste tempo todo, s sabem que sou a Caroline Lord e tu es o Bill King do Rancho Lord. Ponto 
final.
- Ponto final, no. - Subitamente, exibiu um ar quase feroz. - Sabem que tu s a dona do rancho e eu o capataz.
Quem  que se importa?
- Eu importo-me. Tu tambm devias faz-lo. E os homens tambm se importam. H uma diferena, Caro. Tu sa
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bes, ao fim destes anos todos. E diabos me levem se te transformar em motivo de risota. - Estava quase a gritar, Fugir para casar com o capataz... Nem pensar!
- ptimo. - Caroline olhou-o com um ar irritado. - Ento despeo-te e j podes aparecer como meu marido:, - Ests doida, mulher! - Ele nem sequer iria discutir a 
questo. - Agora apaga a luz. Estou cansado.
- Tambm eu... - Caroline olhou-o com um ar infeliz, - De me esconder,  disso que estou cansada, ao fim destes anos todos. Bolas, quero casar, Bill!
- Ento casa com outro rancheiro.
- Vai para o diabo. - Caroline lanou-lhe um olhar irritado, apagou a luz e a conversa ficou por ali. Era a mesma conversa que j haviam tido centenas de vezes ao 
longo de
vinte anos, mas ningum ficava a ganhar. Tanto quanto ele sabia, ela era a dona do rancho e ele o capataz. Deitada ao seu lado na cama, com os olhos marejados de 
lgrimas, de costas voltadas para ele, Caroline rezou fervorosamente para que Samantha no se apaixonasse perdidamente por Tate Jordan, pois sabia que a relao 
no iria acabar de forma muito diferente da dela. Aqueles homens seguiam um cdigo que no fazia sentido para ningum, a no ser para eles, mas viviam de acordo 
com ele, e Caroline sabia que seria sempre assim.



A troca de alojamentos entre Tate Jordan e Harry Hennessey realizou-se em quatro dias. Hennessey ficou encantado com a oferta de Tate e, com a quantidade adequada 
de resmunguice, Tate acabou por mudar as suas coisas. Afirmava que no gostava da casa, que estava farto de ouvir Hennessey queixar-se, e que no tinha direitos 
adquiridos em relao a nenhuma das cabanas. Para ele, eram todas iguais. Ningum deu especial ateno  transaco e, na quinta-feira  noite, j Tate desemalara 
todas as suas coisas. No seu quarto, Samantha esperava pacientemente, no escuro, pelas nove e meia, altura em que Caroline se encontrava no quarto. Saiu pela janela, 
atravessou o jardim, nas traseiras da casa e, instantes depois, alcanou a porta da casa de Tate. O alojamento ficava praticamente por detrs da casa principal e 
no podia ser avistada de nenhuma outra. Encontrava-se, inclusive, dissimulada pelas rvores de fruto ao fundo do jardim, de modo que ningum poderia ver Samantha 
a esgueirar-se sorrateiramente pela porta. Tate aguardava-a, descalo, de peito nu e calas de ganga, os cabelos de um negro-azulado, com fios brancos nas tmporas 
e um verde-vivo nos olhos. A pele era macia como cetim, e envolveu rapidamente Sam nos seus braos. Instantes depois, estavam entre os lenis lavados da cama estreita. 
S depois de terem feito amor  que se entregaram  conversa, Samantha rindo  gargalhada pelo facto de se ter escapulido pela janela do quarto, enquanto, naquele 
preciso momento, Bill King devia estar a entrar em bicos dos ps pela porta principal.
- No achas que  ridculo na nossa idade? - Sam estava divertida, mas ele no.
- Pensa nisto com romantismo. - Tal como Bill King, tambm Tate Jordan no fazia inteno de transformar Sam em motivo de risota do rancho. No era uma mulher fcil 
de Nova Iorque. Era uma senhora muito especial e agora era a sua mulher, e ele proteg-la-ia se tivesse de o fazer, at dela prpria. Sam no compreendia nada do 
cdigo de comporta-
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mento entre rancheiros e ajudantes. O seu modo de conduta s a eles dizia respeito e a mais ningum, e sempre assim seria, dissesse Samantha o que dissesse. Era 
um assunto que no valia a pena discutir; alm disso, havia sempre muitas outras coisas para falar. Conhecia a posio dele e ele sabia bem qual era a dela, no 
havia mais nada a dizer, de momento, relativamente aos seus encontros clandestinos. Durante algum tempo estava bem assim. De qualquer forma, resolvera revelar o 
segredo no Vero. Calculava que, na altura, j seriam amantes h seis ou sete meses, e Tate estaria menos preocupado com o facto de os outros saberem. De repente, 
ao pensar no Vero, sentiu o desejo de ficar no rancho. Pela primeira vez admitiu a possibilidade de ficar no rancho, o que provocou a questo sobre o que fazer 
com o emprego de Nova Iorque. Mas haveria tempo para pensar nisso. Ainda corria o ms de Dezembro, embora j sentisse que residia no Rancho Lord, e que era mulher 
de Tate Jordan, h uma srie de anos.
- Feliz? - indagou Tate, antes de adormecerem, abraados um ao outro, as pernas enlaadas, o brao dele rodeando os ombros dela.
- Mmmm... - Sam sorriu de olhos fechados e beijou-lhe as plpebras, antes de adormecer. Acordou ao mesmo tempo que ele, s quatro da manh, e regressou pelos pomares 
atrs do jardim, entrou sorrateiramente pela janela entreaberta e acendeu as luzes. Tomou um duche, como sempre, vestiu-se, foi tomar o pequeno-almoo ao salo principal, 
e assim Samantha Taylor comeava uma nova vida.
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No dia de So Valentim, Sam recebeu um postal de Charlie Peterson que fazia referncia ao seu lugar em aberto no escritrio. Pela primeira vez, pensou no emprego 
 sua espera em Nova Iorque. Falou no assunto a, Tate nessa noite enquanto estava nos seus braos. Era agora um ritual nocturno: chegava antes das nove da noite, 
depois de jantar com a tia Caro e de tomar banho.
- Como  que ele ? - Tate olhou para Sam com ar interessado, ao mesmo tempo que ela se atirava para o sof, com um vibrante sorriso de felicidade.
- O Charlie? - Sam olhou, de sobrolho franzido, para o homem que agora via como seu marido. - Ests com cimes?
- Devia estar? - O tom de voz era calmo.
- Claro que no! - As palavras misturaram-se com uma gargalhada. - Nunca houve nada entre ns, alm disso, ele tem mulher e trs filhos e ela est grvida outra 
vez. Gosto dele como de um irmo, uma espcie de melhor amigo. Trabalhamos juntos h anos.
Tate assentiu com a cabea.
- Sam, no tens saudades do teu emprego? - perguntou, depois de um silncio.
Sam ficou calada e pensativa por instantes, antes de responder, depois abanou a cabea.
-  espantoso, mas no. A Caroline diz que tambm foi assim com ela. Quando deixou a antiga vida, no sentiu falta. E nunca teve vontade de regressar. Tambm sinto 
o mesmo: cada dia que passa, sinto menos a falta de tudo o que deixei.
- Mas sentes um bocadinho? - Tate encurralara-a e ela voltou-se sobre o ventre, olhou-o nos olhos, deitada no sof e ele sentou-se ao p dela, de costas para a lareira.
-Claro, um bocadinho. Tambm sinto falta do meu apartamento, de alguns dos meus livros e das minhas coisas. Mas no sinto falta da minha vida de l. Aquilo de que 
tenho saudades... so coisas que podia trazer para aqui se quisesse.
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Mas o trabalho...  to estranho, passei aquele tempo todo a trabalhar tanto e agora... - Encolheu os ombros, assumindo um ar quase infantil. - Mas j no quero 
saber mais disso. Tudo o que me interessa  cuidar dos bezerros, ver se h trabalho para fazer, se o Navajo precisa de ferraduras novas, se a vedao no pasto norte 
foi derrubada. No sei, Tate,  como se tivesse acontecido qualquer coisa irreal. Como se me tivesse tornado uma pessoa diferente quando deixei Nova Iorque
- Mas algures em ti, Sam, ainda existe . essa velha pessoa A pessoa que quer escrever anncios que ganhem prmios e ser importante no seu tipo de trabalho. Um dia 
vais sentir saudades disso.
- Como  que sabes? - De repente, pareceu zangada, - Porque tentas obrigar-me a ser aquilo que j no quero mais? Porqu? Queres que volte para l? Tens medo do 
compromisso, Tate, daquilo que pode significar?
- Talvez. Tenho direito a estar assustado, Sam. s uma mulher extraordinria. - Tate sabia que ela no estava disposta a manter eternamente o segredo sobre a vida 
deles, que queria o seu amor s claras, algo que o preocupava muito.
-Bem, no me obrigues. Agora, no quero voltar. E se quiser, digo-te.
-Espero que sim.
Ambos sabiam que a licena s durava mais seis semanas. Prometera a si prpria tomar uma deciso at meados de Maro. Ainda tinha um ms. Mas, duas semanas mais 
tarde, ao regressar calmamente da cabana secreta, onde ainda passavam domingos idlicos, Tate exibia um ar divertido e comunicou-lhe que tinha uma surpresa.
-Que tipo de surpresa?
- Vais ver quando chegarmos a casa. - Inclinou-se para ela, no seu cavalo malhado, e beijou-a em cheio nos lbios- Vamos a ver... O que poder ser...? - A expresso 
era malandra e pensativa, mas tambm extremamente jovem Prendera os longos cabelos louros em dois tots atados com fitas vermelhas, e usava um novo par de botas 
 cowboy de Pele de cobra avermelhada. Tate zombara daquela excentricidade, dizendo-lhe que ainda eram piores do que as verdes de Caroline; porm, com as roupas 
Blass, Ralph Laureu & Halston
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abandonadas desde que chegara ao rancho, as botas haviam sido a sua nica extravagncia em trs meses. - Compraste-me outro par de botas? Violetas, desta vez?
- Oh, no... - gemeu Tate enquanto cavalgavam lentamente para casa.
- Cor-de-rosa?
- No digas mais. Acho que vou vomitar.
- Est bem,  outra coisa. Vamos ver... Uma forma para fazer waffles? - Tate abanou a cabea. - Uma torradeira nova? - Sam exibiu um sorriso matreiro, pois a outra 
queimara-se na semana anterior. - Um cachorrinho? - Estava com um ar ansioso e Tate sorriu, abanando, uma vez mais, a cabea. - Uma tartaruga? Uma cobra? Uma girafa? 
Um hipoptamo? - Riram-se ambos. - Diabos, no sei. O que ? -Vais ver.
Tratava-se de uma televiso a cores que ele comprara atravs do cunhado de Josh, na cidade mais prxima. Josh prometera deix-la na casa de Tate no domingo e este 
dissera-lhe para o fazer enquanto estivesse fora. Ao entrar, Tate apontou para a televiso com uma expresso de orgulho e alegria.
- Tate! Querido, que ptimo! - No entanto, Sam estava bastante menos entusiasmada do que ele. Fora completamente feliz sem aquele objecto. Com ar amuado, perguntou: 
- Isto significa que a lua-de-mel acabou?
- Claro que no! - Foi rpido a prov-lo. Passado algum tempo, ligou a televiso, onde estava a dar o noticirio de domingo. Era um resumo semanal, geralmente feito 
por outro jornalista, mas nessa noite, por uma razo qualquer, era John Taylor quem fazia a apresentao. Assim que Sam o viu, parou, de repente, e olhou-o fixamente, 
como se fosse a primeira vez. J haviam passado quase trs meses desde a ltima vez que o vira na televiso, cinco desde que o vira em pessoa, e percebeu, naquele 
momento, que j no tinha qualquer importncia. Todo aquele terrvel sofrimento desaparecera gradualmente e a nica coisa que restava era um sentimento vago de incredulidade. 
Era o mesmo homem com quem vivera?
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Amara, de facto, aquela pessoa durante onze anos? Agora ao v-lo, achava-o superficial e pomposo. De sbito e pela primeira vez, considerou-o extremamente egocntrico 
e interrogou-se sobre a razo por que nunca o compreendera antes,
- Gostas dele, Sam? - Tate observava-a com ar interessado, o semblante angular enrugado, em total contraste com o ar de beb louro e de pele macia do homem mais 
novo que
perorava na televiso. Com um sorrizinho estranho, Sam abanou lentamente a cabea e voltou-se para Tate.
-No, no gosto.
- Mas ests a olhar para ele com muita ateno - comentou com ar risonho. - V l, podes dizer a verdade. Ele excita-te?
Desta vez foi Samantha quem exibiu um sorriso radioso. Sorriu devido a uma sensao forte de liberdade e alvio, percebendo, finalmente, que estava tudo terminado. 
J no possua qualquer lao que a unisse a John Taylor. Agora era senhora de si prpria e amava Tate Jordan. Pouco lhe importava se j tinham tido o beb ou se 
nunca mais voltaria a ver John ou Liz. Tate continuava a olh-la com ar persistente, estendido sobre a cama adquirida recentemente para acolher o seu amor, com o 
macio cobertor azul puxado at ao peito.
-V l, Sam, ele excita-te?
- No - declarou ela, por fim, com uma nota de triunfo na voz. Ento, a brincar, beijou Tate no pescoo. - Mas tu... tu excitas-me.
-No acredito em ti.
-Ests a brincar? - gritou ela a rir. - Depois do que estivemos a fazer o dia todo, duvidas que me excitas? Tate Jordan, s completamente louco!
- No  isso que quero dizer, pateta. Estou a falar dele. Olha... olha para aquele jornalista to louro... - Tate provocava-a e ela ria-se. - Olha como  bonito. 
No o desejas?
- Porqu? Consegues-me um preo especial? Provavelmente dorme com rede no cabelo, tem sessenta anos e j fez duas plsticas. - Pela primeira vez na vida, estava 
a dar-lhe
prazer rir-se de John. Este sempre se levara muito a srio e ela aceitara esse facto. O rosto, o corpo, a imagem, a vida e a fe



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licidade de John Robert Taylor constituam o centro de tudo para ambos. Mas... e ela? Alguma vez fora importante na vida de John? Sobretudo no final, quando fugira 
com Liz, que importncia tivera Sam para ele? O rosto tomou um ar srio novamente ao recordar-se.
- Acho que gostas dele, mas s demasiado cobarde para o admitir.
- No. Ests enganado, Tate. No gosto mesmo nada. -Disse-o com uma tal convico que ele-voltou-se para ela, assumindo desta vez um ar inquiridor que no existia 
antes.
- Conhece-lo? - Sam acenou afirmativamente no parecendo nem comovida nem divertida, mas sim indiferente, como se estivessem a falar de uma planta ou de um carro 
usado. - Conhece-lo bem?
-Conheci. - Sam viu Tate erguer a cabea e decidiu provoc-lo. Ps uma mo sobre o peito forte e nu e sorriu. - No te entusiasmes, querido. No foi nada. Fomos 
apenas casados durante sete anos. - Por instantes, tudo pareceu suspender-se no pequeno quarto. Sentia o corpo tenso de Tate a seu lado. Este sentou-se na cama e 
fixou-a com ar consternado.
-Ests a gozar comigo, Sam?
- No. - Olhou-o com ar sincero e tranquilo apesar da reaco dele e sem saber o que significava. Provavelmente estava chocado.
-Ele foi teu marido?
Sam fez novo gesto afirmativo com a cabea. - Foi.
A ocasio exigia uma conversa franca. No era todos os dias que se via o ex-marido da amante no ecr do televisor antes de ir para a cama. Samantha contou-lhe tudo.
- O engraado  que mesmo agora estava a pensar, quando o vi, que me estou nas tintas para ele. Quando estava em Nova Iorque costumava ver aquele maldito noticirio 
todas as noites. Via-os a ambos, ao John e  Liz, na sua querida rotina, a falarem do precioso beb, como se todo o mundo estivesse interessado no facto de ela estar 
grvida, o que me dava volta ao estmago. Uma vez vinha eu a entrar quando a Cato estava a ver, e senti verdadeiro nojo! E sabes o que
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aconteceu esta noite quando aquela cara de plstico apareceu no ecr? - Olhou para Tate, expectante, mas no obteve resposta. - No aconteceu absolutamente nada. 
Nada. No houve nada. No me senti... nem enjoada, nem nervosa, nem chateada, nem abandonada. Nada. - Exibiu um largo sorriso. - Estou-me nas tintas!
Aps estas palavras, Tate levantou-se, cruzou o quarto em passadas amplas e desligou o aparelho.
-Acho maravilhoso. Foste casada com um dos novos heris mais bem-parecidos da Amrica, o famoso gal da televiso John Taylor, ele deixa-te e tu encontras um velho 
cowboy cansado, alguns dez ou doze anos mais velho do que o teu heri, sem um tosto, que limpa merda num rancho, e queres convencer-me de que isto  a felicidade? 
No s a felicidade, mas a felicidade eterna.  isso, Samantha? - Estava furioso e Samantha sentiu-se impotente perante a sua ira. Porque  que no me contaste?
- Porqu? Que diferena faz? Alm disso, ele no  to importante nem to famoso como pensas. - Isso, porm, no era verdade.
- Uma merda! Queres ver a minha conta bancria, querida, e compar-la com a dele? Quanto  que ele ganha por ano? Cem mil? Duzentos? Trezentos? Sabes quanto ganho,
Samantha? Queres saber? Dezoito mil sem impostos, e foi um grande aumento, porque sou o capataz adjunto. Por amor de Deus, tenho quarenta e trs anos e, comparado 
com ele, no ganho nada.
- E depois? O que  que isso importa? - Subitamente, Sam gritava to alto como ele, apercebendo-se de que o fazia devido ao medo. Tate aceitara de uma forma estranha 
o facto de ela e John terem sido casados, e isso assustava-a. No esperava que ele reagisse to mal. - O que interessa ... - Fez um esforo consciente para baixar 
a voz e ajeitou o cobertor sobre as pernas. Tate andava de um lado para o outro no quarto. - O que interessa  o que aconteceu comigo e com ele, o tipo de pessoas 
que ramos, como ramos um para o outro, o que aconteceu no fim, a razo por que ele me dei xou, o que sentia por ele, a Liz e o beb.  isso que interessa; no 
quanto ele ganha, ou o facto de aparecerem na televisd
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Alm disso, Tate, eles  que aparecem na televiso, no eu. Que diferena faz? Mesmo que tenhas cimes, olha para ele, cos diabos!  um pateta, um menino mimado 
que foi bem sucedido. Teve sorte, s isso. Tem cabelo louro e uma cara bonita que as senhoras por toda a Amrica apreciam. E depois? O que tem isso a ver contigo 
e comigo? Se queres saber, acho que no tem nada a ver connosco. No quero saber do John Taylor para nada. Amo-te a ti.
- Ento, porque no me disseste cm quem tinhas sido casada? - Tate parecia suspeitar dela. Sam deitou-se para trs e puxou os cabelos, tentando no gritar antes 
de se sentar e encar-lo de novo, o que fez com um olhar quase to feroz como o dele.
- Porque no
achei que fosse importante.
- Tretas. Julgaste que eu no valia dois cntimos furados,  o que foi! E sabes uma coisa? - Atravessou o quarto e comeou a vestir as calas. - Tens razo.  o 
que valho.
-Ento, s louco. - Sam comeara a gritar, tentando combater as iluses dele com a verdade. - Porque vales cinquenta, cem John Taylors. Por amor de 'Deus, ele  
um sacana egosta que me magoou e tu no me fizeste nada a no ser bem, desde que nos conhecemos. - Olhou  volta do quarto, onde h trs meses passavam as noites, 
e viu os quadros que Tate lhe comprara para alegrar o ambiente, a cama confortvel, a televiso a cores para a entreter, os bonitos lenis onde faziam amor, os 
livros que ele achara que ela gostaria. Observou as flores que apanhava sempre que ningum estava a olhar, a fruta que lhe trazia do pomar, o esboo que ele fizera 
dela num domingo, no lago. Pensou nos minutos, nas horas, nos gestos, nas fotografias que haviam tirado, nos segredos que partilhavam e, mais uma vez, a centsima, 
reconheceu que John Taylor no era digno de lamber as botas de Tate Jordan. Quando voltou a falar, tinha os olhos marejados de lgrimas e a voz embargada. - No 
te comparo a ele, Tate. Amo-te. J no o amo a ele.  s isso que importa. Tenta compreender. Mais nada me interessa. - Estendeu o brao para lhe tocar, mas ele 
manteve-se  distncia. Ao fim de alguns momentos deixou-o cair, ao mesmo tempo que se ajoelhava nua na cama, com as lgrimas a rolarem-lhe lentamente pelo rosto.
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- E acha que isto significar alguma coisa daqui a cinco anos, minha senhora? Ora, no seja to ingnua! Daqui a cinco anos, no passarei de um cowboy qualquer e 
ele continua a ser uma das pessoas mais importantes da televiso deste pas. Achas que no vais comear a olhar para a televiso todas as noites enquanto lavas a 
loua, perguntando a ti prpria porque  que acabaste comigo? Isto no  teatro.  a vida real.  vida de rancho. Trabalho duro. No  um anncio que est a fazer, 
minha senhora, isto  a realidade.
Sam comeou a chorar devido  brutalidade das palavras de Tate.
- E achas que para mim no ?
-Por amor de Deus, como  que poderia ser? Como Sam? Olha de onde vens e como eu vivo. Como  que  o teu apartamento em Nova Iorque? Um ltimo andar na Quinta Avenida? 
Algum prdio fino com porteiro, um poodle francs e cho de mrmore?
- No,  o ltimo andar de um prdio sem elevador, se isso te faz sentir melhor.
- E est cheio de antiguidades. 
- - Algumas.
- Aqui deviam ficar mesmo bem. - Falava com sentimento e afastou-se para se calar.
-Por que razo ests to zangado? - Sam gritava e chorava ao mesmo tempo. - Desculpa se no te disse que fui casada com o John Taylor. Por acaso, ests muito mais 
impressionado com ele do que eu. S no achei que tivesse tanta importncia como a que ests a dar-lhe.
-H mais alguma coisa que no me tenhas contado? O teu pai  o presidente da General Motors, cresceste na Casa Branca, s uma herdeira rica? - Olhou para ela com 
hos tilidade, e Sam, completamente nua, saltou da cama com a agilidade de uma gata.
- No, sou epilptica e ests quase a provocar-me um ataque. - Tate nem sequer sorriu perante aquela tentativa no sentido de desanuviar o ambiente. Entrou para a 
casa de banho e fechou a porta, enquanto Sam ficou  espera. Quando saiu, olhou-a com um ar impaciente.
- Vamos, veste-te.
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- Porqu? No quero. - Sentiu o terror a invadir-lhe o corao. -- No me vou embora.
.Isso  que vais.
- Isso  que no vou. - Sentou-se  beira da cama. - No, at resolvermos esta questo. Quero que saibas, de uma vez por todas, que aquele homem no significa nada 
para mim e que te amo. Achas que consegues meter isso nessa cabea dura?
-Que diferena faz?
-Para mim, faz uma grande diferena. Porque te amo, meu grande palerma. - Sam baixou o tom de voz e esboou um terno sorriso, mas Tate no lho retribuiu. Em vez 
disso, olhou-a de semblante carregado e pegou num cigarro, mas s brincou com ele, no o acendeu.
- Devias voltar para Nova Iorque.
- Porqu? Para correr atrs de um marido que no quero? Estamos divorciados. Lembras-te? Gosto das coisas como esto. Estou apaixonada por ti.
- E o teu emprego? Tambm vais desistir dele por causa da vida no rancho?
- Por acaso... - Sam respirou fundo e quase tremeu. O que estava prestes a dizer constitua o maior passo de toda a sua vida e estava consciente de que ainda no 
tinha pensado bem no assunto; porm, era a altura de o esclarecer. - ...  isso exactamente o que tenho pensado fazer. Deixar o emprego e ficar aqui de vez.
-Isso  ridculo. - Porqu?
- O teu lugar no  aqui. - Tate parecia exausto ao dizer aquelas palavras. - O teu lugar  l, no apartamento, no teu cargo todo-poderoso, comprometida com um homem 
desse mundo. O teu lugar no  com um cowboy, a viver numa cabana de um quarto, a limpar merda de cavalo e a laar vitelos. Alm disso, por amor de Deus, s uma 
senhora.
- Mas que palavras to romnticas! - Tentou dar um tom sarcstico  voz, mas os olhos ficaram marejados de lgrimas.
- No so romnticas, Sam. Nem um bocadinho.  esse o problema. Achas que  uma fantasia, mas no . Nem eu. Sou bastante real.
- Tambm eu. E a questo  essa. Recusas-te a acredi tar
que tambm sou real, que tenho necessidades reais, que sou uma pessoa real e que posso existir fora de Nova Iorque, ~ meu apartamento e do meu emprego. Recusas-te 
a acreditar que posso querer mudar o meu estilo devida, que talvez Nova Iorque j no me sirva, que isto seja melhor e que represente aquilo que quero.
- Ento, compra um rancho, como a Caroline. - E depois? J acreditas que falo verdade?
- Talvez possas dar-me emprego. -Vai para o diabo.
- E porque no? Depois j podia entrar e sair do teu quarto s escondidas nos prximos vinte anos.  isso que queres, Sam? Acabar como eles, com uma cabana secreta 
para
onde no podes ir, porque j ests muito velha e muito cansada? Mereces muito melhor! E se no s suficientemente esperta para perceber isso, eu sou.
- O que queres dizer com isso? - Sam fixava-o com ar aterrorizado, mas ele no desviou o olhar.
-Nada. S quero dizer que te vistas. Vou levar-te a casa.
- A Nova Iorque? - indagou, aparentando um ar despreocupado.
- Veste-te e deixa-te de lrias.
-Porqu? E se eu no quiser? - Sam parecia uma criana traquina e assustada. Tate dirigiu-se ao stio onde ela deixara as roupas num monte antes de fazerem amor 
ao princpio da noite, apanhou-as e atirou-as para o colo dela.
- No me interessa o que queres. Isto  o que eu quero. Veste-te. Parece que sou o nico adulto aqui.
-Diabos te levem! - Sam ps-se de p num salto e deixou cair o monte de roupa no cho. - Ests agarrado a essas ideias antiquadas de rancheiros e de ajudantes, e 
no quero ouvir mais essas tretas! No tens razo,  uma estupidez. - Soluava ao mesmo tempo que se baixava, apanhava as roupas, pea a pea, e comeava a vestir-se. 
Ele que curtisse as mgoas durante a noite. Se era assim que ele reagia, iria para casa. 
Cinco minutos mais tarde j Sam estava vestida e Tate
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mantinha-se de p, a olh-la com ar desesperado e incrdulo, como se, naquela noite, tivesse descoberto uma faceta dela que desconhecia, transformando-a subitamente 
numa pessoa diferente. Sam fitou-o com umo ar infeliz e dirigiu-se para a porta.
-Queres que te acompanhe a casa?
Por instantes, Sam quase cedeu, mas depois decidiu recusar.
- No, obrigada. Eu c me arranjo. -- Tentou acalmar-se. - Ests enganado, Tate. - No conseguindo controlar-se, sussurrou: - Amo-te. - Enquanto fechava a porta 
e corria para casa, os olhos encheram-se-lhe de lgrimas, grata, mais uma vez, pelo facto de Caroline se encontrar ausente num rancho prximo, onde costumava ir 
aos domingos. Naquele dia Samantha no queria que ela a visse, ao entrar, com o rosto lavado em lgrimas. 
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Na manh seguinte, Sam demorou-se a tomar caf na cozinha, o olhar triste fixo na chvena e embrenhada nos seus pensamentos. No sabia se havia de tentar falar com 
ele nessa noite ou deixar assentar as coisas por uns dias e esperar que recobrasse o bom senso. Relembrou a conversa da noite anterior e os olhos inundaram-se de 
lgrimas mais uma vez, enquanto fitava a chvena. Estava grata por naquela manh no ter ningum perto de si. Resolvera no ir tomar o pequeno-almoo. No tinha 
fome e no queria ver Tate at irem trabalhar. Teve o cuidado de chegar  cavalaria s s cinco para as seis e, quando o viu, estava num canto afastado, com a familiar 
prancheta, a distribuir as tarefas, a apontar na direco de alguns dos animais que se podiam ver nas colinas, e depois a voltar-se para apontar para outra coisa 
qualquer. Sam selou o Navajo calmamente, como fazia todas as manhas e, alguns minutos mais tarde, j estava no terreiro. Mas, por uma razo qualquer, Tate pusera 
Josh encarregado do grupo de Sam, sendo bvio que ele no iria sair a cavalo, ou, pelo menos," no iria com eles. O que mais aborreceu Sam foi pensar que Tate sara 
da rotina para a evitar. Ao passar por ele no cavalo, inclinou-se e disse num tom agressivo:
- A fazer gazeta hoje, Mister Jordan?
- No. - Virou-se e olhou-a com ar determinado. - Tenho uns assuntos a tratar com o Bill King.
Sam assentiu com a cabea, sem saber o que dizer, mas, ao voltar-se no Navajo para fechar o porto, viu-o a olh-la com um ar de sofrimento; depois, afastou-se calmamente. 
Talvez estivesse arrependido da discusso ocorrida devido ao ex-marido. Talvez tivesse compreendido que as diferenas que existiam entre eles fossem importantes 
para ele, mas no para ela. Por instantes, sentiu vontade de o chamar, mas no teve coragem, pois os outros podiam ouvi-la; assim, espicaou o cavalo e juntou-se-lhes 
para mais um dia de trabalho rduo.
Doze horas mais tarde, a cavalgar mais lentamente e a cair
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de fadiga nas pesadas selas do Oeste, entraram no terreiro principal e desmontaram, levaram os cavalos para a cavalaria, tiraram as bridas e as selas e guardaram-nas. 
Nessa tarde, Samantha estava extremamente cansada, passara todo o dia a pensar em Tate e no que ele dissera na noite anterior. O olhar era vago e distrado quando 
saudou os outros, e parecia tensa ao transpor a porta principal da casa de Caroline.
- Pareces estoirada, Sam. Sentes-te bem, querida? - Caroline olhou-a com um ar preocupado, na esperana de que o aparente cansao se devesse apenas ao trabalho rduo. 
Pressentia, no entanto, que se tratava de algo mais srio do que isso. Todavia, no iria preocup-la ainda mais. No lhe disse nada, insistiu apenas para que fosse 
tomar um banho quente antes de jantar, enquanto ela preparava bifes, sopa e salada. Quando Sam voltou, de calas de ganga lavadas e uma camisa de flanela axadrezada, 
parecia, mais do que nunca, uma cowgirl bem arranjada, como Caroline comentou com um sorriso.
O jantar nessa noite no foi muito alegre; s ao fim daquilo que lhe pareceu uma eternidade, Sam conseguiu escapulir-se pela janela, passar pelo jardim, atravessar 
o pomar e chegar ao pequeno alojamento. Verificou, com uma certeza terrvel, que ele devia estar ainda mais aborrecido do que imaginara. No havia luz, embora fosse 
muito cedo para ele j estar a dormir. Ou estava a fingir ou encontrava-se no salo principal com os outros, o que no era habitual, mas muito eficaz se tentava 
evit-la. Para se certificar, bateu  porta, mas no obteve resposta. Rodou a maaneta, como sempre fizera, e entrou. No avistou a familiar desordem dos pertences 
de Tate a que j se acostumara. O que os seus olhos encontraram foi um vazio poeirento e rido que a deixou abismada, e o som de espanto que fez ecoou nas paredes 
vazias. O que fizera ele? Teria trocado de casa outra vez"para a evitar? Sentiu uma onda de pnico a invadi-la quando percebeu que no fazia ideia do stio onde 
ele se encontrava. Com o corao a bater mais forte, enquanto tentava recompor-se  entrada da porta, concluiu que ele no poderia ter ido muito longe. Sam sabia 
que algures no rancho, ainda havia duas ou trs cabanas vazias e era bvio que Tate passara o dia a mudar tudo para
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a evitar. Se a situao no fosse to angustiante, constituindo aquele facto um sinal da fria que a discusso da noite anterior provocara em Tate, ela sentir-se-ia 
divertida. Porm, ao voltar para casa, no escuro, o seu estado de espirito era tudo menos divertido.
Dormiu mal nessa noite, agitada, s voltas na cama, no conseguindo compreender o que o teria levado a fazer uma coisa to radical como trocar de alojamento; s 
trs e meia levantou-se, incapaz de suportar aquela situao. Deambulou durante mais meia hora pelo quarto, tomou duche e, mesmo assim, aprontou-se extremamente 
cedo. Ainda tinha mais meia hora para passar, de chvena na mo, na cozinha de Caroline, antes de poder ir comer para o salo principal. Nessa manh queria mesmo 
l estar. Se pudesse falar com ele, nem que fosse por instantes, queria perguntar-lhe por que motivo trocara de alojamento, fazendo-lhe notar que estava a agir como 
uma criana impulsiva.
Quando estava na fila  espera do bacon com ovos e do terceiro caf, ouviu dois homens a conversar e voltou-se para Josh com uma expresso de horror e um olhar confundido 
de espanto.
O que  que eles acabaram de dizer? Estavam a falar do Tate.
- Eu sei. O que  que disseram? - O rosto ficou lvido. No podia ter ouvido bem.
-Dizem que  pena.
- O que  que  pena? - Sam tentou desesperadamente no gritar.
- Que ele se tenha ido embora ontem. - Josh esboou um sorriso prazenteiro e avanou na fila.
- Para onde? - O corao de Sam comeou a bater to alto nos ouvidos que mal conseguia ouvir as respostas.
- Ningum parece saber - respondeu Josh, aps um ligeiro encolher de ombros. - Mas o filho que est no Bar Three deve saber.
- Que diabo queres dizer? - Sam estava praticamente a gritar.
- Por amor de Deus, Sam, tem calma. O Tate Jordan despediu-se.
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Quando? - Pensou que ia desmaiar.
_        Ontem. Foi por isso que ele ficou por aqui, para falar com o Bill King. Para te dizer a verdade, informou-me disso, ontem de manh, quando me pediu para 
o substituir. Disse-me que queria faz-lo j h muito tempo, que era altura para sair. - Encolheu os ombros. -  mesmo pena. Ter-se-ia sado bem no lugar do Bill 
King.
- E foi-se embora sem mais nem menos? Sem pr-aviso de duas semanas, sem arranjar uma pessoa para o lugar dele? - As lgrimas j lhe ardiam nos olhos.
-  verdade, Sam. Isto no  Wall Street. Quando um homem quer sair, sai. Comprou uma carrinha ontem de manh, carregou-a com as coisas dele e partiu.
- Para sempre? - As palavras saram-lhe a custo.
- Claro. No tem sentido voltar. Nunca  a mesma coisa se se volta. Uma vez fiz isso. Foi um erro. Se ele era infeliz aqui, fez o que devia. - "Oh? Fez mesmo? Que 
bom ouvir-te." Josh olhou para ela com mais ateno. - Sentes-te bem, Sam?
- Sinto. Claro. - No entanto, estava com um aspecto horrvel, extremamente plida. - No tenho dormido bem ultimamente. - Devia conter as lgrimas... Devia... devia... 
Alm disso, no havia razo para entrar em pnico. Bill King saberia onde ele se encontrava... e, se no soubesse, o filho saberia. Iria v-lo pessoalmente. No 
deixaria escapar aquele homem por entre os dedos. Nunca. E, depois de o encontrar, ele nunca mais se atreveria a proceder outra vez daquela maneira.
-Sabes... - Josh continuava a olhar para ela fixamente. - Ontem tambm estavas com um aspecto pssimo. Achas que ests engripada?
- Acho. - Tentou no parecer afectada pelo que ele lhe contara de Tate Jordan. - Talvez.
Ento, porque  que no voltas para casa e te metes na
cama?
Comeou por resistir-lhe, mas depois percebeu que no se encontrava em condies de cavalgar nas doze horas seguintes, louca como estava de ansiedade de saber para 
onde Tate teria ido. Assim, assentiu vagamente com a cabea, agra
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deceu a sugesto e abandonou o salo. Dirigiu-se em passo rpido, at casa, entrou pela porta principal e a permaneceu enquanto soluos incontrolveis a dilaceravam. 
Caiu de joelhos ao lado de um sof e baixou a cabea, desesperada. Sentia que no iria conseguir sobreviver quela segunda perda
da sua vida. Sobretudo agora, que descobrira um homem como Tate. Agonizante e soluando incontrolavelmente sobre o sof, percebeu que Caroline estava a seu lado, 
a tocar-lhe afavelmente no ombro e a alisar-lhe os cabelos louros emaranhados. Aps alguns momentos, Samantha levantou a cabea, o rosto vermelho e inchado, os olhos 
assustados, e fitou os da amiga em busca de mais novidades; Caroline limitou-se a acenar com a cabea, e a dizer-lhe palavras ternas. Tomou-a nos braos e, carinhosamente, 
f-la sentar-se no sof.
S ao fim de uma boa meia hora  que Sam foi capaz de falar. Caroline no disse nada. Limitou-se a ficar ali, sentada, a passar-lhe a mo pelas costas. No havia 
nada que pudesse di zer. Cortava-lhe o corao perceber que Sam viera para o rancho para recuperar de uma perda importante e que agora sofrera outra. Sabia da relao 
entre Sam e Tate. Sofrera no dia anterior quando Bill lhe contara que Tate Jordan abandonara o rancho. Mas era demasiado tarde para o impedir ou para discutir o 
assunto. J tinha partido quando Bill contara a Caroline, no final da tarde, e a nica coisa em que pensara fora na forma como Samantha receberia a notcia. Caroline 
no ousara contar-lhe na noite anterior. Tivera a esperana de que haveria tempo para lhe dar a novidade.
Samantha olhou-a ento, o rosto manchado, os olhos horrivelmente raiados de sangue e inchados, no existindo qualquer dissimulao no seu olhar.
- Ele foi-se embora. Oh, meu Deus, Caro, foi-se embora. E eu amo-o... - No conseguiu continuar, e Caroline fez um lento gesto de compreenso com a cabea. Compreendia
demasiado bem. Tentara dizer-lhe que as coisas no rancho eram diferentes, que havia coisas que seriam importantes para ele e para ela no.
- Que aconteceu Sam?
- Oh, meu Deus, no sei. Apaixonmo-nos no Natal--De repente, olhou em redor, nervosa, temendo que algu'
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ma das empregadas mexicanas estivesse presente, mas no havia ningum  vista. - Fomos para... - Olhou para Caroline com embarao. - Descobrimos a tua cabana e, 
ao princpio, era l que nos encontrvamos, mas no muitas vezes. No andmos a bisbilhotar, juro-te...
- Tudo bem, Sam. - A voz de Caroline era extremamente calma.
- S queramos um stio onde pudssemos estar sozinhos. - Tambm ns - afirmava Caroline num tom tristonho.
- E depois ele trocou de casa com algum e eu ia ter com ele todas as noites... pelo pomar... - O discurso era desarticulado, o rosto lavado em lgrimas. - E depois... 
na ou tra noite... Ele... estvamos a ver televiso e o John apareceu numa transmisso especial e, ao princpio, estvamos a brincar, e ele quis saber... se eu achava 
o John atraente, uma coisa dessas... E eu contei-lhe, naturalmente, que tnhamos sido casados... e o Tate ficou louco. No percebo. - Soltou um soluo horrvel e 
continuou: - Ficou completamente desvairado, a dizer que eu no podia ser casada com uma estrela da televiso numa altura e... e a seguir andar com um cowboy... 
Que nunca seria feliz, que eu merecia melhor, que... - No conseguiu prosseguir, subjugada pelas lgrimas. - Oh, meu Deus, e agora foi-se embora. O que  que eu 
fao? Como  que vou encontr-lo? - O pnico percorreu-a novamente, como o fizera durante toda a manh. - Sabes para onde foi? Caroline abanou a cabea com um ar 
triste.
- E o Bill, sabe?
- No sei. Vou cham-lo ao escritrio e perguntar-lhe. _ Deixou Sam e dirigiu-se para o telefone que se encontrava em cima da secretria. Sam ouviu a conversa toda 
em agonia e, no final, ficou claro que Bill no sabia de nada e tambm lamentava que Tate tivesse partido. Contara que ele o substitusse um dia, quando Bill j 
estivesse demasiado velho para dirigir
o rancho. Agora, porm, isso nunca iria acontecer. Sabia que Tate partira de vez.
O que  que ele disse? - Samantha olhou-a com um ar soturno, quando Caroline voltou e se sentou.
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-Nada de especial. Que o Tate disse que entraria em contacto connosco um dia destes, mas o Bill diz que no conta com isso. Sabe como so estes homens. No deixou 
nenhuma morada.
-Ento tenho de encontrar o filho no Bar Three Disse-o quase desesperada, e Caroline abanou a cabea. - No, Sam. O rapaz despediu-se e foi com ele. Isso, o Bill 
sabia. Carregaram a carrinha juntos e depois partiram, - Oh, meu Deus. - Samantha deixou cair a cabea entre as mos e recomeou a soluar, baixinho desta vez, como 
se o corao j estivesse despedaado e nada mais restasse. - O que posso eu fazer por ti, Sam? - Havia lgrimas nos olhos de Caroline. Sabia que podia ter-lhe acontecido 
o mesmo anos atrs, e a conversa que Sam relatara parecia exactamente a discusso que ela e Bill haviam mantido durante anos. A situao resolvera-se de modo diferente, 
mas Bill era bastante menos teimoso que Tate. Tambm um pouco menos nobre, facto pelo qual Caroline estava profundamente agradecida. E agora ali estava, sentada, 
impotente, a observar a agonia da jovem amiga.
Sam olhou ento para ela em resposta  pergunta.
- Ajuda-me a encontr-lo. Por favor. Oh, se conseguisses fazer isso...
- Como?
Sam recostou-se no sof e fungou, enquanto pensava. - Ir para um rancho algures. No querer outro tipo de trabalho. Como  que posso arranjar uma lista dos ranchos? 
- Posso dizer-te todos os que existem nesta regio, os homens podem dizer-te outros. No, deixa-me perguntar-lhes, arranjamos uma desculpa, um motivo. Sam... - Os 
olhos de Caroline iluminaram-se. - Vais encontr-lo, Sam! - Espero que sim. - Sorriu, pela primeira vez ao fim de vrias horas. - No vou parar at o encontrar.

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Em meados de Abril, j Sam contactara sessenta e trs ranchos. No incio, fizera telefonemas para os da regio, depois para os mais a norte, alguns mais a sul, mais 
tarde comeou a telefonar para outros estados. Arizona, Novo Mxico, Nevada, Texas, Arcansas; chegou a ligar para o Nebrasca, para um rancho que um dos homens sugerira. 
Este falara com Tate acerca do stio e ele dissera-lhe que a comida e o ordenado eram bastante bons. Porm, ningum vira Tate Jordan. Sam deixou o nome, a morada, 
o nmero de telefone de Caroline e pediu-lhes que lhe ligassem se Tate aparecesse. Usou o nome de Caroline Lord em todo o lado, o que a ajudou. As duas estavam continuamente 
absortas na lista telefnica, nos anncios classificados, fazendo listas de anncios e de nomes que haviam obtido dos trabalhadores. H muito que pedira ao escritrio 
uma prorrogao do prazo e lhes prometera uma resposta definitiva at ao dia um de Maio. Se ela no voltasse para Nova Iorque, eles seriam informados at essa data. 
Entretanto, o lugar pertencia-lhe. No entanto, Sam no queria saber do lugar para nada, s Tate Jordan lhe interessava e esse no se encontrava em lado nenhum. Era 
como se, um ms antes, tivesse desaparecido da face da Terra para no mais voltar. Sam sabia que ele tinha de se encontrar algures, mas a questo era: onde? Comeava 
a tornar-se uma obsesso. J no saa a cavalo com os homens, sem se importar que isso levantasse rumores e confirmasse suspeitas. No mais cavalgou com eles, desde 
o dia em que Tate partiu.
Certa vez, foi  cabana sozinha, mas no aguentou; regressou de imediato a casa, montada no Black Beauty, o rosto lavado em lgrimas. J raramente montava o grande 
Puro-Sangue preto, nem mesmo quando Caroline a encorajava a faz-lo. A nica coisa que queria era ficar em casa a fazer telefonemas a ver listas de ranchos, mapas, 
a escrever cartas e a tentar adivinhar onde  que Tate se encontrava. At ao momento, tudo fora em vo, e Caroline comeava a achar que
talvez devessem desistir. A verdade  que era um pas enorme
com inmeros ranchos. Havia sempre a possibilidade de ele ter optado por um tipo de trabalho completamente diferente ou de no estar a usar o seu nome verdadeiro. 
Demasiado familiarizada com a realidade dos ajudantes temporrios que trabalhavam no rancho, tentava no dar muitas esperanas a Sam. Era muito possvel que um dia 
aparecesse num lugar qualquer, mas tambm era provvel que nunca mais fosse visto ou se ouvisse falar dele. At era possvel que tivesse deixado o pas, ido para 
o Canad ou para o Mxico, ou at para um dos grandes ranchos na Argentina. Era frequente os rancheiros deixarem os homens como Tate trabalhar sem documentos, ou 
com documentos falsos, s para os terem nos ranchos. Tal como era exigido aos capatazes, Tate tinha uma longa lista de boas credenciais; era um homem de confiana, 
trabalhador, com grandes conhecimentos para oferecer a qualquer rancho. Qualquer rancheiro com dois dedos de testa reconheceria isso. A questo era: que rancheiro 
e que rancho.
Nos finais de Abril, ainda no havia qualquer pista e Sam tinha trs dias para telefonar para o escritrio e dizer em que p estavam as coisas. Um ms antes, dissera-lhes 
que Caroline se encontrava doente e que lhe era dificil abandon-la nessa altura. Foram compreensivos ao principio, mas agora Charlie telefonava constantemente. 
A pardia acabara. Harvey queria-a de volta. De repente, tinham comeado a ter grandes problemas com o cliente dos automveis e, se ela tinha de voltar, Harvey queria 
que fosse naquele exacto momento. No podia censur-lo, mas tambm no podia inform-los de que se encontrava pior do que quando deixara Nova Iorque: Mais do que 
nunca, agora que Tate partira, sabia quanto o amava e o respeito que nutria pelo seu modo de ser e de vida. Sentia uma dor profunda quando via Bill e Caro; para 
Caroline, era angustiante compartilhar a dor de Samantha.
- Sam... - Ao olhar para a jovem amiga ao pequeno' -almoo, no ltimo dia de Abril, Caroline suspirou profundamente e decidiu dizer-lhe o que pensava.. - Acho que 
deves voltar.
- Para onde? - Consultava novamente uma das listas de ranchos e imaginou que Carolme se referia a algum que de'
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vessem tentar de novo. Mas Caroline apressou-se a abanar a cabea.
-Estou a falar de Nova Iorque.
-Agora? - Sam pareceu chocada. - Mas no o encontrei.
Caroline cerrou os dentes, reflectindo no que queria dizer a seguir, por muito que lhe custasse magoar Sam.
- No sabes se voltars a encontr-lo.
- No podias ter dito coisa mais horrvel. - Fixou-a com um ar zangado e afastou o caf. Estava irascvel e nervosa desde que o pesadelo comeara. No dormia, no 
comia, j no apanhava ar fresco. A nica coisa que a ocupava agora era a busca incessante do homem que amava. Fora de carro a alguns dos ranchos e chegara a ir 
de avio a um outro.
- Mas  verdade, Sam. Agora tens de enfrentar a realidade. Podes nunca mais o encontrar. Espero, do fundo do corao, que tal no acontea, mas no podes passar 
o resto da vida  procura de um homem que quer estar sozinho. Porque, se o encontrares, no sabes se conseguirs convenc-lo de que tu tens razo e ele no. Ele 
acha que vocs so muito diferentes. Talvez tenha razo. E, mesmo que no tenha, se  isso que ele quer, no podes for-lo a mudar de ideias.
-Isto vem a propsito de qu? Estiveste a falar com o Bill sobre este assunto?
- No mais do que aquilo a que sou obrigada. - Sam tinha conhecimento de que ele desaprovava a sua incansvel busca de Tate. Chamava-lhe uma "estpida caada ao 
homem" e achava que Sam fazia mal em continuar. " O homem disse-lhe o que queria quando saiu daqui, Caro. No h mais nada a dizer." No entanto, admitira que, se 
tivesse feito o mesmo, esperava que Caroline tentasse encontr-lo com a mesma perseverana. - Acho que tens de encarar as probabilidades, Sam. J passou ms e meio.
- Talvez demore mais um pouco...
- Mais um pouco... e mais um pouco... e mais um pouco. E depois? Um dia, verificas que gastaste vinte anos  procura de um homem que mal conhecias.
- No digas isso. - Sam parecia exausta quando fechou os olhos. Nunca trabalhara tanto em emprego nenhum como
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na procura de Tate. - Conhecia-o. Conheo-o. Talvez conhecesse demasiado bem nalgumas coisas, e isso assustou_o, -Talvez - concordou Caroline. - Mas a questo  
que no podes continuar a viver assim. Ficars destruda. - Porqu? - Era fcil perceber o tom amargo na voz. Mais nada o conseguiu. - John e Liz haviam tido a criana 
no ms anterior, uma menina, e at a haviam mostrado na companhia de Liz, que exibia um ar vitorioso na sala de partos, no noticirio da noite. Mas isso tambm j 
no importava a Sam. A nica coisa que queria era encontrar Tate. -Tens de voltar, Sam. - Caroline parecia to teimosa como a prpria Sam.
-Porqu? Porque o meu lugar no  aqui? - Sam olhou com ar zangado para Caroline, e desta vez Caroline fez um gesto de concordncia com a cabea.
- Exacto. O teu lugar no  aqui. O teu lugar  no teu mundo, na tua secretria, no teu gabinete, no teu apartamento, com as tuas coisas, a conhecer outras pessoas, 
a encontrares-te com velhos amigos, a ser quem realmente s e no quem fingiste ser durante uns tempos, Sam. - Esticou o brao e tocou-lhe na mo. - No estou farta 
de te ter aqui, acredita. Se dependesse de mim, podias ficar para sempre. Mas no  bom para ti, no vs?
- No quero saber. S quero encontr-lo.
- Mas ele no quer que o encontres. Se quisesse, dizia-te onde est. Deve estar a fazer os possveis para que no consigas dar com ele, Sam, e, se isso for verdade, 
ento perdeste a batalha. Pode esconder-se de ti durante anos.
- Achas ento que devo desistir.  isso?
Instalou-se um longo silncio entre ambas, depois Caroline fez um sinal afirmativo, quase imperceptvel, com a cabea - .
- Mas s passaram seis semanas. - As lgrimas inundaram-lhe os olhos ao tentar combater a lgica do que Caroline dissera. - Talvez se esperar mais um ms...
- Se esperares, ficas sem emprego e isso tambm no ser nada bom para ti. Sam, precisas de voltar a ter uma vida normal.
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O que  normal? - Mal se lembrava. J passara um ano desde que fora casada e "feliz" com John Taylor, desde que levara uma vida perfeitamente normal numa agncia 
de
publicidade em Manhattan, casada com um homem que amava e que, pensava, a amava tambm. - Normal? - Olhou com horror para Caroline. - Deves estar a brincar. J no 
sei o que  essa coisa, mesmo que me aparecesse  frente e me mordesse no rabo! - Caroline riu-se com o humor negro de Sam, mas o olhar dela no vacilou. Por fim, 
sentou-se na cadeira, soltando um longo suspiro. - Diz-me... o que diabo vou fazer eu para Nova Iorque?
- Esquecer isto tudo por uns tempos. Ir fazer-te bem. Podes sempre voltar.
-Estaria a fugir de novo se me fosse embora.
- No, estarias a fazer uma coisa boa para a tua sade. Isto aqui no  vida para ti. - No o era, desde que ele se fora embora.
Sam abanou a cabea em silncio, levantou-se da mesa e encaminhou-se, em passo lento, para o quarto. Duas horas mais tarde, ligou para Harvey Maxwell, depois foi 
at  cavalaria e selou Black Beauty. H trs semanas que no o montava; partiu a todo o galope, arriscando tudo em cada salto, cada arbusto, cada riacho. Se Caroline 
a tivesse visto, teria receado pela vida do cavalo e da sua jovem amiga. Se Tate a tivesse visto, t-la-ia morto.
No entanto, agora estava s, a cavalgar o mais depressa que podia, at sentir a exausto do cavalo. Voltou a meio galope at ao complexo principal e andou com ele, 
a passo,  volta do curral, durante meia hora. Devia isso ao animal. Ento, quando viu que ele j arrefecera o suficiente, conduziu-o at  baia retirou-lhe a sela, 
olhou-o durante um longo instante, deu-lhe umas palmadinhas nos flancos uma ltima vez e murmurou:
- Adeus, meu velho amigo.
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O avio aterrou no Aeroporto Kennedy numa radiosa tarde de Primavera, e Samantha olhou para a cidade em baixo com um olhar inexpressivo. Ao desapertar o cinto, s 
conse guia pensar na ltima vez que vira Caroline no aeroporto, de p, alta e orgulhosa, ao lado do capataz, com lgrimas a escorrerem pela face e a dizer adeus. 
Bill quase no falara, quando ela lhe beijou a face, em bicos dos ps, no terminal a abarrotar de gente. Ento, de repente, apertou-lhe o brao e resmungou ternamente:
- Volta para Nova Iorque, Sam, e cuida de ti. - Era o modo de Bill lhe dizer que achava que ela estava a fazer o que devia. Mas estaria mesmo?, interrogou-se Sam 
ao pegar
no saco e ao dirigir-se para o corredor. Fizera bem em regressar a casa to cedo? Deveria ter ficado mais tempo? Teria Tate aparecido se ela tivesse esperado mais 
um ms ou dois? Claro que ainda podia aparecer ou telefonar de algum lado. Caroline prometera continuar a indagar nos arredores, comunicando de imediato a Sam se 
soubesse algo dele. Para alm disso, ningum podia fazer mais nada. A prpria Sam sabia disso ao suspirar profundamente e ao entrar no aeroporto.
A multido  sua volta era sufocante: o barulho, os corpos, a confuso. Aps cinco meses num rancho, esquecera como era estar com tantas pessoas, mover-se to depressa 
como elas. Sentiu-se totalmente devorada pela presso das pessoas  sua volta quando foi levantar a bagagem, parecia uma turista na prpria cidade, completamente 
desnorteada. No havia, naturalmente, um nico bagageiro disponvel, centenas de pessoas esperavam txi e, quando, finalmente, conseguiu um, teve de o partilhar 
com duas turistas japonesas e um vendedor de plsticos de Detroit. Quando este lhe perguntou de onde vinha, Sam sentia-se demasiado cansada para responder, mas acabou 
por murmurar algo acerca da Califrnia.
-  actriz? - Parecia intrigado, fazendo a deduo pelo cabelo louro e pelo bronzeado que ela exibia. Sam abanou prontamente a cabea, ao mesmo tempo que olhava, 
com um ar distrado, pela janela.
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No, ajudante de rancho.
Ajudante de rancho? - Olhou-a fixamente, completanente incrdulo, e Sam voltou-se para ele com um sorriso cansado. -  a primeira vez que vem a uma cidade grande? 
Parecia esperanado, mas ela abanou a cabea e fez o que pde para que a conversa ficasse por ali. As duas turistas japonesas conversavam animadamente na prpria 
lngua e o motorista s dizia palavres, enquanto voava por entre filas de trnsito. Era uma reentrada apropriada na sua cidade; ao atravessarem a ponte de Queens 
para Manhattan, olhou para o horizonte e, de sbito, teve vontade de chorar. No queria ver o Empire State Building, nem o edificio das Naes Unidas, nem todos 
os outros edificios. Queria era ver a casa de Caroline, a cavalaria, as belas rvores de pau-brasil e a vastido de cu azul.
- Bonito, no ? - O vendedor de plsticos de Detroit, a suar, aproximou-se, e Sam limitou-se a abanar a cabea e a chegar-se mais para a porta.
- No, nem por isso. Depois do que vi ultimamente, nem por isso. - Olhou-o com ar zangado, como se o seu regresso a Nova Iorque fosse todo culpa dele. O homem passou 
ento a olhar para uma das raparigas japonesas, mas ela s se riu e continuou a conversa com a amiga em japons.
Misericordiosamente, Sam foi a primeira a sair e, durante um longo instante, ficou parada no passeio, de olhos fixos na casa, com medo de entrar, arrependida de 
ter voltado e a desejar Tate ainda com mais ardor do que nunca. Que diabo estava ela a fazer ali naquela cidade estranha, completamente s, rodeada por todas aquelas 
pessoas, a regressar ao apartamento onde vivera com John? S queria voltar para a Califrnia, encontrar Tate, viver e trabalhar no rancho. Porque razo no podia 
ter essa vida? Seria pedir muito?, interrogou-se, enquanto abria a porta e subia as escadas a custo com as malas na mo. Nunca as doze horas passadas em cima da 
sela a haviam cansado tanto como as cinco horas de viagem de avio, duas refeies, um filme e o choque emocional de voltar para Nova Iorque. A resmungar por causa 
do peso das malas, deixou-as cair no patamar, ao lado da porta, procurou a chave, enfiou-a na fechadura e empurrou a porta para trs com for
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a. Ao entrar, a casa cheirava como o interior de um aspirador. Estava tudo como ela deixara, com um ar desabitado e desleixado e apesar disso diferent
,,e, como se, com a sua au sncia, toda a moblia se tivesse subtilmente alterado, encolhi_ do, crescido ou mudado ligeiramente de cor. Nada parecia
exactamente como era antes. No entanto, estava tudo tal e qual como quando ela e John l viviam. Agora sentia-se uma intrusa, um fantasma, a voltar a um local do 
passado.
- Ol? - A palavra saiu-lhe sem saber porqu, mas, como ningum respondeu, fechou a porta, sentou-se numa cadeira e soltou um longo suspiro. Ento, enquanto olhava 
em volta, os soluos tomaram conta dela, os ombros tremeram e deixou cair o rosto entre as mos.
Vinte minutos mais tarde, o telefone tocou com insistncia; fungou, assoou-se a um leno e atendeu, sem saber muito bem porque o fazia. Depois de todo aquele tempo, 
era bvio que era engano, a no ser que fosse Harvey ou Charlie. Eram as nicas pessoas em Nova Iorque que sabiam que ela ia voltar.
- Sim? - Sam? - No. - Esboou um meio sorriso por entre as lgrimas. -  um ladro.
- Os ladres no choram, palerma. - Era Charlie. -Claro que choram. Aqui no h nenhuma televiso a cores para roubar.
Vem a nossa casa que dou-te a minha.
- No quero. - Ento, lentamente, as lgrimas recomearam a cair, fungou e fechou os olhos para tentar ganhar flego. - Desculpa, Charlie. Acho que no estou muito 
contente por ter voltado para casa.
E o que parece. Por que razo voltaste? - Parecia sincero ao fazer a pergunta.
- Ests doido? Tu e o Harvey tm ameaado matar-me e mutilar-me nas ltimas seis semanas, e queres saber porque  que estou aqui?
-Est bem, ento vem ajudar-nos com aquele cliente maluco e depois volta. Para sempre, se  isso que queres. Charlie via a vida sempre de uma forma muito prtica.
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._No  assim to simples.
._Porque no? Olha, Sam, a vida  muito curta e pode ser muito doce, se deixares. J s crescidinha, agora s livre, podes viver onde quiseres. Se o que queres  
andar s voltas com uma manada de cavalos o resto da vida, ento no olhes para trs
-To simples como isso, h?
-Claro. Porque no? Vou dizer-te uma coisa: porque  que no experimentas ficar por c uns tempos, como turista, vs como te sentes ao fim de uns meses, e se no 
fores feliz... que diabo, Sam, podes sempre ir embora.
-Fazes com que tudo parea to fcil...
- E  assim que deve ser. De qualquer maneira, minha bonita senhora, seja bem-vinda. Mesmo que no queiras c estar, estamos felicssimos por te termos connosco.
-Obrigada, amor. Como est a Melhe? -
- Gorda, mas bonita. O beb s nasce daqui a dois meses e sei que  uma menina.
- Claro, Charlie, claro. No me disseste isso j pelo menos duas vezes? - Sorriu e limpou as lgrimas da cara. Pelo menos, era bom estar de volta  mesma cidade 
que ele. - A verdade, Mister Peterson,  que o senhor s sabe fazer rapazes.  por causa de todos aqueles jogos de basquete que frequentas. Deve haver algo no ar 
que te vai para os genes.
-Est bem, pode ser que no futuro precise de ir a bares de strip-tease. Faz sentido... - Riram  gargalhada, enquanto Sam passeava o olhar pelo deprimente apartamento.
- Pensei que tivesses vindo regar as plantas, Charlie. - A voz era mais de riso do que de censura, os olhos fixos nas Plantas ressequidas.
- Cinco meses? Deves estar a brincar. Compro-te outras. - No te incomodes. Gosto de ti na mesma. A propsito, como  que esto as coisas no escritrio?
- Ms.
Muito ms ou mais ou menos ms?
- Terrivelmente ms. Mais dois dias e teria tido uma lcera ou morto o Harvey. Aquele filho da me... h semanas que me anda a pr maluco. O cliente no gostou de 
um nico dos quadros que lhe mostramos; acha que tem tudo um ar demasiado enfeminado, amaricado e limpo.
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- No aproveitaram o tema do cavalo?
- Claro, vimos todas as modelos apaixonadas por cavalos que existem deste lado do Mississpi, fizemos audies a todas as mulheres jockey, todas as treinadoras, 
todas...
-No, no, Charlie, por amor de Deus. Se  isso que ests a fazer, ele tem razo. Estou a falar de cavalos. Cowboys.
Ests a ver, bem machistas, o pr do Sol, cavalgar ao pr do Sol num belo garanho..: - Ao diz-lo, o esprito de Sam voou instantaneamente para Black Beauty e, 
claro, para Tate, -  isso que precisas para esses carros. No ests a vender o carro da mulherzinha, ests a vender um carro desportivo de baixo preo e eles querem 
dar a ideia de poder e de velocidade.
- E achas que uma corrida de cavalos no consegue dar essa ideia?
- Claro que no. - Sam pareceu inflexvel e, do outro lado do telefone, Charlie riu-se.
- Acho que  por isso que este  o teu anncio querido, como um filho teu.
Amanh, dou uma olhadela quilo que tens. - At amanh, mida.
- D beijinhos meus  Mellie, Charlie, e obrigada por telefonares. - Desligou, olhou em volta mais uma vez e soltou um suspiro, ao mesmo tempo que murmurava para 
si prpria:
- Oh, Tate... porqu?
Retirou pea a pea da mala, limpou o p s coisas, arrumou-as e olhou em redor, tentando convencer-se de que aquela era a sua casa. s dez horas, foi para a cama 
com um bloco e alguns memorandos de Harvey. Queria dar um avano quilo que tinha de fazer na manh seguinte. j passava da meia-noite quando pousou o bloco, apagou 
a luz e tentou dormir. Acabou por ficar mais duas horas acordada, a pensar no rancho e  espera de ouvir os sons familiares, que nunca apareceram.
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Na manh seguinte, Samantha sentiu o seu regresso ao escritrio como uma estranha viagem de retrocesso no tempo at um local totalmente desconhecido; de repente, 
a secretria, o gabinete e os colegas pareciam fazer parte de outra vida. Mal conseguia imaginar a poca em que ali passara dez horas por dia, quando os trabalhos 
da Crane, Harper & Laub a preocupavam constantemente. Agora, os problemas com que eles se debatiam pareciam to infantis, os clientes de que falavam, to burros 
e tirnicos, os conceitos, as apresentaes e as ideias assemelhando-se a brincadeiras de crianas. No conseguia ficar verdadeiramente assustada com a eventualidade 
de poderem perder um cliente, nem preocupada com o facto de algum se poder zangar ou a reunio poder correr mal. Durante toda a manh, limitou-se a ouvir, com ar 
srio; quando a reunio terminou, ficou com a sensao de ter perdido o seu tempo. S Harvey Maxwell, o director criativo, parecia adivinhar vagamente os sentimentos 
de Sam, e lanou-lhe um olhar penetrante, depois de todos terem sado da sala de conferncias, no vigsimo quarto andar.
- Ento, Sam, qual  a sensao? - Fitou-a, de sobrolho franzido, o cachimbo na mo.
- Estranha. - Sempre se esforara por ser franca com
ele.
-  de esperar. Estiveste ausente muito tempo. Sam anuiu com a cabea.
- Talvez mais do que devesse. - Levantou os olhos para ele e fixou-o. -  dificil voltar depois de tanto tempo. Tenho a sensao... - Hesitou, mas depois decidiu-se. 
- Tenho a sensao de ter l deixado grande parte de mim. - Harvey suspirou, fez um gesto de concordncia com a cabea e tentou reacender o cachimbo.
- Tambm sinto isso. Alguma razo especial? - Os seus olhos procuraram os dela. - Alguma coisa que eu deva saber? Apaixonaste-te por um cowboy, Sam, e pensas voltar? 
-
Estava a perguntar-lhe mais do que aquilo que ela queria dizer-lhe, como tal, Sam limitou-se a abanar a cabea.
- Nem por isso.
No gosto muito da tua resposta, Sam - pousou o cachimbo. -  um pouco vaga. Sam retorquiu num tom calmo.
-Voltei. Pediste-me e eu voltei. Talvez seja tudo o
que ambos precisamos de saber, por agora. Deixaste-me ir embora numa altura em que eu precisava desesperadamente, muito mais do que me apercebi na altura. Agora 
precisas de mim por isso, aqui estou. Estarei c o tempo que precisares. No vou fugir, Harvey. Prometo. - Sam sorriu, mas Harvey Maxwell no.
- Mas achas que podes voltar, Sam?
-Talvez. No sei o que vai acontecer. - Ento, com um pequeno suspiro, Sam juntou as suas coisas. - Porque no nos preocupamos agora s com o nosso cliente? O que 
achas dos meus temas com ranchos para os anncios, um cowboy a cavalgar na penumbra ou ao nascer do Sol, com uma manada atrs de si... um homem montado num cavalo 
esplndido, a emergir da paisagem, perfeitamente enquadrado com tudo o que o rodeia...
- Pra! - Harvey levantou uma mo e riu-se. - Ainda me fazes comprar o carro. Eu gosto. Faz alguns quadros com o Charlie e vamos ver se conseguimos levar isto para 
a frente.
Os quadros que Sam e Charlie fizeram nas trs semanas seguintes foram os melhores que qualquer um deles apresentara alguma vez. O que tinham nas mos no era apenas 
uma srie de anncios de grande impacte, mas mais outra campanha adjudicada. Quando Sam se recostou na cadeira, aps a primeira reunio com o cliente, estava feliz 
e orgulhosa.
- Bem, mida, conseguiste. - Charlie abraou-a enquanto esperavam que Harvey se lhes juntasse. Ele acompanhara o cliente at ao elevador, ao mesmo tempo que Charlie 
e Sam conversavam. - Eles adoraram!
- S podiam! O teu trabalho artstico foi estupendo, Charlie.
- O prazer foi todo meu. - Charlie riu-se e afagou a barba; pouco depois, Harvey veio fazer-lhes companhia, desta vez a irradiar alegria e a acenar para a exposio 
de quadros 
volta da sala. Haviam apresentado quatro anncios,  espera que o cliente aceitasse um ou dois. Aceitou os quatro.
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Bem, midos, fizemos uma apresentao com sucesso no, - Harvey no conseguia parar de sorrir e Samantha retribuiu o sorriso. Era uma das primeiras vezes que parecia 
feliz desde que voltara.
Quando  que comeamos?
Querem comear a produo imediatamente. Quando podes dar incio, Sam? Tens algum local em vista? Meu Deus, deves conhecer ranchos suficientes para pores as coisas 
a andar. E aquele onde viveste nos ltimos seis meses?
- Eu telefono. Mas precisas de mais trs. Acho... - Reflectiu no assunto, enquanto mordia o lpis. -Acho que vamos precisar de locais completamente diferentes. Cada 
rancho deve ser diferente, especial, sem nada a ver com os outros. No queremos repeties.
- O que ests a sugerir?
- O Noroeste, o Sudoeste, o Centro-Oeste, a Califrnia, talvez at o Havai... a Argentina?
- Oh, meu Deus. Eu sabia. Bem, faz l os clculos e acrescenta isso ao oramento. Ainda temos de obter a aprovao deles, mas acho que no vamos ter nenhum problema. 
E faz-me um favor: comea a procurar locais.  capaz de levar algum tempo. Telefona  tua amiga do rancho. Pelo menos, j temos um. Se tiver de ser, podemos comear 
l.
Sam fez um sinal de concordncia com a cabea. Sabia que aquelas filmagens, como muitas ,outras, iriam ser da sua total responsabilidade. Agora que regressara, Harvey 
j estava, de novo, a falar em se reformar; sabia que ele iria deixar todo o trabalho de exteriores para ela.
-Sou capaz de ter de voar at l, na prxima semana, para ver alguns locais. Achas bem?
- Acho ptimo. - Harvey deixou-os, ainda com um sorriso radioso no rosto; Samantha e Charlie regressaram aos seus gabinetes, ela para o seu, pintado de branco, com 
secretria de cromo e vidro, sof e cadeiras em pele bege, e litografias a condizer nos mesmos tons de branco e bege. O gabinete de Charlie parecia mais um sto 
de artista, atravancado, colorido, engraado, com caixas de formatos esquisitos, plantas enormes e smbolos divertidos. Tinha todo o ar de gabi
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nete de director artstico: uma parede era branca, outra amarela, duas azul-escuras, e o tapete no cho era castanho escuro. Claro que fora ele a escolher a decorao. 
A de Sam fazia parte do esquema geral de todos os gabinetes da Companhia, todos decorados em tons suaves de areia, texturas frias deli nhas modernas, sem muita alma. 
Porm, era repousante tra~ balhar ali. Quando se encontrava a trabalhar, nunca reparava na decorao e, quando recebia clientes, geralmente reunia-se, com eles numa 
das salas de conferncias ou ia almoar com eles ao The Four Seasons.
Ao olhar para o relgio, Sam deu-se conta de que no era boa altura para telefonar a Caroline a pedir-lhe autorizao para filmar no rancho. Na Califrnia, ao meio-dia, 
Caroline estaria nas colinas com Bill e os outros homens. Pegou na lis ta que estivera a ver de manh e comeou a fazer telefonemas. Sabia muito bem que no bastava 
pegar no telefone e ligar para ranchos onde no conhecia ningum. Teria de voar at l, depois dar umas voltas, apresentar-lhes pessoalmente os seus planos e pedir-lhes 
autorizao para filmar um anncio, no rancho. Normalmente, levava semanas a encontrar locais, mas ia fazer as coisas como devia ser, tendo em mo os melhores anncios 
que jamais produzira. Ia faz-lo tanto pelo cliente como por ela prpria. Era muito importante para ela que tudo sasse na perfeio, que o anncio fosse algo especial, 
importante, impressionante e eficaz... e talvez at encontrasse Tate. Essa hiptese no lhe escapara. O tema do cowboy a cavalo era excelente para o produto, mas 
tambm podia acontecer que, enquanto andasse a viajar  procura de locais, enquanto andasse nas filmagens, algum de um dos ranchos soubesse de Tate. A ideia de 
o encontrar era um objectivo que nunca esqueceria, e agora, ao telefonar para o departamento de viagens a pedir que lhe reservassem lugar nos voos para Phoenix, 
Albuquerque, Omaha e Denver, todos para a semana seguinte, sentia que as hipteses eram maiores do que nunca.
-  procura de um local de filmagem? - indagou a voz.
- Sim. - Sam j estava profundamente absorvida nas notas em cima da secretria. Tinha uma lista de locais que
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queria ver, a maior parte dos quais concentrada naquelas quatro regies, e depois, claro, havia o rancho da tia Caro. Parece divertido.
- Penso que ir ser. - E os olhos de Sam comearam a danar.
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s seis horas dessa tarde, no Rancho Lord, o telefone tocou. Sam, de robe, sentada no seu apartamento, olhava mais uma vez para a decorao triste. Enquanto esperava 
que o telefone fosse atendido, decidiu que teria de dar uns retoques no aspecto do rancho, se l ficasse.
- Al? - Era Caroline, e Sam esboou imediatamente um sorriso.
- Que bom ouvir a tua voz!
- Sam? - Caroline sorriu tambm. - Ests bem? -Estou ptima. S que estou a trabalhar num projecto louco, e para alm de desejar saber como esto todos, queria, 
pedir-te um favor, mas tens de dizer no, se for esse o teu desejo.
- Primeiro, diz-me como ests e qual  a sensao de teres voltado. - Samantha notou que Caroline parecia cansada, mas atribua isso a um longo dia de trabalho; 
contou o seu regresso com todos os pormenores: o aspecto triste do apartamento, o que sentiu ao voltar ao escritrio; a voz tomou ento um tom vivo de excitao 
quando explicou os anncios e a busca que ia encetar noutros ranchos na semana seguinte.
- E sabes o que isso significa, no sabes? - A voz de Sam quase que voava. - Significa que talvez, s talvez, se tiver sorte consiga encontrar o Tate. - Mal conseguia 
falar. - Cosdiabos, vou andar por todo o pas. - Por instantes, Caroline no disse nada.
-  por isso que ests a realizar esse projecto, Sam? - Caroline parecia triste. Queria que Sam esquecesse Tate. Acabaria por ser melhor para ela.
- No, no . - Sam recuou um pouco. Sentira a consternao na voz da mulher mais velha. - Mas  por isso que estou to excitada.  uma grande oportunidade para 
mim.
- Profissionalmente, diria que sim. Pode ser muito importante para ti, se os anncios sarem to bem como pensas-Estou a contar que sim, o que  uma das razes por 
que telefonei. Tia Caro, o que achas de filmarmos no teu
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rancho? - Era uma pergunta franca, mas do outro lado houve um silncio.
- Em condies normais, Sam, teria adorado. Se no fosse por outra razo, arranjaramos um pretexto para te ver. Mas acho que agora est fora de questo. - A voz 
mostrava-se embargada ao falar e Sam franziu o sobrolho.
- Passa-se alguma coisa, tia Caro?
- Sim... - Um pequeno soluo f-la estremecer, mas recomps-se de imediato. - Bem, na verdade, eu estou bem. O Bill teve um ligeiro ataque cardaco na semana passada. 
Nada de muito grave. j voltou do hospital e o mdico diz que no  nada para nos alarmarmos, mas... - De repente, uma nova vaga de soluos f-la estremecer. - Oh, 
Sam, pensei que se acontecesse alguma coisa... no sei o que faria. No conseguiria viver sem ele. - Era a primeira vez que encaravam a questo e Caroline estava 
aterrorizada com a ideia de poder perd-lo. - No conseguiria aguentar se acontecesse alguma coisa ao Bill. - E soluou.
-Meu Deus, porque  que no me telefonaste? - Samantha estava perplexa.
- No sei, aconteceu tudo to depressa. Fiquei com ele no hospital e tenho andado atarefadssima desde que voltou para casa. S l esteve uma semana, o mdico diz 
que no  nada... - Caroline, com a ansiedade, repetia-se, e Sam tambm sentiu os olhos inundarem-se de lgrimas.
-Queres que v a? - No sejas palerma.
-Estou a falar a srio. No preciso de estar aqui. Viveram sem mim o Inverno todo, aguentam-se. Especialmente agora que lhes fiz todo o trabalho de fundo, a nica 
coisa que tm de fazer  encontrar os locais para as filmagens e depois uma empresa produtora para fazer o filme. Posso estar a amanh, tia Caro? Queres-me a?
- Eu quero-te sempre, querida. - Caroline sorriu por entre as lgrimas. - E gosto muito de ti. Mas estamos bem, a srio. Trata dos teus anncios que eu trato do 
Bill, ele vai ficar ptimo.
- Claro que sim. Desculpa ter-te pedido, mas ainda bem.  Se no tivesse pedido, nunca teria sabido do Bill. s
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uma traidora por no me teres telefonado! Tens a certeza de que no precisas de nada?
-Claro que sim. E se precisar de ti, telefono. - Prometes?
- Solenemente. - Caroline sorriu de novo.
Sam fez, ento, a pergunta seguinte num tom afvel: - Ele... ele est a em casa? - Esperava que sim, pois seria muito mais fcil para Caroline e muito mais agradvel 
para ele.
Caroline suspirou e abanou a cabea.
- No, claro que no.  to teimoso, Sam. Est na sua casa velha. Agora sou eu que passo a vida a entrar e a sair s escondidas durante toda a noite.
- Isso  ridculo. No podes fingir que o pes no quarto de hspedes? - Cos diabos, h j trinta anos que  capataz. Seria assim to chocante?
-Ele acha que sim e eu no posso contrari-lo, por isso deixo-o  vontade dele.
-Homens! - Sam bufou e Caroline riu-se. - Concordo plenamente.
- Bem, d-lhe beijinhos meus e diz-lhe para ter calma, que eu telefono-te daqui a uns dias para saber como  que ele est. - E, ainda antes de desligar, gritou  
velha amiga: - Adoro-te, tia Caro.
- Eu tambm te adoro, querida Sam. - Agora estavam ligadas por um segredo em comum: duas mulheres apaixonadas por ajudantes de rancho, que se viam obrigadas a viver 
al gemadas pelas obsoletas regras de convivncia prprias dos ajudantes e dos rancheiros. Agora que Caroline quase perdera o seu amado capataz, compreendia a dimenso 
da dor de Sam.
22



Durante dez dias, Sam voou do Centro-Oeste para o Sudoeste e, depois, novamente para o Norte; s a insistncia de Caroline dizendo que Bill se encontrava muito melhor 
 que a afastou da Califrnia. Em todos os stios onde parou, alugou carros, ficou em pequenos hotis, percorreu centenas de quilmetros, falou com todos os rancheiros 
possveis e imaginveis e, para seu proveito prprio, falou tambm com os ajudantes. Para a Crane, Harper & Laub, ao fim de dez dias, encontrara exactamente aquilo 
de que precisava: quatro esplndidos ranchos, totalmente diferentes uns dos outros, rodeados por paisagens variadas, mas sempre majestosas. Todos eles proporcionariam 
filmagens de rara beleza. No entanto, para si, nada encontrara. Na viagem de regresso a Nova Iorque, o seu sentimento de vitria por ter descoberto o que queria 
foi largamente suplantado pela depresso de no ter encontrado Tate. Telefonara a Caroline todas as noites, do hotel, perguntara por Bill e contara-lhe com quem 
falara e o que lhe tinham dito; mais de uma centena de vezes, pensara no que teria acontecido a Tate, onde poderia ter ido, que direco poderia ter tomado. Naquela 
altura, j falara com tantos rancheiros desde que ele desaparecera, h trs meses, que tinha a certeza de que se algum o encontrasse, o visse, ou o contratasse, 
lhe diria. Deixara o seu carto em todos os ranchos que visitara, e certamente que algum desse esforo seria recompensado. Talvez ele estivesse a demorar algum tempo 
a visitar familiares e se dirigisse a algum stio especfico. Porm, mais uma vez, Caroline voltou a salientar que ele podia estar em qualquer lado, em qualquer 
rancho, e havia sempre a hiptese de nunca mais aparecer na vida de Sam. Caroline achava que a amiga tinha de encarar essa eventualidade, para seu prprio bem.
- Nunca desistirei - declarara Sam, num tom determinado, na noite anterior.
"No, mas tambm no podes passar o resto da vida  espera.*> Caroline no o disse, mas Sam pensara de imediato:
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"Porque no?" E passaram o tema da conversa para Bill e respectivo estado de sade. Caroline achava que ele estava muito melhor, se bem que debilitado.
Agora, ao aterrar em Nova Iorque, Sam lembrou-se novamente de Bill e, inevitavelmente, de Tate. Tambm sabia que no ms seguinte pensaria nele todos os dias, a todo 
o ins tante, quando entrevistasse actor atrs de actor para o papel nos anncios. J haviam chegado a acordo com o cliente de que no queriam quatro cowboys, mas 
apenas um. Um homem bastava para incorporar tudo o que havia de poderoso, masculino, bom, verdadeiro e sexy naquele pas. E Sam s conseguia pensar em algum parecido 
com Tate.
Nas semanas que se seguiram, passou horas em entrevistas com os actores enviados pelas maiores agncias da cidade, tendo sempre Tate como ponto de comparao. Queria 
al gum alto, de ombros altos, de quarenta e poucos anos, de voz suave, simptico, com olhos interessantes e mos fortes; bom cavaleiro... O que ela realmente queria 
era Tate. De cada vez que a secretria lhe anunciava um novo grupo de actores para audio, Sam ia encontrar-se com eles com a esperana de o ver. Mas apenas via 
louros espampanantes de ombros largos; homens altos, morenos, bonitos; ex jogadores de futebol, e at um ex-guarda-redes de hquei; homens de rosto enrugado, olhos 
profundos e queixos fortes; no entanto, a maioria deles tinha um ar demasiado superficial, alguns tinham m voz, rostos demasiado bonitos, um parecia mais um bailarino 
do que um cowboy. Por fim, depois de quatro semanas de audies, Sam descobriu o seu homem, e no era nada mau. As filmagens ocorreriam apenas para da a duas semanas, 
para quinze de julho.
O actor que escolheram era ingls, mas a sua pronncia do Oeste era to perfeita que ningum notaria. Representara, durante anos, Shakespeare em Stratford-on-Avon; 
h dois anos resolvera vir para Nova Iorque e comear a fazer publicidade, cansado de fazer papis exigentes mas mal pagos. Agora fazia anncios a refrigerantes, 
roupa interior de homem, ferramentas e outros artigos, pelos quais lhe estavam a pagar uma boa maquia. Tinha ombros que nunca mais acabavam, um rosto angular bonito 
mas no em demasia, olhos azuis profundos e
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cabelo ruivo escuro. Possua todos os requisitos para o papel, e todos os homens na Amrica quereriam identificar-se com ele e as esposas sonhariam com o carro que 
estava a ser publicitado, na esperana de que o cowboy do anncio pudesse aparecer ao volante. Correspondia exactamente ao que tinham imaginado, e uma coisa que 
divertia Samantha, como contou a Charlie, era o facto de o seu heri do Oeste ser inegavelmente homossexual.        .
-Tem ar disso? - Charlie pareceu preocupado. -Claro que no,  actor. E  lindo!
-Bem, ento faz um favor a ti prpria: no te apaixones por ele.
- Vou tentar. - Na realidade, Samantha gostava dele. Chamava-se Henry Johns-Adams e, quanto mais no fosse, daria uma boa companhia na viagem. Era extremamente culto 
e delicado, e tambm parecia ter um bom sentido de humor. Seria um verdadeiro alvio no ter de aturar alguns dos actores egocntricos e indisciplinados de outras 
filmagens. - Vens connosco para o Oeste, Charlie?
- No sei, Sam. Custa-me deixar a Mellie. Se ela tiver o beb nessa altura, tudo bem. Caso contrrio, envio dois assistentes. Consegues dar conta do recado?
-Se tiver de ser. - Com um sorriso afvel, perguntou: - Como  que ela se sente?
- Gorda, cansada, saturada e
irrascvel. Mas amo-a na mesma. E est quase. O beb est previsto para o fim da prxima semana.
- Que nome  que vo dar ao rapaz? - Sam estava mais uma vez a gracejar com ele.
-  rapariga. Depois vers. No vamos dizer o nome. Desta vez ser surpresa.
- V l, Charlie, diz-me. Charlotte, se for rapariga? - Sam adorava provocar Charlie; este geralmente dava-lhe um belisco no traseiro ao mesmo tempo que abanava 
a cabea e desaparecia.
Mellie teve o beb nesse fim-de-semana, uma semana antes do que o previsto, era rapariga desta vez, finalmente. surpresa foi que lhe puseram o nome de Samantha. 
Quando Charlie lhe contou, no escritrio, na tera-feira a seguir ao
fim-de-semana do Quatro de Julho, vieram as lgrimas aos olhos de Sam.
-Ests a falar a srio?
- Claro. Queres vir v-la?
- Ests a gozar? Adoraria. A Mellie no est muito cansada?
- Claro que no. O quarto filho  fcil. Custa a acreditar, mas saiu pelo seu prprio p da sala de partos. Pregou-me um susto, mas o mdico disse que no fazia 
mal.
- Fico nervosa s de ouvir isso. - Tal como todas as mulheres que nunca tiveram filhos, Samantha estava espantada com todo aquele processo e toda aquela mstica.
Foram ao hospital  hora de almoo. Mellie tinha um ar feliz, saudvel e radioso, envergava um roupo de banho cor-de-rosa, chinelos da mesma cor e exibia um largo 
sorriso; e
A pequenita beb, vestida de cor-de-rosa e branco, encontrava -se aninhada nos seus braos. Durante um longo instante Sam no disse absolutamente nada, os olhos 
pregados no rosto da beb.
- Ela  to bonita, Mellie. - As palavras saram-lhe num sussurro, num tom de estupefaco, e Charlie riu-se, atrs dela.
-Sim. Mas teramos de lhe pr o nome de Samantha mesmo que fosse feia.
Sam voltou-se para ele e fez-lhe uma careta. Isso aliviou a tenso do momento e o seu sbito desejo daquilo que nunca poderia ter: o milagre do nascimento e o prprio 
filho. Ulti
mamente, raras tinham sido as vezes em que deixara o esprito vaguear nessa direco, mas, pela primeira vez desde h muito tempo, ao olhar para o recm-nascido, 
sentiu o corao destroado pelo sonho desfeito.
- Queres pegar-lhe? - Melinda estava ainda mais encantadora. Havia uma espcie de fulgor que parecia emanar das profundezas da sua alma e, ao mesmo tempo, envolvia 
a preciosa beb em toda a proteco dos seus braos de me. - Acho que no. - Sam abanou a cabea e sentou-se num canto do quarto, de olhos fixos no pequeno ser. 
Tenho 
medo de a aleijar.
- Os bebs so mais rijos do que parecem. - Era o que
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todas as mes diziam. - Toma... experimenta. - Sem avisar, Melinda depositou a beb nos braos de Sam e ficaram todos a v-la esticar-se, encolher-se novamente e 
depois sorrir. Dormia profundamente e Sam conseguia sentir o seu calor
nos braos.
 to pequenina!
No  nada! - Mellie sorriu. - Pesa quase quatro
quilos!
Pouco depois, a pequena Samantha descobriu que estava com fome e acordou,  procura da me com um gemido. A Samantha mais velha devolveu-a aos braos seguros de 
Melinda e, passado algum tempo, ela e Charlie voltaram para o escritrio, enquanto Samantha sentia, mais uma vez, aquilo que mais falta lhe fazia na vida. Era nestas 
alturas que o facto de ser estril pesava como uma pedra nas suas entranhas.
Ento, recordando o que Charlie lhe dissera, parou  porta do seu gabinete e exclamou:
- Isso significa que vens para o Oeste comigo? Charlie assentiu com a cabea enquanto sorria. -Teria de ir, de qualquer forma.
- Porqu? - Sam pareceu surpresa.
-Para me certificar de que no violas o nosso cowboy! -  pouco provvel. - Esboou um sorriso e desapareceu para dentro do gabinete. A agonia de ver o beb parecia 
atenuar-se, embora essa sensao no a tivesse abandonado completamente durante o resto do dia.
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- Todos prontos? - Charlie olhou para a pequena multido  sua volta, com ar sorridente, e depois fez sinal a todos para embarcar. -Iam viajar numa companhia comercial 
para o
Arizona. A comitiva era to numerosa que dava a sensao de terem comprado toda a primeira classe. Havia sete pessoas da empresa produtora, alm de Sam, Charlie, 
os seus dois assistentes, Henry Johns-Adams e o amigo. A juntar a uma montanha de bagagem, equipamento e uma miscelnea de caixotes e caixas. Henry e o seu companheiro 
haviam trazido o co, um poodle branco chamado Georgie, pelo qual Samantha rezou para que no se metesse por baixo das patas dos cavalos. Se o fizesse, era to pequeno 
que era capaz de ficar desfeito, e muito provavelmente as filmagens ficariam estragadas.
No Arizona, juntar-se-lhes-ia uma maquilhadora e uma cabeleireira, que se encontravam a trabalhar em Los Angeles e acompanhariam o grupo da Crane, Harper & Laub 
durante o resto da viagem.
-Acha que eles no perdem a nossa bagagem? - murmurou o amigo de Henry, com algum nervosismo, para Samantha, e ela convenceu-o de que estava toda no avio. Mas h 
tanta.
-j esto habituados. Alm disso - Sam lanou-lhe um sorriso tranquilizador -, estamos em primeira classe. - Como se isso fizesse alguma diferena, como se no fosse 
fcil perder uma das suas malas Vuitton, ou um dos gigantescos volumes da equipa, ou mesmo uma das carssimas peas de equipamento. Mais uma vez, Samantha pensou 
na enorme trabalheira que teria pela frente naquela viagem. Depois de ter tido a ideia do anncio, escrito praticamente na ntegra os textos, descoberto os locais, 
seleccionado o actor, organizado as tropas, escolhido a empresa produtora e aprovado a sua proposta, competia-lhe agora, durante as prximas duas semanas, em quatro 
locais diferentes, tranquilizar toda a equipa
que as refeies no tardariam, de que s faltavam mais alguns takes, de que o tempo estaria mais fresco no dia seguinte, de
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que o ar condicionado do hotel seria reparado por volta do meio-dia e de que a comida na cidade seguinte no poderia ser to m. E o facto de serem acompanhados 
por um namorado homossexual nervoso e um poodle inquieto no ajudaria em nada. Por outro lado, Henry Johns-Adams j provara ser calmo, divertido e boa pessoa; Sam 
esperava que ele mantivesse o amante e o co na linha. No se importava que ele fosse homossexual, mas estava um pouco nervosa por ele ter trazido o seu pequeno 
squito. No obstante, ele insistira, e pouco faltara para trazer a me e catorze dos seus amigos mais chegados.
As bebidas no avio ajudaram a acalmar os nervos. Charlie estava em grande forma e divertiu toda a gente; finalmente, quando faltava meia hora para Tucson, mostravam-se 
todos mais calmos. No havia trabalho para esse dia. Iam percorrer uns duzentos e quarenta quilmetros at ao local, em trs carrinhas alugadas, com todo o equipamento, 
depois teriam um bom jantar e uma boa noite de sono e comeariam a filmar de manh bem cedo no dia seguinte. Sam esperava levantar-se s quatro e meia todos os dias. 
E, todas as noites, durante uma ou duas horas, depois do trabalho, tinha uma ideia em mente. J elaborara a lista de pessoas com quem queria falar e, depois de cumprir 
a sua misso num qualquer rancho durante todo o dia, ficaria um bocado a conversar com os ajudantes do rancho. Talvez um deles tivesse trabalhado com Tate nalgum 
stio ou conhecesse um parente, um antigo patro, algum que soubesse onde ele se encontrava. Valia a pena tentar. Quando o avio baixou o trem de aterragem, Samantha 
sorriu, esperanosa. Nunca se sabia, talvez um destes dias, quando chegasse a um rancho e olhasse para um cowboy alto e bonito, encostado a um poste de vedao, 
ele no fosse um estranho para ela. Seria Tate, com aqueles olhos verdes, o sorriso afvel e a boca que ela adorava tanto... Tate...
- Ests bem, Sam? - Charlie deu-lhe uma pancadinha no brao e quando ela se voltou, surpreendida, ele olhava-a de uma forma estranha.
H? - Exibia ainda um ar perplexo..
~- Estou a falar contigo h cerca de dez minutos.
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- ptimo.
- Queria saber quem  que deve
levar os outros dois
carros.
Sam concentrou-se de imediato no trabalho e deu as instrues, mas no era nisso que estava a pensar quando aterraram, e o olhar deteve-se no horizonte, a pensar 
se no dia seguinte ou no noutro dia o encontraria... Tate, ests Apetecia-lhe murmurar as palavras, mas sabia que no haveria qualquer resposta. No havia maneira 
de saber. Tinha de continuar a procurar. Era por isso que ali estava.
Foram os primeiros a desembarcar, e Sam organizou o grupo rapidamente, indo buscar as carrinhas, designando os motoristas, distribuindo os mapas, comprando as caixas 
de sanduches para a viagem e entregando os recibos do motel i para o caso de os trs carros no chegarem ao mesmo tempo. Pensara em tudo, como sempre.
No carro que conduziu, Sam transportava Charlie, a cabeleireira, a maquilhadora, a estrela, o namorado, o poodle e todas as malas Vuitton. O equipamento, a equipa 
e os assistemtes viajaram nos outros dois carros.
- Tudo em ordem? - Charlie olhou para trs e passou algumas latas de sumo aos acompanhantes. Estava um calor dos diabos no Arizona, e era um alvio viajarem num 
carro
com ar condicionado. Henry contou episdios engraados da digresso por Inglaterra, o namorado f-los rir com histrias sobre a sua descoberta de que era homossexual 
em Dubuque, a cabeleireira e a maquilhadora relataram uma srie de peripcias da sua recente viagem a Los Angeles onde tinham penteado e maquilhado uma conhecida 
estrela de rocle, e a viagem prosseguiu num clima agradvel at chegarem ao hotel. Ali, como era de prever, ocorreu o primeiro drama. O dono do hotel no autorizava 
ces; alm disso, no viu com bons olhos o amigo de Henry, olhou, horrorizado, para os flamejantes cabelos vermelhos com uma pequena franja azul da cabeleireira 
e franziu o sobrolho perante as  "horrorosas malas castanhas". O amigo de Henry quase acariciou
suas amadas malas Vuitton e ameaou dormir no carro se a isso fosse obrigado, mas no ia deixar o co. Os cem dlar que apareciam no relatrio de despesas para gorjetas 
e despe
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sas diversas, ajudaram a untar o caminho para a permanncia de Georgie na hedionda sumptuosidade de vinilo azul-turquesa do hotel.
- Ests com um ar cansado, Sam. - Charlie esparramou-se em cima de um sof do quarto e viu-a analisar minuciosamente uma folha de anotaes numa prancheta. Sam levantou 
os olhos, sorriu e atirou uma bola de papel que atingiu a orelha esquerda de Charlie.
- Deves estar a brincar. Eu? Por que carga de gua  que estaria cansada? Ando pelo pas com um bando de excntricos e um poodle francs atrs. Por que razo  que 
deveria estar cansada, Charlie?
- Olha, eu no estou cansado. - Charlie fez um ar casto e ela fez-lhe uma careta.
- No admira. Nunca fazes nada.
- A culpa no  minha. Sou o director artstico, e estou aqui apenas para me certificar de que o filme fica bom do ponto de vista artstico. No tenho culpa que 
sejas uma gaja ambiciosa e queiras ser directora criativa. - Charlie estava a brincar, mas, de repente, Sam ficou com um ar srio quando se sentou na cama.
-  isso que pensas, que eu quero ser directora criativa? - No, meu amor. - Charlie lanou-lhe um sorriso meigo. - Penso que no  isso que queres, mas  isso que 
sers. s boa naquilo que fazes. Custa-me a admiti-lo, mas s vezes s brilhante. E o Harvey, os clientes, eu e toda a gente na empresa sabemos isso; mais cedo ou 
mais tarde, vais conseguir o cargo. Ou te contratam com um salrio irresistvel, ou o Harvey reforma-se, como continua a ameaar fazer, e passas a directora criativa. 
- Directora criativa... era uma ideia pavorosa.
- No me parece que seja isso o que quero.. J no . -Ento  melhor fazeres algo enquanto podes, antes que 'te vejas colocada perante o facto consumado e seja 
demasiado tarde. - Depois de pensar no assunto por instantes, acrescentou: - O que  que tu queres, Sam?
Olhou para Charlie durante um longo instante.
Oh, Charlie,  uma longa histria - murmurou. Tinha essa sensao. - Os olhos de Charlie no se
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desviaram dos de Sam. - Houve algum na Califrnia no rancho?
Sam anuiu com a cabea. -Ento, o que  que aconteceu? -Ele deixou-me.
- Oh, merda. - E logo a seguir a John. No era de admirar que ela estivesse com um ar to tenso e infeliz quando voltara. - Para sempre?
-No sei. Ainda ando  procura dele. -No sabes onde  que ele est?
Sam abanou a cabea e Charlie olhou-a com um ar triste. - O que  que vais fazer?
- Continuar a procurar - afirmou Sam num tom determinado e Charlie fez um gesto de concordncia com a ca bea.
- Menina bonita. s uma mulher forte, sabes, Sam? - No sei, querido. - Sam sorriu e murmurou: - s vezes tenho as minhas dvidas.
-No tenhas. - Fixou-a com um ar orgulhoso. - Acho que no h nada que no consigas ultrapassar. Lembra-te disso, mida, se as coisas ficarem dificeis.
- Lembra-me. Lembrarei.
Trocaram um sorriso afvel. Sam estava contente por ele ter vindo: era o seu melhor amigo e com ele iria sentir-se bem, tendo algum com quem brincar, rir e conversar, 
sa bendo que, por trs das palhaadas, existia um homem terno e inteligente. Folgava tambm em saber que tinha a estima dele e de Harvey. No incio, quando regressara 
do rancho, Sam apercebera-se de que teria de voltar a afirmar-se no s como subdirectora criativa mas tambm como pessoa, como amiga deles. E agora, ao fim de to 
pouco tempo, sabia que tinha reconquistado o respeito e a estima dos dois. Isso significava muito para si. Levantou-se e foi beijar Charlie na face.

- Ultimamente no me tens contado nada da minha homnima.
- Est bestial. J escova os dentes, faz sapateado e lava roupa.
- Oh, cala-te, idiota. Estou a falar a srio. Como  que ela est?
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- Cada vez mais esperta. Claro que as raparigas so diferentes dos rapazes.
- s muito observador. A propsito, j ests com fome? Estou esfomeada, e temos de levar todos aqueles queridinhos a jantar  tasca de tacos ao fundo da rua ou vo 
pr-se para a aos gritos.
- E o que lhes vais dar para jantar? Tacos? - Charlie pareceu chocado. - No sei se Miss Vuitton vai gostar, j para no falar no poodle.
- No sejas ordinrio. Alm disso, duvido que nesta cidade haja outra coisa para comer.
- Maravilhoso.
A verdade  que passaram uma noite divertida, a comer tacos, a beber cerveja e a contar anedotas, que iam ficando cada vez mais picantes  medida que a descontraco 
e o cansao iam aumentando. Finalmente, todo o grupo voltou para o hotel e foi para a cama. Charlie despediu-se de Sam e desapareceu para o quarto. Sam ficou mais 
meia hora a dar uma olhadela s notas para o dia seguinte; depois, bocejou e apagou a luz.
Na manh seguinte, eram seis horas quando se reuniram para o pequeno-almoo. s sete e meia, partiram para o rancho. Resolveram no filmar o nascer do Sol no primeiro 
dia,
decidindo aproveitar a luz intensa para takes curtos e, eventualmente, tentar um pr do Sol. Era quase meio-dia quando tudo ficou instalado para satisfao da equipa 
de filmagens. Rodaram algumas cenas de Henry Johns-Adams montado numa bonita gua preta, que fez Samantha ansiar pelo puro-sangue de Caroline. A gua que Henry montava 
no tinha nada a ver com Black Beauty, mas era bonita e ficaria bem no filme. Exibia um porte gracioso enquanto galopava pelas mesmas colinas vezes sem conta, a 
filmar take aps take, mas tanto a gua como o cavaleiro mantinham sempre a mesma disposio e, ao fim do dia, estava toda a gente cansada, mas no havia nervos 
esfrangalhados. Eram um bom grupo de trabalho, e Samantha mostrava-se satisfeita com o modo como as coisas estavam a correr. Foi falar com o capataz e agradeceu-lhe 
por os ter deixado filmar no rancho. J mandara flores  esposa do dono do rancho e uma caixa de usque ao marido, alm daquilo que pagavam diariamente para l filmar. 
Ofereceu tambm vrias garrafas ao capataz, que ficou contente com o presente e com quem meteu conversa durante alguns instantes. Este mostrou-se impressionado ao 
saber que ela passara grande parte do ano a trabalhar num rancho da Califrnia; falaram da vida do rancho, de cavalos e de gado, e Sam teve a sensao de estar em 
casa. Pouco depois, referiu por acaso o nome de Tate Jordan, ansiosa por saber se ele o conhecia, e pediu-lhe que, se alguma vez o visse, lhe dissesse que ela o 
queria para um anncio. Descreveu-o como um homem bem-parecido e que ela admirava muito. Por uma questo de respeito pelos sentimentos de Tate para com as pessoas 
dos ranchos, no lhe falou da sua relao com ele. O capataz guardou o carto dela e garantiu-lhe que teria muito gosto em a informar se encontrasse Tate. Sam voltou 
ento para junto dosoutros e conduziu uma das carrinhas at ao hotel.
Nas trs semanas seguintes, em todos os locais de paragem, as buscas de Sam foram igualmente infrutferas, se bem que as filmagens dos anncios estivessem a decorrer 
excelentemente. A equipa de produo sabia que conseguira belssimas sequncias, e at quele momento no houvera quaisquer problemas. Como tal, o moral era elevado, 
as amizades estavam cimentadas, o estado de esprito era bom e toda a gente se mostrava disposta a trabalhar horas interminveis ao sol escaldante, raramente se 
queixando. Conseguiram captar por duas vezes um nascer do Sol perfeito e vrias vezes o pr do sol. S Sam parecia exausta na altura em que chegaram ao ltimo local 
de paragem. Estavam a filmar num rancho em Steamboat Springs, no Colorado, e Sam acabara de entrevistar o ltimo dos capatazes e detivera-se durante quase uma hora 
com alguns dos ajudantes que haviam aparecido para assistir s filmagens. Sabia agora que, se encontrasse Tate, no seria ainda daquela vez. Iam para casa no dia 
seguinte; novamente as suas esperanas tinham-se frustrado. Voltaria para Nova Iorque e ficaria  espera, para voltar a tentar noutra ocasio, quando estivesse perto 
de um rancho. E talvez... talvez um dia, ela o encontrasse. Talvez... Se...
Enquanto olhava para as montanhas, ouviu um dos homens a dizer a outro que ela trabalhara no Rancho Lord, na Califrnia. Conheciam o rancho, e o segundo cowboy lanou-lhe 
um olhar de admirao.
- A srio?
Sam fez um gesto afirmativo com a cabea.
- Calculei que percebesse de cavalos, mas tanto  que no sabia. Vi-a esta manh. Monta bem e tem boas mos. - Obrigada. - Sam sorriu-lhe, mas os olhos espelhavam 
agora a angstia que a invadia. Exibia um ar cansado e vazio, e o homem olhou-a de alto a baixo, tentando compreender por que razo  que estava to deprimida.
-Viu o nosso novo garanho? - perguntou o homem, enquanto mascava uma bola de tabaco. - Comprmo-lo a semana passada. Est na ltima cavalaria.
Posso v-lo? - Sam fez a pergunta mais para ser agradvel do que por desejo de ver o garanho. Queria voltar para o pequeno motel onde estavam alojados, fazer as 
malas e
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preparar-se para regressar a casa no dia seguinte. No valia a pena insistir. As filmagens haviam terminado e no encontrara Tate. Tentando aparentar um ar interessado, 
Sam acompanhou a custo o velho cowboy e, quando chegou  cavalaria no se sentiu arrependida. O animal que se encontrava diante de si era um dos maiores garanhes 
que jamais vira, cinzento, com crina e rabo pretos, e uma ampla estrela branca na testa que lhe dava um ar ainda mais selvagem ao olhar.
-Meu Deus,  uma beleza.
-E, no ? - O ajudante estava com um ar satisfeito. - Mas  um diabinho. Ontem deu um ou dois piparotes em toda a gente. - Esboou um largo sorriso. - At eu levei 
um.
Sam sorriu.
- Tambm j passei bastante tempo de rabo no cho. Mas este rapaz vale a pena. - Passou-lhe a mo pelo pescoo e ele relinchou, como se tivesse gostado de sentir 
a mo dela no plo e quisesse mais. Era um animal to grande e to esplndido que v-lo era praticamente uma experincia sensual. Falou ento de Black Beauty, do 
modo como o montara e o grande cavalo que era.
- Um puro-sangue?
Sam assentiu com a cabea.
- O Gray Devil aqui est ptimo para mim. Galopa como um cavalo de corrida, mas  um pouco vivo para o trabalho do rancho. No sei, mas Mister Atkins  capaz de 
acabar
por o vender.  uma pena.  um excelente cavalo. - Ento, como que oferecendo a ltima prenda a Samantha, virou-se para ela. - Quer mont-lo, miss? Aviso-a, pode 
bater com o rabo no cho, mas julgo que consegue domin-lo, por aquilo que vi hoje.
Sam montara um cavalo durante um intervalo das filmagens, para que Henry visse, espicaando-o, ao pr do Sol, quase o enfurecendo para o tornar menos complacente 
e le
v-lo a dar o mximo. Puxara por ele at ao limite, proeza que realizara com evidente facilidade. Era uma cavaleira espectacular, e a sua preciso e a sua destreza 
no haviam passado despercebidas aos homens que a observavam. Falaram dela ao almoo, um deles chegara a dizer que Sam parecia um pe-
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queno palomino e que seria um prazer v-la montar Gray Devil, que estava na sua baia,  espera, como se tivesse sido destinado para ela.
- Est a falar a srio? - Sam ficou emocionada com a oferta, sabendo que era tanto um cumprimento como um presente. - Posso mont-lo? - Seria o seu ltimo passeio 
a cavalo durante muito tempo. Ia voltar para Nova Iorque no dia seguinte e no havia ranchos no seu futuro imediato. S montanhas de trabalho em cima da secretria. 
- Adoraria.
-Claro. Vou buscar-lhe a sela. -- O ajudante assim o fez e, pouco depois, j tinha o cavalo selado, procedendo com todo o cuidado para no levar um coice. O animal 
era duas vezes mais fogoso do que Black Beauty, o plo parecia arder, ansiando que o deixassem correr em liberdade. - Olhe que ele  endiabrado. Comece com calma... 
Miss... - Tentou lembrar-se do nome.
- Sam. - Esboou um sorriso afvel, subitamente ansiosa por subir para o dorso do enorme cavalo cinzento. Ainda era maior do que Black Beauty e, de repente, teve 
a sensao de que Tate estava a seu lado, a gritar-lhe, como fizera quando ela montara o puro-sangue preto de Caro, tentando for-la a montar cavalos como Lady 
e Rusty. Sorriu para consigo. Bolas, ele deixara-a! Agora poderia montar o cavalo que quisesse. Ao pensar nisso, toda a dor de o ter perdido dilacerou-a uma vez 
mais; subiu para o cavalo com a ajuda do ajudante, puxou as rdeas e deixou o enorme garanho cinzento danar sobre si mesmo. Manteve-o de rdea curta, e as duas 
tentativas para atirar com ela foram infrutferas, para deleite do ajudante.
A passo, Sam atravessou a enorme cavalaria, em direco ao velho curral. Vrios homens haviam-na visto, primeiro com interesse, depois comeando a aplaudir ao ver 
o modo como ela dominava a besta cinzenta aos pinotes. Como se pressentissem subitamente um espectculo curioso, todos se voltaram para ver Samantha conduzir Gray 
Devil atravs do complexo principal do rancho, passar pela equipa de filmagens, por Charlie, por Henry, pelo amigo e pelo poodle. Ento
Empolegada na sua paixo pelos cavalos e pela imensido dos campos, esqueceu-se de todos e ps-se a meio galope em
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direco  plancie  sua frente. Manteve-se a meio galope durante apenas alguns segundos, depois deu-lhe o que queria: liberdade para galopar  sua prpria velocidade, 
at se sentir a voar, os cascos a bater com fora no cho. Enquanto galopava no dorso de Gray Devil, Sam sorria, o vento fustigava-lhe o rosto e o corao a bater 
com mais fora. Montar aquele cavalo era como travar uma batalha especial, contra fora e o esprito do animal, utilizando apenas as suas capaci dades e a sua destreza.
Mas era um combate equilibrado , embora por vrias vezes ele tentasse derrub-la, no conseguiu; Sam sentia toda a tenso, toda a angstia, todo o desapontamento 
por no encontrar Tate, e comeou a instigar Gray Devil a galopar ainda mais depressa. Ela bat-lo-ia no seu prprio jogo, se pudesse.
Foi ento que a multido ficou muda. At ento fora uma viso maravilhosa, os cabelos louros a esvoaar, em total contraste com a crina e o rabo pretos de Gray Devil, 
a todo o ga
lope pelos campos. Acompanhava os movimentos do gigantesco garanho, todos os seus msculos em sintonia com os dele. De repente, um dos ajudantes saltou a vedao 
para a deter, vrios outros contiveram a respirao, e o capataz gritou, como se ela conseguisse ouvi-lo. Mas j era demasiado tarde. Havia um estreito riacho oculto 
que ela acabara de atacar. Era suficientemente estreito para saltar com facilidade se ela o visse, mas tambm era muito fundo e, se o cavalo tropeasse, ela seria 
atirada para a ravina rochosa. O capataz corria agora, acenando freneticamente 'com os braos; Charlie viu-o e comeou tambm a correr. Era como se os dois homens 
soubessem o que estava prestes a acontecer; precisamente naquele momento, viram-na. O garanho estacou de repente ao chegar ao riacho, que ele notara antes dela, 
e Samantha, apanhada desprevenida, atravessou o ar com uma brutal e terrvel graciosidade, os cabelos em desalinho, os braos estendidos, at desaparecer em silncio.
Perante aquilo, Charlie correu para a carrinha, rodou a chave da ignio, meteu a mudana e precipitou-se para o local, sem se preocupar se atropelava algum. Era 
muito longe
para ir a correr. Acenou freneticamente para o capataz, que pulou para dentro da viatura, arrancando a toda a velocidade
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os pneus a guincharem na gravilha, e percorrendo os campos aos solavancos. Charlie fazia horrveis sons guturais enquanto murmurava algo para consigo e rezava.
O que  que h ali adiante? - perguntou Charlie ao capataz, sem tirar os olhos do terreno. Ia a quase a noventa quilmetros por hora, e Gray Devil passara por eles 
que nem um raio pouco antes.
- Uma ravina. - O capataz estava com um ar tenso quando respondeu, tentando vislumbrar qualquer coisa. Ainda no conseguiam ver nada. Pouco depois, gritou: - Pare! 
- O que Charlie fez, e o capataz abriu caminho por entre a erva, at  pequena ladeira onde Gray Devil estacara. A princpio, no viram absolutamente nada; instantes 
depois, Charlie avistou-a, a camisa branca completamente esfarrapada, o peito, o rosto e as mos praticamente irreconhecveis, os cabelos em desalinho, prostrada, 
a sangrar, numa terrvel quietude.
- Oh, meu Deus... oh, meu Deus... - Charlie comeou a gritar ao mesmo tempo que corria para ela; o capataz j estava ajoelhado junto de Sam, com dois dedos a pressionar 
a parte lateral do pescoo.
- Ainda est viva. Meta-se no carro, volte para casa, telefone ao xerife e diga-lhe que mande um helicptero para c imediatamente. Se ele conseguir arranjar um, 
que mande um paramdico, um mdico ou uma enfermeira. - A cidade de Steamboat Springs no estava dotada de pessoal mdico especializado naquele tipo de acidentes. 
Sam, pela posio em que s encontrava, fracturara provavelmente vrios ossos e, possivelmente, o pescoo ou a coluna. - V l, homem, despache-se! - berrou para 
Charlie, que limpou o rosto  manga e correu para o carro, fez marcha atrs, deu meia volta e carregou no acelerador, ao mesmo tempo que se interrogava, completamente 
fora de si, se Samantha viveria.
- Cabro de cavalo! - gritava ao dirigir-se para onde os outros os aguardavam com ar ansioso. Saltou do carro e deu as instrues.
Voltou para junto de Sam e ajoelhou-se ao seu lado, tentando ampar-la e estancar o fluxo de sangue dos cortes no rosto, com uma toalha que descobrira no carro. 
Quando se sentou no helicptero, ao lado dela, vinte minutos depois,
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exibia um ar soturno. Deixara os dois assistentes a fazerem malas com os outros, combinando encontrarem-se com ele no hospital, em Denver, nessa noite.
O helicptero pareceu levar uma eternidade para chegar e, quando o fez, a vida de Samantha corria grave risco. Um paramdico viajara com eles e, nos ltimos dez 
minutos de
viagem, fizera-lhe respirao artificial, enquanto Charlie assistia com ar ansioso. Estava morto por perguntar ao paramdico se achava que ela iria resistir, mas 
nem se atreveu, preferindo no dizer nada, apenas a observ-los e a rezar. Deitaram-na cuidadosamente no relvado do Hospital de Santa Maria, depois de terem alertado 
todo o trfego areo de que se dirigiam ao hospital e que iam descer com um cdigo azul. Charlie tentou lembrar-se desesperadamente do significado daquilo; achava 
que era sinnimo de algum que estava praticamente morto.
Um mdico e trs enfermeiras aguardavam no relvado com uma maca; levaram-na rapidamente para dentro logo que aterraram, enquanto Charlie os seguiu o mais depressa
que pde. Nem se lembrou de agradecer ao jovem paramdico ou ao piloto, o seu pensamento centrado em Samantha, to prostrada, to imvel. A nica coisa ainda reconhecvel 
na forma estreita embrulhada em lenis poucos minutos depois era um emaranhado de cabelos louros de palomino. S ento  que conseguiu formular a pergunta, quando 
duas enfermeiras verificaram os sinais vitais, enquanto a preparavam para a levar para o servio de radiologia e possivelmente para o de cirurgia. j haviam concludo 
que as laceraes no rosto eram superficiais e podiam esperar.
- Ela conseguir resistir? - indagou Charlie, numa voz entrecortada, no corredor branco e bem iluminado.
- Desculpe? - A voz de Charlie, semelhante a um grasnar, mal se ouvira e a enfermeira, sem tirar os olhos de Sam no compreendera o que ele dissera.
- Ela conseguir resistir? - repetiu.
- No sei. - Falou num tom suave. - O senhor  familiar?  o marido?
Charlie abanou a cabea sem dizer palavra.
- No, sou... - Ento, pensou que talvez devesse ser.
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Se eles pensassem que era parente, talvez lhe dissessem mais . - Sou irmo. Ela - minha irm: - Articulava qualquer coisa coisas sem nexo, sentindo-se, subitamente, 
tonto e enjoado ao pensar que Sam poderia no sobreviver. Parecia j estar morta. A respirao era fraca, dissera-lhe uma enfermeira e, antes que conseguisse dizer 
o que quer que fosse, dois mdicos internos, um externo, e uma legio de enfermeiras, vestidas com fatos que mais pareciam pijamas azuis, vieram buscar Sam. - Para 
onde  que ela vai? Para onde  que...? - Ningum o escutou, e Charlie ali ficou, uma vez mais, as lgrimas a correrem-lhe silenciosamente pelo rosto. No podiam 
dizer-lhe nada, no sabiam.
Decorrida uma hora e meia, o pessoal do hospital encontrou Charlie, sentado, gelado, como uma criana perdida, numa cadeira da sala de estar. No se mexera, no 
fumara, nem sequer bebera uma chvena de caf. Ali ficara,  espera, mal se atrevendo a respirar.
- Mister Peterson? - Algum ouvira o seu nome quando assinara os formulrios de admisso. Continuava a afirmar que era irmo dela, e estava-se nas tintas para o 
facto de estar a mentir, se tal pudesse ajudar ou fizesse alguma diferena.
- Sim? - Charlie ps-se em p de um pulo. - Como  que ela est? Est bem? - De repente, no conseguiu parar de falar, mas o mdico fez um ligeiro aceno com a cabea 
e olhou-o de frente.
-Est viva. Por pouco.
- O que ? O que aconteceu?
-Pondo a questo com toda a frontalidade, Mister Peterson, a coluna est fracturada em dois stios. Os ossos esto desfeitos. H uma pequena fissura ao nvel do 
pescoo, mas pode esperar. O problema agora  a coluna. H muitas pequenas vrtebras fracturadas que temos de operar para aliviar a presso. Se no a operarmos, 
pode ficar com leses permanentes no crebro.
- E se a operarem? - Charlie sentira imediatamente que era uma espada de dois gumes.
- Se a operarmos, pode no viver. - O mdico sentou-se e fez sinal a Charlie para fazer o mesmo. - O problema  que se no a operarmos, quase posso garantir que 
lhe restar
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apenas uma vida vegetal at ao final dos seus dias e poder fi car quadriplgica.
- O que  que isso quer dizer?
- Completamente paralisada. Sem qualquer controlo sobre os braos e as pernas; no entanto, talvez consiga mover a cabea.
- E se a operarem, no ser esse o caso? - Charlie sentiu uma desesperante vontade de vomitar, mas conseguiu control-la. Mas que raio estavam eles a discutir, parecia 
que
estavam a comprar cenouras, cebolas e mas, mover a cabea ou os braos ou as pernas ou... Meu Deus!
O mdico foi cuidadoso com as explicaes.
- Certamente que nunca mais voltar a andar, Mister Peterson, mas, se a operarmos, talvez consigamos salvar o resto. Na melhor das hipteses, poder ficar paraplgica, 
sem utilizar a metade inferior do corpo. Se tivermos sorte, poderemos salvar-lhe o esprito. Mas apenas se a operarmos j. - Charlie hesitou durante um interminvel 
instante. - Embora o risco seja muito maior. No est em muito boas condies e podemos perd-la. No posso prometer-lhe mais.
 tudo ou nada" no ?
- Mais ou menos. Devo dizer-lhe, com toda a franqueza, que... quer no lhe faamos nada, quer lhe faamos tudo o que pudermos... ela talvez no passe desta noite. 
Est num estado muito crtico.
Charlie fez um ligeiro aceno com a cabea, compreendendo, de repente, que a deciso era sua e sentindo uma angstia terrvel por esse facto. Sabia que Sam tinha 
familiares ainda vivos. No entanto, j que fora at ali... Alm disso, era' -lhe mais chegado do que outra pessoa qualquer... "Oh, minha querida Sam."
-Quer que lhe d uma resposta, doutor?
O homem de casaco branco assentiu com a cabea. - Quero.
Quando? - Agora.
"Como  que sei que o doutor  uma autoridade na matria?", teve vontade de perguntar. "Que alternativa  que tens?", indagou outra voz. No a operar significava 
que Sam
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morreria efectivamente, nada mais restando para alm de um monte de cabelos louros e um corpo destroado, incapaz de raciocinar, sem corao, sem alma. Charlie sentiu 
um n na garganta ao pensar no assunto. Oper-la significava que eles poderiam mat-la... Mas... "Se ela viver, continuar a ser a Sam. Numa cadeira de rodas, mas 
ser a Sam."
- Fora!
- Mister Peterson?
- Opere. Opere, bolas... opere! - berrou Charlie. Quando o mdico se foi embora apressadamente, Charlie virou-se e deu uns murros na parede. Foi comprar cigarros 
e caf, aninhando-se a um canto, como um animal assustado, a olhar para o relgio. Uma... duas... trs... quatro... cinco... seis... sete horas. s duas da manh, 
o mdico voltou, para o encontrar de olhos esbugalhados, aterrorizado, lvido de angstia,  espera, convencido de que Sam talvez tivesse morrido. Morrera e ningum 
lhe dissera nada. Nunca se sentira to assustado na vida. Matara-a com a sua maldita deciso. Deveria ter dito ao mdico para no a operar, deveria ter telefonado 
ao ex-marido, meu Deus,  me... Nem sequer comeara a pensar nas consequncias da sua deciso. O mdico queria uma resposta...
-Mister Peterson?
- Hum? - Charlie olhou para o mdico como se estivesse alucinado.
-Mister Peterson, a sua irm est bem. - O mdico deu-lhe um ligeiro toque no braa e Charlie meneou a cabea. Fez um novo meneio, depois vieram as lgrimas e, de 
repente, estava abraado ao mdico.
- Meu Deus... meu Deus... - foi , a nica coisa que cbnseguiu balbuciar. -Julguei que ela tinha morrido.
- Ela encontra-se bem, Mister Peterson. Agora o senhor pode ir para casa e descansar. - Lembrou-se ento que eram todos de Nova Iorque. - Tm onde ficar?
Charlie abanou a cabea e o mdico rabiscou o nome de um hotel num pedao de papel.
-Tente este. E a Sam? Pouco posso dizer. Conhece os riscos que corremos.
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Pusemos no lugar o mximo que pudemos. A coluna... bem, j sabia...
Vai ficar paraplgica. Tenho praticamente a certeza de que no existem quaisquer leses cerebrais, nem da queda, nem da presso antes de a operarmos. Mas temos de 
aguardar. Foi uma operao muito longa. Teremos de aguardar.
- Quanto tempo?
- Saberemos um pouco mais todos os dias. Se aguentar at amanh, as perspectivas sero muito melhores.
Charlie fitou-o ento, pensando em algo.
- Se ela... se ela viver, quanto tempo  que ficar aqui, at a conseguirmos levar de volta para Nova Iorque?
- Ohh... - O mdico inspirou fundo, fixando o cho enquanto pensava; depois, olhou para Charlie. -  dificil de dizer. Diria que se ela recuperar excepcionalmente 
bem, poderemos transferi-la dentro de trs ou quatro meses.
- Trs ou quatro meses? E depois? - No se atreveu dizer as palavras.
-  muito cedo para pensar em tudo isso - lamentou o mdico -, mas, pelo menos durante um ano, ter de ficar no hospital, Mister Peterson. Se no mais. Vai ter de 
fazer mui tos reajustamentos. - Charlie abanou lentamente a cabea, comeando a compreender o que estava reservado a Sam, - Bom... Primeiro vamos deixar passar esta 
noite.
O mdico afastou-se, abandonando Charlie, sentado, s, num canto da sala de estar,  espera que os outros regressassem de Steamboat Springs.
Chegaram ao hospital s trs e meia da manh, encontraram Charlie a dormir, a cabea cada sobre o peito, a ressonar levemente, e acordaram-no para saber as novidades. 
Charlie contou-lhes o que sabia e instalou-se um silncio fnebre; depois, foram  procura do hotel. Quando chegaram, Charlie sentou-se junto da janela, observando 
Denver com ar angustiado; Henry e o amigo instalaram-se perto dele e nesse momento no conseguiu aguentar mais todas as emoes que o assolavam: a dor, o terror, 
a preocupao, o sentimento de culpa, a confuso, a angstia... Soluou durante mais de uma hora, enquanto Henry o abraava. Foi a noite mais negra que alguma vez 
vivera. Quando telefonaram para o hospital de manh, foi Henry quem deixou tombar a cabea entre as mos e desatou a chorar. Samantha ainda estava viva.
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No dia seguinte ao acidente de Sam, toda a equipa se separou, mas aps uma srie de longas conversas telefnicas com Harvey, Charlie optou por ficar. No sabia quanto 
tempo teria de permanecer ali e no podia deixar Mellie sozinha com quatro midos eternamente; no entanto, sentia-se incapaz de abandonar Sam. Estava s, numa cidade 
estranha, e praticamente meio morto. Harvey ficara perplexo ao ouvir a notcia. Charlie no tivera quaisquer dificuldades em convenc-lo a deix-lo ficar. Harvey 
tambm sugerira que Charlie tentasse, pelo menos, contactar a me de Sam, em Atlanta. Ela era, afinal de contas, o nico familiar vivo e tinha o direito de saber 
que a sua nica filha se encontrava nos cuidados intensivos, em Denver, com a coluna fracturada. Quando lhe telefonou, Charlie foi informado de que ela e o marido 
estavam de frias durante um ms na Europa e, como tal, no poderia fazer mais nada. Sabia, contudo, que Sam no nutria uma grande amizade pela me, considerando 
o padrasto um idiota, e o pai morrera h anos. No havia mais ningum a quem telefonar. Naquela altura, naturalmente, j telefonara a Mellie, que chorara que nem 
uma criana ao saber da notcia.
- Oh, pobre Sam... Oh, Charlie... como  que ela vai aguentar... numa cadeira de rodas... completamente s...? Choraram durante alguns instantes, aps o que Charlie 
desligou o telefone. Queria fazer outro telefonema para Harvey, solicitando-lhe que tirasse informaes do mdico que fizera a operao, se bem que j fosse um pouco 
tarde. Porm, sentiu-se aliviado quando Harvey lhe comunicou que telefonara a todos os ortopedistas que conhecia em Bston, Nova Iorque e Chicago, e chegara a ligar 
a um amigo que era cirurgio-chefe de ortopedia dos Mets.
-Abenoadas sejam as tuas relaes sociais, Harvey. que  que ele disse?
-Disse que o tipo  uma sumidade.
Charlie deixou escapar um longo suspiro e, poucos minutos depois, pousou o telefone. Agora s lhe restava esperar.
Deixavam-no v-la durante cinco minutos. De hora a hora; Mas pouco podia fazer. Ainda no recuperara a conscincia. E no a recuperaria ao longo de todo aquele dia.
Isso s veio a acontecer no dia seguinte, por volta das seis da tarde, quando a visitava pela oitava vez nesse dia. Esperava deter-se junto dela apenas alguns minutos, 
como fizera a todas as horas desde essa manh: observava o seu corpo imvel, o rosto coberto de ligaduras, e depois, a um sinal da enfermeira, fechava a porta e 
ia-se embora. Todavia, dessa vez, ao olhar para ela, achou que havia algo diferente. A posio dos braos alterara-se ligeiramente e estava com melhor cor. Comeou 
a passar suavemente a mo ao longo dos compridos cabelos louros, ao mesmo tempo que dizia baixinho o nome dela. Falou-lhe como se ela conseguisse ouvi-lo, dizendo-lhe 
que estava ali ao p dela, que todos a adoravam e que iria ficar boa. De sbito, antes de a enfermeira lhe fazer sinal, Sam abriu os olhos, viu Charlie e murmurou:
- Ol.
- O qu? - Charlie ficou atnito, a palavra mais parecera uma exploso no quarto cheio de aparelhos. - O que  que disseste?
- Disse... ol. - Mais parecia um sussurro e Charlie teve vontade de soltar um grito de alegria. Em vez disso, inclinou-se, de modo a que ela pudesse ouvi-lo e sussurrou 
tambm:
- Ol, mida - murmurou - ests a ir muito bem. - Estou?... Que... aconteceu...? - A voz de Sam mal se ouvia e Charlie no quis responder-lhe, mas o olhar dela no 
se desviou do dele.
-Levaste um piparote de um cavalo.
- O Black Beauty? - Sam estava com um olhar vago e zonzo, parecendo a Charlie que ela iria desfalecer de novo, mas as plpebras voltaram a abrir-se. - No... agora 
me lembro... o garanho cinzento... havia uma ravina... um rio.-* uma coisa... - Uma coisa, tudo bem. Uma coisa que alterara toda a sua vida.
- Sim. No interessa. j passou. -Porque  que estou aqui?
- Para poderes recuperar. - Continuavam a falar baixa
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nho; Charlie sorriu-lhe e pegou-lhe carinhosamente na mo. Nunca sentira tanta felicidade ao v-la como naquele preciso
momento.
-Posso ir para casa? - O tom de voz era acrianado; voltou a fechar os olhos.
-Ainda no.
- Quando? Amanh?
- Veremos. - Amanh... Seriam- vrias centenas de amanhs, mas Charlie no conseguiu sentir pena. Estava extremamente feliz por ela ter conseguido recuperar. Estava 
viva e consciente, era um bom sinal.
-No telefonaste  minha me, pois no? - Sam olhou-o com ar desconfiado e Charlie abanou a cabea
sonolento e
de pronto.
- Claro que no - mentiu.
- ptimo. O marido  um idiota.
Charlie sorriu, entusiasmado com aquele pequeno arremedo de conversa; em seguida, apareceu a enfermeira e fez-lhe sinal.
- Tenho de ir, Sam. Mas volto amanh. Est bem, querida?
Sam esboou um sorriso afvel, fechou os olhos e voltou a adormecer. Quando regressou ao hotel, Charlie telefonou a Mellie e disse-lhe que Sam recuperara, finalmente, 
a conscincia.
- O que  que isso significa? - Mellie parecia estar ainda extremamente preocupada, mas Charlie estava eufrico com a novidade.
- No sei, querida. Mas pensei que amos perd-la.
Mellie concordou do outro lado - Tambm eu.
um
agora
ela est bem. Pensei...
da linha.
arre
Charlie permaneceu em Denver durante mais duas sema%. Ento, Mellie e Harvey comearam a pression-lo para que voltasse para casa. Sabia que tinha de o fazer e sentia 
imensas saudades de Mellie e dos midos, mas no gostava da
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ideia de abandonar Sam. Estava ciente de que no poderia ficar em Denver mais trs meses. Porm, nessa noite, enquanto tentava mentalizar-se para fazer a reserva 
de avio para esse fim-de-semana, teve uma ideia. Na manh seguinte, esperou pelo mdico  porta do gabinete e apresentou-lhe, com ar nervoso, o seu plano.
- O que  que acha, doutor?
- muito arriscado. Acha que vale a pena? Porque  que  to importante lev-la para Nova Iorque?
- Porque ela tem os amigos l. No conhece ningum aqui.
- E os seus pais? No poderiam vir para c? Charlie olhou para o mdico com um ar inexpressivo depois lembrou-se de que continuava a representar o papel de irmo 
de Sam; abanou a cabea.
- No. Andam em viagem pela Europa, e julgo que no espao de um ms no consigo entrar em contacto com eles. - Charlie sabia que se tivesse de entrar em contacto 
com a famlia dela, bastaria telefonar para o escritrio do padrasto de Sam, mas era inflexvel relativamente a essa questo. Sam no queria que ele telefonasse 
 me. - S no quero deix-la aqui sozinha e eu tenho de voltar.
- Compreendo. - O mdico ficou com um ar pensativo. - Sabe que ela ficaria em boas mos.
-Eu sei. - Charlie lanou-lhe um olhar amvel. Mas... agora... logo que ela se d conta do estado em que se encontra, vai precisar de toda a gente que tiver.
O mdico concordou com a cabea.
- No posso dizer o contrrio. Agora ela no corre qualquer perigo, desde que a mantenhamos em completa imobilidade e tenhamos cuidado para que no apanhe uma pneumo
nia. - Esse era ainda o grande perigo, e suspensa como estava, com o corpo engessado preso a uma enorme mquina, o "espeto" como ela lhe chamava, viravam-na, como 
frango a assar, vrias vezes por dia. Sam, porm, ainda no estava ciente das implicaes do que acontecera, e o mdico no lhe queria dizer nada at ela estar mais 
forte. Achava que, por enquanto, no havia necessidade. - H um problema Peterson. Quando ela souber, e esse dia no tarda, vai precisar
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de todos vs. No lhe posso esconder o problema eternamente. O acidente foi s h duas semanas. Mas ela j est mais lcida e em breve acabar por fazer dedues. 
Quando verificar que nunca mais voltar a andar, vai ser muito traumatizante para ela. Gostaria de t-lo aqui.
Ou de t-la l. O que  que acha?
- A sua empresa consegue fretar um avio? Acha que eles fariam isso?
-Claro. - Charlie telefonara a Harvey essa manh e Harvey dissera-lhe para no poupar nas despesas. - Uma enfermeira, um mdico, qualquer tipo de aparelho que seja 
necessrio. Faam o que tiverem de fazer que ns pagamos.
- Est bem - anuiu o mdico com um ar pensativo -, est bem. Se o estado dela no se alterar nos prximos dias, trato das coisas e mandamo-la de avio para Nova 
Iorque este fim-de-semana.
- O doutor tambm vir?
Charlie fez figas e o mdico assentiu com a cabea. - Aleluia! Obrigado, doutor!
O mdico sorriu e Charlie apressou-se a ir dar a novidade a Sam.
- Vais para casa, mida.
-Vou? Posso ir-me embora? - Sam ficou perplexa e emocionada. - E o meu espeto? No vamos pagar mais pelo excesso de bagagem? - Embora ela estivesse a brincar, Charlie 
viu que ficara nervosa perante a perspectiva de abandonar o hospital. Comeava a compreender o perigo que correra, apercebendo-se de que ainda no estava totalmente 
fora dele. A nica coisa que no entendia tinha a ver com as pernas. Mas entenderia. Charlie arrepiava-se s de pensar. Enquanto estivesse engessada, no daria por 
nada.
-Vamos levar o espeto connosco. O Harvey disse que podemos fretar um avio - comentou Charlie, ao mesmo tempo que esboava um amargo sorriso.
- Mas isso  uma loucura, Charlie. Ser que eles conseguem manter-me direita com muletas ou coisa parecida, ou, na pior das hipteses, porem-me numa cadeira de rodas 
com o o corpo engessado e meterem-me num avio de regresso a casa?
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- S se me der um colapso cardaco. Olha, Sam, o que  facto  que conseguiste ultrapassar uma situao menos boa Por isso, porqu correr riscos? Porqu no ires 
para casa com estilo?
- Um voo charter? - Sam pareceu hesitante, mas acabou, por esboar um sorriso de concordncia.
- Claro que iremos ter em considerao teu estado nos prximos dias.
-Estar tudo bem. Quero sair daqui. - Sam esboou um sorriso amarelo. - S quero ir para casa, para a minha cama.
Charlie percebeu, com alguma emoo, que por "casa" ela entendera o seu apartamento, quando ele quisera referir-se a Nova Iorque. Mencionou este facto ao mdico, 
que o tranquilizou.
- Receio que ainda v enfrentar muitas coisas desse gnero, Mister Peterson. A mente humana  uma coisa maravilhosa. S aceita aquilo que entende. O resto fica armazenado 
at ser inteligvel. Algures, nas profundezas da sua psique, ela sabe que ainda se encontra muito doente para ir para casa, mas ainda no est preparada para, aceitar 
esse facto. Quando estiver, ela aceitar, no vai ser ncessrio ningum dizer-lhe nada. Pelo menos, ainda no. Podemos discutir essa pequena questo no aeroporto 
de Nova Iorque se houver necessidade. Mas ela entender quando estiver preparada, tal como lidar com o facto de nunca mais poder andar. Um dia, toda a informao 
que j possui ficar no seu lugar e ela, ento, saber.
- Como  que pode ter tanta certeza que ela entender? sussurrou Charlie.
Houve uma ligeira pausa antes de o mdico responder. -No tem alternativa.
Charlie meneou lentamente a cabea. - Acha que conseguiremos lev-la?
- Mais cedo ou mais tarde - respondeu o mdico calmamente.
Refiro-me a este fim-de-semana. -Teremos de ver - O mdico sorriu e desapareceu para fazer as suas visitas.
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Os dias seguintes pareceram interminveis, e Sam ficou subitamente impaciente, nervosa, agitada. Queria ir para casa, mas estava a ter problemas. O gesso comeava 
a provocar-lhe irritao, tinha alguma tosse e uma exantema nos braos por causa de alguns medicamentos, sentindo uma comicho horrvel no rosto, agora que todas 
as crostas estavam secas e a
cair.
- Meu Deus, Charlie, pareo um monstro! - Mostrou-se irritada pela primeira vez desde que estava no hospital e, quando entrou no quarto, Charlie teve a impresso 
de que tinha os olhos vermelhos.
-No acho. Ests com um ptimo aspecto. H novidades?
- Nada. - Exibia um ar taciturno e Charlie observou-a enquanto andava despreocupadamente pelo quarto. j no estava nos cuidados intensivos, mas tinha um pequeno 
quarto, praticamente todo ocupado pela cama; no canto encontrava-se uma mesa coberta de flores, de Henry e de jack, o amante, do resto da equipa, outro ramo de Harvey 
e ainda outro de Mellie e dele.
- Queres ouvir umas novidades do escritrio?
- No. - Sam estava deitada, coberta de gesso, os olhos fechados, e Charlie fitou-a, rezando para que ela no ficasse maldisposta. S ao fim de muito tempo  que 
voltou a abrir os olhos. Quando os abriu estava com um ar irado, e Charlie reparou que havia novamente lgrimas nos seus olhos.
- O que  que se passa, querida? V l, diz ao pap. - Sentou-se numa cadeira ao lado da cama e pegou-lhe na mo.
- A enfermeira do turno da noite... a que tem aquela engraada cabeleira ruiva... - As lgrimas comearam a correr-lhe lentamente pelo rosto. - Disse que quando 
eu for para casa... -- Sam conteve um soluo e apertou a mo do amigo com mais fora; enquanto ela o fazia, Charlie sentiu uma enorme satisfao. - Ela disse que 
no vou para casa... que vou para outro hospital... em Nova Iorque... Oh, Charlie,  verdade? - gemeu ela, como uma criana pequena.
Charlie olhou para ela, com vontade de a abraar, tal co
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mo fazia com os filhos, mas no havia maneira de passar os braos pelo enorme volume de gesso, ou pela mquina adjacente; a nica coisa que conseguia fazer era pegar-lhe 
na mo e fazer-lhe uma festa no rosto. Sabia que chegara o momento de lhe contar a verdade.
- Sim, querida,  verdade.
- Oh, Charlie, quero ir para casa. - Soluou, angustiada, e estremeceu perante a dor.
- No faas isso, tonta, magoas-te, mas faz-te bem chorar. Tem calma. - Tentou anim-la, mas no seu ntimo sentia-se triste com o que estava a acontecer. Para Sam, 
era o incio de uma estrada longa e dificil que comeara a percorrer. A sua antiga vida acabara num pice, s patas de um cavalo cinzento. - V l, Sam, o regresso 
a Nova Iorque ser um passo na direco certa, no achas?
-Acho que sim.
- Sem sombra de dvida.
-Sim, mas quero ir para casa. No quero ir para um hospital.
- Bem... - Charlie sorriu. - Pelo menos, sabemos que no ests louca. Mas tens de ir para um hospital durante uns tempos. Poderei visitar-te, assim como a Mellie, 
o Harvey e qualquer pessoa que queiras...
- A minha me, no! - Sam revirou os olhos e riu-se por entre as lgrimas. - Oh, merda, Charlie, porque raio  que isto teve de me acontecer? - O sorriso desvaneceu-se 
e as lgrimas recomearam a cair.
Durante um longo instante, Charlie manteve-se sentado, a mo dela nas suas; ento, disse a nica coisa que sabia. - Adoro-te, Sam. Todos te adoramos. E estamos aqui 
a teu lado.
- s um bom amigo e tambm te adoro. - Aquelas palavras fizeram-na chorar ainda mais, mas a enfermeira chegou com o almoo.
-Ouvi dizer que nos vai deixar, Miss Taylor.  verdade?
- Estou a tentar. - E sorriu para Charlie. - Mas voltarei. Pelos meus prprios meios, apenas de visita. - Fao votos para que sim. - A enfermeira
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abandonou o quarto, ao mesmo tempo que Charlie soltava um suspiro de alivio. Por instantes, receara que ela desse a entender algo quando Sam dissera "pelos meus 
prprios





meios".
-Portanto - olhou para Charlie, enquanto comia um pouco de sopa -, quando  que vamos para casa?
- Serve-te sbado, ou tens outros planos? - Charlie sorriu-lhe, imensamente feliz. Ela estava a.. esforar-se. Oh, meu Deus, ela estava a esforar-se.
- No. Sbado est bem. - Sorria ao olhar para ele, e Charlie no conseguiu evitar pensar que o mdico tinha razo. Quando estivesse preparada para saber alguma 
coisa, ela saberia. A nica questo consistia em saber quando estaria preparada para encarar a verdade. - Sim, sbado parece-me bem. Para que hospital vou, Charlie?
-No sei. Tens alguma preferncia? -Tenho por onde escolher?
- Vou ver.
- Experimenta o Lenox Hill. Fica num bairro simptico e perto do metropolitano. Assim, toda a gente que quero ver poder visitar-me. - Sam esboou um meigo sorriso. 
- Talvez at a Mellie. Achas que ela pode trazer a beb?
Havia lgrimas no rosto de Charlie quando fez o gesto afirmativo com a cabea.
-Escondo-a por baixo do casaco e digo-lhes que  tua. -Ela  uma espcie de... tu sabes... - Sam pareceu embaraada. - Uma espcie de... Afinal de contas, tem o 
meu nome.
Charlie dobrou-se e beijou-a na testa; no mais poderia oferecer-lhe como resposta, sem se desfazer em lgrimas.
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Charlie conteve a respirao quando o avio descolou do aeroporto de Denver, no sbado de manh. Tinham o cirur gio ortopedista com eles, assim como um jovem mdico 
interno, duas enfermeiras, uma unidade de cuidados intensivos e oxignio suficiente para os soprar todos para a Amrica do Sul;. Samantha estava ligeiramente sedada, 
com um ar extremamente calmo, contente por voltar para casa. O mdico pa_ recia estar satisfeito com o seu estado de sade e tomara is providncias necessrias relativamente 
ao Hospital Lenox e  ambulncia que os aguardaria no aeroporto quando chegassem. Alm disso, tinham autorizao especial de voo e todos os sectores de controlo 
areo sabiam da sua presena. Se Sam precisasse subitamente de assistncia, poderiam fornecer-lha em pleno ar e, alm disso, possuam autorizao para aterrar em 
qualquer ponto da roa ao primeiro sinal. Fora tudo pensado, s faltava agora voarem em segurana at Nova Iorque.
Estava um dia soalheiro de Agosto e Sam s falava no regresso a casa. Encontrava-se um pouco zonza, devido ao sedativo que lhe haviam dado, solava risadinhas e dizia 
piadas de mau gosto, de que toda a gente ria, excepto Charlie, que tinha os nervos esfrangalhados. Sentia, uma vez mais, a responsabilidade sobre os seus ombros, 
e sabia que se algo corresse mal a culpa seria sua, No deveria ter feito qualquer tipo de presso, deveria t-la deixado em Denver. O mdico deu com ele, a meio 
do voo, de olhos 'fixos numa janela da cauda; interrompeu-o com uma palmadinha no ombro e falou em voz baixa, para Sam no ouvir, caso acordasse.
-Est tudo a correr bem, Peterson. j falta pouco. E~ est ptima.
Charlie voltou-se e sorriu para o mdico.
-Ela est a conseguir aguentar-se... e eu? Acho que envelheci vinte anos nas ltimas duas semanas.
-  uma experincia penosa tanto para ela como para a famlia. - O mais engraado  que Charlie nem sequer era da famlia, mas era amigo. T-lo-ia feito por qualquer 
pessoa,
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pelo seu cunhado, por Harvey, por... Sam... Teria ficado mais outro ms  sua cabeceira se fosse necessrio Sentia tanta pena dela. Como iria ser a vida dela... 
agora? No tinha ningum, nem marido, nem namorado, nem o maldito cowboy que a abandonara e que ela nem sequer sabia onde se encontrava. Quem  que tinha para cuidar 
dela? Ningum. Pela primeira vez, desde h muito tempo, Charlie deu consigo a detestar John Taylor. Se o sacana estivesse ao lado dela, como um marido decente, Sam 
no estaria sozinha naquele momento. Mas estava. Era esse o verdadeiro drama. O mdico observava-o enquanto ele reflectia e deu-lhe um ligeiro aperto no ombro.
- No a proteja em excesso, Peterson. Seria um erro terrvel. Quando chegar a altura, ela ter de depender s de si, por assim dizer. No  casada, pois no?
Charlie abanou a cabea.
-No, j no . Era o que eu achava. Vai ser muito duro.
-Ser durante uns tempos. Mas vai acabar por se habituar. Os outros tambm se habituam. Pode fazer uma vida normal. Pode ajudar-se a si prpria, ajudar os outros 
e voltar ao trabalho. A menos que seja danarina de sapateado, no deve fazer muita diferena, excepto psicologicamente.  a que surgem os problemas. Mas s vo 
deix-la sair do Lenox Hill quando estiver boa, tanto do ponto de vista fisico como psicolgico. Vo ensin-la a cuidar de si, a ser independente. Vai ver.  uma 
mulher jovem e bonita, forte e com um esprito admirvel, no h razo para no se adaptar. - Ento, com um ltimo toque no ombro de Charlie, sorriu. - Tomou a deciso 
correcta... de ambas as vezes. Teria sido um crime no a operar, perder aquele esprito; ela deve estar em Nova Iorque, rodeada de rostos familiares.
Obrigado por dizer isso - agradeceu Charlie com um olhar de gratido.
O mdico no disse nada. Limitou-se a dar uma palmadinha no ombro de Charlie e foi dar uma olhadela a Sam. Duas horas depois, aterraram no Aeroporto Kennedy.
e a operao de transferncia para a ambulncia correu na perfeio. Uma unidade de cuidados intensivos e trs paramdi
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cos acompanharam-na na viagem para o hospital. Com as lu zes a piscar, mas com as sirenas desligadas, percorreram auto-estrada a toda a velocidade. Meia hora depois, 
chegar ao Lenox Hill, sem problemas.
Sam sorria para Charlie quando entraram na ltima etapa da viagem.
-  mais rpido assim, sem as complicaes para levantar a bagagem e sem txis.
- Olha, da prxima vez - pediu Charlie, a sorrir para ela -, faz-me um favor. Arranja-me uma pequena complicao com a bagagem e apanhamos um txi.
Sam sorriu, mas logo que chegaram ao Lenox Hill, andou numa azfama. Levaram mais de duas horas a tratar da papelada e a instal-la confortavelmente num quarto individual, 
O mdico ajudou a tomar todas as providncias, encontrando-se depois com o novo mdico, que estivera a aguardar a chegada de Sam, graas a Charlie, uma vez mais. 
Quando tudo terminou, Sam, Charlie e o mdico de Denver estavam exaustos. O resto dos elementos do grupo foi dispensado. Tinham sido pagos antes da viagem e voltariam 
a Denver mais tarde, nesse dia. O mdico iria passar algum tempo em Nova Iorque, no Lenox Hill, a acompanhar a evoluo do estado de sade de Sam, e regressaria 
a Denver num avio comercial.
-Achas que vais ficar bem, Sam? - Charlie olhou-a com um sorriso cansado, enquanto lhe davam uma injeco e comeava quase instantaneamente a dormir.
-Sim, querido... claro... vou ficar bem... d beijinhos meus  Mellie... e obrigada...
Cinco minutos depois, Charlie encontrava-se no elevador com o mdico; em seguida, apanhou um txi e, dez minutos mais tarde, estava na Rua 81 Este, abraado  esposa.
- Oh, querida... oh, querida... - Charlie teve a sensao de ter voltado de uma zona de guerra; de repente, deu-se conta das enormes saudades que sentira e do seu 
estado de
exausto. A tragdia de Sam e a responsabilidade que assumiu por ela constituam um pesado fardo para si e at agora no conseguira deixar de pensar nisso; de sbito, 
naquele momento, o nico desejo que tinha era o de fazer amor com a mulher. Esta contratara uma baby-sitter para estar com os filhos;
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depois de todos eles terem atacado o pai e brincado com ele, deixando-o de rastos, Mellie enxotou-os para a baby-sitter,fechou a porta do quarto, ps a gua do banho 
a correr, fez-lhe uma massagem e fizeram amor, antes de Charlie lhe sorrir, com ar ensonado, e adormecer. Mellie acordou-o duas horas depois com o jantar, champanhe 
e um bolo que ela
fizera e que dizia "Amo-te. Bem-vindo a casa." - Oh, Mellie, amo-te tanto!
- Tambm te amo. - Ento, enquanto comiam Achas que devamos telefonar a Sam?
Charlie abanou a cabea; dera-lhe tudo o que tinha a dar durante uns tempos. S desta vez, s esta noite, queria estar com Mellie, sem pensar no horrvel acidente, 
no cavalo cinzento, em Sam coberta de gesso, no "espeto" ou no facto de ela nunca mais voltar a andar. O seu nico desejo era estar com a mulher, fazer amor com 
ela, at cair nos seus braos e desfalecer, o que aconteceu depois da meia-noite, com um sonolento gemido e um largo sorriso.
- Bem-vindo a casa - murmurou Mellie, quando o beijou no pescoo e apagou a luz.
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- Me, estou bem... no seja tonta... no h razo para; c vir.... Oh, por amor de Deus... sim, claro que estou engessada, mas estou bem aqui. No, no quero ser 
transferida para
Atlanta, fui transferida de Denver para aqui h apenas trs semanas, j chega... Porque  a minha casa, me. No conheo ningum em Atlanta. Sim, claro, tenho-a 
a si e ao George". Me... agora... me... por favor! No estou ressentida com ele... - Sam revirou os olhos para Melinda quando esta entrou no quarto do hospital 
e fez uma careta horrvel para o auscultador: -  a minha me - disse baixinho para Melinda, que sorriu. - A srio, me, o mdico  maravilhoso, gosto dele... Sei 
que  competente.,.. tenho a certeza... V l, me. No insista. Estou ptima, depois telefono-lhe. Pode telefonar-me. Quando me sentir capaz, vou at Atlanta... 
No sei quando posso ir para casa... depois digo-lhe. Prometo... no, me, tenho de desligar... A enfermeira est  espera... No, no pode falar com ela... Adeus, 
me. - Sam desligou e murmurou: - Ol, Mellie. Meu Deus, o que  que eu fiz para ter de aturar a minha me?
-Ela est apenas preocupada contigo, Sam.
- Eu sei. Mas d comigo em doida. Quer vir visitar-me. Com o George, que quer falar com o meu mdico e voltar o hospital de pernas para o ar. Diz-me, que contributo 
 que
um otorrinolaringologista da Jrgia pode dar para a minha coluna fracturada? - Mellie sorriu. - Como  que ests? -Bem. E tu?
- Chateada? Quero ir para casa. - O que  que eles dizem?
- Uma tolice qualquer, para eu ter pacincia. Como  que est a minha homnima? - Sam sorriu ao pensar na Pequena Sam.
- Maravilhosa. - Mellie sorriu tambm. - Faz mais coisas com dois meses do que qualquer dos midos com quatro.
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-  do nome - asseverou-lhe Sam com um sorriso. - Mas evita que ela arranje problemas com cavalos. - Mellie no respondeu e Sam murmurou: - Quem me dera saber quanto 
tempo  que vou ficar aqui presa.
Mellie, porm, suspeitava que ela no queria saber. Charlie dissera-lhe que Sam ficaria no hospital provavelmente durante um ano.
Sam tinha visitas de toda a gente, inclusive de Harvey, que se sentou, com ar nervoso, na beira da cadeira, a passar os dedos pela aba do chapu e do cachimbo, a 
fitar o corpo de Sam todo engessado, em cima da cama.
- No estejas to tenso, por amor de Deus, Harvey, no mordo.
- Assinas um documento para esse efeito? - Adoraria.
Harvey esboou um sorriso pesaroso e Sam perguntou-lhe quando  que ele ia ter a inteligncia suficiente para a despedir.
- No posso, Sam. Estou a poupar-te para a minha velhice. Alm disso, j vi as imagens do primeiro anncio da tua grande aventura no Oeste. Sam - Harvey pareceu 
ficar quase sem flego, tal era a admirao que sentia - , se nunca fizeste nada na vida a no ser estar de barriga para o ar a comer chocolates, podes orgulhar-te 
do que fizeste.
- Esto assim to boas? - Sam pareceu perplexa. Geralmente ele no era prdigo em elogios. Ela soubera, por Charlie, que o material estava muito bom.
- Melhor do que isso. Esto soberbas. E dizem que as outras ainda esto melhores. Minha querida, estou estupefacto. Sam olhou-o durante um longo instante e depois 
sorriu-lhe. - Devo estar a morrer, para falares assim.
- A srio. Vou mandar gravar o anncio numa cassete para que possas v-lo antes de ir para o ar. Mas receio que no final disto tudo Miss        Samantha v mesmo
reformar-me e fazer de ti directora criativa.
- No me ameaces, Harvey. - Sam lanou-lhe um olhar furioso. - No quero o maldito do teu lugar, por isso aguenta-te onde ests, se no fico aqui.
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- Que Deus te perdoe.
Harvey vinha v-la uma ou duas vezes por semana, Charlie vinha geralmente  hora de almoo, Henry Johns-Adams j viera visit-la por duas vezes, trazendo-lhe uma 
caixa de divinos chocolates Godiva, e o amigo enviara-lhe uma bonita colcha da Bergdorf, que ela no via a hora de pr na cama quando se livrasse do incmodo gesso. 
E Georgie, o poodle, mandara-lhe um engraado postal e um livro.
Uma semana depois, teve a visita mais indesejada. Apesar dos protestos de que no queria a visita da me, esta chegou de Atlanta acompanhada do marido e fizeram 
o melhor que
puderam para virar todo o hospital de pernas para o ar. Passou vrias horas a tentar convencer Samantha a processar a empresa, que, se no fossem eles e os seus 
anncios ridculos, ela no teria feito a viagem, que era uma actividade perigosa, que eles se estavam nas tintas para ela e que o patro era indubitavelmente um 
louco que se estava marimbando para o facto de ela se ver obrigada a estar de barriga para o ar. Todo aquele chorrilho de asneiras irritou de tal maneira Samantha 
que ela se viu obrigada a pedir-lhe para sair; porm, teve de ceder quando a me se ps a chorar e a dizer que Sam era uma filha cruel e ingrata, decidida a destroar-lhe 
o corao. Foi um encontro cansativo, que deixou Samantha a tremer e lvida; contudo, no dia seguinte foi pior, com a me e George a entrarem no quarto, ostentando 
idnticas expresses fnebres; era evidente que a me estivera a chorar e, mal se sentou, recomeou.
-Meu Deus, me, o que  que se passa? - Sam ficou mais nervosa ainda do que estava s de os ver. Telefonara a Caroline Lord nessa manh para saber o estado de Bill 
e fora informada de que ele tivera outro ataque cardaco, este mais grave do que o primeiro. Presa  cama no Hospital Te- ox Hill, no podia fazer nada para ajudar 
Caro e, de repente, sentiu-se intil e num` beco sem sada. Caro ficara bastante abalada com o acidente. Sam no lhe falou do seu infortnio, pensando que Caro j 
tinha um fardo suficientemente pesado para carregar, mas Charlie, obviamente, j lhe contara. Caro estava preocupadssima. Tal como toda a gente do mundo dos cavalos, 
conhecia os perigos e encontrava-se
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em estado de choque. Obrigou Sam a prometer que voltaria a telefonar-lhe. Caso contrrio, ela prpria telefonaria a Sam quando tivesse um momento livre.
Todos os seus pensamentos deixaram de estar centrados na tia Caro quando encarou a me, que se apresentava, como sempre elegantemente arranjada, com um fato de linho 
azul e uma blusa branca de seda. Calava um bonito par de sapatos e trazia trs fios de prolas e brincos a condizer; embora fosse uma mulher pequena, rolia, de 
sessenta anos, os cabelos ainda eram to belos como os de Sam. Eram brancos como a neve, agora, mas j tinham sido to louros como os da filha. o marido era alto, 
bem-parecido e assemelhava-se mais a um, comandante da marinha do que a um mdico. Ombros largos, corado, com uma grande madeixa branca.
- Oh, Samantha... - lamentou-se a me, enquanto George lhe segurava a mo e se sentava, quase inerte, na cadeira.
- Por amor de Deus, o que  que se passa? - Samantha teve uma sensao estranha, arrepiante, como se algo terrvel estivesse prestes a acontecer-lhe, ou j tivesse 
acontecido. - Oh, Samantha...
- Meu Deus! - Se pudesse, Sam teria gritado ou at batido com os ps no cho. Mas nos ps sentia apenas um formigueiro; estes encontravam-se pendurados como carne 
morta, uma vez que o corpo estava envolto naquilo que parecia cimento. Todas as enfermeiras lhe diziam que era normal ela sentir-se assim visto ter o corpo engessado; 
Sam ficava mais reconfortada, apesar de, por instantes, ter encarado a eventualidade de as pernas estarem paralisadas. - O que  que se passa, rapaziada? - Lanou-lhes 
um olhar irritado e hostil. - Acabem com esse suspense todo!
A me limitou-se a chorar ainda mais. Foi o padrasto que acabou por dar o primeiro passo.
Samantha, tivemos uma longa conversa com o teu mdico esta manh.
Com qual? Tenho quatro.
Sam sentia-se uma adolescente irascvel e insolente ao fit-los con ar desconfiado. S queria que eles se fossem embora e a deixassem em paz.
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O padrasto, porm, era um homem meticuloso.
- De facto, falmos com dois. O doutor Wong e o doutor Josephs. Foram extremamente simpticos. - Olhou para Sam com ar pesaroso; a mulher lanou-lhe um olhar carregado 
de mgoa antes de recomear a soluar.
- Disseram alguma coisa para provocar toda esta histeria? H algo que eu deva saber? - Sam olhou, aborrecida, primeiro para a me, depois para George.
- Sim, h. E, por muito que nos custe, acho que  altura de saberes. Os mdicos esto simplesmente  espera da altura certa. Mas j que estamos aqui... - Parecia 
o incio perfeito para um discurso fnebre, e Samantha teve vontade de olhar em volta para ver quem estava no caixo. Naquele momento, George parecia mais um agente 
funerrio do que um comandante da marinha e tentou olh-la fixamente no rosto. - Agora que estamos aqui, achamos que  altura de saberes. -De saber o qu?
- A verdade.
De sbito, um pequeno despertador tocou algures, perto do corao de Sam. Era como se ela soubesse. Como se soubesse e sentisse exactamente o que iam dizer.
- Oh?. - foi tudo o que proferiu.
- Sim... O acidente... Bem, Sam, fizeste ferimentos graves quando caste. A coluna vertebral foi fracturada com gravidade em dois stios. Foi um milagre no teres 
morrido do choque e dessas fracturas... e no haver leses cerebrais, que eles agora sabem no terem existido.
- Obrigada.  bom ouvir isso. E o resto? - O corao pulsou, mas o rosto manteve-se sereno.
- Como sabes, como em tudo o resto, no tiveste muita sorte, ou no ficarias aqui toda engessada - murmurou George; aps uma pausa, continuou: - O que tu no sabes... 
e ns achamos que deves saber, tal como os mdicos,  que--est na altura de saberes, minha querida. O que tu no sabes, Samantha,  que... - Hesitou uma fraco 
de segundo, antes de abrir as comportas da barragem. - Agora... agora, ests paraplgica.
O silncio instalou-se por instantes e Sam fitou-o - O que  que quer dizer com isso, George?
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-- Que nunca mais voltars a andar. Conservars toda a sensibilidade do torso superior, dos braos, dos ombros, etctera, mas a leso mais grave  ao nvel da cintura. 
V-se perfeitamente na radiografia - explicou com ar profissional. - ])a para baixo, nada. Podes ter alguma sensao, como suponho que j tenhas, mas mais nada. 
No ters certamente nenhum controlo muscular, nem nenhuma capacidade de utilizao das pernas. Ters, naturalmente,. de andar numa cadeira de rodas. - Ento, desferiu 
o golpe final: - Mas, como  bvio, a tua me e eu resolvemos, esta manh, que virs viver connosco.
- No, no irei! - Foi um grito de pnico, e tanto a me como o padrasto ficaram perplexos.
- Claro que irs, querida. - A me estendeu uma mo e Sam encolheu-se como um animal ferido que quer desesperadamente fugir; lanou-lhe um olhar feroz. No tinham 
o direito de lhe dizer aquilo. No era verdade... no podia ser... ningum lhe dissera... mas sabia, ainda antes de ouvir, que era essa a realidade, a triste realidade 
que estivera a esconder desde o momento em que recuperara a conscincia em Denver. Fora a nica coisa que ningum lhe dissera.  excepo daquelas duas pessoas. 
Tinham vindo ali para lho comunicar, como se fosse essa a sua misso, e ela no estava interessada em ouvi-los.
- No quero, me. - Sam falava de dentes cerrados, mas eles recusaram-se a perceber.        .
- Mas j no consegues tomar conta de ti, querida. Estars to indefesa como um beb. - A me pintara-lhe um quadro que a levava a desejar morrer.
-No vou! No vou! Bolas... Mato-me primeiro! - Sam estava aos gritos.
- Samantha! Como  que te atreves a dizer tal coisa? - Mato-me, sim, se me apetecer, bolas! No ficarei reduzida a esta vida,  vida de uma aleijadinha. E no quero 
sentir-me to indefesa como um beb, a viver em Atlanta, com os pais, aos trinta e um anos. Como  que isto me foi acontecer, bolas... No podia ter acontecido, 
no vou deixar que acontea.
A me ficou incapaz de reagir, enquanto George ps o
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seu ar mais profissional e tentou acalm-la; Sam desatou a gritar com mais fora. Os olhos da me viraram-se para o marido e imploraram-lhe que sassem.
- Acho que devamos falar sobre isto mais tarde... _ Encaminharam-se lentamente em direco  porta. - Precisas de algum tempo para ti, Samantha, para te adaptares... 
Temos muito tempo para discutir o assunto, no nos vamos embora amanh, e os mdicos acham que no ters alta antes de Maio ou junho.
- O qu? - Foi um gemido de dor.
- Samantha... - Por instantes, a me ameaou aproximar-se da cama, mas Sam reagiu com rispidez.
- Saiam daqui, por amor de Deus... por favor... - Comeou a soluar descontroladamente. - Vo-se embora... - Eles assim fizeram e, de sbito, ficou s, no quarto 
vazio, com o eco das suas palavras. Uma enfermeira deu com ela, meia hora depois, a tentar cortar os pulsos com a borda de um copo de plstico.
Os ferimentos que provocou foram suturados com alguns pontos, mas o mal que a me e o padrasto lhe fizeram levou vrios meses a sarar.
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- Como  que vai isso, mida? - Charlie sacudiu a neve do colarinho, tirou o casaco e atirou-o para cima de uma cadeira. Tinha neve na barba e no cabelo. - Ento? 
- Olhou-a com ar expectante e ela encolheu os ombros.
- Do que  que estavas  espera? Que estivesse sentada na cadeira com um tutu cor-de-rosa e fizesse um arabesco quando entrasses?
- Oh, ests com uma excelente disposio! -Vai foder.
Charlie olhou para o relgio com uma expresso pensativa. - Gostava muito, mas a Mellie tem uma reunio da PTA e, na realidade, no tenho tempo. Vou encontrar-me 
com um cliente s duas.
- Muito engraado.
-No posso dizer o mesmo de ti.
- Sabes, j no tenho graa.  a vida. Tenho trinta e um anos e sou uma deficiente numa cadeira de rodas. No  engraado, nem divertido, nem bonito.
- No, no , mas tambm no  to deplorvel como queres dar a entender. - H trs meses e meio que a via assim, desde que o idiota do padrasto lhe dera a notcia. 
J no tinha gesso, usava um apoio para as pernas e andava de um lado para o outro na cadeira de rodas. Mas agora vinha a parte mais dificil: os complicados meses 
de fisioterapia em que ela aprenderia, ou no, a viver com a deficincia. - No h-de ser assim to mau, Sam. No hs-de ser uma "aleijadinha indefesa", como diz 
a tua me.
-No? Porque no? Vais fazer outro milagre e devolver-me o controlo sobre as minhas pernas? - Bateu-lhes com os punhos como se fossem de borracha.
- No, no posso fazer isso, Sam. - Charlie falou num tom meigo mas firme. - Mas controlas a mente, os braos, as mos e... - Sorriu. - E a boca. Podes fazer muitas 
coisas com isso tudo, se quiseres.
 mesmo? O qu, por exemplo?
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Naquele dia, Charlie estava preparado.
-Por acaso, Miss Espertalhona, hoje trouxe-te um presente do Harvey.
- Mais uma caixa de chocolates de algum e eu grito. Parecia uma criana petulante e no a Sam que ele conhecia. Mas ainda existia esperana de que ela se adaptasse. 
Os mdi
cos haviam dito que muito provavelmente acabaria por cair em si. Era uma adaptao enorme para qualquer pessoa e especialmente para uma jovem bonita e activa como 
Sam.
- Ele no te mandou chocolates, mida. Mandou-te trabalho. - Por instantes, Charlie viu uma expresso de surpresa nos olhos de Sam.
- O que  que queres dizer com isso: "Ele mandou-me trabalho"?
-Isso mesmo. Ontem, falmos com os teus mdicos e eles disseram que no h nenhuma razo para que no possas trabalhar aqui. Trouxe-te um ditafone, canetas, papel, 
trs dossiers a que o Harvey quer que ds uma vista de olhos... Preparava-se para continuar a falar, quando Sam fez girar a cadeira de rodas e se afastou. .
-Por que diabo faria eu isso? -- perguntou num tom rspido.
Charlie considerava que aquele jogo j estava a ir longe de mais.
Porque ests h muito tempo de rabo para o ar! Porque s inteligente, porque podias ter morrido e no morreste! Portanto, no desperdices o que tens, - Parecia zangado 
e Sam estava mais calma quando voltou a falar.
-Por que razo havia eu de fazer alguma coisa pelo Harvey?
- Por que razo havia ele de fazer alguma coisa por ti? Porque razo havia de te dar cinco meses de frias porque o teu marido te deixou, no se poupando a despesas 
para te tra zer para casa quando tiveste o acidente? Devo lembrar-te que ainda podias estar sozinha em Denver, se no fosse o Harvey! E depois? Por que  que ele 
havia de te dar baixa ilimitada e esperar que voltasses?
-Porque sou boa naquilo que fao,  por isso!
- Estupor! - Era a primeira vez, em meses, que Charli
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se zangava com ela, e soube-lhe bem. - Ele precisa da tua ajuda, bolas! Tanto ele como eu estamos atolados em trabalho. Ests disposta a pr-te boa de novo e a deixar 
de te lastimares, ou no?
Sam ficou calada durante um longo instante, as costas voltadas, a cabea baixa.
- Ainda no decidi. - Articulou as palavras em voz muito baixa e Charlie sorriu.
- Adoro-te, Sam. - Ela voltou-se lentamente para o olhar de frente e, nessa altura, viu lgrimas a correrem pelo rosto.
-Que diabo  que eu vou fazer, Charlie? Onde  que eu vou viver? E como?... Oh, meu Deus, tenho tanto medo de acabar por ir morar com a minha me em Atlanta. Telefonam-me 
todos os dias para me dizer que sou uma aleijadinha indefesa e eu no paro de pensar nisso... que sou...
- No s. No s uma pessoa indefesa. Podes ter de fazer algumas mudanas na tua vida, mas nada de to radical, como ir para Atlanta. Meu Deus, davas em maluca. 
- Sam fez um gesto triste de concordncia com a cabea e Charlie pegou-lhe no queixo. - A Mellie e eu no 'deixaremos que isso acontea, nem que tenhas de vir morar 
connosco.
Mas eu no quero estar dependente de ningum, Charlie. Quero cuidar de mim prpria.
-Ento, cuida. No  isso que esto a ensinar-te? Sam fez um ligeiro gesto afirmativo com a cabea. -. Mas leva a vida toda.
-Quanto tempo  a vida toda? Seis meses? Um ano? Algo parecido com isso.
-No achas que vale a pena s para no teres, de ir viver para Atlanta?
- Acho. - Sam limpou as lgrimas com  elegante casade pijama. - Para isso, nem que levasse cinco anos. - Ento, f-lo, aprende o que tens a aprender, volta para
o teu mundo e faz aquilo que tens de fazer, Sam. Entretanto.,. - Charlie sorriu-lhe e olhou para o relgio. - Entretanto, faz-me um favor e l esses dossers e esses 
memorandos. F-lo pelo Harvey.
-No  "pelo Harvey". Vocs os dois so uns sacanas.
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Eu sei o que esto a fazer, mas vou tentar. D-lhe um beijo meu.
-Ele tambm te mandou um. Disse que vinha c amanh. - Diz-lhe para no se esquecer dos meus Mickey Spillanes. Sam e Harvey eram viciados em livros policiais e ele 
mandava-lhe exemplares para se entreter.
- Oh, meu Deus... vocs os dois. - Charlie enfiou-se a custo no pesado sobretudo, calou as galochas, puxou o colarinho para cima e disse-lhe adeus da porta.
- Adeus, Pai Natal. D beijinhos  Mellie.
- Sim, chefe. - Fez a continncia e desapareceu. Durante muito tempo, Sam ficou de olhos fixos nos dossiers, sentada na sua cadeira. Era quase Natal e pensara em 
Tate toda a manh. S passara um ano desde que estivera no Rancho Lord e que Tate fizera de Pai Natal para os midos. Fora nessa altura que Sam comeara a conhec-lo 
melhor e, que a relao se iniciara. No dia de Natal, ele levara-a para a cabana secreta. Pensar nele, fez com que revivesse tudo outra' vez, e sentiu o mesmo sofrimento, 
h muito conhecido, quando se ps a imaginar para onde  que Tate teria ido. Falara com Caroline nessa manh. Bill tivera um ligeiro ataque cardaco depois do dia 
de Aco de Graas e, nos ltimos meses, s tinha piorado. Por entre os tristes relatos de Caro, Sam detestava incomod-la com perguntas acerca' de Tate Jordan, 
mas acabava sempre por fazer e, como de costume, no havia novidades. Caroline estava terrivelmente deprimida por causa do estado de sade de Bill. Contratara um 
novo capataz, um homem jovem com mulher e trs filhos, que parecia estar a fazer um bom trabalho. E, como sempre, Caroline encorajava Sam a continuar. A fisioterapia 
era para Sam o trabalho mais duro da sua vida e perguntava a si prpria se valeria a pena: fortalecer os braos para poder balanar-se, quase como um macaco, sentar-se 
e sair da cadeira, deitar-se e sair da cama, sentar-se no bacio e levantar-se... tudo aquilo de que precisava para poder viver s. Se cooperasse, o pessoal trein-la-ia 
para ser totalmente independente. Sam recusara qualquer tipo de ajuda - sentia, no ntimo, que no valia a pena - mas, nesse momento, achava que era importante continuar. 
Charlie tinha razo. Sobrevivera, razo mais do que suficiente para continuar.
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O dia de Natal foi um feriado difcil para Sam. Harvey Maxwell, Charlie, Mellie e os midos apareceram. A enfermeira deixou-os entrar a todos e Sam chegou a pegar 
na beb, que agora estava com quase cinco meses e mais bonita do que nunca. Depois de todos terem partido, Sam sentiu-se extraordinariamente s. No final da tarde, 
pensou que no iria aguentar aquela situao; saiu do quarto e foi at ao fundo do corredor, desesperada. Ento, encontrou um rapazinho numa cadeira de rodas como 
a sua, sentado  janela, com um ar triste, a olhar fixamente para a neve.
- Ol, chamo-me Sam. - Sentiu o corao destroado, e ele virou-se para ela. No devia ter mais de seis anos, os olhos inundados de lgrimas.
-Nunca mais posso brincar na neve. -Nem eu. Como te chamas?
- Alex.
- O que  que te deram no Natal?
- Um chapu de cowboy e um coldre. Mas tambm no posso andar a cavalo.
Sam abanou ligeiramente a cabea e, de repente, pergun
tou:
- Porque no?
Alex olhou para Sam como se ela fosse muito estpida. - Porque estou nesta cadeira, palerma. Fui atropelado quando andava de bicicleta e agora tenho de ficar nesta 
coisa para sempre. - Olhou para Sam com curiosidade. - E tu? -Ca de um cavalo no Colorado.
- A srio? - Olhou para Sam com ar interessado e ela esboou um largo sorriso.
- A srio. E vou dizer-te uma coisa: aposto que ainda consigo montar e tu tambm. Uma vez vi um artigo numa revista que mostrava pessoas como ns a cavalo. Acho 
que tinham selas especiais, mas conseguiram.
- Tambm tinham cavalos especiais? - Parecia encantado com a ideia e Sam sorriu e abanou a cabea.
-Acho que no. S bonzinhos.
-Foi um cavalo bonzinho que te fez cair? - Alex olhou fixamente para as pernas de Sam e depois para a cara.
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- No, no foi um cavalo bonzinho. Mas fui suficientemente palerma para o montar. Era mesmo mau e fiz uma srie de parvoces quando o montei.
,- O qu, por exemplo?
-Andar a galope por todo o lado e correr uma srie de riscos. - Fora, pela primeira vez, honesta consigo prpria, Era tambm a primeira vez que falava do acidente 
sem muita mgoa, o que a surpreendeu. - Gostas de cavalos, Alex? - Gosto muito. Uma vez fui a um rodeo.
- Foste? Eu trabalhei num rancho.
- Mentira! No trabalhaste nada! - Pareceu indignado. As raparigas no trabalham em ranchos.
- Isso  que trabalham. Eu trabalhei.
- Gostaste? - Ainda parecia ter dvidas. - Adorei.
- Ento, porque  que paraste? - Porque vim para Nova Iorque. - Porqu?
- Senti falta dos amigos. - Oh! Tens filhos?
- No. - Sentiu uma dor aguda ao diz-lo e saudades
da pequena Sam.
-Tens filhos, Alex? - Riu-se para ele e Alex soltou uma gargalhada.
- Claro que no. s parva. O teu nome  mesmo Sam? -E. Quero dizer, o nome  Samantha. Os meus amigos chamam-me Sam.
- O meu  Alexander. Mas s a minha me  que me chama assim.
- Queres ir dar uma volta? - Sentia-s inquieta e Alex era uma companhia to boa como outra qualquer.
- Agora?
- Claro. Porque no? Ests  espera de visitas?
-- No. - Por instantes, Alex pareceu triste de novo. Foram agora mesmo para casa. Estava  janela a v-los sair. -Est bem. Ento, porque  que tu e eu no damos 
uma voltinha? - Sam riu-se para ele com um ar travesso, deu-lhe um empurro para o pr a andar e disse  enfermeira
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sentada  secretria que ia levar Alex a dar um passeio. Todas as enfermeiras presentes lhes acenaram, enquanto eles se dirigiam para os elevadores e da para a 
loja de presentes no andar principal. Sam comprou-lhe trs chupa-chupas e umas revistas para si. Depois, decidiram tambm comprar pastilhas e, quando regressaram, 
vinham a fazer bales e a brincar s adivinhas.
- Queres ir ver o meu quarto?
- Claro. - Alex tinha uma rvore de Natal pequenina com alegres decoraes do Snoopy e as paredes estavam forradas com desenhos e cartes dos amigos da escola.
- Qualquer dia, vou voltar para a escola. O meu mdico diz que no tenho que ir para uma escola especial. Se fizer terapia, posso ser quase como as outras pessoas.
- O meu diz o -mesmo.
- Andas na escola? - Alex pareceu intrigado e ela riu-se. - No. Trabalho.
- O que  que fazes?
- Trabalho numa agncia de publicidade. Fazemos anncios.
- Como aqueles que vendem porcarias para os midos na televiso? A minha me diz que as pessoas que os fazem so irespons... irronsveis, uma coisa assim parecida.
- Irresponsveis. Na verdade, eu fao mais anncios para vender porcarias para os adultos, como carros, pianos, btons ou coisas para nos fazerem cheirar bem.
- Bah...
- Pois...
um dia, talvez volte a trabalhar num rancho. Alex fez um ar srio e concordou com a cabea. Parecia-lhe razovel.
- s casada, Sam?
- - No.
- Porqu?
-Acho que ningum me quer - respondeu Sam em tom de gracejo; Alex, porm, assumiu novamente um ar srio e abanou ligeiramente a cabea. - s casado, Alex?
- No. - Riu-se. - Mas tenho duas namoradas.
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- Duas...? - E continuaram a conversar durante horas. Nessa noite, partilharam o jantar, Sam voltou para lhe dar um beijo de boas-noites e lhe contar uma histria. 
Quando regressou ao quarto, Sam sorriu em paz consigo prpria e atacou uma pilha de papis.
29
Alex deixou o hospital em Abril. Foi para casa com a me e o pai, depois voltou para a escola. Mandava uma carta a Sam todas as semanas, contando-lhe que era como 
os outros midos novamente e at ia todos os domingos a um jogo especial de basebol com o pai e outros rapazes em cadeira de rodas. Ditava as cartas  me e Sam 
guardava-as todas numa pasta especial. Comeou tambm a enviar-lhe cartas, pastilhas elsticas, fotografias de cavalos, tudo o que encontrava na loja de presentes 
e que achava que ele iria apreciar. De algum modo, aquela ligao fez com que Sam se sentisse mais forte. Deu-lhe como que um empurro. Mas o verdadeiro teste para 
Sam veio no final do ms, quando o mdico abordou a questo de ela ir para casa.
-Bem, o que  que acha? Pensa que est preparada? - Sam ficou em pnico com a ideia e abanou a cabea. -Ainda no.
- - Porqu?
- No sei... No tenho a certeza se consigo... No estou... Os meus braos no esto suficientemente fortes... - De repente, tinha mil e uma desculpas, mas o mdico 
sabia que aquilo era normal. Sentia-se segura no seu casulo e j no queria sair. Quando a altura chegasse, teriam de a pressionar delicadamente e o Dr. Nolan sabia 
que ela lhes resistiria com todas as foras.
Efectivamente, Sam at j estabelecera uma rotina adequada para o seu caso. Trs horas de exerccio fisico todas as manhs, trs horas de trabalho com papelada do 
escritrio, todas as tardes. Os anncios, j em exibio, haviam conquistado sete novos prmios, entre eles o muito cobiado Clio, e San' comeara a contribuir para 
a campanha com novas ideias. Henry Johns-Adams, o amigo e Charlie estavam prestes a partir para o Oeste, para filmar mais dois anncios.
Uma noite, Sam telefonou a Caroline para tentar, uma vez mais, utilizar o rancho, no intuito de ajudar a amiga a
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desviar a sua ateno do problema de Bill, e sofreu um terrvel choque. Caroline atendeu o telefone e, ao ouvir a voz de Sam, desatou a soluar to violentamente, 
expondo um sofrimento imenso, oriundo das profundezas da alma.
- Oh, Sam... meu Deus... ele morreu... ele morreu. _ Sam no sabia o que dizer. De facto, que palavras proferir? Limitou-se a tentar anim-la. Agora, uns meses mais 
tarde,
Caroline sentia-se completamente perdida sem ele e Sam mostrou-se impotente ao ouvi-la to desolada e prostrada, o esprito exausto e a alma destroada, sem o homem 
que amara tantos anos. Era Sam que agora lhe dava foras para continuar, quem a encorajava.
- Mas no tenho mais ningum, Sam. No tenho razes para viver. Toda a minha famlia est morta... e agora o Bill... - Ainda tens o rancho, a mim e tantas outras 
pessoas que se preocupam contigo.
- No sei, Sam. - Parecia to cansada. - Sinto que a minha vida acabou. J nem quero andar a cavalo. Deixo o novo capataz tomar conta de tudo por mim. Nada tem signi
ficado sem o Bill... - Sam conseguia ouvir as lgrimas na voz de Caroline. - Sinto uma tristeza imensa. - Fizera com que enterrassem Bill no rancho e houvera um 
servio fnebre. Ele levara a sua avante at ao fim. Morrera como capataz do Ranch Lord e no como marido de Caroline, apesar de isso j no ter qualquer importncia. 
Soubessem as pessoas ou no, ambos tinham sido respeitados, e a sua perda fora sentida por muitos que compartilhavam os sentimentos de Caroline por terem perdido 
um bom amigo, mesmo que no soubessem que Bill fora o seu homem.
Claro que ainda no havia notcias de Tate Jordan. Sam j nem perguntava. Sabia que Caro lho diria. Todas aquelas pessoas que contactara, todos aqueles ranchos que 
visitara, todos
aqueles rancheiros e ajudantes com quem falara, ningum a vira, ningum o conhecia. Interrogava-se sobre o seu paradeiro, se era feliz, se se lembrava dela. Agora 
j no valia a pena encontr-lo. Sam no tinha mais nada para lhe dar. Agora era ela que no o deixaria ficar consigo. Seria ela a fugir. Mas no teria de o fazer. 
Tate j partira h um ano.
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Era Primavera quando eles a retiraram cuidadosamente do ninho, apesar dos protestos da me. O mdico deu-lhe alta no primeiro dia de Maio, um esplndido dia quente 
de sol, e Sam foi ver o apartamento pela primeira vez. Tivera de contar, uma vez mais, com Charlie, e Mellie telefonara a uma empresa de mudanas, para lhe empacotarem 
tudo na antiga casa. Sam sabia que no tinha quaisquer hipteses de viver sozinha no antigo apartamento, por causa das escadas; miraculosamente, vagara um no prdio 
de Charlie e Melinda. Ficava no rs-do-cho e tinha um jardinzinho cheio de sol. Iria ser ptimo para Samantha porque no havia escadas, era de fcil acesso e tinha 
porteiro. Exactamente o que o mdico recomendara. Sam dera instrues aos homens das mudanas para porem as moblias segundo o esquema que desenhara e para deixarem 
os caixotes com os seus pertences, que ela prpria os desencaixotaria. Iria ser o primeiro desafio depois de sair do hospital, e era bem grande.
Bufou, arquejou, atacou as caixas, suou e, uma vez, at chegou a cair da cadeira ao tentar pendurar um pequeno quadro na parede. Mas levantou-se, pendurou-o, retirou 
tudo das caixas, fez a cama, lavou a cabea, tal como lhe haviam ensinado. Na segunda-feira de manh, sentia-se to vitoriosa que, quando apareceu no escritrio, 
de camisa e camisola de, gola alta preta, botas de camura pretas  moda e uma fita vermelha no cabelo, parecia mais jovem e mais saudvel do que nunca naquele ano 
terrvel. Quando a me telefonou, ao meio-dia, a lamentar o destino da filha, Sam estava ocupada numa reunio. Depois, foi almoar ao Lutce, com Charlie e Harvey, 
para festejar o seu regresso. No final da semana, tivera o primeiro cliente, com o qual lidara com elegncia e -vontade. Ficava intrigada ao ver que os homens ainda 
a olhavam como se fosse atraente, e at o terror que sentia ao pensar que os olhares fossem de pena no conseguia diminuir o prazer de saber que, mesmo no sendo 
uma mulher funcional, a sua feminilidade ainda existia. Sam recusara-se a discutir a possibilidade de sair com outra pessoa com o psiquiatra do hospital. Considerava 
que esse assunto estava arrumado e, na altura, deixaram-no para trs e debruaram-se sobre o resto. Fizera tais progressos em todas as reas que os mdicos acha
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ram que, mais cedo ou mais tarde, ela admitiria todas as facetas da sua vida. Afinal, Sam s tinha trinta e um anos e era incrivelmente bonita. No era provvel 
que uma mulher como Sam Taylor passasse o resto da vida sozinha, dissesse ela o que dissesse.
- Bem... - Harvey, com um dos seus melhores sorrisos, ergueu uma taa de champanhe. - Proponho um brinde  Samantha. Que vivas mais cem anos, sem tirares um nico 
dia de folga da CHL. Obrigado. - Fez uma vnia, os trs riram-se e Sam fez outro brinde.
No final do almoo estavam meio embriagados e Sam dizia piadas tolas por no ser capaz de conduzir a cadeira. Foi de encontro a dois pees no caminho de regresso 
ao escrit rio, e Charlie tomou conta da cadeira e comeou a empurr-la, a custo, dando um encontro num polcia, que quase caiu de joelhos.
- Charlie, por amor de Deus! V por onde andas!
- Eu estava... eu acho que ele est bbedo. Que chocante, um policia de servio!
Os trs riram como crianas e, quando chegaram ao escritrio, tiveram dificuldade em ficar sbrios. Acabaram por desistir e saram mais cedo. Fora um dia em cheio.
Nesse sbado, Sam convidou o seu amiguinho Alex para almoar e ficaram os dois nas cadeiras ao sol. Comeram cachorros-quentes e batatas fritas e Sam levou-o ao cinema. 
Sentaram-se, lado a lado, na coxia, no Radio City. Os olhos de Alex arregalavam-se a ver o filme. Quando o levou a casa ao fim do dia, sentiu um pequeno baque no 
corao ao entreg-lo  me. No regresso, foi refugiar-se no apartamento de Melhe, onde brincou com o beb. De repente, enquanto Sam atravessava cautelosamente a 
sala, a pequena Sam levantou-se e, em bicos dos ps, com os braos esticados, seguiu- Sentada na cadeira de rodas, Big Sam, como lhe chamavam na presena do beb, 
abriu a boca de espanto. Ento, quando a criana caiu em cima do tapete, a palrar, Sam gritou por Mel" lie, que chegou mesmo a tempo de a ver fazer a mesma proeza 
novamente, e s com dez meses.
- Est a andar! - gritou Mellie para ningum em particular. - Est a andar... Charlie! A Sam est a andar..
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Charlie chegou  porta com uma expresso atnita, sem ter percebido que se referiam ao beb. Sam olhou para ele com assombro, as lgrimas a correrem pelo rosto, 
depois, sorriu e esticou os braos para o beb.
- Oh, pois est!

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A Crane, Harper & Laub ganhou novo Clio nesse ano, atribudo a outro anncio de Sam. No final desse ano, conseguira mais duas campanhas importantes. As premonies 
de desgraa da me, no se concretizaram. Em vez disso, trabalhava mais do que nunca, tomava conta do apartamento com facilidade, visitava alguns amigos e tinha 
encontros espordicos, aos sbados  tarde, em que ia ao cinema com Alex, que tinha j sete anos. De um modo geral, Sam era feliz. Estava contente por ter sobrevivido. 
No entanto, ainda no sabia muito bem como a vida iria prosseguir. Harvey ainda era o director criativo e continuava a ameaar reformar-se; contudo, Sam nunca acreditou 
nessa eventualidade at ao dia um de Novembro, quando ele a chamou ao seu gabinete e apontou, com ar ausente, para uma cadeira.
- Senta-te, Sam.
- Obrigada, Harvey. j estou sentada. - Riu-se, divertida; Harvey pareceu momentaneamente perplexo e soltou uma gargalhada.
- Raios, Sam, no me ponhas nervoso, tenho uma coisa para te dizer... no, para te perguntar...
- Queres pedir-me em casamento, depois destes anos todos? - Era uma piada antiga entre eles. Harvey era casado e feliz h trinta e dois anos.
- No, bolas, hoje no estou a brincar! Sam! - Olhou-a fixamente, com um ar quase feroz. - Vou faz-lo. Vou reformar-me no primeiro dia do ano.
- Quando  que te deu essa pancada, Harvey? Esta manh? - Sam ainda sorria. J no levava a srio as ameaas de ele se reformar e estava satisfeitssima com o emprego. 
O salrio subira, de modo satisfatrio, ao longo dos anos, e a CHL dera-lhe tanto em termos de camaradagem e de compreenso face aos vrios problemas que enfrentara 
que sentia uma lealdade inquestionvel para com eles. Sam no precisava do lugar de Harvey. - Porque  que no te acalmas e tiras umas frias com a Maggie neste 
Natal, num stio quente, como as
Carabas. Depois voltas, como um menino bonito, arregaas as mangas e regressas ao trabalho.
- Nem pensar. - De repente, parecia um mido agressivo. - Sabes uma coisa, Sam? Tenho cinquenta e nove anos e interrogo-me sobre o que estou a fazer. Quem  que 
se importa com anncios? Quem  que se lembra de alguma coisa que tenhamos feito, no ano que vem? E estou a perder o melhor dos meus ltimos anos com a Maggie, sentado 
a esta secretria, a trabalhar at cair para o lado. j no quero fazer mais nada. Quero ir para casa, Sam, antes que seja tarde de mais. Antes de perder a minha 
oportunidade, antes de ela ou eu adoecermos, ou um de ns morrer. Nunca pensei assim antes, mas vou fazer sessenta anos' na prxima tera-feira e, olha, que se lixe! 
Vou reformar-me agora e no conseguirs dissuadir-me, porque no vou deixar. Por isso,  que te chamei aqui! Desejo saber' se queres o meu lugar, Sam, porque se 
o quiseres, podes ficar com ele. De facto, o meu pedido  s uma formalidade. Quer o queiras quer no, o lugar  teu!
Sam ficou imvel, algo receosa, por instantes, sem saber o que responder.
- Harvey, mas que grande discurso.
- Estou a falar a srio, no estou a brincar.
- Bem, de uma certa maneira, acho que tens razo. Passara meses a pensar em Bill King e na tia Caro e interrogava-se se eles teriam apreciado cada momento, at ao 
fim. Haviam estado to ocupados a esconder o que faziam durante tantos anos que tinham, muitas vezes, perdido a oportunidade de estarem juntos, privando-se de grandes 
alegrias. Para Sam, parecia um enorme desperdcio de energia, energia essa que poderiam ter utilizado muito melhor; porm, j tudo pertencia ao passado. O que mais 
a preocupava era Caro; que se encontrava num estado lastimvel desde que Bill morrera, h oito meses. Assolara-a uma profunda depresso, e Sam desejava muito ir 
v-la; viajar, porm, era a nica coisa que ela ainda no tinha conseguido encarar. Sentia-se confortvel em casa e sabia que era algo que estava ao seu alcance, 
mas sair e fazer grandes viagens ainda a assustava. Tambm no fora a Atlanta e sabia que, provavelmente, nunca para l iria. Contudo, uma visita  tia Caro era 
algo diferente. Ainda no pusera mos 
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obra nem organizara as coisas para ir. Fazia tenes de l ir no Natal, mas no era certo. Receava l ir nessa ocasio e encarar todas as recordaes de Tate.
- Ento, Sam, queres ser directora criativa? - Era uma pergunta directa que exigia uma resposta tambm directa; Sam olhou para Harvey com um sorrizinho de hesitao.
- Sabes, o engraado  que no sei. Gosto de trabalhar para ti, Harvey, e antes pensava que ser directora criativa era o ltimo dos objectivos a atingir. Mas verdade 
 que, nos
ltimos dois anos, a minha vida e os meus valores mudaram tanto, que no tenho a certeza de desejar tudo o que isso implica: noites sem dormir, dores de cabea, 
lceras, especialmente agora. Outra coisa que me preocupa  o facto de o director criativo ter de viajar. Ainda no me sinto  vontade para o fazer. No me sinto 
segura e  por causa disso que ainda no fui visitar a minha amiga na Califrnia. No sei, talvez j no seja a pessoa indicada para o lugar. E o Charlie?
-  o director artstico, Sam. Sabes bem como  raro um director artstico passar a director criativo. So cargos distintos.
- Talvez. Mas ele conseguiria desempenhar o cargo e seria um bom director criativo.
- E tu tambm. Vais pensar no assunto?
Claro que sim. Ests mesmo a falar a srio desta vez, no ests? - Sam estava to surpreendida com a deciso de Harvey, como com a sua hesitao em aceitar. Mas 
j no sa bia se era aquilo que queria; por muito bem que conseguisse fazer a sua vida na cadeira de rodas, no tinha a certeza de ter a mobilidade suficiente para 
o cargo. - Quando  que queres que te d a resposta?
-Daqui a duas semanas.
Sam concordou com a cabea e ficaram mais um pouco  conversa. Quando saiu do gabinete, tinha a firme inteno de dar a resposta a Harvey no final das duas semanas; 
porm, dez dias depois, a vida pregou-lhe uma partida... e foi como se o cu lhe desabasse em cima. J se sentira assim bastantes vezes nos ltimos dois anos.


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Sam estava no escritrio com a carta que acabara de receber do advogado de Caroline; com as lgrimas a correrem-lhe pelo rosto, atravessou o corredor at ao gabinete 
de Charlie e parou  entrada com uma expresso transtornada.
- H algum problema? - Charlie parou o que estava a fazer e dirigiu-se prontamente para ela. Era uma pergunta estpida. Sam estava plida; assentiu com a cabea, 
entrou e estendeu-lhe a carta, que ele leu. Charlie fitou-a, com o mesmo ar de espanto. - J sabias?
Sam chorava baixinho enquanto abanava a cabea. -Nunca me passou pela cabea... Julgo que no tem ningum de famlia. - De repente, esticou os braos para Charlie, 
que a abraou. - Oh, Charlie, ela morreu. O que vou eu fazer agora?
-Est tudo bem, Sam. Est tudo bem. - No entanto, mostrava-se to chocado como Samantha. Caroline Lord morrera no ltimo fim-de-semana. Por instantes, Sam sentiu-se 
magoada por ningum lhe ter telefonado. Onde estava Josh? Porque  que ele no lhe dissera? Mas o momento passou. Eram ajudantes temporrios, no lhes teria ocorrido 
telefonar para Nova Iorque.
De acordo com o testamento de Caroline, o rancho fora deixado a Sam. Morrera durante o sono, sem dor nem qualquer problema. Charlie suspeitava, tal como Sam, que 
ela assim o desejara. No queria viver sem Bill King.
Samantha afastou-se lentamente de Charlie, aproximou-se da janela e fixou o olhar no exterior.
- Por que razo ela me deixou o rancho, Charlie? Que diabo  que eu vou fazer com ele? Agora no posso fazer nada. - A voz desvanecia-se  medida que se recordava 
dos tempos felizes que l passara, com Barbara, Caroline, Bill e, naturalmente, com Tate. Recordou a cabana secreta, Black Beauty Josh, e as lgrimas correram mais 
velozes pelo rosto.
- O que queres tu dizer com isso de no poderes fazer nada com ele? - A voz de Charlie era inquisidora, tal como o olhar, quando Sam se voltou, de novo, para ele.
-Porque por muito que no goste de o admitir, por muito que tente fingir que sou normal com o meu emprego, com os meus amigos, com o facto de viver sozinha e de 
con
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seguir apanhar txis, o facto  que, como a minha querida mezinha diz, sou uma aleijadinha. Que diabo  que eu faria com um rancho? Ver os outros a andar a cavalo? 
Um rancho  para pessoas saudveis, Charlie.
-Ters a sade que quiseres ter. O cavalo tem quatro pernas, Sam. No precisas de nenhuma. Deixa ser ele a andar por ti. Tem muito mais estilo do que a tua cadeira.
-No teve piada nenhuma. - Com ar zangado, deu meia volta e saiu do gabinete.
Cinco minutos depois, Charlie dirigiu-se ao gabinete de Sam, disposto a discutir o assunto, por muito zangada que ela estivesse ou por muito alto que gritasse.
- Deixa-me em paz, bolas! Uma mulher que eu adorava morreu e tu a insistires que eu v para l andar a cavalo. Deixa-me em paz! - Gritou-lhe cada palavra, mas no 
o convenceu.
= No, no vou deixar-te em paz. E sabes porqu? Porque, apesar da tristeza que foi a sua morte, ela acabou por te dar o melhor presente que se pode esperar, no 
por aquilo
que deve valer, mas porque  um sonho com o qual podes viver o resto da tua vida, Sam. Tenho-te observado desde que voltaste, e continuas to boa profissional como 
sempre, mas a verdade  que acho que isto aqui j no te diz nada, j no sentes vontade de c estar. Desde que te apaixonaste por aquele cowboy e trabalhaste no 
.rancho,  s nisso que pensas, Sam. No queres estar aqui. E agora a tua amiga deu-to, todinho e, de repente, queres fazer o papel de aleijadinha. Bem, sabes uma 
coisa? Acho que s uma cobarde e que no devemos aparar-te o jogo.
-E como  que pensas impedir-me de "fazer o papel de aleijadinha", como tu dizes?
- Metendo-te juzo na cabea, nem que seja  fora. Levo-te at l, esfrego-te o nariz em tudo aquilo e lembro-te o amor que tens pelo rancho. Pessoalmente, acho 
que s doida;
para mim, tudo o que fica para l de Poughkeepsie, poderia., muito bem ser, o Sudeste de frica, mas tu s louca por tudo aquilo. Meu Deus, aquando daquelas filmagens, 
o ano passado, os teus olhos brilhavam que nem estrelas, sempre que vias um cavalo, uma vaca ou falavas com um capataz. Ia dando li
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em maluco, mas tu adoravas, e agora vais desistir de tudo aquilo? E se fizesses qualquer coisa? Que tal realizares um dos teus sonhos? Tens falado tantas vezes com 
o pequeno Alex daquelas aulas especiais de equitao. A ltima vez que ele veio buscar-te para irem almoar, contou-me que lhe disseste que ele um dia podia ir andar 
a cavalo e que talvez o levasses. E se transformasses o rancho num stio para pessoas como tu e o Alex?
Sam olhou para o amigo, espantada, enquanto as lgrimas paravam de correr pelo rosto.
- No posso fazer isso, Charlie... Como  que eu conseguiria lanar uma coisa dessas, como? No percebo nada disso. - Podes aprender. Conheces os cavalos. Sabes 
o que  andar numa cadeira de rodas. Irias ter imensas pessoas para te ajudar a gerir o rancho, tudo o que tens a fazer  coorden-lo, como fazer com a publicidade 
e, cos diabos, tu s boa nisso.
- Charlie, s louco.
- Talvez. -- Olhou para ela com um largo sorriso nos lbios. - Mas, diz a verdade, Sam, no gostavas tambm de ser um bocadinho louca?
- Talvez - respondeu ela com sinceridade. Continuava a olh-lo fixamente com um ar de espanto. - O que  que fao agora?
- Porque no vais at l e ds uma vista de olhos outra vez, Sam? Bolas, s a dona!
- Agora?
-Quando tiveres tempo. - Sozinha?
-Se quiseres.
-No sei. - Sam deu meia volta e deixou-se ficar a olhar para o vazio, a pensar no rancho e na tia Caro. Seria to penoso v-lo sem ela, desta vez. Estaria repleto 
de recordaes de pessoas de quem Sam gostara e que j l no estavam.
No quero ir l sozinha, Charlie. Acho que no consegui-a aguentar.
-Ento leva algum contigo.
- Quem sugeres? - Sam olhou para ele com cepticismo. - A minha me?
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- Que Deus me livre! Cos diabos, no sei, Sam, leva a Mellie.
- E os midos?
Ento, leva-nos a todos. Ou melhor, deixa o "leva-nos", ns levamo-nos a ns prprios. Os midos vo adorar; ns tambm, e quando l chegarmos, digo-te o que  que 
eu acho.
-Ests a falar a srio, Charlie?
- Absolutamente. Acho que esta  a deciso mais importante que alguma vez enfrentaste e detestaria ver-te desperdiar a ocasio.
-Tambm eu. - Sam olhou para Charlie com um ar melanclico e, de repente, lembrou-se de algo. - Que tal o dia de Aco de Graas?
- O que  que tem?
-  daqui a trs semanas. E se Charlie reflectiu por instantes fossemos at l nessa altura? e, em seguida, exibiu um largo sorriso.
- Est combinado. Vou telefonar  Mellie. - Achas que ela vai querer ir?
- Claro que sim. E se no quiser, - riu-se - vou sozinho. - Todavia, nem Mellie nem os rapazes puseram qualquer objeco quando Charlie lhe telefonou. No disseram 
a mais ningum. Limitaram-se a fazer as reservas discretamente para uma viagem de quatro dias, no dia de Aco de Graas. Samantha nem sequer disse a Harvey. Receava 
aborrec-lo e ainda no lhe tinha dado nenhuma resposta relativamente ao cargo.
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Samantha ficou estranhamente calada, enquanto percorriam os ltimos quilmetros da familiar estrada sinuosa, atravs das colinas a perder de vista. Os outros, porm, 
no notaram. Os rapazes estavam to excitados que" davam saltos dentro do carro alugado. Mellie deixara a beb com a me e, at quele momento, a viagem correra 
bem. Obviamente, era um dia de Aco de Graas muito pouco ortodoxo; mas os adultos, pelo menos, pensavam que valia a pena. Haviam comido uma pequena fatia de peru 
com molho no avio, e Mellie prometera apresentar um verdadeiro jantar festivo no dia seguinte, no rancho.
S nessa manh  que Samantha falara ao telefone com Josh. Os rapazes iriam dormir em sacos-cama num dos dois quartos de hspedes, e Charlie e Mellie no quarto da 
tia Caro. Sam dormiria no quarto que tivera na ltima estada. A casa era suficientemente grande para acomodar toda a gente: Josh garantira-lhe que havia comida na 
despensa e que, se ela quisesse, iria busc-los ao avio em Los Angeles. Sam insistira para que no o fizesse, no querendo estragar-lhe o dia de Aco de Graas; 
v-lo-ia quando chegassem ao rancho. Josh manifestara-lhe, ento, num tom dorido e hesitante, o quanto se sentia feliz por ser ela agora a dona do rancho, decidido 
a fazer tudo o que pudesse para a ajudar. S esperava que ela no fizesse nenhum disparate, como vend-lo, por exemplo, visto estar convencido de que ela poderia 
tornar-se uma das melhores rancheiras das redondezas. Sam esboou um sorriso triste ao ouvir aquelas palavras, desejou-lhe um feliz dia de Aco de Graas e apressou-se 
a ir ter com Mellie, Charlie e os rapazes  entrada do prdio. Tiveram de apanhar dois txis para o aeroporto. Agora estavam apertados dentro de uma carrinha enorme 
e os rapazes entoavam cantigas.
A medida que se aproximavam do rancho, Samantha comeou a imagin-lo, tal como era da ltima vez que o vira, com Caroline e Bill King, fortes e saudveis. Depois, 
mais uma vez, recordou-se dos dias passados com Tate. Agora tu
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do parecia um sonho. Estavam to distantes os momentos de alegria que partilhara com ele, as horas na cabana, as cavalgadas partilhadas no cavalo malhado e no belo 
puro-sangue de Caro. Na altura, conseguia andar. Sentiu uma nuvem negra pairar sobre si, lentamente, ao fazerem a ltima curva na estrada e, mais uma vez, percebeu 
como tudo havia mudado.
- A est. - Sam proferiu as palavras em voz baixa, sentada no assento traseiro, a apontar com um dedo trmulo. Atravessaram o porto principal, subiram a estrada 
sinuosa e, ento, Sam avistou-a: a casa da tia Caro. Mas no havia luzes acesas, e, apesar de s serem cinco horas da tarde, parecia sombria, abandonada e triste 
 luz que se ia desvanecendo. - O Josh disse que deixava a porta aberta. Se quiseres entrar, Charlie, as luzes da sala de estar esto todas num painel  direita, 
mesmo atrs da porta. - Sam ficou imvel, os olhos pregados na casa. Continuava  espera de ver as luzes acenderem-se, o familiar cabelo branco, a cara sorridente 
da tia Caro com a mo a acenar. Mas, quando Charlie entrou para acender as luzes e voltou, em passo rpido, para o carro, no havia ningum a seu lado, e at os 
rapazes se aquietaram ao olharem  sua volta.
-Onde  que esto os cavalos, Sam?
Na cavalaria, querido. Mostro-tos amanh. -No os podemos ver agora?
Sam sorriu para Charlie, por cima das cabeas deles, depois anuiu com a cabea.
- Est bem, vamos pr as coisas l dentro e depois levo-os a todos at l. - Agora que chegara, no tinha vontade de entrar em casa, nem na cavalaria, no queria 
ver Black Beauty na sua baia, nem Navajo, nem os outros cavalos conhecidos. A nica coisa que Sam queria era ver Caroline, Bill King e Tate Jordan, e viver uma vida 
que nunca mais viveria. Tinha um n na garganta, do tamanho de uma ma, quando se sentou na cadeira de rodas e subiu as escadas com a ajuda de Charlie. Entrou em 
casa, devagar, e olhou  sua volta. Ento, ainda mais devagar, dirigiu-se ao seu quarto, ao fundo do corredor. Pouco depois, os rapazes passaram por ela a correr 
e Sam forou um sorriso ao indicar-lhes o quarto. Em seguida voltou para a sala de estar  procura de Charlie e de Melinda
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Apontou na direco oposta, para o quarto deles, mas no o queria ver. No queria ver o quarto vazio que fora de Caro e de Bill.
-Ests bem? - Melinda olhou para Sam com ar afvel e esta acenou que sim com a cabea.
-Estou. A srio. - Pareces cansada.
- No estava cansada; estava s desesperadamente infeliz. - Estou ptima.        Relembrava, mais uma vez, com dolorosa preciso, como se sentira quando deixara 
o rancho, sem saber onde estava Tate, ou se o voltaria alguma vez a encontrar, mas continuava esperanosa. E agora tinha a certeza de que no voltaria a v-lo. Alm 
disso, perdera Caro... Aquele pensamento deixou-a completamente prostrada. Quando olhou pela janela, para as colinas sombrias na penumbra, viu uma figurinha de pernas 
arqueadas dirigir-se para ela, como um duende da floresta e, ento, com os olhos inundados de lgrimas, Sam sentiu uma alegria imensa. Era Josh. Vira as luzes na 
casa e apressara-se a vir visit-la. Com um sorriso de orelha a orelha, Sam saiu e esperou por ele no alpendre, sentada na cadeira. Ao faz-lo, viu-o parar de repente 
e pde observar o olhar chocado no seu rosto e ouvir as palavras. - Oh, meu Deus...
De sbito, sem saber quando comeara, Sam chorava, e Josh tambm, ele a ,meio das escadas, ela de braos estendidos; Josh dobrou-se e abraou-a, enquanto choravam, 
por Bill, por Caro, por Tate e por ela. O som abafado do choro dos dois pareceu durar horas e, ento, aps algum tempo, o velho cowboy de rosto engelhado fungou 
alto e endireitou-se. -Porque  que nunca ningum me disse, Sam?
- Pensei que Miss Caro... - Josh abanou a cabea com uma expresso de desespero no rosto.
-Como  que aconteceu?
Sam fechou os olhos por instantes e depois abriu-os. Era 'como se tivesse partilhado o choque que Josh sentira. Como se, de repente, se visse como ele a via, aleijada, 
numa cadeira de rodas, no, mais o jovem e orgulhoso palomino que correra Por todo o rancho. Era como se a sua vida tivesse acabado;
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como se, de repente, tivesse envelhecido. E, nesse momento, Sam sentiu que no poderia ficar com o rancho. No conseguiria geri-lo. Todos os homens reagiriam com 
ela da mesma maneira que Josh. Era uma aleijada, apesar do que lhe haviam dito no hospital em Nova Iorque.
- Sam...
- Est tudo bem, Josh. - Esboou um sorriso afvel e respirou fundo. - Aconteceu no Colorado, h cerca de quinze meses. Foi uma coisa estpida que fiz com um cavalo. 
- A recordao era difusa, mas Sam iria sempre lembrar-se do garanho cinzento.... Gray Devil... e o interminvel momento em que fora pelo ar. - Arrisquei com um 
garanho selvagem. Era mesmo mau de montar e atirou-me para uma ravina.
Porque... porque o fizeste? - Os olhos de Josh ficaram novamente inundados de lgrimas. Soube, instintivamente, que ela levara o cavalo para l dos limites.
- No sei - murmurou Sam. -Julgo que estava louca. Acho que o Black Beauty me fez pensar que conseguiria montar qualquer garanho que me aparecesse pela frente, 
e estava aborrecida por causa de uma coisa. - Sentira-se deprimida por causa de Tate, mas no lhe disse. - E foi assim que aconteceu.
- Podes... eles podem... - Josh no sabia como terminar, mas Sam compreendeu-o facilmente e abanou a cabea. - No.  assim. Pensei que soubesses, que a Caroline 
te tivesse contado.
-Nunca mo disse.
- Talvez estivesse demasiado ocupada com o Bill. Ele teve o primeiro ataque cardaco nessa altura. Eu quis vir at c, mas estava cheia de trabalho e... - Interrompeu-se 
e depois prosseguiu: - Estive dez meses enfiada no hospital. - Olhou  sua volta, para os edificios conhecidos. - No entanto, depois disso, devia ter voltado, mas, 
no sei... acho que tive medo. Medo de enfrentar aquilo que j no podia fazer.. Por isso, nunca mais voltei a v-la, Josh. - Os lbios tremeram. - Ela estava to 
triste depois de o Bill morrer, e nunca a ajudei. - Fechou os olhos, estendeu os braos e agarrou-se' de novo, ao velho cowboy.
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-Ela estava bem, Sam. E morreu como quis. No quis viver sem ele. - Ento ele sabia? Sabiam todos? A simulao fora uma farsa, todos aqueles anos? Sam olhou-o nos 
olhos e viu que no era segredo. - Era como se fossem casados. Sam concordou com a cabea.
-Eu sei. Deviam ter casado.
Josh limitou-se a encolher os ombros.
-No se pode mudar velhos hbitos. - Baixou os olhos para Sam, o olhar pleno de interrogaes. - E tu? - De sbito, compreendeu como era improvvel que Sam ficasse 
com o rancho. - Vais vender isto?
- No sei. - Sam pareceu perturbada. - No vejo como poderei geri-lo. Acho que o meu lugar deve ser em Nova Iorque.
- Vais viver com os teus pais agora? - Josh mostrava-se interessado em saber como ela lidava com a invalidez, e Sam abanou a cabea com um sorrizinho nos lbios.
- Cos diabos, no. Vivo sozinha. Vivo no mesmo prdio dos amigos que me trouxeram at c. Tive de arranjar um novo apartamento, sem escadas. Mas consigo cuidar de 
mim prpria.
- Isso  estupendo, Sam. - Havia a ligeira sensao de que Josh falava com uma invlida, mas Sam sabia que ele ainda tinha de se adaptar. De algum modo, tambm ela 
teria de o fazer, para no se sentir ressentida em relao a ele. Ento, o que Josh disse a seguir, chocou-a. - Porque e que no fazes isso aqui? Cos diabos, todos 
te ajudaramos. Caramba, no h razo nenhuma para que no possas andar a cavalo. Desde que andes devagar, ests a ouvir? - Lanou-lhe um olhar quase zangado ao 
diz-lo, depois riu-se.
- No sei, Josh. Tenho pensado nisso, mas  tudo bastante assustador. Foi por isso que c vim. No quis tomar a deciso de o vender antes de vir at c e ver com 
os meus prprios olhos.
- Ainda bem que o fizeste. E sabes uma coisa...? - Josh semicerrou os olhos e afagou o queixo, olhando fixamente para o horizonte a escurecer. - Acho que temos ali 
uma sela velha que posso adaptar para ti. E h uma coisa importante que quero desde j dizer-te. - Voltou-se e lanou um olhar
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reprovador a Sam. - No vais andar no Black Beauty, nem que tenha que te dar pontaps no rabo para te tirar de cima dele.
- Tenta impedir-me. - Sam riu-se, quase como nos velhos tempos, mas Josh no estava a brincar.
- O prazer ser todo meu. Gostava de saber quem foi o parvo que te deixou montar o garanho.
-Algum que me viu andar a cavalo.
- Malditas exibies! - Era o tipo de coisa que Tate teria dito, e os olhos de Sam tomaram uma expresso sria ao olhar para Josh.
- Josh? - Sim?
- Ouviste falar mais alguma vez do Tate Jordan? - J passara mais de uma ano e meio desde que ele partira, mas Josh limitou-se a abanar a cabea.
-No. Foi mais um cowboy. Desandou, sabe Deus para onde. No entanto, ele teria dado um bom capataz, Sam. -j para no dizer um bom marido, mas Sam no lhe comunicou 
o que lhe ia na alma.
-Como  o novo?
-  bom. Mas vai-se embora. J teve uma proposta. Disse isso ontem de manh ao advogado. No quer correr o risco de ficar sem emprego, se venderes o rancho; por 
isso vaie -se mudar enquanto pode. Tem uma srie de filhos proferiu Josh, em jeito de explicao, e Sam olhou-o com ar pensativo.
-- E tu, Josh? Ficas?
- Cos diabos, fico. J  a minha casa h demasiados anos para me mudar para onde quer; que seja. Vais ter de me vender com o rancho.
- Vou dizer-te uma coisa: se no vender, gostavas de ser o meu capataz?
- Ests a brincar, Sam? - Os olhos de Josh iluminaram-se de curiosidade. - Adoraria, e a minha mulher ficaria to inchada que morramos todos enjoados. Mas eu no 
me im portaria. - Riram um para o outro e Josh estendeu a mo spera, que ela apertou.
- Sam? - Era Charlie a espreitar para o alpendre; ouvi'
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ra-a falar e sentiu curiosidade em saber com quem seria. Sam voltou-se rapidamente na cadeira, fez as apresentaes e os dois homens falaram sobre o rancho durante 
uns minutos.
Por fim, Josh baixou de novo os olhos para Sam. Esquecera-se dela por instantes, durante a conversa que ocorrera por cima da cabea dela.
- Quanto tempo vais ficar, Sam?
- S at domingo. Temos de regressar. O Charlie e eu trabalhamos juntos em Nova Iorque.  um artista.
-No sou nada. Sou um gnio. - Todos sorriram. - Sabe montar? - Charlie abanou a cabea e Josh sorriu abertamente. - Ns ensinamos-lhe. A Sam disse que trouxe os 
seus filhos
-Trs deles. Os rapazes.
Quantos tem ao todo? - Josh franziu o sobrolho. " - Quatro. Deixmos uma beb em casa.
- Cos diabos! - Deu uma gargalhada. - Isso no  nada. Eu tenho seis.
- Deus me proteja! - Charlie fingiu desmaiar e todos se riram.
Josh entrou ento na casa, a fim de conhecer Mellie e os rapazes; depois, dirigiram-se todos para a cavalaria para ver os cavalos. Os rapazes estavam to excitados 
que andavam a saltar e a guinchar em cima da palha, enquanto os outros se `riam. Ficou combinado que no dia seguinte teriam aulas de equitao. Sam parou, por instantes, 
para olhar para Black Beauty, tranquilo e esplndido como sempre, na sua baia.
-  um cavalo muito bonito, no , Sam? - At Josh o olhava com orgulho; de sbito, fixou Sam, como se se tivesse lembrado de alguma coisa. - Agora  teu, Sam.
- No. - Sam abanou lentamente a cabea, os olhos fixos em Josh. - Ser sempre da Caro. Mas vou mont-lo. - Desta vez, Sam sorriu, mas ele no.
-Isso  que no vais.
- Podemos discutir isso amanh.
Josh pareceu hesitante; dirigiram-se lentamente para o edificio principal e ele deixou-os no alpendre, com um ltimo olhar terno para Sam. Foi ento que ela percebeu 
que
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finalmente regressara a casa. Mesmo que os outros tivessem morrido, ela ainda tinha Josh, o bonito rancho que Caroline lhe deixara, as recordaes do que a velha 
amiga partilhara com Bill e as suas prprias recordaes de Tate na cabana... especialmente se ali ficasse. 32
- Agora, Sam... J est... - Dois cowboys fizeram-lhe uma "cadeirinha" e pegaram-lhe, enquanto outros dois seguravam firmemente no cavalo. No era Black Beauty que 
estavam a segurar, nem mesmo Navajo, mas uma gua nova que se chamava Pretty Girl. Desta vez, o nome no a aborreceu. Ficou surpreendida consigo prpria por estar 
to receosa, pois a gua mostrava ser muito dcil. De sbito, ficou contente. Puseram-na rapidamente na sela, Josh prendeu-a com um monte de correias, e Sam ali 
ficou sentada, empoleirada na sela, a fit-los, espantada.
- Meu Deus, conseguimos. Olha para isto, estou a andar a cavalo. - Parecia uma garota extasiada.
- No, no ests. - Josh riu-se com evidente prazer. - S ests sentada. Pe-na a andar devagarinho, Sam, e v como te sentes.
Sam olhou para Josh.
- Acreditas que tenho medo? - sussurrou. Ficou imvel, com uma expresso assustada alternando com um sorriso nervoso; aps alguns instantes, josh pegou calmamente 
na brida e comeou a passe-la na pacata gua.
-Ests bem, Sam. V l, vamos dar uma volta pelo curral.
- Sinto-me como um beb.
Josh olhou por sobre o ombro, com um terno sorriso. -Tu s um beb. Tens de aprender a andar antes de aprenderes a trotar. - Porm, pouco depois, largou a brida 
e Sam comeou a trotar devagar, o rosto abrindo-se num enorme sorriso.
- Ei, rapazes, estou a correr - gritava -, estou a correr... Olhem! - Estava to excitada que mal conseguia conter a emoo. Pela primeira vez, em mais de um ano, 
no se deslocava de cadeira de rodas; estava realmente a correr de novo e, mesmo que no fosse pelos seus prprios meios, a alegria de trotar com o vento a bater-lhe 
no cabelo era a melhor sensao que tivera desde h anos. Josh precisou de uma
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hora para a convencer a desmontar a gua. Quando a ajudaram a descer, sentia-se extremamente excitada, como se voasse, os olhos a danar e o rosto delicado emoldurado 
pelas madeixas de cabelo louro.
- Ficas mesmo bem em cima desse cavalo, Sam. - Josh esboou um terno sorriso, enquanto a sentavam de novo na ; cadeira.
Sam fez um sorriso tmido.
-Sabes - confessou -, ao princpio estava cheia de medo. .
-  lgico. S se fosses doida  que no tinhas medo depois do que aconteceu. - Olhou-a ento pensativamente. -. Qual foi a sensao?
- To boa, Josh! - Fechou os olhos e esboou um sorriso radioso. - Como se fosse uma pessoa normal outra vez... - O sorriso desvaneceu-se ao olhar para os velhos 
olhos sensatos de Josh. - J passou muito tempo.
-Pois j. - Josh coou o queixo. - Mas estou c a pensar... No  necessrio que seja assim. Sam, podias voltar para c e ser a rancheira... - Pensara nisso toda 
a noite, mas agora ela olhava para ele com ar duvidoso, a cabea inclinada para um lado.
-Queres saber no que estive a pensar?
Josh fez um aceno de afirmao com a cabea.
- O Charlie e eu falmos sobre o assunto em Nova Iorque e talvez seja uma completa loucura. Penso que talvez pudesse tornar este stio um rancho especial para... 
- Hesitou, sem saber como o dizer. - Para pessoas como eu. Principalmente midos, mas tambm alguns adultos. Ensin-los a montar, ajud-los a voltar a ter uma vida 
normal. Josh, nem consigo explicar-te qual  a sensao. Aqui, na cadeira, sou diferente e sempre serei. Mas, em cima do cavalo, no sou diferente do que era. Oh, 
talvez s um bocadinho, mas j no serei mais assim logo que me habituar a andar a cavalo outra vez. Imagina mostrar isso s pessoas, dando-lhes cavalos para montar, 
ensinando-as... - Sam no reparou, mas havia lgrimas nos olhos de Josh e nos seus. Este assentia com a cabea, enquanto olhava para os edifcios.
- Teramos de fazer algumas modificaes, mas no seria nada que no pudesse ser feito...
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- Ajudas-me?
Josh fez um sinal afirmativo com a cabea.
-No percebo muito de... de... - Tentou ser delicado; estivera quase a dizer "aleijados". - De pessoas assim... Mas, raios, eu conheo os cavalos e at conseguiria 
ensinar um cego a montar se tivesse de o fazer. Os meus filhos j montavam com a idade de trs anos. - Sam sabia que era verdade e Josh fora to paciente e to amoroso 
como qualquer um dos terapeutas com quem ela trabalhara. - Sabes, Sam, podamos avanar. Cos diabos, bem que gostava de tentar!
- Tambm eu. Mas tenho de pensar melhor no assunto.  preciso dinheiro, teria de ter terapeutas, enfermeiras, mdicos, as pessoas teriam de me confiar os filhos... 
E por que razo  que o fariam? - Sam, porm, estava a falar mais para si prpria do que para Josh; pouco depois, Charlie e Mellie interromperam-nos para fazer mais 
perguntas a Joshh sobre o rancho.
Domingo de .manh chegou demasiado depressa,        todos se mostraram entristecidos quando se despediram. Josh estava quase destroado quando pegou na mo de Sam, 
antes de partirem para o aeroporto, e apertou-a, com um milhar de perguntas escritas no rosto.
- Ento? Vais ficar com ele? - Se assim no fosse, sabia que podia nunca mais voltar a v-la. E no queria que tal acontecesse. Estava decidido a ajud-la a encontrar-se 
e a construir o rancho para crianas especiais. Nos ltimos dias, percebera a solido em que Sam se encontrava e a, dor que sentia.
- Ainda no sei, Josh. - Sam respondeu-lhe com franqueza. - Tenho de fazer alguma pesquisa e pensar melhor no assunto. Prometo que te digo, logo que tome a deciso. 
- E quando  que pensas que isso ser?
- Apareceu-te outro emprego? - Parecia preocupada. -Se disser sim - comeou ele, esboando um largo sorriso - sentirs cimes suficientes para ficares com o rancho?
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Sam riu-se como resposta. -s um manhoso.
O rosto de Josh tomou um ar srio.
- S no quero ver-te desistir deste rancho.
-Eu tambm no quero, Josh, mas percebo pouco de ranchos. A nica coisa que faz sentido  se fizermos aquilo de que falmos.
Ento, porque no vamos com a ideia para a frente? - D-me uma oportunidade para pensar no assunto. - Pensa. - Josh dobrou-se, deu-lhe um enorme abrao
e voltou-se para se despedir de Charlie, de Melinda e dos trs rapazes.
Todos lhe acenaram a dizer adeus, enquanto o conseguiram ver. Em comparao com a viagem de ida, esta foi muito sossegada. Os midos sentiam-se desapontados por 
voltarem para Nova Iorque. Charlie e Melhe revezaram-se a dormir durante parte da viagem. Sam esteve pensativa durante todo o caminho de volta  grande cidade. Tinha 
muito em que reflectir: se tinha capacidade para ficar com o rancho, se a venda do gado do rancho lhe daria dinheiro suficiente para fazer os melhoramentos, se era 
ou no o que queria. Estaria ou no pronta para deixar a segurana da sua vida em Nova Iorque? Estivera to absorvida na tomada de deciso que, no regresso, nem 
pensou em Tate.
Deixou Charlie e Mellie no vestbulo do prdio e desapareceu no interior do apartamento, a fim de tomar algumas notas. Na manh seguinte, no escritrio, ainda parecia 
preocupada, quando Charlie lhe bateu  porta.
-Ento, cowgirl, j decidiste?
- Chiu! - Ps um dedo nos lbios e fez um gesto para ele entrar. Mais ningum no escritrio sabia e ela no queria que tal acontecesse, especialmente com Harvey. 
No antes de ter a certeza.
- O que  que vais fazer, Sam? - perguntou Charlie, atirando-se para cima do sof. - Queres saber o que  que eu faria se estivesse no teu lugar?
- No. - Sam tentou mostrar um ar ameaador, mas ele fazia-a sempre rir. - Quero ser eu a decidir.
- Isso acho que  inteligente. Mas no faas asneiras nem
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digas  tua me no que ests a pensar. Provavelmente, fechava-te num hospcio.
-Talvez tivesse razo.
- No acho. Pelo menos, por essas razes... - Charlie sorriu e endireitou-se, na altura em que a secretria de Harvey aparecia  entrada da porta.
- Miss Taylor?
- Sim? - Sam voltou-se para ela.
- Mister Maxwell gostava de falar consigo.
- O prprio? - Charlie pareceu impressionado e regressou ao seu gabinete, enquanto Sam seguia a secretria de Harvey pelo corredor.
Quando chegou ao gabinete de Harvey, encontrou-o com um ar cansado e pensativo. Havia uma montanha de papis em cima da secretria e s olhou para Samantha de vis, 
enquanto terminava umas notas.
- Ol, Sam.
-Ol, Harvey, o que  que se passa? - Passou outro minuto antes de ele voltar a sua ateno para ela. Comeou com amabilidades antes de passar ao motivo pelo qual 
a havia chamado.
- Como  que foi o teu dia de Aco de Graas? -Muito bom. E o teu?
- ptimo. Como  que o passaste? - Era uma pergunta intencional e, de repente, Sam ficou nervosa.
- Com os Peterson.
.- ptimo. Na casa deles ou na tua?
- Na minha. - Sam mostrou-se tranquila, pois dissera a verdade. Afinal, o rancho era seu.
-  espectacular, Sam. - Sorriu-lhe. - Ests a sair-te espantosamente bem.
-Obrigada. - Foi um cumprimento que teve muito significado para Sam e, por instantes, trocaram um sorriso. - Chamei-te hoje aqui ao meu gabinete porque ainda no 
me deste nenhuma resposta. - Harvey parecia estar na expectativa e Samantha suspirou, enquanto se afundava na cadeira.
-Eu sei que no dei, Harvey... Sinto-me mal por isso, mas precisava de tempo para pensar.
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-Mas  mesmo uma escolha? - Parecia surpreendido. Afinal, que escolha  que fizera ela? - Se ainda ests preocupada com as viagens, s tens de contratar uma assistente
competente... - Sorriu. - Foi o que eu fiz, e ficas na maior. O resto, de certeza, consegues resolver. Caramba, h anos que fazes o meu trabalho e o teu! - ironizou 
Harvey ao que Sam respondeu com o dedo apontado na direco dele.
- Agora  que tu o admites! Devia pedir-te que assinasses uma declarao para esse efeito.
- Nunca na vida. V l, Sam, desenrasca-me. D-me uma resposta. - Recostou-se e sorriu. - Quero ir para casa. - A chatice, Harvey... - comeou ela a dizer, olhando 
para ele com ar triste. - A chatice  que eu tambm.
Era bvio que Harvey no compreendera. -Mas esta  a tua casa, Sam.
Sam abanou a cabea.
- No, Harvey. Acabei de compreender isso neste fim-de-semana. No .
s infeliz na CHL? - Harvey parecia chocado. Nem sequer lhe ocorrera aquela possibilidade. Quereria ela despedir-se?
Sam abanou a cabea.
- No, no sou infeliz. Aqui no... mas... bem... No sei se consigo explicar, mas tem a ver com Nova Iorque.
- Sam... - Harvey levantou uma mo para a interromper. - Aviso-te, se vens aqui dizer-me que vais mudar-te para Atlanta, para a casa da tua me, entro em estado 
de choque. Se me fores dizer isso, chamo o meu mdico. - Sam s conseguiu rir e abanar a cabea como resposta.
-No, de certeza que no  isso. -Ento, o que ?
Ainda no te disse, Harvey. - Sam ficou com um ar comprometido diante daquele que era o seu patro h dez anos. - A minha amiga Caroline deixou-me o rancho.
- Deixou-to? - Harvey pareceu espantado. - Vais vend-lo?
Samantha abanou a cabea. - No, acho que no. - No vais ficar com ele, podes fazer com ele?
pois
no,
Sam? O que  que podes fazer com ele?
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- Uma srie de coisas. - Ento, ao olhar para ele, Sam deu a resposta. -  algo que tenho de fazer. Talvez no consiga, talvez seja um sonho demasiado grande, talvez 
seja um terrvel fiasco, mas quero tentar. Quero transform-lo num lugar para ensinar midos deficientes a montar, ensin-los a ser independentes, a deslocar-se 
sem ser em cadeira de rodas: num cavalo. - Harvey olhava-a com um ar pensativo. - Achas que sou maluca, no ?
Harvey esboou um sorriso triste.
- No, queria que fosses minha filha. Nesse caso desejar-te-ia sorte, dar-te-ia todo o dinheiro que tivesse e dir-te-ia para o fazeres. Gostava de poder dizer-te 
que eras louca, Sam, mas no posso. No entanto,  muito diferente de ser directora criativa na Madison Avenue. Tens a certeza de que  isso que queres?
- O engraado  que no tinha a certeza at te dizer, mas agora j sei. Tenho a certeza. - Depois, com um pequeno suspiro: - O que  que vais fazer com o lugar? 
D-lo ao Charlie?
Harvey pensou um minuto e fez um gesto afirmativo com a cabea.
- Acho que sim. Far um bom trabalho.
- Tens a certeza de que te queres reformar, Harvey?
- - Sam tinha de admitir que ele parecia decidido e que ela faria o mesmo no seu lugar.
Harvey fez um sinal afirmativo com a cabea, os olhos fixos nela.
- Tenho, Sam, tenho a certeza. Tanta certeza como tu tens relativamente ao rancho, o que significa que quero mesmo reformar-me. Sabes como  sempre um pouco assustador 
lidar com o desconhecido. Nunca se tem a certeza de estar a fazer a coisa certa.
-Tambm acho.
--Pensas que o Charlie vai querer o lugar? -- Vai ficar deliciado.
-Ento,  dele. Porque tem de ser assim. Tem de se querer trabalhar quinze horas por dia, levar trabalho para casa aos fins-de-semana, estragar as frias, comer, 
dormir e beber anncios. Acho que j no quero mais isso.
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-Nem eu. Mas o Charlie quer.
- Ento vai dizer-lhe que tem um novo cargo, ou digo-lhe eu?
-Deixas-me ser eu a dizer-lhe? - Seria a ltima coisa, com algum significado para si, que Sam faria na CHL.
- Porque no? s a melhor amiga dele. - Harvey olhou ento para Sam com um ar triste. - Quando  que vais deixar-nos?
- O que  que ser razovel? -Deixo isso ao teu critrio.
- No primeiro dia do ano? - Seria dentro de cinco semanas. Era um prazo razovel e Henry tambm foi da mesma opinio.
- Ento, vamos reformar-nos os dois ao mesmo tempo. A Maggie e eu at podemos ir visitar-te ao rancho. A minha idade avanada deveria ser deficincia suficiente 
para nos qualificar como hspedes.
- Tretas... - Sam contornou a secretria e aproximou-se para o beijar na face. - Nunca sers assim to velho, Harvey, a no ser quando tiveres cento e trs anos.
- Fao-os na semana que vem. - Ps um brao  volta dos ombros de Sam e beijou-a. Tenho orgulho em ti, Sam. s uma mulher danada. - Ento, tossiu, embaraado, reme
xeu na secretria e fez-lhe sinal com o dedo para sair. - Agora vai dizer ao Charlie que ele tem um novo cargo. Sem proferir mais nada, Sam saiu e foi pelo corredor 
fora, com um largo sorriso nos lbios. Parou  porta do gabinete de Charlie, que estava no caos habitual, e entrou de rompante, no preciso momento em que ele tentava 
encontrar a raqueta de tnis, debaixo do sof. Tinha um jogo  hora de almoo e s conseguira encontrar as bolas.
- Do que  que ests  procura, lorpa? No sei como  que consegues encontrar alguma coisa nesta confuso.
- H? - Charlie levantou a cabea, mas s por instantes. - Oh, s tu. No encontro. Por acaso, no tens uma raqueta de tnis a mais, pois no? - S aturava piadas 
destas a Charlie.
- Claro. Jogo duas vezes por semana. Tambm fao patinagem no gelo. E tenho lies de ch-ch-ch.
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- Cala-te. No sejas desagradvel. O que  que se passa? No tens nenhum pudor, nenhum gosto? - Olhou-a com um ar de afronta fingido e Sam desatou a rir.
- A propsito,  melhor comprares um bocadinho dos dois, vais precisar.
- Do qu? - Charlie parecia no entender. - Gosto. Precisas de arranjar gosto...
- Porqu? Nunca precisei de ter gosto.
- Mas tambm nunca foste director criativo de uma grande agncia. - Charlie olhou-a fixamente sem compreender.
- O que ests para a a dizer? - O corao bateu mais forte. Mas no podia ser. Harvey oferecera o lugar a Samantha... a no ser... - Sam?
- O senhor director criativo ouviu-me. - Sam sorriu, exultante.
- Sam...? Sam! - Charlie deu um salto e ps-se de p. - Ele... eu sou...?
-Sim. s.
- Mas... e tu? - Parecia estar em estado de choque. Teriam passado por cima dela? Se fosse esse o caso, no aceitaria o cargo. Demitir-se-iam ambos, podiam abrir 
negcio juntos podiam...
Sam conseguia imaginar a mente de Charlie s voltas e deu-lhe uma ajuda.
- Tem calma. O cargo  teu. Eu, eu vou para a Califrnia, Charlie, para gerir um rancho para crianas deficientes E se fores simptico comigo, talvez vos deixe, 
a ti e aos midos, virem visitar-me no Vero e...
Charlie no a deixou acabar. Correu para ela e abraou-; com fora.
- Oh, Sam, j decidiste! J decidiste! Quando  que to maste a deciso? - Estava to excitado por ela como por ele Quase que dava saltos como uma criana.
- No sei. - Sam ria enquanto ele a abraava. - Ache que agora mesmo no gabinete do Harvey... ou ontem  noit no avio... ou ontem de manh quando falei com o Josh. 
No sei quando  que foi, Charlie. Mas decidi.
- Quando  que sais?
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- Quando assumires o cargo. No dia um de janeiro. - Meu Deus, Sam, ele est mesmo a falar a srio? Director criativo? Eu? Mas s tenho trinta e sete anos.
-- No faz mal. - Sam tranquilizou-o. - Pareces ter cinquenta.
- Obrigadinho. - Charlie ainda estava em xtase quando pegou no telefone para falar  mulher.

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- Ento? Como  que isso vai? Quando  que abres? - Charlie telefonava a Sam todas as semanas, para chorar no ombro dela por causa de todo o trabalho que tinha em 
cima da secretria e para saber coisas sobre os progressos no rancho. - Abrimos daqui a duas semanas, Charlie.
- O que  isso? Um banco? Ofereces torradeiras, bales e chapeuzinhos?
Sam sorriu. Nos ltimos cinco meses, Charlie no fizera mais nada a no ser encoraj-la. No decurso de uma vida, cinco meses no representavam nada, mas o facto 
de trabalhar entre dezasseis a dezoito horas por dia transformavam aqueles meses em anos. Deitaram abaixo os alojamentos mais pequenos, construram novos alpendres, 
fizeram alteraes nas casas, colocaram rampas, instalaram uma piscina, venderam a maior parte do gado, com a excepo de umas quantas vacas para lhes darem leite 
e divertirem as crianas. Fora necessrio encontrar terapeutas, entrevistar enfermeiras, contactar mdicos e, inevitavelmente, realizar viagens. Sam voara para Denver 
a fim de falar com o mdico que realizara a primeira operao  coluna, para Phoenix, para Los Angeles, para So Francisco e, finalmente, para Dallas e Houston. 
Em cada cidade, encontrava-se com os melhores ortopedistas. Contratara uma secretria para viajar consigo, o que lhe facilitava as coisas e dava um ar mais profissional. 
Queria explicar o programa aos mdicos, para que estes o referissem aos doentes. As crianas passariam quatro a seis semanas no rancho a reaprender a apreciar a 
vida, a montar, a estar com outras crianas com incapacidades semelhantes, a ser independentes dos pais e a cuidar de si prprias.
Ao apresentar o seu projecto, Sam mostrava fotografias de como o rancho fora e planos arquitectnicos daquilo que viria a ser. Dava pormenores das instalaes e 
dos planos para a fisioterapia, apresentava currculos do pessoal e referncias pormenorizadas de si prpria. Teve uma recepo calorosa em todos os stios a que 
foi e os mdicos ficaram impressiona
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dos. Todos a recomendaram a outros mdicos, muitos dos quais a convidaram para suas casas, a fim de conhecer as mulheres e famlias. Em Houston, Sam at teve oportunidade 
de estabelecer uma relao mais ntima com um mdico, mas recusou amavelmente e ainda ganhou o mdico para a sua causa. Quando acabou as viagens, Sam tinha a certeza 
de que, pelo menos, quarenta e sete mdicos, em seis cidades, recomendariam o rancho a doentes.
Sam manteve o nome de Rancho Lord e assegurou o servio de um punhado de antigos cowboys. Josh tornara-se capataz, como prometido, e at lhe oferecera uma placa 
de bronze
para pr na porta da frente, o que o deliciava. Josh informou-a de que seria necessrio um novo tipo de ajudantes e, juntamente com Josh, escolheu-os cuidadosamente 
de acordo com o seu relacionamento com crianas e com os conhecimentos que possuam de deficincias e de cavalos. No queria ningum muito velho, impaciente, conflituoso 
ou disposto a correr riscos com as crianas ou com os cavalos. S a contratao dos homens levara-lhe quase dois meses. Mas agora tinha uma dzia de ajudantes: dois 
antigos e dez novos. O seu favorito de entre todos era um jovem de ombros largos, bonito, ruivo, de olhos verdes, chamado Jeff. Era tmido e fechado relativamente 
 sua vida privada, mas estava sempre pronto a falar durante horas acerca do que iam fazer com o rancho. As suas referncias diziam que, com a idade de vinte e quatro 
anos, trabalhara em ranchos desde os dezasseis e, em oito anos, estivera em oito ranchos em trs estados. Quando Sam lhe perguntou porqu, ele s respondeu que costumava 
viajar muito com o pai, mas que agora estava por conta prpria. Ao telefonar para os dois ltimos ranchos onde ele trabalhara, responderam-lhe que fizesse tudo o 
que pudesse para o manter e que, se ele no ficasse, que o mandasse de volta para eles. Assim, Jeff Pickett tornou-se capataz adjunto e Josh ficou satisfeito com 
a sua nova equipa.
O nico problema que Sam enfrentou durante uns tempos foi o dinheiro, mas  espantoso o que pode acontecer quando se deseja muito uma coisa, o que era o caso. Caroline 
deixara-lhe uma pequena quantia em dinheiro, que fora absorvida pelas alteraes feitas no rancho nas primeiras sema
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nas. Depois disso, a venda do gado foi uma grande ajuda. Josh apareceu, ento, com uma ideia para a ajudar. J no iriam precisar de muitas das alfaias, ferramentas, 
tractores e camionetas para transportar o gado; por isso, Sam vendeu-os, o que permitiu pagar seis novas cabanas e a piscina. Comeou ento  procura de subsdios 
e descobriu uma grande quantidade de recursos a que no havia prestado ateno. Depois de conseguir trs subsdios, fez um pedido de emprstimo a um banco.
Um ms antes, Harvey telefonara-lhe de Palm Springs, onde estava de frias com Maggie, enquanto jogava golfe com alguns velhos amigos num torneio, perguntando-lhe 
se podiam ir v-la. Quando a visitaram, Harvey insistiu em investir cinquenta mil dlares no rancho. Era pouco mais do que a quantia que ela precisava. Uma ddiva 
de Deus, como Sam referiu quando ele passou o cheque. Ia ficar numa situao desafogada at abrirem. Dentro de um ano ou dois, Sam esperava no terem dvidas e serem 
auto-suficientes. No queria enriquecer com o que estava a fazer. S queria fazer dinheiro suficiente para ter uma vida cmoda e financiar o rancho.
A data de abertura, como Sam dissera a Charlie na altura, era o dia sete de Junho; o resto dos terapeutas chegaria dentre de poucos dias, bem como alguns cavalos 
novos. Os jacuzzi:
j estavam todos instalados, a piscina tinha um ar estupendo as cabanas eram confortveis e Sam j tinha reservas para trinta e seis midos para os prximos dois 
meses.
- Quando  que posso ir?
-No sei, querido, quando quiseres. Mas primeiro deixa-me tomar flego depois de abrirmos. Acho que vou ter muito que fazer durante uns tempos.
Como se veio a verificar, a realidade foi outra. Sam no contara ficar to ocupada. Estava atolada de trabalho todas as manhs, com montanhas de papis, cartas de 
mdicos, pedidos de pais, e passava a tarde inteira a ensinar crianas juntamente com Josh. Um dos subsdios fora para comprar selas especiais para crianas. Tinham 
cinquenta selas e j haviarr entrado com outro pedido para mais cinquenta, que Sam suspeitava irem precisar em breve. Provou ter uma pacincia in
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finita com as crianas, quando as ensinava em grupos de duas ou trs. Depois do terror inicial, de cada vez que elas se sentavam a agarrar no aro, o cavalo comeava 
a andar enquanto Josh as guiava. O sentimento de liberdade, de movimento e de se sentirem verdadeiramente a andar, maravilhava as crianas de tal modo que gritavam 
de alegria. Sam nunca ultrapassou o seu prprio sentimento de excitao e de jbilo ao observ-las; via, frequentemente, Josh e os outros cowboys a limparem as lgrimas.
Todas as crianas pareciam ador-la e, como os ajudantes mais antigos j l estavam h mais de dois anos, comearam a chamar-lhe Palomino por causa do cabelo louro-claro. 
De s bito, por todo o lado no rancho, ouvia-se gritar "Palomino!... Palomino!", quando ela andava de um lado para o outro, a fazer as camas ou a varrer os quartos 
nas pequenas e bonitas cabanas. Sam observava-as cautelosamente em todo o lado e,  noite, no salo principal, onde todos agora comiam, inclusive Samantha, havia 
discusses interminveis em torno da questo de quem  que se sentaria  sua mesa, de quem  que se sentaria  sua direita ou  sua esquerda e de quem  que lhe 
daria a mo quando paravam no meio do campo. O mais velho de todos era um rapaz de dezasseis anos, que quando chegara era carrancudo e agressivo, com doze operaes 
realizadas em dezanove meses, depois de ter lesionado a espinal medula num acidente de moto, no qual morrera o irmo mais velho. Aps quatro meses no rancho era 
uma nova pessoa. O ruivo Jeff era o seu mentor e tornaram-se bons amigos. A mais nova era uma menina de sete anos, com enormes olhos azuis, facilmente emocionvel 
e uma pronncia ceceada. Chamava-se Betty, nascera com cotos em vez de pernas e ainda tinha um pouco de receio dos cavalos, mas estava a divertir-se imenso com os 
outros midos.
s vezes, quando olhava  sua volta, espantada,  medida que o Vero avanava e o nmero de crianas aumentava, Sam maravilhava-se com o facto de os deficientes 
no a aborrecerem. Houvera uma fase da sua vida em que s a perfeio era normal e em que no saberia lidar com nenhum dos problemas que agora faziam parte de um 
dia vulgar: crianas que no cooperavam, membros artificiais que no se adaptavam,
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fraldas para rapazes com catorze anos, cadeiras de rodas que emperravam, aparelhos de apoio para as pernas que se partiam. Por vezes, achava a mecnica de tudo aquilo 
extraordinria, mas o mais extraordinrio de tudo  que se tornara um modo de vida. E, para uma mulher que desejara ardentemente ter filhos, as preces haviam sido 
atendidas: no final de Agosto tinha cinquenta e trs. E havia um novo aspecto a ter em conta. Haviam comprado uma carrinha com equipamento especial, com outro subsdio, 
estabelecendo acordos com a escola local, para que depois do dia do Trabalho as crianas que chegassem ou que continuassem pudessem ir  escola. Para muitos, tratava-se 
de uma reinsero na escolaridade com alunos normais. Seria um bom local para elas se adaptarem antes de voltarem s suas terras natais. No havia quase nada em 
que Sam no tivesse pensado e, quando Charlie e Mellie apareceram no final de Agosto, ficaram completamente pasmados com o que viram.
-j escreveram algum artigo sobre ti e o teu trabalho, Sam? - Charlie estava fascinado a ver um grupo de cavaleiros mais velhos a voltar a meio galope de uma tarde 
nas montanhas. A maior parte das crianas gostava dos cavalos, sendo estes cuidadosamente escolhidos por Sam e Josh de acordo com a docilidade e a estabilidade que 
patenteavam.
Agora, como resposta  pergunta de Charlie, Sam abanou a cabea.
- No quero nenhuma publicidade, Charlie. -Porqu? - Como vivia no meio do turbilho da mundanidade de Nova Iorque, Charlie parecia surpreendido. - No sei. Acho 
que gosto disto assim. Bonito e calmo. No quero dar nas vistas. S quero ajudar os midos.
- E  isso que ests a fazer. - Charlie sorriu, enquanto Mellie corria pela estrada atrs da pequena Sam. - Nunca vi midos com um ar to feliz. Eles adoram, no 
adoram? -Espero que sim.
E adoravam, assim como os pais, os mdicos e as pessoas que l trabalhavam. O que Sam realizara fora um sonho tornado realidade. Dera s crianas toda a independncia 
que esperara dar-lhes, proporcionara aos pais uma outra esperana para os filhos, e aos mdicos uma espcie de presente para
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oferecer aos pais e s crianas destroadas; alm disso, dera s pessoas que trabalhavam no rancho um novo significado para as suas vidas. Na maior parte do tempo, 
apareciam crianas que faziam com que tudo valesse a pena. De vez em quando, surgia uma ou outra que nem os mais devotados terapeutas e conselheiros, e nem mesmo 
os esforos dedicados de Sam, conseguia ajudar. Havia aquelas que no estavam preparadas ou que ainda no queriam ajuda, ou que talvez nunca viessem a quer-la. 
Era-lhes dificil aceitar o facto de no poderem ajudar uma criana; todavia, faziam o seu melhor enquanto ela l permanecesse.
Espantosamente, apesar da magnitude das deficincias com que lidavam, era sempre um lugar feliz, pleno de risos, rostos risonhos e gritos de alegria. A prpria Sam 
nunca fora to feliz nem nunca se sentira to descontrada em toda a sua vida e agora, quando encontrava rancheiros, ajudantes, ou entrevistava pessoal novo, no 
fazia perguntas fora do mbito dos assuntos do rancho. A sua busca interminvel, desesperada e infrutfera por Tate fora, finalmente, posta de lado. Aceitava, com 
uma serenidade de esprito que aborrecia Charlie, o facto de que ficaria s at ao fim da vida, a tomar conta do rancho, com os "seus midos". Parecia ser a nica 
coisa que Sam desejava. Josh achava que era uma pena, uma mulher espantosamente bela, de trinta e dois anos, ficar sozinha. Mas nenhum dos homens que se atravessava 
no seu caminho parecia interess-la e Sam tinha sempre cuidado em no encorajar nem se insinuar a ningum, quando conhecia pais solteiros, terapeutas ou mdicos. 
Dava a impresso de j no ter vida amorosa, de ser uma porta fechada. No entanto, era dificil sentir pena dela, rodeada como estava de crianas que a adoravam e 
de quem ela parecia gostar sinceramente.
Foi em. Outubro, num dia anormalmente quente, que Sam foi chamada ao seu gabinete, para ver um novo mido que chegara, um caso excepcional. Fora recomendado para 
o Rancho Lord por um juiz de Los Angeles, que ouvira falar do trabalho que ela estava a realizar, sendo as despesas pagas pelo tribunal. Sam sabia que o esperavam 
nessa manh e tambm que existiam circunstncias especiais em relao a ele; o assistente social dissera-lhe, ao telefone, que lhe explicaria tu
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do quando chegassem. Ficou intrigada com a natureza da nova criana recomendada, mas, nessa manh, tivera trabalho com Josh e no quisera esperar no escritrio. 
Havia muito trabalho a fazer antes de as crianas virem da escola. No momento, tinha sessenta e uma a ficar no rancho. J decidira, mentalmente, que cento e dez 
seria o limite, mas, entretanto, ainda existia espao para se expandirem.
Quando Jeff a encontrou, perto dos jacuzzis, a falar com Josh, aquele exibia uma expresso estranha e, ao voltar ao gabinete, percebeu porqu. Numa cadeira de rodas 
bastante estragada, encontrava-se uma criana loura, encolhida, com enormes olhos azuis, os braos cheios de ndoas negras, abraada a um ursinho de peluche esfarrapado. 
Quando Sam a viu, quase parou, porque parecia muito diferente das outras. Nos ltimos cinco meses no vira mais nada a no ser crianas deficientes, que choravam, 
gemiam, refilavam, amuavam e mostravam m cara  chegada. No queriam ir para a escola, tinham medo dos cavalos, no percebiam por que motivo  que eram obrigadas 
a fazer as camas; no entanto, por muito que resmungassem at se adaptarem, o que todas tinham em comum  que eram crianas que haviam sido criadas com bem-estar 
e abundncia, quase estragadas com mimos por pais que as amavam e que estavam destroados com o destino que lhes calhara em sorte. Nunca antes houvera uma criana 
no rancho que tivesse um ar to mal-amado, to magoado no esprito como no corpo. Quando Sam se aproximou para falar com o rapazinho e lhe estendeu as mos, encolheu-se 
para fugir dela e comeou a chorar. Sam olhou de imediato para o assistente social e depois, de novo, para a criana agarrada ao ursinho de peluche.
- Est tudo bem, Timmie - disse num tom de murmrio. - Ningum vai fazer-te mal. Chamo-me Sam. E este  o Jeff: - Fez um sinal na direco do rapaz ruivo, mas Tim
mie fechou os olhos com fora e chorou mais alto. - Ests com medo? - No era mais do que um doce sussurro e, pouco depois, fez um sinal afirmativo com a cabea 
e abriu um olho. - Eu tambm tive medo quando vim para aqui pela primeira vez. Antes do acidente, costumava andar a cavalo a toda a hora, mas ao princpio, quando 
c cheguei, tinha medo dos cavalos.  disso que tens medo?
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Timmie abanou vigorosamente a cabea. -Ento, do que ?
Timmie abriu o outro olho e olhou-a com terror. -V l, podes dizer-me.
- De ti - afirmou ele num sussurro, os olhos fixos nela. Sam ficou chocada e, com os olhos, fez sinal a Jeff, ao assistente social e  secretria para se afastarem. 
Dirigiram-se lentamente para o outro extremo da sala.
- Porque  que tens medo de mim, Timmie? No te fao mal. Estou numa cadeira de rodas, tal como tu. Timmie olhou-a por instantes, depois fez um gesto com a cabea.
-Como  que aconteceu?
-Aleijei-me num acidente. -j no dizia que um cavalo a derrubara. No servia os seus propsitos, quando tentava iniciar crianas na arte de montar. - Mas j estou 
boa. Consigo fazer muitas coisas.
- Eu tambm. Sei fazer o meu jantar. - "Uma criana a fazer o jantar?", interrogou-se subitamente. Quem era aquela criana e por que motivo parecia to maltratada?
- O que  que gostas de fazer para o jantar? Espaguete. Vem numa lata.
- Tambm c temos espaguete.
Sam sentiu uma enorme compaixo, estendeu os braos e pegou-lhe na mo. Desta vez, ele no a evitou, embora a outra mo continuasse a apertar o ursinho esfarrapado.
-Pensavas que isto era como a priso? Timmie assentiu com a cabea.
- No .  uma espcie de campo de frias. J alguma vez estiveste num?
Timmie abanou a cabea; Sam reparou que ele tinha mais ar de quatro do que de seis anos, que era a idade que ela sabia que tinha. Tambm era do seu conhecimento 
que ele tivera poliomielite apenas com um ano. Ficara totalmente paralisado da cintura para baixo.
- A minha me est na priso. - Deu voluntariamente a informao.
- Lamento.
- Apanhou noventa dias.
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-  por isso que ests aqui? - Onde estava o pai... a av... algum que amasse aquela criana? Foi a primeira admisso que a perturbou. Apetecia-lhe dar um abano 
a quem fizera aquilo ao mido. - Vais ficar connosco enquanto ela l estiver?
- Talvez.
- Gostavas de aprender a andar a cavalo? - Talvez.
- Podia ensinar-te. Adoro cavalos, e temos alguns mesmo bonitos. Podes escolher um de que gostes. - Havia ainda uma dzia de cavalos por atribuir. Cada criana montava 
sempre o mesmo cavalo durante toda a sua estada no rancho. - Que tal, Timmie?
- Hum... Sim... - Timmie olhava nervosamente para Jeff. - Quem  aquele?
-  o Jeff.
-  xui?
- No. - Sam resolveu falar a sua linguagem. - No temos c xuis. Ele s ajuda com os cavalos e os meninos. -Ele bate nos meninos?
- No. - Sam pareceu chocada, depois estendeu a mo e fez-lhe uma festa no rosto. - Aqui, ningum te far mal, Timmie. Nunca. Prometo.
Timmie anuiu com a cabea, mas era bvio que achava que era mentira.
- E se viesses comigo? Podias ver-me a ensinar a montar e podamos tomar banho na piscina.
-Tens uma piscina? - Os olhos de Timmie comearam a iluminar-se.
- Claro. - Mas a primeira piscina onde ela o queria levar era a banheira. Estava imundo da cabea aos ps. Dava  impresso que no tomava banho h semanas. - Queres 
ver o teu quarto?
Timmie encolheu os ombros, mas Sam viu que o interesse estava a despontar e, com um pequeno sorriso, deu-lhe um livro para colorir, alguns lpis de cor e pediu-lhe 
que esperasse por ela.
-Onde  que vais? - Timmie olhou para ela com ar desconfiado e receoso.
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- Acho que o homem que te trouxe at c quer que eu assine uns papis. Depois levo-te at ao teu quarto e mostro-te a piscina. Est bem?
-Est bem. - Timmie comeou a tirar os lpis, enquanto Sam atravessava a sala na sua cadeira de rodas e fazia sinal ao assistente social para a acompanhar ao gabinete 
da sua secretria. Num sussurro, pediu a Jeff para ficar.
O assistente social era um homem de ar cansado, de quarenta e muitos anos. J vira muita coisa, e aquele mido no era pior do que os outros. Mas uma criana no 
estado de Timmie era novo para Sam.
- Meu bom Deus, quem  que tem tomado conta dele? - Ningum. A me foi presa h duas semanas e os vizinhos pensaram que o tinham mandado para outro lugar. Ela no 
falou da existncia dele aos policias quando a prenderam. O mido tem estado no apartamento, a ver televiso e a comer comida enlatada. - Soltou um suspiro e acendeu 
um cigarro. -  viciada em herona. J esteve vrias vezes na cadeia, em centros de tratamento, em hospitais, e sabe Deus mais onde. O mido foi um "beb de engate", 
e ela nunca o vacinou. Da a poliomielite. - O assistente social parecia irritado, Sam parecia confusa.
-Desculpe, o que  um "beb de engate"? O assistente social sorriu.
- Esquecia-me que h pessoas decentes que no conhecem este tipo de expresses. Um "beb de engate"  uma criana concebida por uma prostituta. Ela no sabe quem 
 o pai: um dos seus clientes. Maravilhoso, no acha?
- Porque  que os tribunais no lhe retiram a custdia da criana?
- Talvez o faam. Julgo que o juiz est a ponderar essa hiptese desta vez. Alis, ela est a pensar renunciar  criana. Julga-se uma das primeiras mrtires crists, 
presa a uma criana aleijada, de quem  obrigada a cuidar h seis anos. - O assistente social hesitou, por instantes, e depois olhou fixamente para Sam. - Posso 
tambm dizer-lhe que existe aqui uma questo de maus tratos. Os ferimentos nos braos... Ela bateu-lhe com um guarda-chuva. Quase partiu a coluna do mido.
- Oh, meu Deus, e ainda ponderam a hiptese de a criana voltar para ela?
- Foi reabilitada - informou ele, com todo o cinismo caracterstico das suas funes. Sam nunca se encontrara exposta a nada daquilo anteriormente.
- Ele tem tido algum acompanhamento psiquitrico? O assistente social abanou a cabea.
- De acordo com a nossa avaliao, trata-se de uma criana normal,  excepo das pernas, naturalmente. Do ponto de vista mental, est bom. To bom como qualquer 
outra criana.
Sam teve vontade de lhe gritar. Como  que ele poderia estar bom se a me lhe batera com um guarda-chuva? A criana parecia aterrorizada. Sam j vira o suficiente.
- De qualquer forma, ela est na cadeia h duas semanas, mas, com o tempo descontado por bom comportamento e o crdito pelo tempo cumprido, estar c fora dentro 
de dois meses. Vai ficar com ele durante sessenta dias. - Como um animal, um carro, uma coisa para alugar. "Alugue um mido. Alugue um aleijadinho." Sam sentiu nojo.
- E depois?
- Fica com ele, a menos que o tribunal decida algo em contrrio, ou ela no o queira. No sei, talvez possa ficar com ele como filho adoptivo por tempo determinado, 
se quiser. - Ele no pode ser adoptado por pessoas decentes?
- No, a menos que ela desista da custdia, e no pode for-la a tal coisa. Alm disso... - O assistente social encolheu os ombros. - Quem  que vai adoptar uma 
criana numa cadeira de rodas? Seja como for, ele vai acabar por ser entregue a uma instituio. - "A priso", como Tinunie j dissera. Que vida cruel para uma criana 
de seis anos!
Sam exibia um ar pesaroso quando o assistente social se encaminhou para a porta.
-  com muito prazer que ficamos com ele. E ficaremos durante mais tempo se necessrio. Quer o tribunal pague, quer no pague.
O assistente social concordou com a cabea.
- Informe-nos se tiver algum problema. Ns podemos mant-lo na ala de menores at ela sair.
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- Isso no  como... uma priso? - Sam pareceu horrorizada e ele encolheu novamente os ombros.
-Mais ou menos. Que outra coisa  que podemos fazer com eles, enquanto os pais esto na priso? Mand-los para um campo de frias? - O engraado  que tinha sido 
o que eles haviam acabado de fazer.
Sam deu meia volta e voltou para o gabinete, onde Timmie rasgara uma pgina do livro de colorir e fizera uns rabiscos nela.
-Ests pronto, Timmie?
-Onde est o xui? - Parecia um pequeno gangster, e Sam riu-se.
- Foi-se embora. Ele no  xui,  assistente social. -  a mesma coisa.
-Bem, deixa-me levar-te ao teu quarto, - Tentou empurrar-lhe a cadeira, mas as rodas estavam perras e um dos apoios laterais partido. - Como  que consegues ir a 
um stio qualquer numa coisa destas, Timmie?
Ele olhou-a com uma expresso estranha. -Nunca saio.
- Nunca? - Sam pareceu chocada. - Nem sequer com a tua me?
-Ela nunca me leva a passear. Dorme muito. Est sempre cansada. - Se era viciada em herona, devia dormir muito, pensou Sam.
- Estou a perceber. Bem, parece-me que a primeira coisa que vais precisar  de uma cadeira nova. - Era um artigo que no tinham. No possuam cadeiras sobresselentes, 
mas existia uma guardada no porta-bagagens da carrinha, para uma qualquer eventualidade. - Tenho uma cadeira que podes usar por agora. Ser um pouco grande, mas 
amanh arranjamos-te uma nova. Jeff .. - Sam sorriu para o jovem ruivo. - Podes ir buscar a minha cadeira sobresselente? Est no porta-bagagens da carrinha.
- Claro.
Jeff voltou cinco minutos depois e anichou Timmie na enorme cadeira cinzenta, enquanto Sam se ps ao seu lado para o ajudar com as rodas.
Ao passarem pelos outros edificios, Sam explicou-lhe o
que eram. Detiveram-se no curral durante alguns minutos para ele observar os cavalos. Depois de olhar fixamente para um deles e para o cabelo de Sam, Timmie declarou:
-Aquele parece-se contigo.
-Eu sei. Alguns meninos chamam-me Palomino. Aquele cavalo  um palomino.
-  o que tu s? - Por instantes, Timmie pareceu divertido.
- As vezes, gosto de fingir que sou. Tambm finges coisas assim?
Tinunie abanou a cabea com ar triste e continuou na direco do seu quarto. Fora com satisfao que Sam lhe reservara aquele quarto. Era grande, soalheiro e decorado 
em tons de azul e amarelo. Havia uma colcha, enorme e alegre, e desenhos de cavalos emoldurados nas paredes.
- De quem  este quarto? - Timmie pareceu novamente assustado, quando ela o conduziu para dentro do quarto. -  teu. Enquanto c estiveres.
- Meu? - Os olhos de Timmie esbugalharam-se. - Ests a falar a srio?
- Estou.
Havia uma secretria, sem cadeira, uma cmoda e uma pequena mesa onde ele podia jogar. Timmie teria a sua prpria casa de banho e havia um intercomunicador especial 
para ocaso de estar com problemas e precisar de chamar um dos supervisores.
- Gostas?
A nica coisa que ele conseguiu proferir foi:
- Uau!
Sam mostrou-lhe a cmoda, informando-o de que ali poderia guardar as suas coisas.
- Que coisas? - Timmie parecia confuso. - No tenho nada.
- No trouxeste uma mala com algumas coisas? - Sam lembrou-se ento que no vira qualquer mala ou saco.
- No. - Timmie olhou para a T-shirt cheia de ndoas, que j fora azul. -  tudo o que tenho. E o Teddy. - E apertou o ursinho ainda mais.
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- Vou dizer-te uma coisa. - Sam olhou para Jeff e depois para Timmie. - Agora vamos pedir algumas coisas emprestadas, depois vou  cidade e compro-te umas calas 
de ganga e mais umas coisas. Est bem?
- Claro. - Timmie no parecia preocupado com aquele facto, estava feliz com o seu quarto.
- Agora, vamos tomar banho. - Sam entrou na casa de banho e abriu a torneira, depois de ligar um interruptor especial, ao alcance da mo, que interromperia o fluxo 
de gua.
Fora tudo alvo de instalao especial. E a banheira tinha pegas de ambos os lados. - E se quiseres usar a sanita, s tens de premir este boto e algum vir ajudar-te.
Timmie olhou-a, sem compreender. -Porque  que tenho de tomar banho? - Porque faz bem.
- s tu que vais dar-me banho?
- Posso pedir ao Jeff para to dar, se quiseres. - Sam no sabia se, aos seis anos, ele seria envergonhado; mas no era, e abanou a cabea com veemncia.
-Tu! Tu! Tu!
-Est bem. - Para Sam, tratava-se de uma nova aventura. Levara apenas dez meses a aprender a lavar-se, mas dar banho a uma criana numa cadeira de rodas seria uma 
nova experincia.
Sam pediu a Jeff que fosse buscar roupas que servissem a Timmie, arregaou as mangas e disse ao garoto como deveria entrar na banheira; quando ele escorregou e ela 
tentou agarr-lo, quase caram os dois no cho. Por fim, conseguiu l enfi-lo, acabou tambm por se molhar e, quando o ajudava a sentar na cadeira que lhe emprestara, 
desequilibrou-se e caiu. Ao ver-se no cho, Sam olhou para Tinimie e desataram os dois a rir.
- Que desajeitada, no achas?
- Pensei que eras tu que me ias ensinar a tomar banho. - Bem, h outras pessoas aqui que fazem isso. - Iou-se cuidadosamente do cho molhado e sentou-se na cadeira. 
- O que  que fazes?
-Ensino a montar.
Timmie fez um ligeiro gesto com a cabea e Sam deu

`consigo a interrogar-se sobre o que ele estaria a pensar. Pelo menos, j no parecia ter medo dela. Quando Jeff lhe trouxe as roupas que fora buscar a vrias cabanas, 
Tinunie parecia uma nova criana. Mas Sam estava encharcada e tinha de ir ao quarto mudar-se.
- Queres visitar a minha casa?
Com alguma hesitao, Timmie concordou com um gesto da cabea e, depois de o ajudar a vestir, Sam conduziu-o at l. Havia agora uma rampa de fcil acesso para o 
edificio principal, e ele seguiu-a at  sala de estar e pelo corredor fora at ao quarto. Sam tirou umas calas de ganga e, uma camisa do roupeiro, que fora totalmente 
reconstrudo. Mantinha o velho quarto de Caroline como o melhor quarto de hspedes, mas quase nunca o usavam e raramente o visitava. Continuava a custar-lhe v-lo 
vazio, sem aquela que fora a sua melhor amiga.
- Tens uma casa bonita. - Tinunie olhava  volta com ar interessado. O ursinho de peluche tambm viera com ele. - Quem dorme nos outros quartos?
- Ningum.
- No tens filhos? - Tinunie parecia espantado.
- No.  excepo de todos os meninos que vivem aqui no rancho comigo.
- Tens marido? - Era uma pergunta que muitas crianas faziam a Sam e  qual ela respondia sempre com um sorriso e um "no", e a conversa ficava por ali.
- No.
-Porque no? s bonita.
- Obrigada. No tenho, s isso. - Queres casar?
Sam soltou um suspiro ao olhar para a bonita criana loura. Era efectivamente muito bela, agora que estava limpa. -Acho que no quero casar, Timmie. Levo uma vida 
especial.
- A minha me tambm. - Tinunie fez um gesto de concordncia com a cabea; Sam ficou primeiramente chocada, depois riu-se, no podendo dizer: "No  essa vida."
Sam tentou explicar-lhe as suas razes.
-Julgo que no teria tempo para um marido, com o rancho e vocs todos.
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Timmie observava-a atentamente; depois, apontou para a cadeira de rodas.
-  por causa disso? - O que ele acabara de lhe perguntar atingiu-a como um soco no estmago, porque era a verdade, mas no queria nem podia admiti-lo.
- No, no  por causa disto. - Receou que ele percebesse que estava a mentir; ento, sem lhe dar tempo de fazer mais perguntas, conduziu-o para fora do edificio. 
Visitaram os estbulos e o salo principal, viram duas vacas num curral e dirigiram-se  piscina, para umas rpidas braadas antes do almoo. Havia poucas crianas 
no rancho quela hora daquele dia de Outubro. Quase todas `se encontravam na escola, tendo sido l deixadas pela enorme carrinha escolar adaptada, que Sam comprara 
para transportar as crianas. Mas as que andavam por ali cumprimentaram Timmie com afecto e interesse, de modo que, quando as outras regressaram s trs e meia, 
j ele perdera praticamente toda a vergonha. Observou-as a terem lies de equitao, a precipitarem-se em direco  piscina nas cadeiras de rodas e a correrem 
atrs uns dos outros pelos passeios largos e bem pavimentados. Encontrou Josh e apertou-lhe a mo com solenidade, observou Samantha durante todas as aulas e, quando 
ela acabou, ainda se encontrava c,por fora.
-Ainda ests a, Timmie? Pensei que tivesses voltado para o quarto.
Timmie limitou-se a abanar a cabea com os enormes olhos pregados no ursinho de peluche.
- Queres ir a minha casa antes do jantar?
Timmie assentiu com a cabea e estendeu-lhe a mo e, de mos dadas, voltaram para o edificio principal, onde ela lhe leu, histrias at a velha sineta da escola 
tocar, a anunciar que eram horas de ir comer.
-Posso sentar-me ao p de ti, Sam? - Timmie estava, uma vez mais, com ar preocupado, e Sam tranquilizou-o. Suspeitava que ele estivesse cansado, depois do longo 
primeiro dia no rancho. Timmie sentou-se ao lado dela ao jantar, a bocejar e, antes de a sobremesa chegar, o pequeno queixo cara sobre o peito e o corpo tombara 
para um canto da enorme cadeira de rodas cinzenta. O ursinho de peluche manti
nha-se ainda apertado entre os braos; Sam sorriu, tirou a grossa camisola que envergava, colocou-a  volta dele como um cobertor e saiu da mesa para o levar para 
o quarto. A, Sam ergueu-o cuidadosamente da cadeira e meteu-o na cama com um gesto suave mas vigoroso; os braos haviam ganho muita fora devido ao uso constante. 
Despiu-o, mudou-lhe as fraldas, apagou a luz e passou a mo carinhosamente pelos macios cabelos louros. Por instantes, lembrou-se dos filhos de Charlie, dos rostos 
doces e dos enormes olhos azuis e, de sbito, recordou o desejo ardente de ter um filho, tal como sentira ao pegar pela primeira vez na pequena Samantha, um vazio 
que, na sua vida, nunca seria preenchido. Agora, ao olhar para Timmie, Sam sentia uma grande ternura por ele, como se fosse seu filho. Quando lhe deu um beijo na 
testa, ele mexeu-se ligeiramente e murmurou:
-Boa noite, mam... adoro-te...
Sam sentiu os olhos a inundarem-se de lgrimas. Eram palavras por que teria dado a vida; ento, de cabea baixa, saiu e fechou a porta.
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No final do primeiro ms, Timmie montava a bonita gua palomino. Chamava-se Daisy e adorava-a da mesma maneira que outro rapaz teria adorado o seu primeiro cavalo.
Mas adorava Sam ainda mais, com uma paixo que deixava todos perplexos pela veemncia e intensidade. Aparecia em casa de Sam todas as manhs, batia  porta e ficava 
 espera que ela lha abrisse. s vezes, Sam demorava mais tempo a aparecer, porque ou j estava a fazer caf ou ainda se encontrava na cama. Porm, no momento em 
que a via, o rosto iluminava-se; e, ao entrar, na nova cadeira de rodas que ela lhe comprara, olhava sempre  sua volta, como um cachorro que ficara ao relento toda 
a noite. Tinham, ento, a sua cavaqueira matinal. s vezes, contava a Sam o que sonhara, ou o que uma das crianas fizera ao pequeno-almoo, ou o que a gua palomino 
estava a fazer quando passara pelo curral para lhe dar os bons-dias. Samantha contava-lhe o que iria fazer nessa manh, falavam da aula de equitao e, uma ou duas 
vezes, ela perguntou-lhe se mudara de ideias relativamente  escola, mas ele mantinha-se inflexvel nessa questo. Queria ficar no rancho, no queria ir  escola 
com os outros, e Samantha resolveu que, durante o primeiro ms, pelo menos, deix-lo-ia ficar.
Os ferimentos que a me lhe infligira h muito que haviam desaparecido. O assistente social telefonava uma vez por semana a saber como  que Timmie se encontrava, 
e, quando
no final do ms veio v-los, olhou para Timmie, com evidente perplexidade.
- O que  que a senhora lhe fez? - perguntou o assistente social quando ficaram finalmente a ss. Afastar Tinunie de ao p de Sam no era fcil, mas ela mandara-o 
ir ter com Daisy e dizer a Josh que iriam andar a cavalo dentro de minutos, para mostrar ao assistente social como ele montava bem. - Parece uma criana diferente.
-Ele est uma criana diferente -- afirmou Sam com orgulho. -  uma criana que tem recebido amor e isso  patente.
F        O assistente social olhou-a com um ar triste. -Tem conscincia do mal que est a fazer-lhe?
Sam imaginou que ele estivesse a brincar e esboou um sorriso; apercebendo-se de que falava a srio, franziu o sobrolho.
- O que  que quer dizer com isso?
- Imagina o que ser para ele voltar para um apartamento num prdio, com uma me viciada que o alimenta com bolachas bolorentas e cerveja?
Sam inspirou fundo e olhou pela janela. Havia algo que queria dizer-lhe. Mas no sabia se era a altura certa.
- Queria falar consigo acerca disso, Mister Pfizer. - Sam voltou-se novamente para ele. - E se no o devolvessem  me?
- E mant-lo aqui?
Sam concordou, mas ele comeou a abanar a cabea. --No creio que o juiz esteja de acordo. O tribunal  que est a pagar a estada, e seria uma questo processual, 
sabe...
- No me refiro a isso. - Sam inspirou fundo mais uma vez e resolveu perguntar-lhe. Que teria ela a perder? Nada. E teria tudo... tudo... a ganhar. Pela terceira 
vez na vida, Sam apaixonara-se. E, desta vez, no por um homem, mas por um mido de seis anos. Amava-o como nunca amara outro ser humano, com uma intensidade e um 
sentimento que nunca suspeitara possuir, e agora era capaz de lhe dar tudo o que possua. Havia muito amor que restara dos homens que a haviam abandonado, muito 
amor que ela no chegara a dar. E agora era de Timmie, de todo o corao. - E se eu o adoptar?
- Bem... - O assistente social deixou-se cair numa cadeira e olhou para Samantha. No gostava do que via. Ela adorava a criana. - No sei, Miss Taylor. No gostaria 
de lhe dar muitas esperanas. A me pode quer-lo.
Os olhos de Sam tomaram um brilho estranho.
- Com que direito, posso perguntar, Mister Pfizer? Segundo me lembro, ela bateu-lhe, j para no falar no facto de ser viciada em drogas...
- Est bem, est bem... Eu sei... Quanto menos nos en
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volvermos... "Problemas e mais problemas... melhor", pensou ele. E ali estava aquela mulher a sofrer por se ter afeioado ao garoto. A verdade era que a me, muito 
possivelmente, ia ficar com ele, quer Sam gostasse ou no da ideia. - O facto  que ela  a me natural do rapaz. O tribunal est inclinado para a.
- Qual  a fora dessa inclinao? - O tom de voz era apavorado e frio. Era aterrador ter-se deixado apaixonar por aquela criana de tal forma e ter de encarar a 
possibilidade de ele partir.
O assistente social olhou-a com um ar triste. -Para lhe dizer a verdade,  muita.
- Posso fazer alguma coisa?
- Pode - murmurou ele. - Pode contactar um advogado e enfrent-la, se ela ainda o quiser. Mas  capaz de perder a causa...  o mais provvel. - Pensou ento em question-la 
acerca da criana. - E o rapaz? j lhe perguntou? Isso poderia ter algum peso para o tribunal, embora ele ainda seja muito jovem. Uma me natural teria fortes hipteses 
de ganhar a causa, por mais reles que fosse. Sabe, o pior  que com o estado a reabilit-la, no podemos dizer agora que ela no est em condies. Se o dissermos, 
ento estamos a admitir que todo o nosso sistema de reabilitao no funciona.  uma situao condenada ao fracasso. Est a perceber? - Sam fez um vago gesto afirmativo. 
- E o rapaz, j lhe perguntou? - Sam abanou a cabea. - Porque  que no lhe pergunta?
-  o que farei.
- Telefone-me depois disso. Se ele quiser voltar para a me, deve deix-lo ir. Mas se quiser ficar aqui... - Fez uma pausa, reflectindo no assunto. - Bom, nesse 
caso, eu prprio falarei com a me. Talvez no levante qualquer problema. - Esboou, ento, um sorriso glacial. - Espero, para seu bem, que ela facilite as coisas. 
O mido teria, seguramente, melhor nvel de vida consigo. - Era um eufemismo, mas Sam no ligou importncia. O facto era que Timmie teria um melhor nvel de vida 
em qualquer lado, menos com ela, e Sam estava determinada a proteger a criana com todas as suas foras. Saram ento para ver Timmie a andar a cavalo e, tal co
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mo acontecia com os pais quando os viam pela primeira vez, Martin Pfizer, o velho, cansado e j empedernido assistente social teve de limpar uma lgrima fortuita. 
Era incrvel ver o que acontecera a Timmie. Estava bonito, limpo e feliz, ria o tempo todo, olhava para Sam com um ar de pura adorao, andava alegre, e a coisa 
mais estranha de todas era o facto de se assemelhar fisicamente a ela.
Quando se foi embora ao fim do dia, Martin Pfizer repetiu a Sam num sussurro, enquanto lhe apertava o brao. - Pergunte-lhe e telefone-me. - Afagou os cabelos de 
Timmie, apertou a mo de Sam e fez um ltimo adeus com a mo quando arrancou.
S depois do jantar, nessa noite,  que Sam abordou a questo, enquanto ele abotoava o pijama, j no quarto. - Timmie?
- Sim?
Sam virou-se para ele, sentindo algo a tremer dentro de si. E se ele no a quisesse? E se quisesse voltar para a me? No sabia se conseguiria suportar a rejeio, 
mas tinha de lhe perguntar. E isso seria s o principio.
- Sabes, hoje estive a pensar numa coisa.
Com uma expresso de interesse, Timmie ficou  espera. - Gostava de saber o que  que achavas de ficar por c... - Era horrvel, Sam nunca pensara que fosse to 
dificil fazer-lhe a pergunta. - Sabes, para sempre... isto ...
- Queres que eu fique aqui contigo, no ? - Sim,  isso que quero.
- Uau!
Ela sabia, ao ouvi-lo, que ele no compreendera. Imaginaria que ela se referia a uma estada mais prolongada; alm do mais, teria de lhe dizer que isso significaria 
abandonar a me.
- Timmie... - Ele estava abraado a ela e Sam afastou-o um pouco para lhe poder ver o rosto. - No  como com os outros meninos.
Timmie parecia confuso.
-Eu quero... quero... - Parecia uma proposta de casamento. - Quero adoptar-te, se me deixarem. Mas tambm tens de querer. Nunca faria nada que no quisesses. - Sam
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tentava conter as lgrimas e Timmie olhava-a com perplexidade.
-Isso quer dizer que me queres?
-Claro que te quero, tonto. - Sam apertou-o mais uma vez entre os braos, os olhos a ficarem marejados de lgrimas. - s o melhor menino de todo o mundo!
- E a minha me?
- No sei, Timmie. Essa seria a pior parte. -Ela viria ver-me?
- No sei. Talvez pudssemos combinar as coisas assim, mas acho que seria mais dificil para toda a gente. - Sam estava a ser franca, sabia que tinha de o ser. Era 
um grande passo para uma criana to pequena.
Timmie, porm, exibia um ar assustado quando Sam o olhou de novo; comeara a tremer.
-Ela vem c... e bate-me?
- Oh, no. - Era um grito de angstia. - No deixarei nunca que ela te faa isso.
Ento, de repente, Timmie comeou a chorar e a contar coisas que nunca contara, sobre a me e o que ela lhe fizera. Quando acabou, aninhara-se nos braos de Sam, 
exausto, mas
j no parecia assustado; depois de lhe puxar os lenis at ao queixo, Sam ficou junto dele, s escuras, durante mais de uma hora, a v-lo dormir, enquanto as lgrimas 
lhe corriam pelo rosto, recordando a ltima coisa que ele lhe dissera antes de os olhos se fecharem:
-Quero ser teu, Sam.
E foi s isso que ela quis ouvir.
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Na manh seguinte, Sam telefonou a Martin Pfizer e contou-lhe o que Timmie dissera. Falou-lhe dos maus tratos e da negligncia a que estivera votado, coisas que 
ele guardara dentro de si durante um longo e triste perodo. Pfizer abanou a cabea.
- Custa-me dizer, mas isso no me surpreende. Tudo bem, vou ver o que posso fazer.
Porm, no dia seguinte, verificou que no podia fazer nada. Passara duas horas com a mulher, tentara persuadi-la, falara com o advogado dela no estabelecimento prisional 
onde fora encarcerada, mas sabia que era intil dizer mais o que quer que fosse. Desanimado, telefonou a Sam nessa noite e encontrou-a sozinha em casa.
-Ela no cede, Miss Taylor. Tentei tudo para a persuadir, ameaas, tudo. Ela quer ficar com ele.
-Porqu? Ela no gosta do mido.
- Ela acha que sim. Passou horas a falar-me dos pais, da forma como o pai lhe batia e a me a vergastava.  a nica linguagem que ela conhece.
- Mas ela vai mat-lo.
- Talvez sim. Talvez no. No h nada que possamos fazer at ela o tentar.
- Posso intentar uma aco de custdia? - A mo de Sam tremia.
- Isso no significa que tenha alguma hiptese. Ela  a me natural, Miss Taylor. A senhora  solteira e  uma... uma pessoa deficiente. So factos que no caem 
bem em tribunal.
- Mas repare no que j fiz por ele. Olhe para a vida que ele poderia ter aqui.
-Eu sei. Isso faz sentido para si e para mim, mas h os precedentes e ter de convencer o juiz. Arranje um advogado, Miss Taylor, e tente. Mas tem de ser realista. 
Encare a causa como uma experincia. Se perder, perde, se ganhar, fica com o mido. - Seria que estava louco? No compreendia que ela adorava Timmie e que ele a 
adorava a ela?
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- Obrigada. - O tom da voz de Sam quando desligou era glacial, deu meia dzia de voltas ao quarto, a meditar, exasperada por ter de esperar at de manh para poder 
telefonar.
Quando Timmie apareceu na manh seguinte, Sam deu-lhe vrias tarefas para fazer, de modo a poder telefonar ao antigo advogado de Charlie, para ver se este podia 
recomendar-lhe algum que pudesse encarregar-se do processo.
- Um processo de custdia de uma criana, Samantha? Pareceu surpreso. - No sabia que tinha filhos.
- No tenho. - E esboou um sorriso sinistro. - Por enquanto.
- Compreendo. - Mas, naturalmente, no compreendia. Deu-lhe o nome de dois advogados de que ouvira falar em Los Angeles. No conhecia nenhum deles pessoalmente, 
mas asseverou-lhe que tinham grande reputao.
- Obrigada.
Quando Sam lhes telefonou, o primeiro advogado estava de frias no Havai e o outro previa-se que chegasse do Este no dia seguinte. Deixou recado para que ele lhe 
ligasse e passou as vinte e quatro horas seguintes em nsias,  espera que o telefone tocasse. E tocou como a secretria lhe prometera, exactamente s cinco horas 
da tarde.
- Miss Taylor? - A voz era grave e melflua, e Sam no conseguia avaliar se ele era novo ou velho. O mais depressa que pde, explicou-lhe o problema, disse-lhe o 
que queria
fazer, o que Timmie queria, o que o assistente social dissera e onde a me de Timmie se encontrava. - Oh, meu Deus! A senhora tem a um problema dos diabos. - Parecia 
intrigado com aquilo que ela lhe contara. - Se no se importa, gostaria de me encontrar com o rapaz. - Sam informara-o de que tanto ela como Timmie estavam confinados 
a cadeiras de rodas, mas falara-lhe do rancho e do bem-estar de que Timmie usufrua. - Julgo que uma parte importante da sua argumentao se baseia no meio ambiente 
que o envolve, e eu gostaria de me encontrar com ele a para conseguir fazer um juzo. Isso, claro, se quiser que eu a represente. - At agora, Sam gostara do que 
ele dissera.
- Que acha da causa, Mister Warren?
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- Bem, porque no discutimos o assunto com maior mincia amanh?  primeira vista, no estou muito optimista, mas esta pode ser uma daquelas situaes extremamente 
emotivas que se resolvem de maneira pouco ortodoxa.
- Por outras palavras, no tenho hipteses.  isso que est a dizer? - Sam ficou sem pinga de sangue.
- No propriamente. Mas no ser fcil. Julgo que j deve saber isso.
Sam anuiu com a cabea.
-Desconfiei por aquilo que o assistente social me disse. No faz sentido, bolas! Se uma mulher  drogada e infligiu maus tratos ao filho, por que razo  que  considerada 
a possibilidade de lhe darem a custdia do filho?
-Porque  a me natural. -Isso  suficiente?
- No, mas se ele fosse seu filho, no faria todos os possveis para ficar com ele, por mais neurtica que fosse? Samantha soltou um suspiro.
- E o bem da criana?
- Esse vai ser o nosso melhor argumento, Miss Taylor. Agora, diga-me onde est e eu vou ter consigo amanh. Itinerrio Doze, no ? Vejamos, qual  a distncia de...
Sam forneceu-lhe as indicaes e ele apareceu no dia seguinte, ao meio-dia. Conduzia um Mercedes verde-escuro, envergava um par de calas castanho-escuras e um casaco 
de ca xemira bege, uma cara gravata de seda e uma bonita camisa creme. Era um homem a meio da casa dos quarenta. Tinha um relgio Piaget, cabelos grisalhos e os 
olhos cinzento-azulados. Chamava-se Norman Warren. Samantha no conseguiu resistir a um sorriso quando o viu. Trabalhara durante muitos anos com pessoas parecidas 
com ele. Estendeu-lhe a mo com um largo sorriso.
-Desculpe,  de Nova Iorque? - Ela tinha de saber. Ele soltou uma gargalhada.
-Sou. Como  que sabe?
- Tambm sou. Embora j no parea. - No obstante, naquele dia vestira uma macia camisola lils com calas de ganga, em vez da habitual camisa de flanela, e as 
botas  cowboy azul-escuras eram novas.
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Apertaram as mos, trocaram algumas palavras de circunstncia e Sam conduziu-o para dentro de casa, onde preparara sanduches e caf, e havia uma parte de ma ainda 
quente que "roubara" do salo principal, quando levara Timmie a almoar, pouco antes. Deixara-o aborrecido, mas explicara-lhe que estava  espera de um adulto para 
almoar.
- Porque  que no posso encontrar-me com ele? - Ficara amuado por Sam o ter deixado com Josh e um punhado de midos que no iam  escola. Todos aceitaram Timmie 
como mascote, era o mais novo e tinha tantas parecenas com Sam que o viam como se fosse filho dela;  claro que ela tambm o encarava como tal.
- Tu vais encontrar-te com ele, mas quero falar com ele primeiro.
-Sobre o qu?
-Negcios. - Sam sorriu-lhe em resposta  pergunta que ele no se atreveu a fazer. - No, ele no  xui. Timmie soltou uma alegre gargalhada.
-Como  que sabias que era isso o que eu estava a pensar?
-Porque te conheo, tonto. Agora, vai comer.-- Sam prometera ir busc-lo quando acabassem de falar de negcios. Quando se sentou a almoar com Norman Warren, Sam 
disse-lhe tudo o que podia da criana.
- Posso v-lo? - perguntou ele, finalmente.
Quando foram  procura de Timmie no salo principal, Warren olhou em redor com ar interessado e observou a deslumbrante mulher de camisola lils, perfeitamente  
vontade na sua cadeira de rodas. O simples facto de estar ali era uma experincia para Norman Warren; via pelo modo como a casa estava cuidada e pelas pessoas de 
ar feliz  sua volta que o empreendimento de Samantha era um xito. Mas nada o preparara para o que viu quando conheceu Timmie, ou quando o rapaz montou uma gua 
palomino com a ajuda de Josh, ou quando viu Sam, ao lado de Timmie, montada na Pretty Girl, ou quando as outras crianas chegaram da escola e tiveram aulas. Norman 
Warren s partiu depois do jantar e, quando o fez, f-lo com tristeza.
- Quero ficar aqui eternamente.
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- Lamento, mas no posso adopt-lo tambm. - E riram-se os dois. - Felizmente, no tem os requisitos para vir para aqui como estudante. Mas, sempre que quiser, venha 
visitar-nos e dar uma volta a cavalo. Adoraramos.
Warren pareceu envergonhado.
- Tenho um medo danado de cavalos - murmurou. -Podamos cur-lo - respondeu Sam.
-No podia, no. No a deixarei curar-me.
Riram os dois e ele partiu. Haviam chegado a um acordo: ela pagar-lhe-ia dez mil dlares de honorrios para a representar no processo. Sam gostara bastante dele, 
e ele parecera gostar de Timmie. Possua todas as razes para alimentar a esperana de que, pelo menos, havia uma hiptese de ficar com o garoto: se no ficasse, 
poderia apelar. Warren frisou que no seria fcil, mas tambm no era impossvel, e havia muitos factores simpticos a favor dela, a comear pelo amor que Sam e 
Timmie nutriam um pelo outro; alm disso, esperava que o facto de ambos estarem confinados a cadeira de rodas acrescentasse um toque de drama e simpatia  sua parte, 
em vez de funcionar como um factor negativo. Sam assinara os papis nessa tarde. A queixa seria apresentada em Los Angeles no dia seguinte e a audincia seria marcada 
logo que possvel.
- Achas que ele pode ajudar-nos. Sam? - Timmie olhou-a com ar triste quando ela o acompanhou at ao quarto. Sam explicara-lhe quem era Norman Warren e o que ele 
ia fazer.
-Espero que sim. Vamos ver. - E se ele no conseguir?
- Eu rapto-te e escondemo-nos nas montanhas - gracejou ela, mas os olhos de Timmie brilharam, quando ela lhe abriu a porta do quarto e acendeu a luz.
-Est bem.
S quando saiu do quarto  que Sam comeou a perguntar a si prpria a mesma coisa... E se ele no conseguisse... mas tinha de conseguir... tinha de ganhar a causa. 
No suportaria perder Timmie. Quando chegou ao seu quarto, estava convencida de que nunca o perderia.
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Partilharam o Natal em paz e, pela primeira vez na vida de Timmie, teve o Natal com que as crianas sonham. Havia presentes empilhados em caixas, roupa, jogos, puzzles, 
um carro dos bombeiros com um chapu para ele usar, uma camisola para o ursinho de peluche, e at coisas que Sam fizera propositadamente para ele. No salo principal 
via-se uma enorme rvore cercada de presentes. Havia brinquedos para todas as crianas que se encontravam no rancho. Um dos supervisores, a pedido de Sam, vestira-se 
de Pai Natal, o que fez com que ela e Josh se recordassem do ano em que Tate Jordan fizera o mesmo.
Ao colocar o anjo na rvore de Natal, a recordao do homem que ela ainda amava tanto, veio-lhe novamente  memria, como uma faca a trespassar-lhe o corao. De 
repente, recordou-se de inmeras facetas de Tate e de John, no qual j raramente pensava. Soubera que nascera outro filho e que Liz fora, finalmente, despedida da 
estao por ser to enfadonha no ar. A carreira de John Taylor ainda estava em crescendo; porm, quando Sam o via na televiso achava-o plastificado, vazio, demasiado 
bonito e terrivelmente aborrecido, e perguntava a si prpria porque razo se preocupara tanto com ele. Era extraordinrio ver onze anos de vida voar pela janela 
sem sequer se preocupar. Era diferente quando pensava em Tate.
- Sam... Posso fazer-te uma pergunta estpida? - Indagou Josh, mantendo-se  parte, a um canto a ver as crianas a abrir os presentes.
- - Claro. O qu?
- - mas ela j sabia.
- - Estiveste apaixonada pelo Tate Jordan?
- Sam olhou Josh nos olhos e acenou lentamente que sim com a cabea.
- - Estive.
- Foi por isso que ele se foi embora?
- Suponho que sim. No queria misturar as coisas. Disse-lhe que no queria fazer o mesmo jogo da Caro e do Bill.
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Mas ele achava que uma senhora no devia amar um ajudante de rancho. Pelo menos, abertamente. - Estava com um ar triste enquanto falava. - Por isso, foi-se embora.
- Desconfiei que era uma coisa dessas.
E teve um acesso de cimes quando descobriu quem era o meu ex-marido... Achava que no era um bom partido para mim, ou uma coisa estpida do gnero...
- Merda. - Josh ficou instantaneamente irado. - Ele valia dez vezes aquele idiota. Oh... - O rosto ficou rubro. - Lamento, Sam...
Sam riu-se.
-Deixa l. Eu tambm lamento... - E nunca te escreveu, nem nada?
-No. Acho que procurei em todos os ranchos, mas nunca o descobri.
Josh estava com um ar pesaroso ao olhar para Sam.
-  uma pena, Sam. Era um bom homem e sempre achei que ele te amava. Talvez aparea um dia, para cumprimentar o Bill ou a Caro e te encontre aqui em vez deles.
Sam abanou a cabea com uma expresso severa estampada no rosto.
- Espero que no. Ficaria em estado de choque. - Sam referia-se s pernas, mas desta vez, Josh abanou a cabea. -Achas que ele se importaria?
- No interessa, Josh. Eu importar-me-ia. Est tudo acabado. Em vez dele, tenho os midos.
- Na tua idade, Sam? No sejas tonta. Que idade tens? Vinte e oito, vinte e nove?
Sam sorriu para o homem mais velho. - Josh, adoro-te. Tenho trinta e trs.
-  a mesma coisa. Quando tiveres cinquenta e nove  que vais ver como .
-Em ti, fizeram-te bem.
- Conversa fiada... mas adoro que digas isso. - Josh sorriu, depois o rosto tomou novamente um ar srio. - Sabes, s ests a dizer baboseiras acerca do Tate. E no 
interessa se  o Tate ou outra pessoa qualquer. s muito jovem para tratares de ti como uma solteirona. - Franziu ento o sobrolho e baixou a voz. - A verdade  
que s uma mentirosa.
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Passas o tempo a ensinar estes midos a no viver ou pensar ou agir como aleijados, e depois, no teu ntimo, achas-te uma invlida. - Tocara na ferida, mas Sam no 
disse nada e manteve os olhos fixos nas crianas. -  verdade, Sam... bolas,  verdade. Vi aquele advogado de Los Angeles a falar contigo o outro dia. Ele gosta 
de ti, como mulher, bolas, deste-lhe algum troco? No, claro que no, limitaste-te a agir como uma velha e a dar-lhe ch gelado.
- O ch gelado no faz mal a ningum. - Sam sorriu-lhe desta vez.
- Pois no, mas tambm no est certo que alegues que j no s mulher aos trinta e trs anos.
- Tem cuidado, Josh - avisou Sam, tentando olh-lo com um ar furioso -, posso atacar-te da prxima vez que estivermos sozinhos. - Ao dizer isto, atirou-lhe um beijo 
e di rigiu-se para o meio das crianas. Era o seu modo de dizer-lhe que no queria mais ouvir falar no assunto.
As crianas levaram dois dias a recuperar da excitao do Natal. No houve aulas de equitao, apenas alguns grupos espordicos  que foram at s colinas, mas nem 
Timmie nem Sam estavam entre eles. Passavam imenso tempo ss, como se tivessem uma profunda necessidade de estarem juntos. A audincia estava marcada para o dia 
28 de Dezembro.
- Ests com medo? - Na noite anterior  audincia, Sam pusera Timmie no quarto de hspedes mais pequeno, ao lado do seu, e estava a met-lo na cama.
- De amanh? - Sam tinha o rosto junto ao dele e fez-lhe uma festa com a sua mo comprida e graciosa. - Um pouco. E tu?
- Estou. - Sam viu, ento, que os enormes olhos azuis estavam aterrorizados. - Bastante. E se ela me bater? -Eu no deixarei.
- E se ela me levar?
-No levar. - E se eles a deixassem lev-lo? Era o fantasma que perseguia Samantha e no podia prometer ao garoto que isso no aconteceria. No queria mentir-lhe. 
J lhe dissera que se perdessem, ela apelaria, se fosse esse o desejo dele, e tambm lhe dissera que se ele quisesse ficar com a me no haveria problema. Dilacerava-lhe 
o corao dar-lhe
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essa opo, mas sabia que tinha de o fazer. No o queria roubar  me. Queria que ele viesse para ela de livre vontade. - Vai correr tudo bem, querido. Vais ver.
Todavia, no dia seguinte, quando Josh empurrava as duas cadeiras de rodas pela rampa do Tribunal de Los Angeles acima, ela parecia no ter tanta certeza. Sam e Timmie 
apertavam as mos com toda a fora e, ao entrar no elevador, sentiram-se pouco  vontade, at que Josh os ajudou a sair. Norman Warren aguardava-os  porta da sala 
de audincias, envergando um fato azul-escuro. Exibia um ar respeitvel, tal como Sam. Ela vestira um bonito vestido de l azul-claro, que ficara do seu guarda-roupa 
de Nova Iorque, um casaco mohar azul-claro a condizer e sapatos de pele pretos Gucci. Comprara roupas novas a Timmie, especialmente para a ocasio: calas azul-marinho 
com um casaco a condizer e uma camisola de gola alta azul-clara, que, por acaso, condizia com o vestido dela. Pareciam me e filho enquanto esperavam, e Norman reparou, 
uma vez mais, na extraordinria semelhana entre os dois, os cabelos louros e os mesmos enormes olhos azuis.
A audincia teve lugar numa sala pequena e o juiz entrou, de culos e um calmo sorriso nos lbios. Fez o melhor que pde para no intimidar Timmie quando olhou para 
ele, sentando-se numa tribuna pouco elevada, menos impressionante do que algumas onde se sentara noutros tribunais. Era um homem de sessenta e poucos anos e julgava 
processos de custdia de menores h vrios anos. Era admirado em Los Angeles pela sua imparcialidade e simpatia para com as crianas - vrias vezes livrara crianas 
de adopes infelizes. Tinha un profundo respeito por elas e pelas mes naturais e, muitas vezes, encorajava-as a ponderarem as suas decises antes de renunciarem 
aos filhos, de rosto lavado em lgrimas. Muitas mulheres vieram a agradecer-lhe e isso seria sempre algo que carregaria consigo quando se reformasse. Olhou para 
Timmi~ com ar interessado, depois para Samantha e para o advogado e, poucos minutos depois, para uma mulher jovem de pequena estatura, de aspecto frgil, que entrou 
na sala de audincia acompanhada do advogado. Trazia uma saia cinzenta e uma blusa branca, mais parecendo uma menina de escola do que
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uma drogada ou uma prostituta. Sam soube ento, pela primeira vez, que ela s tinha vinte e dois anos. Ostentava uma beleza frgil e dava a impresso de ser do tipo 
de rapariga que no consegue tomar conta de si. Parecia implorar amor, carinho e proteco. Era em grande parte por esse facto que Timmie sentira sempre pena dela, 
mesmo depois de ela lhe bater. Porque tinha um ar to magoado e desesperado. Sempre lhe perdoara e quisera ajud-la, em vez de ficar  espera que ela o ajudasse.
Foi pedido silncio na sala, os dossiers do processo foram entregues ao juiz, mas desnecessariamente, pois ele j lera todos os documentos no dia anterior. Comeou 
por referir que era um processo interessante devido aos aspectos apresentados por Samantha, uma criana deficiente, uma me adoptiva deficiente, mas tinham de ter 
bem presente, todos os que ali se encontravam, que aquilo que o tribunal procurava, e que devia ser o objectivo de todos, era o bem da criana. O juiz apresentou 
a opo de o garoto se retirar, mas Sam e Timmie j haviam discutido o assunto. Ele afirmara que queria ficar na sala, no queria que "os xuis o levassem". Sam tranquilizou-o 
dizendo-lhe que podia ficar com Josh, mas ele insistiu em permanecer ali. Sam reparou, ento, que ele nunca olhava na direco da me, como se tivesse medo de reconhecer 
a sua presena, ou mesmo v-la, e mantinha a sua mo na de Sam e os olhos fixos no juiz.
O advogado contrrio apresentou a me de Timmie como sua primeira testemunha e, quando Sam a encarou de frente, apercebeu-se do tipo de argumentao que iria en 
frentar. Um rosto doce, uma voz meiga, uma histria dilacerante do princpio ao fim e a garantia de que, desta vez, aprendera uma lio e no fizera outra coisa 
a no ser ler livros de psicologia para aprender mais coisas a seu respeito e acerca da forma como poderia ajudar o seu precioso filho. Os olhos de Timmie mantiveram-se 
baixos enquanto a me fazia o seu depoimento e s se levantaram quando ela se ergueu da barra do tribunal. O advogado de Sam pediu para a interrogar mais tarde, 
e foram chamadas as testemunhas seguintes, tendo um psiquiatra, que a examinara, declarado que ela era uma mulher emotiva e jovem que passara uma juventude infeliz.
Defendiam que ela no tinha qualquer inteno de magoar o filho, que estivera sob uma enorme presso financeira, mas que agora estava prestes a comear a trabalhar 
num grande hotel, no centro da cidade; tudo iria mudar. Norman Warren ridicularizou o psiquiatra ao insinuar que ela teria uma ampla oportunidade de angariar clientes 
no hotel. O comentrio valeu a admoestao a Norman e a testemunha foi dispensada. Foram chamados dois conselheiros a depor e depois um mdico a atestar a sade 
da me e o facto de j no ser viciada em drogas. Por fim, falou um padre que a conhecia desde os onze anos e baptizara Timmie. Disse que se sentia absolutamente 
certo de que a criana pertencia  me que o amava; ao ouvir aquelas palavras, Timmie sentiu as entranhas a revoltearem-se. Sam apertou-lhe a mo durante toda a 
audincia e, quando o padre acabou o depoimento, a sesso foi suspensa para almoo. Norman interrogara-os a todos, excepto a me e o padre. Ia cham-la depois do 
intervalo para almoo, mas explicou a Sam que no tinha qualquer inteno de atacar a Igreja Catlica.
- Porque no?
O juiz  catlico, minha querida. Alm disso, o que vou fazer eu para contestar aquilo que o homem est a dizer?  melhor no tocarmos nisso. - No obstante, conseguira 
desacreditar todos os outros e interrogara-os com ar divertido e trocista, como se os seus depoimentos estivessem viciados por estarem associados quela mulher. 
Mas nada do que ele lhes dissera se assemelhou ao modo como procedeu com a me de Timmie. Respondendo a um sinal de Sam, Josh levara Timmie para fora da sala, por 
entre sussurrantes protestos deste, mas Samantha no lhe deixara outra alternativa, atirou-lhe um beijo e virou-se para observar o que estava a acontecer na barra 
do tribunal. A rapariga tremia no seu assento e, pouco antes de comear a falar, desatou a chorar. Era, evidentemente, dificil vislumbrar naquela jovem frgil um 
ser maldoso e vil. Porm, apesar do seu aspecto, ficou claro que descobrira as drogas aos doze anos, a herona aos treze, fora presa por prostituio aos quinze, 
engravidara de Timmie aos dezasseis, fizera cinco abortos at  data, estivera em sete programas de recuperao de toxicodependentes, fora presa nove vezes enquanto 
menor e trs j como adulta.
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- No entanto - insistiu o advogado dela, quando fez a objeco -, o tribunal deve ter bem presente que esta mulher j no  toxicodependente, que acabou um rduo 
programa de recuperao financiado pelo Estado, e, se considerarmos que esta mulher no est reabilitada, ento estamos efectivamente a dizer que todo o nosso sistema 
de reabilitao no funciona. - A objeco foi feita e fundamentada na devida altura. As prises foram retiradas do cadastro de acordo com a lei da Califrnia, o 
resto ficou.
O depoimento demorou mais de uma hora: ela soluava e falava, cheia de remorsos, do "meu querido", sempre que tinha oportunidade; mas de todas as vezes que Sam olhava 
para ela, pensava nas vacinas que Timmie no tomara, razo pela qual contrara poliomielite, pensava nos maus tratos que ele sofrera s mos dela, no tormento, na 
solido, no terror, e s tinha vontade de se levantar da cadeira de rodas e gritar.
Como testemunhas, Norman Warren convocou o assistente social, Martin Pfizer, que era frio, objectivo e pouco emotivo; o mdico de Sam; Josh; havia um molho de cartas 
de pessoas importantes, como juzes e mdicos, a falar do trabalho maravilhoso que ela estava a realizar no rancho. Finalmente, havia a prpria Sam. O facto de ser 
divorciada foi trazido  baila, tal como o facto de no ter voltado a casar-se e de no haver "perspectivas", como o advogado contrrio referiu, no momento presente, 
e o facto de ser irreversivelmente deficiente. A longa e triste lista foi realada vezes sem conta, ao ponto de Sam quase comear a ter pena dela prpria. Norman 
objectou e conseguiu que aquela linha de interrogatrio fosse interrompida. Ela acabou por transmitir a imagem de uma pessoa bem-intencionada, amvel, interessada, 
que queria ajudar Timmie, mas, ao contrrio da jovem meio histrica, no lhe chamou "meu querido", nem teve de ser levada para fora da sala.
A ltima testemunha foi a mais dificil: Timmie. O juiz perguntou  me se ela conseguia conter as lgrimas, ou se queria que ele suspendesse a audincia para ela 
se acalmar uma vez mais. Ela preferiu dominar-se de imediato, continuando a fungar ruidosamente, enquanto Sam observava a expresso de terror estampada no rosto 
da criana. Tudo o
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que anteriormente fora referido era agora testado. Como era a vida com a me, como era a vida com Sam, como  que a me o tratava, as coisas que Sam lhe comprara 
e lhe dera, o que pensava das duas mulheres.
- Tens medo da tua me, Timmie? - A pergunta surgiu de repente.
Ficou to assustado que se encolheu na cadeira, abraado ao seu urso e a abanar violentamente a cabea.
- No... no!
- Ela bateu-te alguma vez?
Timmie no deu qualquer resposta, depois abanou a cabea e, finalmente, o juiz pediu-lhe para falar. A nica coisa que conseguiram dele foi um sussurro:
- No.
Sam fechou os olhos, desesperada. Percebia o que ele estava a fazer. No conseguia dizer a verdade com a me ali presente. A audincia prolongou-se por mais meia 
hora, de pois foi suspensa. O juiz pediu amavelmente que voltassem todos na manh seguinte. Comunicou que tinha os nmeros de telefone de todos, e que, se achasse, 
por alguma razo, que no seria capaz de chegar rapidamente a um veredicto, inform-los-ia. Mas se no lhes telefonasse nessa noite, podiam voltar ao tribunal na 
manh seguinte, com Timmie - olhou para Sam - e daria a conhecer o veredicto. Achava que, no interesse da criana e para evitar qualquer dor suplementar para as 
partes, era melhor d-lo a conhecer o mais depressa possvel. Com isto, o juiz levantou-se e o oficial de justia anunciou que a audincia estava suspensa.
Na viagem de regresso at ao rancho, Sam sentia todo o corpo dorido do cansao e Timmie adormecera nos seus braos praticamente logo que arrancaram. Estremecera 
de terror quando a me se aproximou dele, ao mesmo tempo que apertara a mo de Sam com toda a fora. Norman retirara-o rapidamente da sala de audincias, enquanto 
Josh ajudava Samantha, e partiram o mais rapidamente possvel. Sam compreendeu, mais tarde, enquanto o abraava, como Timmie fora corajoso ao dispor-se a depor. 
Se ficasse com ele, a me poderia fazer-lhe alguma coisa para ficarem quites, e Timmie sabia isso melhor do que ningum. Como poderia ela d-lo
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quela mulher se fosse obrigada? Como suportaria tal possibilidade? Deitada na cama, nessa noite, sabia que no conseguiria aguentar, que morreria. Durante horas, 
ficou imvel, a ponderar a hiptese de pegar nele e fugir para um stio qualquer. Mas, para onde e como? Duas pessoas em cadeiras de rodas no iriam muito longe, 
depois pensou na cabana secreta, que no visitara desde que voltara para o rancho. Mas sabia que, mesmo ali, eles a encontrariam. Era intil. S lhes restava acreditar 
na justia e esperar que as coisas corressem pelo melhor.
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Sam acordou muito antes do nascer do Sol na manh seguinte. Ao olhar para o relgio, verificou que dormira apenas hora e meia. Quando entrou no quarto de Timmie, 
ao lado do seu, encontrou-o tambm acordado.
- Ol, querido... - Sam beijou-o na ponta do nariz. - Bom dia.
-No irei com ela.
- Porque  que no nos preocupamos com isso depois do pequeno-almoo? - Tentou aparentar um ar despreocupado, mas Tinunie desatou a chorar e abraou-se a ela. Comeara, 
assim, o dia. Tomaram novamente o pequeno-almoo sozinhos. As outras crianas no faziam ideia do que se estava a passar e Samantha s contara a alguns terapeutas 
e supervisores. Tentavam todos ser o mais discretos possvel. Porm, quando Sam saiu novamente com Josh e Tinimie, tornou-se bvio que algo de importante estava 
a acontecer. Perplexas e ansiosas, as crianas mostraram-se estranhamente caladas quando entraram no autocarro para ir para a escola.
Em Los Angeles, Samantha, Josh e Timmie encontraram-se com Norman  entrada da sala de audincias e todos ostentavam um ar srio.
- Tenha calma, Sam. - Norman deu-lhe um ligeiro toque no brao. Ela envergava umas calas cinzentas e uma camisola de caxemira tambm cinzenta; Timmie trazia o mesmo 
fato do dia anterior, desta vez com uma camisola aos quadrados vermelhos e brancos.
O juiz abriu a audincia pedindo que conduzissem Timmie at  sala, depois dirigiu-se ao rapaz, explicando-lhe que ouvira todos os depoimentos e tentara tomar uma 
boa deciso que fizesse com que ele fosse feliz durante muito tempo. Sorriu-lhe como um av benevolente, depois pediu-lhe se podia vir para a frente da sala, explicando 
que era apenas uma formalidade, porque, afinal de contas, ele era a pessoa mais importante ali, e tudo aquilo se relacionava directamente com ele. Timmie lanou 
um olhar inquiridor a Sam, que sorriu, e fez o que o juiz lhe pediu.
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Este dirigiu, ento, a sua ateno para Sam, manifestando um grande apreo por tudo o que ela estava a fazer, considerando o seu trabalho no s admirvel como digno 
de uma pessoa extraordinria. Acrescentou que falara com vrias pessoas acerca do rancho e que ficara extraordinariamente bem impressionado. Lanou-lhe novo sorriso 
afvel. Continuou, referindo que embora no houvesse qualquer dvida de que as suas intenes eram excelentes, conseguindo certamente oferecer melhores condies 
materiais a Timmie do que a jovem presente; embora o garoto tivesse tido uma vida difcil com sua me, a qual tentara com tanto afinco descobrir o caminho certo 
para si prpria e para o filho deficiente, ele estava seguro, especialmente depois de falar com o padre Renney, que a me de Timmie entrara, finalmente no bom caminho. 
Como tal, achava que ele pertencia  sua me natural. - Agora... - fez um gesto para a perplexa jovem de blusa cor-de-rosa e cabelos desgrenhados.
- Agora, j pode reclamar o seu filho. - Depois, deu uma pancada com o martelo, que mais parecia o som do corao de Sam a cair-lhe aos ps, e anunciou numa voz 
tonitruante:- O tribunal decidiu a favor da me natural. - Levantou-se e abandonou a sala, enquanto Sam tentava desesperadamente no chorar. A me de Timmie, todavia, 
no se conteve de maneira idntica e correu para o garoto, quase o atirando ao cho. Sam s via Timmie a esbracejar violentamente, tentando fugir dela, enquanto 
o advogado segurava a cadeira com firmeza e a me o abraava, gritando sem parar:
-Meu querido... meu querido...
- Sam... Sam! - Era um queixume que quase a dilacerava; instintivamente, Sam virou-se para Timmie e tentou chegar ao p dele. Mas Josh susteve as pegas das costas 
da ca deira e Norman bloqueou-a. No adiantaria nada. A me estava toda dobrada sobre a criana.
-Pare... - Sam empurrou Norman. - Tenho de o
ver.
- No pode, Sam! - Norman falou num tom calmo mas firme, e Josh no largaria a cadeira.
- Tenho de ir, bolas... Josh, larga-me! - Sam comeara
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a soluar, mas j o advogado da me de Timmie empurrava a pequena cadeira de rodas para fora da sala, enquanto Timmie, numa angstia tremenda, olhava para trs, 
na direco de Samantha, a acenar com os seus bracitos, o rosto dominado pela dor.
- Sam... Sam!
- Adoro-te! - gritou ela. - Adoro-te, Timmie! Vai! A criana desapareceu ento. E, como se as foras lhe tivessem faltado, Sam deixou cair o rosto entre as mos 
e comeou a soluar. Durante um longo instante, nenhum dos dois homens soube o que fazer; depois, Norman ajoelhou-se ao lado dela.
- Lamento imenso, Sam... Podemos apelar.
No. - Sam mal conseguia falar, enquanto procurava o leno e abanava a cabea para Norman. - No, no posso fazer isso.
O advogado, com um gesto de concordncia com a cabea, levantou-se e fez um sinal para Josh. No havia qualquer razo para ficarem ali. Estava tudo acabado para 
Samantha e Timmie. O rapaz partira.
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Durante o resto da semana, Sam permaneceu no rancho sem nunca sair da casa principal e, no primeiro dia, sem sair do quarto. Norman viera buscar as coisas de Timmie 
para as entregar ao assistente social, mas Sam recusara-se a v-lo. Josh trataria de tudo. Norman batera  porta duas vezes nessa manh. Chegara a cham-la. Mas 
ela no queria ver ningum, excepto Timmie. Acabara de perder o ltimo amor da sua vida.
- Ela estar bem? - perguntou Norman a Josh com ar pesaroso; este abanou a cabea, os olhos cheios de lgrimas. -No sei. Ela  rija, mas foi mais uma grande perda. 
E este mido... No imagina como ela o amava.
Norman fez um gesto triste com a cabea.
- Imagino, imagino. - Pela primeira vez na sua carreira, ao deixar o tribunal na noite anterior, carregara no acelerador do seu Mercedes o mais que pudera e,  velocidade 
de cento e trinta quilmetros por hora, tambm chorara. - Gostaria de a ver assim que possa. Quero falar com ela acerca da questo do apelo. Julgo que valeria a 
pena.  um caso invulgar, pois o que existe contra ela  o facto de ser solteira e deficiente. Mas  absolutamente incrvel que o tribunal decida a favor de uma 
prostituta e toxicodependente, porque  a me natural, contra uma mulher como a Sam. Quero levar este processo at ao Supremo Tribunal.
- Vou dizer-lhe. - Josh pareceu aprovar a ideia. - Quando a vir.
De repente, Norman pareceu preocupado.
-Ela no cometeria nenhuma loucura, pois no? Josh meditou por instantes.
-Julgo que no. - No sabia que ela j atentara contra a prpria vida no hospital, em Nova Iorque. Porm, desta vez no estava com instintos suicidas. S desejava 
estar morta; no entanto, uma tnue esperana irracional de um dia voltar a ter Timmie impedia-a de fazer uma loucura. Permaneceu na cama, sem se mover, sem comer, 
a arrastar-se para a casa de ba
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nho, durante dois dias. Chorava e dormia, depois chorava um pouco mais quando acordava e, no fim do segundo dia, acordou ao ouvir algum bater  porta. Manteve-se 
em silncio na cama, decidida a no responder; em seguida, ouviu o barulho de vidros a partirem-se e apercebeu-se de que algum entrara pela porta principal.
- Quem ? - Sam pareceu assustada. Talvez fosse um ladro, pensou. Mas, ao sentar-se na cama, com ar confuso e aterrorizado, as luzes no corredor acenderam-se subitamente,
e viu Jeff com a sua cabeleira ruiva. Tinha o brao a sangrar, depois olhou-a com ar embaraado e, como sempre, corou. - O que  que ests aqui a fazer?
- Vim ver-te. No podia adiar por mais tempo, Sam. J no avistava uma luz acesa aqui h dois dias, e no respondeste das outras vezes quando bati  porta... Pensei 
que talvez... Receava... Queria saber se estavas bem.
Sam assentiu com a cabea, sorrindo-lhe pelo facto de ele se preocupar, e as lgrimas voltaram de novo; de repente, Jeff estava abraado a ela. O estranho  que, 
ao abraarem-se, Sam sentiu algo familiar, como se ele j a tivesse abraado antes, como se ela conhecesse os braos, o peito, o corpo dele, mas reconhecia que era 
um pensamento disparatado e afastou-o; assoou-se para disfarar.
- Obrigada, Jeff.
Este sentou-se na beira da cama e observou-a. Mesmo depois de dois dias de recluso, Sam continuava encantadora. Por instantes, teve uma vontade louca de a beijar 
e, ao pensar nisso, corou de novo. Sam soltou uma sbita gargalhada por entre as lgrimas e Jeff olhou-a com ar confuso.
-De que  que ests a rir?
- Quando ficas embaraado, pareces um rabanete.
- Muito obrigado. - Jeff sorriu. - J me chamaram cabea de cenoura, mas nunca cabea de rabanete. - Depois, com um sorriso afvel: - Sentes-te bem, Sam?
- No. Mas isto passa. - Ento, nova torrente de lgrimas correu-lhe pela cara abaixo. - S espero que o Timmie esteja bem.
- O Josh disse que o teu advogado quer apelar, at chegar ao Supremo Tribunal.
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- Sim? - Sam exibia um ar cnico e irritado. -  um disparate. No tem hipteses de ganhar. O facto  que sou deficiente e solteira. Provavelmente nem se importam 
se sou sol
teira, mas sou deficiente.  quanto basta. As prostitutas e as toxicodependentes so melhores mes do que as deficientes, ou no sabias isso?
- O tanas  que so - resmungou Jeff -Bem, foi isso que o juiz decidiu.
- O juiz meteu-me nojo.
Sam riu-se do comentrio intempestivo, depois apercebeu-se de que ele cheirava a cerveja. Franziu o sobrolho ao olhar para o jovem ruivo.
- Ests bbedo?
Jeff ficou embaraado e corou de novo, mas abanou a cabea.
- S bebi duas cervejas. Aguento mais do que isso. -Como assim?
Geralmente s fico bbedo a partir das cinco ou seis. - No. - Sam riu-se. - Refiro-me  razo que te levou a beber as duas cervejas. - Sam no gostava que os homens 
bebessem ao p das crianas e Jeff tinha conhecimento disso, mas ela sabia, pela escurido que se via no exterior, que j se estava em perodo ps-laboral.
-  vspera de Ano Novo, Sam.
- A srio? - Sam ficou surpreendida, depois contou os dias para trs... A audincia fora a vinte e oito, o veredicto no dia vinte e nove, dois dias antes. - Oh, 
merda. E vais festejar para algum lado? - Esboou um sorriso meigo.
- Sim, vou para o Bar Three. J te disse alguma vez que trabalhei l?
-. No, mas parece que trabalhaste em todos os ranchos do Oeste...
-Esqueci-me de te falar deste. -Vais encontrar-te com algum?
- Com a Mary Jo. - Desta vez, ficou to corado que mais parecia um carro dos bombeiros.
- A mida do Josh? - Sam estava com um ar divertido e Jeff sorriu-lhe.
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- Sim.
- O que  que o Josh diz a isso?
- Que me d um pontap no traseiro se a embebedar. Mas, bolas, ela tem quase dezanove! J  maior de idade. - No teu lugar, teria cuidado. Se o Josh disse que te 
dava um pontap no traseiro, d mesmo. - O rosto tomou novamente um ar srio. - Como  que ele est?
- Preocupado contigo. - A voz de Jeff era meiga. - Estamos todos, aqueles que conheces. O teu advogado veio c ontem.
- Foi o que imaginei. A buscar as coisas do Timmie? Jeff hesitou e depois assentiu com a cabea.
-Levou todos os presentes de Natal? Quero que ele os leve a todos.
-j levou, Sam. - Ento, sem saber que mais fazer por ela, tomou-a nos braos e abraou-a; Sam encostou a cabea a ele e chorou. Jeff sentiu vontade de lhe dizer 
que a amava, mas teve medo. Apaixonara-se por ela logo na primeira vez que a vira, com aqueles incrveis cabelos louros. Mas ela era nove anos mais velha do que 
ele e nunca se mostrara interessada em qualquer homem. s vezes, interrogava-se se ela ainda podia fazer amor, mas nem sequer se preocupou com isso, s queria abra-la 
e um dia dizer-lhe que a amava. Ficaram assim durante um longo instante, at que as lgrimas pararam.
- Obrigada. - Sam fixou-o demoradamente em silncio, excitada com a sua fora e a sua beleza juvenil. - Acho melhor sares daqui agora ou acabars por passar a vspera 
de Ano Novo comigo, em vez de a passares com a Mary Jo.
- Sabes uma coisa? - O tom de voz de Jeff era grave e sensual. - Gostava de passar.
- Gostavas? - Os olhos de Sam eram provocadores, os dele no. No entanto, aquilo que sentira subitamente... no era disso que Jeff precisava. No era de uma mulher 
mais velha e deficiente ainda por cima. Ele era jovem. Tinha uma vida inteira  sua frente, cheia de raparigas, como Mary Jo. De repente, Sam sentiu-se to desesperadamente 
s que teve vontade de lhe estender a mo; porm, antes de fazer alguma patetice, deu-lhe a entender que devia ir-se embora. - Tudo
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bem, mido. Vai celebrar a vspera de Ano Novo com estilo. - Sentou-se na cama e tentou sorrir.
- E tu, Sam?
- Vou tomar um banho quente, arranjar qualquer coisa para comer e voltar para a cama. Acho que amanh vou sair do buraco e encarar o mundo.
- Folgo em saber isso. Assustaste-me.
- Sou rija, Jeff. O tempo faz-nos assim. - O tempo, as mgoas e as perdas.
- Faz? Tambm te fez bonita.
- Vai, Jeff. - Sam pareceu preocupada. - Est na altura de te ires embora.
-No quero deixar-te, Sam. Quero ficar aqui.
Sam abanou a cabea, pegou-lhe na mo, aproximou-a da face e beijou as pontas dos dedos.
- No podes ficar, Jeff. - Porque no? -Porque eu no deixo.
- Achas que as donas dos ranchos e os ajudantes no devem ter qualquer relacionamento mais ntimo, no ? - Jeff parecia um puro-sangue e Sam sorriu.
-No, nada disso, querido. S que a minha vida j  passado, a tua no. No precisas de nada disto.
- s louca. Sabes h quanto tempo  que te desejo? Sam ps-lhe um dedo nos lbios.
- No quero que fales.  vspera de Ano Novo, as pessoas dizem coisas que no devem em noites como esta. Quero que sejamos amigos por muito tempo, Jeff. Por favor, 
no estragues a nossa amizade. -Ento, com os olhos novamente marejados de lgrimas, acrescentou: - Preciso de ti agora. De ti, do Josh, das crianas, mas especialmente 
de ti e do Josh. No faas nada para mudar isso. S que... preciso muito de ti.
Jeff abraou-a uma vez mais, deu-lhe um beijo no alto da cabea, levantou-se e fitou-a.
- Ficarei se quiseres, Sam.
Sam olhou para os brilhantes olhos verdes e abanou a cabea.
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- No, querido, tudo bem. Vai.
Jeff fez um ligeiro gesto afirmativo com a cabea, ficando a olh-la, por um ltimo instante, da porta. Sam ouviu, ento, as botas de cowboy a ecoarem no corredor 
e a porta a fechar-se.
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- Sam?... Sam? - Eram seis da manh do dia de Ano Novo e Sam estava vestida e na cozinha, a fazer caf pela primeira vez em trs dias, quando ouviu Josh a bater 
 porta.
Sorriu. Ele deitaria a porta abaixo se ela no abrisse. Ainda sentia o terrvel vazio da perda de Timmie, mas sabia que no podia fraquejar. Devia muito s outras 
crianas. Dirigiu-se lentamente para a porta principal, abriu-a e, no crepsculo da manh, l estava Josh, com o seu pesado casaco, no alpendre. - Oh, Josh. Feliz 
Ano Novo.
Josh manteve-se imvel, sem dizer palavra, e Sam desconfiou que se passara algo de grave. Dava a impresso de ter estado a chorar.
- Sentes-te bem? - Josh abanou a cabea e entrou lentamente na sala. - Entra e senta-te, convidou ela. - Julgara que ele viera oferecer-lhe consolo e agora sabia 
que no estava bem. - O que  que se passa? - Olhou-o nos olhos, o sobrolho franzido de preocupao, e Josh fitou-a enquanto se deixava cair numa cadeira, depois 
tombou a cabea entre as mos.
- Os midos. O Jeff e a Mary Jo. Foram a uma festa ontem  noite. - Josh fez uma pausa e engoliu a custo. - Apanharam uma bebedeira de caixo  cova, depois vieram 
para casa. - Sam sentiu o corao acelerar-se. Estava com medo de fazer a pergunta seguinte, mas ele respondeu. Levantou os olhos com um ar de grande dor e duas 
enormes lgrimas rolaram-lhe pelo rosto. - Embateram numa rvore e foram por uma ravina abaixo... A Mary Jo partiu os dois braos e feriu o rosto com alguma gravidade... 
O Jeff morreu.
Sam cerrou os olhos e pegou-lhe na mo, pensando no rapaz que a abraara na noite anterior, perguntando a si prpria se aquilo lhe teria acontecido, caso ela lhe 
tivesse pedido
para ficar. Contudo, teria sido errado da sua parte seduzir um rapaz de vinte e quatro anos, disse para consigo, ao passar em revista a noite anterior. "Errado?", 
interrogou-se. Errado? Fora melhor ele morrer?
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- Oh, meu Deus... - Sam abriu os olhos e olhou para Josh, depois estendeu os braos e abraou-o. - A Mary Jo ficar boa?
Josh fez um gesto afirmativo com a cabea, depois soluou nos braos de Sam.
- Mas eu tambm gostava daquele rapaz. - S estivera com eles um ano, mas dava a impresso de ter estado meia vida; Sam compreendia agora as ptimas referncias 
que ele trouxera dos outros rancheiros,
- Tem familiares a quem devamos telefonar?
- No sei. - Josh tirou do bolso um leno vermelho; assoou-se e voltou a guard-lo com um suspiro. - Acho que devamos procurar nas coisas dele. Sei que a me  
falecida, porque falou uma ou duas vezes do facto, mas no sei se tem irms, irmos ou pai. Nunca falou muito da sua vida, s falava dos midos, de ti e de como 
era feliz ao p das crianas e dos cavalos.
Sam fechou os olhos de novo e inspirou fundo.
-  melhor irmos ver as coisas dele. Onde  que est agora?
Josh soltou um suspiro e levantou-se.
- Pedi-lhes que o mantivessem no hospital, que depois telefonaramos a dizer o que fazer. Se os familiares esto nalgum lugar, podem querer que o mandemos para l.
- S espero que encontremos alguma coisa no alojamento dele que nos diga quem  que eles so. Que fazemos se ele no tiver nada disso, Josh? - Era um novo problema 
para Sam.
- Enterramo-lo junto do Bill e de Miss Caro ou na cidade.
- Podemos enterr-lo aqui. - Ele fora um dos seus homens e amara o rancho. Era uma loucura estar a falar em en terrar o rapaz, quando ainda h poucas horas atrs 
ele estivera  porta do seu quarto, sentado numa ponta da cama e a abra-la. Tentou varrer as recordaes da cabea, pegou no casaco, que estava pendurado num cabide 
prximo da porta prin cipal e saiu lentamente.
Josh olhou para a janela partida, surpreendido, depois vi rou-se para Sam.
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- O que aconteceu?
- Foi o Jeff. Queria saber se eu estava bem ontem  noite. Veio ver-me antes de se ir embora.
- Tive o pressentimento de que ele faria uma coisa dessas, Sam. No parava de olhar para a casa nos ltimos dois dias e eu sabia que era em ti que ele pensava.
Sam fez um ligeiro gesto de concordncia com a cabea e no disse mais nada at chegarem  cabana do jovem. Para ela, o piso era acidentado, pois os caminhos que 
conduziam aos alojamentos dos homens no precisavam dos pavimentos planos, que estavam por todo o lado, prprios para cadeiras de rodas. Josh dirigiu-a cuidadosamente 
at ao interior da pequena mas confortvel cabana. Sam olhou para a cama por fazer e para o pequeno caos que o rapaz deixara, e teve a sensao de que, se vissem 
com cuidado, iriam encontr-lo. Talvez sasse a cambalear da casa de banho com um largo sorriso nos lbios, ou deitasse a cabea fora dos cobertores, ou andasse 
a vaguear pela casa a cantarolar uma cano... No podia estar morto... O Jeff, no... Aquele jovem, no... Josh olhou-a com uma expresso de dor, sentou-se junto 
a uma pequena secretria e comeou a vasculhar os papis. Havia fotografias e cartas de amigos, lembranas de antigos empregos, fotografias de raparigas, programas 
de rodeos, tudo menos o que agora precisavam de encontrar.
Finalmente, Josh apareceu com algo que parecia uma carteira de pele, tendo encontrado dentro dela um carto com o nmero da segurana social de Jeff, papis de seguro, 
bilhetes
de lotaria e uma tira de papel. No papel estava escrito: "Em caso de acidente contactar, por favor, o meu pai: Tate Jordan, Rancho Grady." Havia o nmero de um apartado 
de Montana.
Quando Josh olhou para a tira de papel, ficou de boca aberta e de olhar parado; de repente, fez-se luz no seu espirito... O Bar Three... Porque no se lembrara de 
perguntar?
Claro, Tate tivera um filho a. Levantou os olhos para Sam, incrdulo, e ela franziu o sobrolho.
- O que ?
No havia palavras que ele lhe pudesse proferir naquele momento. Limitou-se a entregar-lhe a tira de papel e saiu vagarosamente para apanhar ar.
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Sam olhou para o pedao de papel durante quase meia hora, tentando decidir o que fazer e sentindo o corao a bater no peito, enquanto pensava no que acontecera. 
Estivera prestes a fazer amor com o filho de Tate na noite anterior... Que destino mais cruel. E agora, por ela no o ter feito, Jeff estava morto e via-se obrigada 
a telefonar ao pai. Contudo, sabia que, mesmo que tivessem feito amor, ele poderia ter-se embebedado e morrido na mesma. Acontecesse o que acontecesse, no havia 
maneira de mudar o destino. Naquele momento, tinha de encarar o problema de comunicar a morte do filho a Tate Jordan. Por ironia do destino, depois de todas as buscas 
e telefonemas que efectuara, ali estava, finalmente, o endereo dele-na palma da sua mo. Ps o pedao de papel no bolso do casaco e saiu.
Josh aguardava-a, encostado a uma rvore, enquanto o Sol subia lentamente no cu da manh.
- Que vais fazer, Sam? Vais telefonar-lhe? Sam, com ar triste, assentiu com a cabea. -Temos de o fazer.  uma questo de dever. -Telefonas tu?
-No, telefonas tu. Tu  que s o capataz. -Tens medo?
-No. Se fosse outra pessoa, telefonaria eu, Josh. Mas no quero falar com ele. Agora no. - Haviam passado quase trs anos desde que ele a abandonara.
-Mas devias.
- Talvez. - Olhou-o com um ar triste. - Mas no vou fazer isso.
- Est bem. - Quando Josh telefonou, informaram-no de que Tate se encontraria no Wyorning durante toda a semana, num leilo de gado, com alguns ajudantes. Ningum 
sabia onde  que iam ficar ou como entrar em contacto com eles, e isso significava que Jeff ia ter de ser enterrado no rancho ou na cidade. No podiam estar uma 
semana  espera. O funeral foi simples e doloroso para todos. Fazia parte da
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natureza e da vida, disse Sam s' crianas; Jeff fora amigo delas; por isso, era justo que estivessem juntas no enterro. O pastor local leu um pequeno excerto bblico 
perto do caixo, os homens enterraram-no ao lado de Caro e Bill, e as crianas cavalgaram pelas colinas, cada uma delas com um ramo de flores, que depositaram em 
cima da sepultura. Depois, juntaram-se e cantaram as suas canes favoritas. Parecia ser uma maneira adequada de enterrar algum que fora um deles e um amigo para 
muitos. Quando voltaram para o rancho, a meio galope, pelas colinas, Samantha observou-as enquanto o Sol declinava do lado direito, os cascos dos cavalos batendo 
suavemente no cho e o ar fresco os envolvia, achando que nunca vira nada to maravilhoso na sua vida. Por instantes, teve a sensao de que Jeff os acompanhava; 
num silencioso tributo ao amigo perdido, os ajudantes haviam levado o cavalo de Jeff sem cavaleiro, com a colorida sela do Oeste. Isso f-la lembrar-se de Timmie 
e, uma vez mais, as lgrimas afloraram-lhe aos olhos.
Ao escrever a Tate nessa noite, na sua secretria da casa grande, que agora lhe pertencia, Sam ps um ponto final naquilo que se passara entre eles. Tambm perdera 
um filho, embora o tivesse tido de forma diferente  de Tate, mas conhecia a agonia dessa perda e sentia-a novamente, ainda com maior intensidade, ao escrever ao 
homem que procurara, em vo, durante tanto tempo. Tambm ansiava saber o que Jeff contara a Tate. No queria que este soubesse o que lhe acontecera a ela. Resolveu 
distorcer a verdade e rezar para que Jeff no lhe tivesse contado.
"Trs anos no parecem muito tempo", escreveu Sam,  mesa da cozinha, depois do pargrafo inicial em que lhe deu a notcia da forma mais simples que pde. "Porm, 
muita coisa mudou aqui. A Caroline e o Bill j morreram e repousam junto  sepultura onde hoje enterrmos o Jeff, nas colinas, perto da cabana deles. As crianas 
que partilham o rancho comigo levaram flores nos cavalos para deixarem na sepultura do Jeff, enquanto os homens conduziram o cavalo dele sem ningum, ao pr do Sol. 
Foi um momento dificil, uma triste perda para todos ns. As crianas entoaram as suas canes preferidas. No regresso, tive a sensao de que ele estava entre ns. 
Espero, Tate, que o sintas sempre perto de ti. Era um
jovem maravilhoso e um amigo querido de todos ns; a perda de uma vida to jovem  motivo de incredulidade, tristeza e imensa dor. No consigo evitar a sensao 
de que ele conseguiu mais na sua curta vida do que a maioria de ns em muitos mais anos.
No sei se soubeste, mas a Caroline deixou em testamento o desejo de que o rancho se transformasse num complexo especial para crianas deficientes, e eu e o Josh 
trabalhmos durante meses na realizao desse- desejo. S quando abrimos as portas a estas crianas especiais  que o Jeff se juntou a ns; tinha um dom para este 
tipo de trabalho verdadeiramente tocante. Fez coisas que levaria horas a relatar, mas deves sentir-te orgulhoso dele, e verei agora se no monto de fotografiass 
que tirmos no incio h algumas do Jeff, que te enviarei. Elas dar-te-o, indubitavelmente, uma ideia mais clara do que ele fez aqui. O rancho  muito diferente 
daquilo que conheceste.
Naturalmente, nenhum de ns suspeitara que era esta a inteno de Caroline para o rancho, mas tem servido um propsito nobre, tal como o teu filho serviu. Choro 
a tua perda, desejo-te o melhor do mundo, e enviar-te-erros todas as coisas dele para evitar a necessidade de fazeres esta dolorosa viagem. Se houver alguma coisa 
que possamos fazer relativamente a isso, por favor, no hesites em contactar-nos. O Josh est sempre aqui e estou certa de que teria imenso gosto em ajudar-te." 
E assinou: "Cordialmente, Samantha Taylor."
No havia qualquer referncia ao que se passara entre os dois; no dia a seguir ao funeral, Sam mandou Josh e alguns dos rapazes emalar as coisas de Jeff, a fim de 
as enviar por correio areo para Tate. Nessa noite, ela prpria folheou os lbuns do rancho, como prometido, e retirou cuidadosamente cada uma das fotografias de 
Jeff, procurou os negativos respectivos e, no dia seguinte, dirigiu-se  cidade com uma pilha deles. Quando as fotografias voltaram uma semana depois, observou-as 
atentamente, uma por uma, para se certificar de que no havia nenhuma em que ela estivesse; meteu-as num sobrescrito, sem mais nada, e enviou-as a Tate. Para Sam, 
era o fim do captulo Tate Jordan. Encontrara-o finalmente. Tivera a hiptese de chegar junto dele, de lhe dizer que ainda o
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amava, at de lhe pedir para voltar. Porm, da mesma forma que mandara Jeff embora naquela fatdica noite, porque sabia que seria um acto de egosmo da sua parte 
envolver-se com o rapaz, assim como um erro da parte dele, recusou-se a ver Tate, pelas suas prprias razes, e felicitou-se por o ter feito. J no pertencia  
vida de Tate, sobretudo no estado em que se encontrava. Nessa noite, deitada na cama, imaginou o que aconteceria se no tivesse ficado deficiente e descobrisse Tate 
naquele momento. No entanto, no havia maneira de saber: se no tivesse ficado deficiente, talvez no regressasse ao rancho, no teria conhecido Jeff, no teria... 
Adormeceu e s acordou, na manh seguinte, com o telefone.
-Sam? - Era Norman Warren e parecia excitado. - Ol. - Sam ainda estava meio adormecida. - O que se passa? - Suspeitava que ele, provavelmente, ainda queria discutir 
o apelo. Com o funeral de Jeff e a dificil carta para escrever a Tate, no voltara a entrar em contacto com ele depois da ltima conversa, mas j decidira que no 
queria que Timmie passasse por nova experincia penosa. Falara duas vezes com o assistente social, este contara-lhe que Timmie estava a passar um mau bocado a readaptar-se 
e queria voltar para ela, mas que no havia nada a fazer, o mesmo dizendo a Timmie na ltima vez que passara por casa dele. Sam perguntara-lhe se a me estava a 
trat-lo bem desta vez, mas o assistente social foi vago e afirmou que presumia que sim.
- Sam, quero que venha a Los Angeles.
- No quero discutir esse assunto, Norman. - Sam sentou-se na cama comum triste franzir de sobrolho. - No vale a pena. No o farei.
- Compreendo. Mas h outros assuntos que temos de tratar.
- Como o qu? - Sam pareceu desconfiada. - No assinou alguns papis.
Mande-mos. No posso.
- Ento, traga-mos. - Sam parecia aborrecida. Estava cansada e acabara de se levantar. Lembrou-se, ento, ao piscar os olhos, que era domingo. - Para que  que est 
a telefonar-me a um domingo, Norm?
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- No tive tempo de lhe telefonar a semana passada. Olhe, sei que  uma imposio, Sam, e que est muito ocupada, mas no poderia fazer-me um favor? Pode vir ter 
comigo hoje?
- Ao domingo? Porqu?
- Por favor. Faa isso por mim. Ficar-lhe-ia grato. De repente, Sam ficou em pnico.
- Passa-se alguma coisa com o Timmie? Fizeram-lhe mal? Ela bateu-lhe outra vez? - Sam sentiu o corao a bater aceleradamente, e ele tranquilizou-a.
- No, no, nada disso. Tenho a certeza que est bem, S que gostava de concluir tudo hoje, duma vez para sempre - Norman! - Sam soltou um suspiro e olhou para o 
relgio. Eram sete da manh. - Pessoalmente, acho que est demente. Mas o Norman foi uma grande ajuda e esforou-se Por isso fao-lhe o favor, mas s desta vez. 
J viu a longa viagem que ?
-Traz o Josh?
-Provavelmente. Onde  que nos encontramos? - No sei: no escritrio? E o que vou eu assinar concretamente?
- S alguns papis que dizem que no quer interpor recurso.
O que estaria ele a tramar?
-Por que raio no pode mand-los por correio? -Sou demasiado preguioso para comprar um selo. Sam riu-se.
-  louco.
Eu sei. A que horas  que est aqui?
-No sei. - Sam bocejou. - Que tal depois do almoo?
-Porque- no mais cedo?
- Quer que v de robe, Norman? -Seria ptimo. Onze horas?
- Bolas... - murmurou Sam. - Tudo bem. Mas  para no demorar. Tenho muitas coisas a fazer aqui.
- ptimo.
Sam telefonou a Josh a comunicar-lhe. Ficou to aborrecido como ela.
- Por que raio  que ele no manda os papis pelo correio?
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-No sei. Mas se temos de l ir,  melhor irmos num domingo. No temos tempo durante toda a semana. Vou ficar muito ocupada com os midos. - Sam estava  espera 
de onze crianas de estados diferentes.
-Tudo bem. Queres sair dentro de meia hora? - D-me uma hora.
Sam enfiou-se no carro, de calas de ganga e camisola vermelha vestidas, um lao vermelho na cabea e as suas botas de cowboy vermelhas caladas.
-Parece que ests no dia de So Valentim, Sam. -Sinto-me mais na Noite das Bruxas. No sei por que raio  que temos de ir para Los Angeles numa manh de domingo.
Quando chegaram a casa de Norman, este parecia frentico e insistia que tinham de ir ao tribunal, porque, afinal, no tinha todos os papis de que precisava.
-Ao domingo? Norman, esteve a beber? - Sam no parecia disposta a tolerar brincadeiras.
-Acredite em mim, pelo amor de Deus.
- Se no acreditasse, no estaria aqui. - Josh olhou para ele com ar desconfiado, e dirigiram-se para o tribunal, no outro extremo da cidade. Quando l chegaram, 
Norman deu a impresso de saber o que estava a fazer. Exibiu um carto ao guarda, que lhe fez sinal para entrar. - Stimo andar - proferiu para o nico ascensorista 
de servio. Quando saram do elevador, no stimo andar, viraram  esquerda, depois  direita, de novo  esquerda e, ento, de sbito, viram-se dentro de uma sala 
bem iluminada, com uma matrona uniformizada sentada a uma secretria e um polcia a conversar com ela. De repente, Sam ficou sem respirao, soltou um guincho e 
precipitou-se para ele. Era Timmie, sentado na sua cadeira de rodas, com o seu ursinho, mais uma vez com um ar desleixado, mas com o seu melhor fato vestido e um 
largo sorriso nos lbios.
Abraou-a demoradamente e Sam sentiu-o tremer nos seus braos, sem dizer nada. ,
- Adoro-te, Timmie... - proferiu ela, sem mais palavras. - Adoro-te, querido... Est tudo bem... - No sabia durante quanto tempo  que poderia v-lo, se seria um 
mi
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nuto, uma hora ou um dia, mas isso no tinha qualquer importncia: dar-lhe-ia tudo o que possua durante o tempo que pudesse, durante o tempo que a deixassem. - 
Est tudo bem...
- A minha me morreu. -- Timmie fitou Sam e articulou as palavras como se no percebesse o que elas significavam. Sam viu, ento, que ele tinha grandes olheiras 
e um ferimento no pescoo.
- O que aconteceu? - Sentia-se horrorizada, tanto pelo que viu como por aquilo que ele acabara de dizer. - O que queres dizer?
Norman aproximou-se deles e pegou delicadamente no brao de Sam.
-Ela morreu, Sam, h dois dias. A Policia encontrou o Timmie sozinho em casa, ontem  noite.
- Ela estava l? - Os olhos de Sam esbugalharam-se enquanto segurava a mo de Timmie.
- No, estava noutro stio. O Timmie estava sozinho no apartamento. - Norman inspirou fundo e sorriu para a mulher que se tornara sua amiga. - Telefonaram ao juiz 
ontem
 noite, porque no sabiam se haviam de p-lo sob a tutela do tribunal de menores, e ele convocou-me. Disse que se encontraria connosco aqui, esta manh, com o processo 
do Timmie. Sam, vai tudo acabar bem. - Havia lgrimas nos olhos de Norman.
- Agora?
Norman anuiu com a cabea. -Ele pode fazer isso?
- Sim, pode inverter a sua deciso com base no que acabou de ocorrer. O Tinunie no ter de ficar sob a tutela do tribunal.  seu! - Norman voltou-se e olhou para 
a criana
sentada na cadeira de rodas, agarrada  mo de Samantha. - A tens o teu filho.
Haviam-se passado duas semanas desde que Samantha o vira abandonar a sala de audincias a chorar, e agora era seu. Estendeu os braos, puxou-o para cima dos joelhos 
e abraou-o, por entre soluos, risos, beijos e festas no cabelo. Timmie comeou, a pouco e pouco, a perceber e abraou-a e beijou-a, passando-lhe depois a mozita 
pelo rosto.
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 - Adoro-te, mam - declarou. Eram as palavras que Samantha ansiara ouvir toda a vida.
O juiz chegou meia hora depois, com o processo que, de caminho, fora buscar ao gabinete, assinou vrios papis e pediu a Sam que os assinasse, enquanto a matrona 
os observava; Josh chorava, Norman chorava, Sam chorava, o juiz sorria e Timmie acenava com o ursinho para o juiz, um largo sorriso nos lbios, enquanto o conduziam 
ao elevador.
- Adeus! - gritou Timmie; quando as portas se fecharam, o juiz ria e chorava ao mesmo tempo.
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-Depois vou andar na Daisy... e brincar com o comboio e o carro dos bombeiros e...
- Tomar banho - acrescentou Sam com um sorriso radioso. Meu Deus, que presente lhe haviam acabado de dar. Ria, quase histrica, estava to feliz e, pela primeira 
vez desde o acidente que vitimara Jeff e partira os braos e as pernas de Mary Jo, Sam viu Josh rir. J haviam contado a Timmie o que acontecera a Jeff, quando ele 
perguntara pelo jovem; chorara um pouco e depois fizera um gesto de conformao com a cabea.
- Foi como a mam... - Porm, no disse mais nada acerca dela, e Sam tambm no queria pression-lo. Sabia, pelo pouco que Norman lhe contara, que passara um mau 
bocado. Mas agora essa parte da vida de Timmie estava ultrapassada, e tudo aquilo de que se lembrasse da a anos seria contrabalanado pelo amor que ela lhe dedicaria.
Sam falou-lhe das novas crianas que estavam prestes a chegar e do jardim que iriam plantar na Primavera; depois, olhou para ele com um enorme sorriso.
- E adivinha o que vais fazer dentro de semanas. - O qu? - Ficou excitado, apesar das olheiras. -Vais para a escola.
-Porqu? - Tinunie pareceu pouco satisfeito com a ideia.
-j decidi.
- Mas nunca fui. - Era uma choraminguice semelhante  de qualquer outra criana, e Sam e Josh trocaram um sorriso.
- Porque antes estavas em regime especial, agora ests em regime regular.
- No posso voltar para o regime especial? - Timmie olhou para Sam com um olhar ansioso, ela riu-se e aconchegou-o debaixo do brao. Estavam os trs sentados, lado 
a lado, no banco da frente da enorme carrinha, com Timmie no meio.
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- Sers sempre especial, querido. Mas agora podemos levar uma vida normal. No temos de nos preocupar com a eventualidade de te ires embora, ou de virem buscar-te, 
ou outra coisa desse gnero. Podes ir para a escola como o resto dos meninos.
-Mas eu quero ficar em casa contigo.
- Podes ficar um bocadinho, mas depois tens de ir para a escola. No queres ser inteligente como eu e o Josh? - Sam estava novamente a rir e, de repente, Timmie 
tambm estava a rir e protestava contra aquilo que ela acabara de dizer.
-Tu no s inteligente... tu agora s a minha me! -Muito obrigada! - Era bvio que a relao amorosa entre os dois iria durar para sempre. Nessa tarde, fizeram 
bolachas e visitaram o resto das crianas; Sam leu-lhe uma histria antes de adormecer, no quarto ao lado do dela, e, antes de a ter acabado, j ele ressonava ligeiramente. 
Sam ficou imvel durante muito tempo, a v-lo dormir, a afagar-lhe os cabelos e a agradecer a Deus por o ter trazido novamente para ela.
S ao fim de duas semanas, depois de Timmie comear, finalmente, a escola e as novas crianas terem sido admitidas e comeado a entrar no ritmo habitual,  que Sam 
conseguiu passar quase um dia inteiro no seu gabinete. Examinara trs pilhas de cartas, grande parte das quais de mdicos, e algumas do Este, o que era novo para 
si. At agora, s haviam tido crianas recomendadas de cidades do Oeste.
Foi ento, ao pousar a ltima carta, que Sam o viu. Olhou, por acaso, para a janela, e l estava ele, como sempre fora, alto e com ar sedutor, os cabelos negros, 
os ombros largos, o rosto de traos duros, o chapu de cowboy e as botas... S ento viu que tinha mais uns cabelos brancos nas tmporas, o que o favorecia. Sam 
ficou sem respirao quando o viu parar e falar com algumas das crianas. Ao olhar para ele, lembrou-se da forma brilhante como fizera de Pai Natal. De sbito, afastou-se 
da janela, puxou o estore para baixo e chamou a secretria. Ficou corada e terrivelmente nervosa, olhando  sua volta como se se quisesse esconder.
-Procura o Josh! - Foi -a nica coisa que lhe disse. Cinco minutos depois, ele estava no gabinete. Na altura, recuperara, aparentemente, a serenidade. -Josh, acabei 
de ver o Tate Jordan.
- Onde? - Ficou perplexo. - Tens a certeza? - "Diabos, passaram-se trs anos, ele deve ter mudado, talvez ela tenha sonhado.
-Tenho a certeza. Estava no terreiro principal, a falar com alguns midos. Quero que vs procur-lo, que vejas o que ele quer, e despacha-o. Se quiser ver-me, diz-lhe 
que no estou c.
- Achas justo? - Josh olhou-a com ar reprovador. - O filho morreu h pouco tempo no rancho, Sam. Ainda no fez cinco semanas, e est ali enterrado. - Apontou para 
as colinas. - No devemos dispensar-lhe, pelo menos, algum tempo?
Sam fechou os olhos por instantes, abrindo-os, em seguida, para olhar melhor para o velho amigo.
- Tudo bem, tens razo. Mostra-lhe a sepultura do Jeff e depois, por favor, Josh, manda-o embora. No h nada para ver. J lhe mandmos todas as coisas do Jeff. 
No h qualquer razo para ele aqui ficar.
- Talvez queira ver-te, Sam.
-No quero v-lo. - Ento, ao ver a expresso no olhar de Josh, Sam sentiu-se furiosa e girou a cadeira de rodas, para ficar de frente para ele. - E no me digas 
que no  justo. Tambm no foi justo deixar-me h trs anos. No foi justo. Agora no lhe devo absolutamente nada.
Josh deteve-se  porta, por instantes, de semblante carregado.
- A nica pessoa a quem deves alguma coisa, Sam,  a ti. Sam teve vontade de o mandar para o diabo, mas no o fez. Ficou no gabinete  espera, nem ela sabia do qu 
a reflectir. Queria que Tate sasse do rancho, voltasse a desaparecer e a deixasse em paz. Agora a vida era dela, ele no tinha o direito de voltar para a perseguir. 
No entanto, sabia que existia alguma verdade naquilo que Josh dissera. Tate Jordan tinha o direito de ver o stio onde o filho fora enterrado. Josh voltou uma hora 
depois.
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- Dei-lhe o Sundance para ir ver o filho.
- ptimo. J saiu da cavalaria? - Josh assentiu. - Ento, vou para casa. Se vires o Timmie, diz-lhe onde estou. Quando chegou, Timmie teve a aula de equitao com 
alguns dos seus amigos, enquanto Sam, sozinha em casa, se interrogava se Tate j se fora embora. Era uma sensao to estranha saber que ele estivera to perto... 
que se tivesse desejado, poderia ter sado e t-lo tocado, ou visto, ou falado com ele... Era incapaz de explicar o seu prprio medo. O que recearia. Os seus prprios 
sentimentos? Que poderia ele dizer? Talvez ela j no sentisse nada, se tivesse a hiptese de passar algum tempo com ele... Talvez a ferida se mantivesse aberta 
durante tanto tempo devido ao facto de ele a ter deixado sem qualquer explicao e sem qualquer hiptese de ripostar... Fora como uma morte sbita, sem aviso, e 
agora, trs anos depois, ele estava de volta e no havia nada para dizer, Ou, pelo menos, nada que valesse a pena dizer, nada que ela se permitisse dizer.
Era quase noite quando Josh bateu  porta e a abriu cautelosamente.
-j se foi embora, Sam. - Obrigada.
Olharam um para o outro durante um longo instante. -  um bom homem, Sam. Tivemos uma longa conversa. Est completamente destroado com a morte do filho. Disse que 
ia passar pelo hospital, logo  noite, para ver a Mary Jo. Sam... - Os olhos de Josh questionaram-na e Sam abanou a cabea. Sabia o que ele ia dizer, mas, instintivamente, 
levantou a mo.
- No. - Depois, em voz baixa, acrescentou: - Ele sabe... alguma coisa de mim? Disse alguma coisa?
Josh abanou a cabea.
- Acho que no. No disse nada. Perguntou onde  que te encontravas e eu disse-lhe que no estavas durante o dia. Acho que percebeu, Sam. No se abandona uma mulher 
para regressar trs anos depois. S agradeceu. Ficou sensibilizado com o local onde enterrmos o Jeff. Disse que queria deixar
as coisas como estavam. Sabes... - Soltou um suspiro e olhou para as colinas. - Falmos de muitas coisas... da vida, das pessoas... da Caroline e do Bill King... 
A vida mudou muito em poucos anos, no achas? - Josh estava com ar triste; ver o velho amigo deixara-o abatido. Sam mantinha-se silenciosa e ele prosseguiu: - Quando 
saiu daqui, foi para Montana. Trabalhou num rancho. Poupou algum dinheiro, depois contraiu um emprstimo, comprou um pequeno terreno e tornou-se rancheiro. Meti-me 
com ele a esse respeito. Disse que estava a fazer isso para ter alguma coisa para deixar ao filho. Trabalhou arduamente e agora o Jeff morreu. Disse tambm que vendeu 
o rancho a semana passada.
-Que vai ele fazer agora? - Sam ficou subitamente nervosa. E se ficasse por l, ou arranjasse emprego no Bar Three?
- Vai-se embora amanh. - Josh viu o medo espelhado no olhar de Sam. - Vou ter com ele esta noite, Sam. Se mudares de ideias...        _,
- No mudarei. Entretanto, Timmie chegara a casa; Sam agradeceu mais uma vez a Josh e foi fazer o jantar. Por uma razo qualquer, no quis comer no salo principal; 
alm disso, Timmie estivera com as outras crianas todo o dia. Continuou a sentir-se nervosa e agitada at ir para a cama e, nessa noite, no meio da escurido, s 
conseguia pensar em Tate. Estaria errada? Deveria v-lo? Que importncia  que isso teria? Era demasiado tarde agora e ela sabia isso; de repente, pela primeira 
vez desde que voltara para o rancho, teve vontade de regressar aos velhos locais, s para os ver... a casa onde Tate vivera, por trs dos pomares, as colinas onde 
haviam cavalgado e a cabana secreta. Desde que regressara ao rancho, h mais de um ano, at ao enterro de Jeff, nunca visitara aqueles locais. H meses que prometera 
a si mesma voltar  cabana, a fim de buscar as coisas de Caroline. Deveria tirar tudo de l, mas no tinha coragem para o fazer. O lugar s a faria lembrar-se de 
Tate... Tate... Tate... O nome ecoou nos seus ouvidos durante toda a noite.
De manh, sentia-se exausta e abalada e, quando iam para o pequeno-almoo no salo principal, Timmie perguntou-lhe
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se estava maldisposta. Sentiu-se mais aliviada quando ele partiu para a escola com os outros. Agora estava entregue a si prpria. Foi ver Black Beauty. De quando 
em quando, levava o puro-sangue a dar uma volta, mas j no o montava h muito tempo. Era um cavalo muito nervoso, poucos o montavam, os ajudantes no gostavam dele, 
no era o tipo de cavalo de Josh e, quando ensinava ou conduzia as crianas, ela precisava de um cavalo mais calmo, como Pretty Girl. No entanto, por vezes, quando 
estava sozinha, ainda o montava. Era um animal sensvel e dava at a impresso de se baixar para a ajudar a montar. Mesmo depois do que acontecera com Gray Devil, 
no Colorado, ela no tinha medo.
Naquele momento, ao olhar para ele, Sam sabia o que tinha de fazer. Pediu a um dos homens para o selar e, poucos minutos depois, ele ajudou-a a subir para a sela. 
Sam saiu com o enorme cavalo a passo e virou-se para as colinas com ar pensativo. Talvez fosse agora a altura de, finalmente, voltar  cabana, de v-Ia e de verificar 
que j nada representava na sua vida, no lhe pertencendo nada do que l se encontrava. Tate Jordan amara uma mulher que ela j no era h anos, e nunca mais viria 
a ser. Quando meteu a meio galope pelas colinas fora, Sam olhou para o cu, duvidando que alguma vez voltasse a amar um homem. No entanto, se encarasse de novo a 
cabana e se libertasse das recordaes, talvez conseguisse gostar de algum, talvez algum do rancho, ou um mdico que conhecesse atravs das crianas, ou um advogado 
como Norman, ou... Mas ningum se assemelhava a Tate Jordan. Ao evocar a sua figura no terreiro, no dia anterior, sorriu, recordando os momentos que haviam partilhado 
e em que galopavam pelas colinas, os dias em que trabalhavam lado a lado, o respeito que tinham um pelo outro, as noites que passara nos braos dele... Ento, todo 
o impacte daquilo que sentira por ele comeou a atingi-la; ultrapassou a ltima colina, contornou as rvores, e l estavam, o pequeno lago e a cabana... No queria 
aproximar-se mais, como se a cabana estivesse assombrada. Pertencia a outra vida, a pessoas diferentes; olhou para ela e saudou-a; depois, cautelosamente, passou 
com o poderoso puro-sangue negro por cima do monte de terra onde Jeff repousava. Permaneceu imvel durante um
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longo instante e sorriu para as pessoas que ali estavam sepultadas, um homem, uma mulher e um rapaz, pessoas por quem tivera um grande carinho. De repente, as lgrimas 
comearam a correr-lhe pelo rosto, sentiu Black Beauty dar um passo para o lado, arquear o dorso para a frente e relinchar; olhou  sua volta e viu-o ento, sentado 
com ar imponente na sela: Tate Jordan, montado num novo appaloosa que acabara de comprar. Viera dizer um ltimo adeus ao filho. Durante um longo instante, Tate no 
disse nada, tambm havia lgrimas no seu rosto, mas os olhos estavam fixos nos dela; Sam ficou sem respirao, sem saber se havia de dizer alguma coisa ou se devia 
ir-se embora. Black Beauty danava graciosamente e Sam puxou as rdeas e cumprimentou Tate.
-Ol, Tate.
- Quis ver-te ontem, para te agradecer. - Havia algo infinitamente meigo no rosto de Tate. Meigo e, no entanto, to poderoso. Tate teria um ar assustador se no 
fosse to meigo. O corpo era imponente, os ombros, largos, os olhos, fundos. Dava a impresso de conseguir pegar em Samantha e no puro-sangue e pous-los noutro 
lugar.
- No precisas de me agradecer. Ns adorvamo-lo. - Os olhos de Sam eram de azul aveludado quando olhou para os dele.
-Era um ptimo rapaz. Tate abanou a cabea.
- Foi uma autntica tolice. Vi a Mary Jo ontem  noite. - Depois, sorriu. - Meu Deus, ela est uma rapariga. Sam riu-se.
Passaram-se trs anos.
Tate fez um gesto de concordncia com a cabea, olhou para ela e deixou o appaloosa aproximar-se lentamente.
- Sam? - Era a primeira vez que proferia o nome dela e Sam esforou-se por no sentir nada. - Acompanhas-me por uns minutos?
Sam-sabia que ele queria ver a cabana, mas no suportava a ideia de l voltar com ele. Teve de lutar com todas as suas foras para manter as distncias, para no 
estender os braos para aquele amvel gigante, que, de repente, a olhava do outro lado de um abismo de trs anos. No entanto, de cada vez
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que queria dizer-lhe alguma coisa, pronunciar o nome, estender os braos para ele, olhava para as pernas, presas com firmeza  sela, e sabia que no devia ceder. 
Alm disso, ele abandonara-a trs anos antes, pelas suas prprias razes. Era melhor deixar as coisas como estavam.
-Tenho de voltar, Tate. H muita coisa para eu fazer. - Sam tambm no queria dar tempo a que ele perguntasse qual a razo de ter uma correia  volta das pernas. 
Mas ele no pareceu reparar. Estava demasiado absorto no rosto dela.
- Fizeste um trabalho extraordinrio! O que  que te levou a fazer isto?
-Disse-to na carta, foi desejo da Caroline. -Mas porqu tu? - Afinal, ele no sabia. Sam um enorme alivio.
- Porque no?
- Nunca voltaste para Nova Iorque? - Aquilo pareceu choc-lo. - Pensei que voltarias.
"A srio? Foi por isso que te foste embora, Tate? Ento eu devia ter voltado para o lugar que tu achavas que era o meu?", reflectia Sam, amargurada.
-Voltei. Por pouco tempo - prosseguiu ela, soltando um suspiro. -Regressei depois de ela falecer. - Lanou um olhar s colinas enquanto falava. - Ainda sinto saudades 
dela.
- Tambm eu. - A voz de Tate era meiga. - Vamos dar uma volta? Apenas uns minutos. S c voltarei daqui a muito tempo. - Olhou para ela, quase suplicante; ento, 
sentindo o corao acelerado, Sam fez um sinal afirmativo com a cabea e deixou-o ir  frente. Depois de contornarem a sepultura, pararam ao chegarem ao pequeno 
lago. - Queres descer um bocado, Sam?
-No. - Abanou a cabea com ar decidido.
-No me refiro a ir para a cabana. No faria isso. - Tate olhou, ento, para ela, com um ar inquiridor. - As coisas dela ainda l esto?
-Ainda no lhes toquei.
- Gostaria de ter uma conversa contigo, Sam. Sam abanou a cabea.
- H muita coisa que nunca te disse - insistiu ele. Os olhos suplicavam.
sentiu
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-No precisas de dizer nada, Tate - respondeu com meiguice. - J passou muito tempo. J no interessa. -Para ti, talvez no. Mas para mim, interessa. No te aborrecerei 
com nenhum longo discurso. S quero que saibas uma coisa... Errei.
Sam olhou-o, perplexa. -Que queres dizer com isso?
-Errei ao deixar-te. - Soltou um suspiro. - O engraado  que tive uma zanga com o Jeff acerca disso. Bem, no acerca de ti, acerca da questo de sair do rancho. 
Disse-me que passei toda a minha vida a fugir das coisas importantes, das coisas que interessavam, que poderia ter sido capataz ou dono de um rancho, se quisesse. 
Ele e eu andmos ao sabor da corrente durante cerca de seis meses, depois separmo-nos. Eu fui para Montana e comprei aquele pequeno rancho. - Sorriu. - Tambm fiz 
um bom investimento, e tudo com um emprstimo. Fi-lo para mostrar ao Jeff que ele estava errado, e agora... - Encolheu os ombros. - Agora, j nada importa. Excepto 
a lio que aprendi: que no interessa se se  rancheiro, ajudante, homem ou mulher, desde que se viva bem, se ame e se faa o bem... S isso  que interessa. Esses 
dois... - Fez um sinal com a cabea na direco da cabana. - Olha para eles, acabaram por ser enterrados lado a lado, porque se amavam, e ningum se importa se eram 
ou no casados, ou se o Bill King guardou segredo de que a amava durante toda a vida. Que desperdcio de tempo! - Estava aborrecido consigo prprio, e Sam sorriu-lhe 
e estendeu a mo.
- Est tudo bem, Tate. - Sam tinha os olhos hmidos, mas continuava a sorrir, e Tate pegou-lhe na mo e levou-a aos lbios. - Obrigada por aquilo que acabaste de 
dizer.
- Deves ter sofrido muito quando te deixei, Sam, desculpa. Ficaste muito tempo depois disso?
- Procurei-te por toda a parte durante cerca de dois meses e depois a Caroline disse para eu me ir embora. -Ela tinha razo. Eu no valia o esforo. - Esboou um 
sorriso. - Nessa altura.
Sam riu-seda correco. - E agora vales?
- Talvez no. Mas agora tambm sou rancheiro. - Des
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ta vez riram os dois, e como era agradvel falar com ele. Era quase como nos velhos tempos, quando ela o conhecera, depois de se terem tornado amigos. - Lembras-te 
da primeira vez que viemos aqui?
Sam acenou com a cabea, consciente de que estavam a entrar num campo delicado e j tinham ido longe de mais.
-Lembro, mas isso foi h muito tempo, Tate.
E agora s uma mulher idosa... Sam olhou-o com ar estranho.
-Pois sou.
Tate retribuiu-lhe o olhar.
- Pensei que tivesses casado outra vez. Os olhos de Sam tomaram um ar severo. - Pensaste mal.
Porqu? Magoei-te assim tanto? - Olhou-a com ar triste; Sam apenas abanou a cabea e no respondeu, e pegou-lhe na mo. - Vamos dar uma volta, Sam.
- Lamento, Tate, agora no posso. - Parecia ainda mais triste e insistente. - Tenho de voltar.
- Porqu? -Porque sim.
Por que razo no me deixas dizer o que sinto? - Os olhos de Tate pareciam mais verdes e mais escuros.
- Porque  demasiado tarde - murmurou Sam, baixando os olhos para a sela com ar desesperado. Tate franziu o sobrolho e esteve quase a fazer-lhe uma pergunta, mas 
Sam aproveitou a oportunidade para partir a galope.
- Sam... espera... - Ento, ao v-la galopar, soube a resposta, a pea que faltava para completar o puzzle dos dois ltimos dias, a razo por que ela transformara 
o rancho, por
que regressara e no voltara a casar, por que era demasiado tarde... - Sam!
Mas ela no o ouvia. Como que sentindo algo diferente no tom de voz dele, bateu com as rdeas no pescoo de Black Beauty, incitando-o a galopar mais depressa. E 
Tate com
preendeu todo o drama. Os ps que h trs anos permaneciam to firmes nos estribos e pressionavam os flancos do puro-sangue, pendiam agora sem vida, os dedos virados 
para baixo. Ela nunca teria permitido que isso lhe acontecesse se
um ele
Os
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tivesse mais controlo sobre si mesma. Tate compreendia agora o estranho aspecto da sela. Estivera to absorto a observ-la que no reparara no mais importante. Agora, 
tinha de espicaar o cavalo para a apanhar; finalmente, ainda antes da ltima colina, antes de voltarem para o edificio principal, picou o appaloosa como se fosse 
um cavalo de corrida, agarrou a brida do puro-sangue e puxou as rdeas.
- Pra, bolas! Tenho uma pergunta a fazer-te! - Os olhos verdes de Tate fixaram-se em Sam; porm, quando esta se voltou, os olhos azuis chispavam.
- Deixa-me, maldito!
- No, agora quero saber uma coisa e quero a verdade, ou fao-te pular de cima desse horrvel cavalo que sempre detestei e veremos o que acontece!
- Experimenta, sacana! - gritou ela, desafiando-o com o olhar e tentando tirar-lhe as rdeas da mo.
- Que aconteceria?
-Levantar-me-ia e iria para casa. - Sam rezava para que Tate acreditasse nela.
- Irias? A srio, Sam? Bem, talvez devamos experimentar... - Tate empurrou-a ao de leve e Sam obrigou o puro-sangue a andar para o lado.
- Pra, bolas!
-Por que razo  que no me dizes? Porqu? - Os olhos de Tate eram os mais verdes que. Sam alguma vez vira e, no rosto, vislumbrava-se uma dor incomensurvel. - 
Amo-te, bolas! No sabes isso, mulher? Tenho-te amado todos os minutos desde que sa daqui h trs anos. Mas deixei-te para teu bem, no para meu bem, para que pudesses 
voltar para o lugar a que pertencias e para as pessoas do teu mundo e me esquecesses. Mas eu nunca te esqueci, Sam, sonhei contigo todas as noites dos ltimos trs 
anos e, de repente, aqui ests, de novo, dez vezes mais bonita, e eu a desejar-te tanto e tu sem sequer me deixares aproximar. Porqu? H outra pessoa? Diz-me, ir-me-ei 
embora e nunca mais ouvirs falar de mim. Mas h mais alguma coisa, no h? s como as crianas do teu rancho, no s? E ests a ser to pateta como eu fui. Pensei 
que ser ajudante tivesse importncia, agora tu achas que no conseguir andar tambm tem! Diz-me: no
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consegues andar, pois no? Bolas, responde-me! - Era um grito angustiado, ao mesmo tempo que as lgrimas lhe corriam pelas faces; Sam olhava para ele, dividida entre 
o desespero e a raiva, e fez um gesto afirmativo com a cabea, depois, com as lgrimas a rolarem livremente, tirou-lhe as rdeas da mo e comeou a afastar-se, olhando 
para trs.
- Tens razo, Tate. Mas o engraado  que tinhas razo. Oh, no h trs anos, mas agora. Algumas coisas tm importncia. E, acredita-me, esta tem. - Afastou-se com 
o cavalo em passo lento. - Agora, faz-me um favor. Despediste-te do teu filho e disseste o que tinhas a dizer-me. Agora vai. Para nosso bem, vai.
- No vou. - Tate era inflexvel e mais poderoso do que o cavalo que ela montava. - Se no me quiseres, diz-me, e veremos, mas no por causa das tuas pernas. No 
me interessa se no consegues andar, rastejar ou mexer. Adoro-te. Adoro a tua cabea, o teu corao, o teu esprito, a tua alma. Adoro o que me deste, o que deste 
ao meu filho e o que tens dado a estas crianas. O Jeff contou-me. Falou-me, numa carta, da mulher extraordinria que dirigia o rancho. Estpido que eu fui... Nunca 
compreendi o que ele estava a fazer. Nunca me apercebi de que eras tu. A nica coisa que eu sabia era que ele tinha uma patroa. Julguei que uma louca qualquer, cheia 
de virtudes, teria iniciado algo de novo no rancho da Caro. Mas no sabia que eras tu, Sam... e agora no me vou embora.
- Ai isso  que vais. - Sam ficou de semblante carregado. - No quero piedade. No quero ajuda. J no quero nada, excepto o que tenho; as crianas e o meu filho.
Era a primeira vez que Tate ouvira falar de Timmie e lembrou-se do que ela lhe dissera sobre no poder ter filhos. - Isso podes explicar-me mais tarde. Agora, que 
queres fazer? Correr comigo para as colinas? Para a cavalaria? Para a estrada? No vou deixar-te, Sam.
Sam fitou-o por momentos; depois, numa fria, espicaou novamente o puro-sangue e partiu a galope pelas colinas fora, a um ritmo alucinante; o appaloosa mal conseguia 
acompa nh-la, mas, para onde quer que ela fosse, Tate surgia logo atrs. Finalmente, com Black Beauty quase sem flego, Sam
deu-se conta de que tinha de parar. Estavam nos limites do rancho, e Sam olhou para ele, quase em desespero, e ps o cavalo a passo.
-Porque  que ests a fazer isso, Tate? -Porque te amo. O que aconteceu, Sam?
Sam parou, finalmente, e contou-lhe, enquanto Tate protegia os olhos do sol. Falou-lhe do facto de o ter procurado por todo o lado, das viagens, dos anncios, de 
Gray Devil e do passeio fatdico.
- Sam, porqu?
- Porque estava desesperada por te encontrar... - Em seguida, murmurou: - Porque te amava tanto... Achava que no conseguia viver sem ti.
- Nem eu - proferiu Tate, com a mgoa de trs anos de dias e noites de solido. - Trabalhei arduamente dia e noite, e s conseguia pensar em ti, Sam. Todas as noites, 
ao deitar-me, s pensava em ti.
- Tambm eu.
- Quanto tempo estiveste no hospital?
- Cerca de dez meses. - Sam encolheu os ombros. - O engraado  que j no ligo. Aconteceu. Consigo viver com a deficincia. S no posso obrigar outra pessoa a 
viver com ela.
- H algum? - Tate hesitou e Sam sorriu e abanou a cabea.
-No, no h, e no haver.
- Sim. - Tate trouxe o appaloosa para o lado dela. - Haver. - Ento, sem qualquer aviso, beijou-a, puxando-a para ele e passando-lhe os dedos pelos cabelos louros. 
- Palomino... oh, minha Palomino... - Quando ouviu as palavras que h muito ansiava ouvir, Sam sorriu. - Nunca mais te deixarei, Sam. Nunca.- Olhou-a fixamente, 
enquanto Sam comeava a retribuir-lhe com o mesmo ardor.
- Amo-te. Sempre te amei. - O tom de voz era solene e os olhos trespassavam-no. Tate Jordan voltara finalmente. E quando ele a beijou mais uma vez, Sam murmurou: 
- Bem-vindo a casa.
Tate pegou-lhe na mo e, conduzindo os cavalos o mais juntos que podia, dirigiram-se para casa.
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Josh aguardava-a no terreiro principal; quando viu que se dirigiam na sua direco, virou-se e entrou na cavalaria, fingindo no os ter visto. Ao chegarem  porta 
da cavalaria, Sam puxou as rdeas do belo puro-sangue e olhou para Tate. Lentamente, com ar solene, Tate desmontou e ficou a olhar para ela. Sam hesitou por momentos, 
Tate sorriu e disse-lhe as palavras familiares.
- Amo-te, Palomino. - Ento, numa voz que s ela conseguia ouvir: - Quero que te lembres disso todos os dias, todas as horas, todas as manhs, todas as noites, at 
ao fim da vida. De agora em diante, vou ficar aqui contigo, Sam.
Os olhos dela nunca se desviaram dos dele; Sam comeou, ento, a desapertar as correias que lhe prendiam as pernas  sela. Ficou, por instantes, a observ-lo, pensando 
se po deria confiar nele depois daqueles interminveis trs anos. Estaria ele realmente de volta? Ou seria tudo uma iluso, um sonho? Fugiria de novo? Tate conseguia 
sentir o terror que a invadia e estendeu-lhe os braos.
- Confia em mim, ,querida... - Ento, depois de um longo instante, pediu: - Por favor. - Os braos de Tate nunca vacilaram, enquanto Sam continuava montada na sela, 
imvel e altiva. No se vislumbrava nenhum ar destroado, de invalidez ou de desnimo. No era meia mulher. Era mulher e meia. Mas Tate Jordan era mais do que um 
homem. - Sam?
Ao olharem um para o outro, tiveram a impresso de que os anos entre eles se haviam dissipado; quando Sam ps cuidadosamente as mos nos ombros de Tate, tornou-se 
evidente que o lao entre eles recomeava a formar-se.
- Ajuda-me a 'descer. - As palavras foram calmas e simples. Tate retirou-a cuidadosamente da sela para os seus braos, e Josh, ao ver o que estava a acontecer; apareceu 
prontamente com a cadeira de rodas de Sam. Tate hesitou por instantes e sentou-a, receando que quando os seus olhos encontrassem os dela de novo s vissem tristeza 
e dor. Porm, ao observ-la, Sam estava a sorrir e conduzia a cadeira com destreza. - Embora, Tate. - Proferiu as palavras com toda a naturalidade e, de sbito, 
Tate percebeu que as coisas haviam mudado. No se tratava de uma mulher destroada e frgil
que ele precisava de salvar; era uma mulher de fora e beleza que ele tinha de amar. Havia um enorme sorriso nos olhos verdes quando ele se apressou a acompanh-la.
-Para onde vamos, Sam? - Tate acompanhava-a, a passos largos, e Sam levantou os olhos para ele com um ar misto de paz e de descontrolada alegria.
Sam sorriu e murmurou as palavras, ao mesmo tempo que o olhava uma vez mais.
-Para casa.
Quando chegaram, Sam precipitou-se pela rampa acima, com Tate poucos passos atrs de si. Empurrou a porta e olhou demoradamente para Tate, que, de olhar melanclico, 
se lembrava doutros tempos, doutra vida. Sentiu vontade de pegar nela ao colo e lev-la para l do limiar da porta, mas receou que isso lhe desagradasse. Assim, 
lanando um ltimo olhar a Sam, entrou, enquanto ela o seguia e fechava a porta.
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Carla Maria Ferreira dos Mrtires

2002-05-07
